XVIII – Os Mil Anos

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OS MIL ANOS
Por Frank Brito

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“Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e o amarrou por mil anos. Lançou-o no abismo, o qual fechou e selou sobre ele, para que não enganasse mais as nações até que os mil anos se completassem. Depois disto é necessário que ele seja solto por um pouco de tempo”. (Apocalipse 20.2-3)

O número mil não deve ser entendido literalmente. Mil significa simplesmente “muitos” (cf. Lv 26.8; Dt 7.9; Sl 50.10; Sl 90.4). O Apóstolo Pedro falou de mil anos como um símbolo do longo período de tempo entre a primeira e a segunda vinda de Cristo:

“Amados, já é esta a segunda carta que vos escrevo; em ambas as quais desperto com admoestações o vosso ânimo sincero; para que vos lembreis das palavras que dantes foram ditas pelos santos profetas, e do mandamento do Senhor e Salvador, dado mediante os vossos apóstolos; sabendo primeiro isto, que nos últimos dias[1] virão escarnecedores com zombaria andando segundo as suas próprias concupiscências, e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação… Mas vós, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardiaVirá, pois, como ladrão o dia do Senhor, no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se dissolverão, e a terra, e as obras que nela há, serão descobertas. Ora, uma vez que todas estas coisas hão de ser assim dissolvidas, que pessoas não deveis ser em santidade e piedade, aguardando, e desejando ardentemente a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se dissolverão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça”. (II Pedro 3.1-4,9,10-13)

Pedro explicou que no decorrer dos últimos dias haveria escarnecedores zombando da demora da segunda vinda. Pedro reconheceu que, de fato, a segunda vinda seria demorada, mas somente sob uma perspectiva de tempo humana. Para Deus, que é eterno e está acima do tempo, não há qualquer demora, pois “mil anos aos teus olhos são como o dia de ontem que passou, e como uma vigília da noite”. (Sl 90.4) Sob a perspectiva de tempo humana, a segunda vinda de Cristo pareceria demorada e os “mil anos” representa esta aparente demora. Os mil anos da visão do Apocalipse 20 significa a mesma coisa.

Apocalipse 20 fala de Satanás sendo amarrado. Isso também está ligado ao que aconteceu mediante a primeira vinda de Jesus Cristo:

“Mas, se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, logo é chegado a vós o Reino de Deus. Ou, como pode alguém entrar na casa do valente, e roubar-lhe os bens, se primeiro não amarrar o valente? e então lhe saquear a casa”. (Mateus 12.28-29)

Aqui Jesus falou da chegada do Reino de Deus. Este termo tem diversas aplicações e pode indicar o domínio providencial do Deus Triúno, o domínio universal do Filho de Deus encarnado sobre todas as coisas, o domínio salvífico especial de Cristo sobre Seu povo – a vida, sabedoria, santidade, poder e autoridade que Cristo concede ao Seu povo – e a influencia permeadora da Palavra e do Espírito no mundo. O Novo Testamento costuma usar o termo para se referir a esta realidade especial que foi inaugurada com a vinda de Cristo e, portanto, já é uma realidade presente. Cristo explicou que o sinal visível da chegada do Reino de Deus é que ele expulsava demônios. Além disso, ele explicou que o Reino de Deus não poderia chegar “se primeiro não amarrar o valente”.(v. 29) O verbo traduzido aqui como “amarrar” é δεω – deo. É exatamente o mesmo verbo usado no Apocalipse: “Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e amarrou-o (δεω) por mil anos”. (Ap 20.2) É o mesmo acontecimento. Satanás foi amarrado para que o Reino de Deus fosse instituído.

Os pre-milenistas questionam a ideia de que Apocalipse 20.2 já tenha se cumprindo dizendo que a existência de maldade no mundo prova que Satanás ainda não foi amarrado. Mas Jesus explicitamente disse em Mateus 12.28-29 que o Diabo seria amarrado para que o Reino de Deus fosse instituído. Qualquer interpretação que negue a possibilidade disso já ter acontecido, nega as claras palavras de Jesus. Além disso, Jesus Cristo explicou que a instituição do Reino de Deus não extirparia todo mal imediatamente, mas se expandiria progressivamente no decorrer da história:

“Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo; O qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos. Outra parábola lhes disse: O reino dos céus é semelhante ao fermento, que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado”. (Mateus 13.31-33)

Em Mateus 12.28-29, Jesus explicou que o Reino de Deus já estava sendo instituído e que para isso acontecer era necessário amarrar Satanás. No capítulo seguinte, ele explicou que o Reino de Deus começa pequeno, sem aparência exterior (cf. Lc 17.20), mas que com o passar do tempo se expande até que toma conta de tudo. Portanto, o fato de ainda existir tanta maldade e pecado no mundo não prova que o Reino de Deus ainda não tenha instituído nem que o Diabo já não tenha sido amarrado. Prova simplesmente que o Reino de Deus ainda não chegou a sua consumação final, mas ainda está em processo de expansão. João Calvino comentou:

“O Senhor abre o seu Reino com um começo fraco e desprezível para o propósito expresso, que seu poder possa ser mais plenamente ilustrado por seu progresso inesperado”.[2]

É importante perceber também que, apesar de Jesus falar que o Diabo estava sendo amarrado já na instituição do Reino de Deus, Ele não negou que o Diabo continuaria operando. Para entender como as duas coisas podem ser simultaneamente verdadeiras, precisamos entender em que sentido o Diabo é amarrado.

Apocalipse 20 diz que Satanás seria amarrado “para que não mais engane as nações”. (Ap 20.3) Este é o “mistério de Deus” (cf. Ap 10.7), o tema central do livro inteiro: a transferência do reino de Deus a outro povo (cf. Mt 21.41,43), os gentios. A transferência foi consumada em 70 AD com a queda de Jerusalém e a destruição do templo. Mas como o Apóstolo Paulo explicou, a conversão das nações se cumpriria progressivamenteno decorrer da história: “Pela sua [Israel] queda veio a salvação aos gentios… sua queda é a riqueza do mundo… a sua rejeição é a reconciliação do mundo… o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado”. (Rm 11.11-12,15,25) E também: “Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés”. (I Co 15.25) No Evangelho de João encontramos Jesus ensinando o mesmo:

“Ora, havia alguns gregos, entre os que tinham subido a adorar no dia da festa. Estes, pois, dirigiram-se a Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus. Filipe foi dizê-lo a André, e então André e Filipe o disseram a Jesus. E Jesus lhes respondeu, dizendo: E chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado. Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora. Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei. Ora, a multidão que ali estava, e que a ouvira, dizia que havia sido um trovão. Outros diziam: Um anjo lhe falou. Respondeu Jesus, e disse: Não veio esta voz por amor de mim, mas por amor de vós. Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo. E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. E dizia isto, significando de que morte havia de morrer”. (João 12.20-33)

Este capítulo narra o fim do ministério público de Jesus. É muito significativo notar que o texto nos diz que gregos haviam subido a Jerusalém para adorar a Deus na Páscoa e queriam falar com Jesus. Inicialmente, a reação de Jesus ao saber disso pode parecer um pouco estranha. Os apóstolos Filipe e André avisaram que os gregos queriam falar com Jesus, mas Ele respondeu falando de Sua morte. Isso pode levar alguns a crer que Jesus simplesmente ignorou aqueles homens. Mas quando analisamos Suas palavras mais profundamente, percebemos que ele não ignorou de forma alguma. Ele explicou que o “juízo deste mundo” (v.30) aconteceria quando Ele fosse “levantado da terra” (v. 31), “E dizia isto, significando de que morte havia de morrer”. (v. 33) Ele explicou o mesmo para Nicodemos: “E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado”. (Jo 3.14) O “juízo deste mundo” se refere ao fim do domínio de Satanás sobre as nações (cf. Rm 11) pela instituição do Reino de Deus: “Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo”. (Jo 12.31) A instituição do Reino de Deus por meio da morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo significou o fim do domínio de Satanás sobre os gentios e é neste sentido que ele seria amarrado.“E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim”. (João 12.32) Jesus não ignorou os gregos que queriam falar com Ele, mas explicou que aqueles gregos querendo vê-lo era somente o inicio de algo muito maior: “a reconciliação do mundo” (Rm 11.15).  Ele respondeu falando de sua morte porque porque seria meio dela que começaria a vocação dos gentios. O capítulo mostra o contraste entre a vocação dos gentios e a rejeição de Israel. Isaías escreveu:

“Eis que o meu Servo procederá com prudência; será levantado, e elevado, e mui sublime. Como pasmaram muitos à vista dele, pois o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua figura mais do que a dos outros filhos dos homens. Assim borrifará muitas nações, e os reis fecharão as suas bocas por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo que eles não ouviram entenderão”. (Isaías 52.13-15)

A vocação das nações por meio da morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo não é um assunto isolado no livro do profeta Isaías. É um dos livros do Antigo Testamento que mais enfatizam que quando Jesus Cristo viesse, Ele confirmaria e estabeleceria a Lei de Deus como padrão de justiça para todas as nações:

“O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ah, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos que praticam a corrupção! Deixaram o Senhor, desprezaram o Santo de Israel, voltaram para trás. Por que seríeis ainda castigados, que persistis na rebeldia? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã; há só feridas, contusões e chagas vivas; não foram espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo… Ouvi a palavra do Senhor, governadores de Sodoma; dai ouvidos à Lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra… as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos; tirai de diante dos meus olhos a maldade dos vossos atos; cessai de fazer o mal; aprendei a fazer o bem; buscai a justiça, acabai com a opressão, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados são como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que são vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã“. (Isaías 1.3-18)

Isaías chegou diante de Israel com uma reclamação da parte de Deus. A rebelião do povo era tão grande que chegaram a ser comparados com Sodoma e Gomorra. Além disso, Isaías enfatizou que a essência da rebelião era a transgressão da Lei de Deus: “Ouvi a palavra do Senhor, governadores de Sodoma; dai ouvidos à Lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra”. (v. 10) E esta não era uma ordem isolada. Por todo o livro, Isaías enfatizou o mesmo:

“Pelo que, como a língua de fogo consome o restolho, e a palha se desfaz na chama assim a raiz deles será como podridão, e a sua flor se esvaecerá como pó; porque rejeitaram a Lei do Senhor dos exércitos, e desprezaram a Palavra do santo de Israel. Por isso se acendeu a ira do Senhor contra o seu povo, e o Senhor estendeu a sua mão contra ele, e o feriu; e as montanhas tremeram, e os seus cadáveres eram como lixo no meio das ruas; com tudo isto não tornou atrás a sua ira, mas ainda está estendida a sua mão”. (Isaías 5.24-25)

À Lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles“. (Isaías 8.20)

“Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a Lei do SENHOR“. (Isaías 30.9)

“Quem entregou a Jacó por despojo, e a Israel aos roubadores? Porventura não foi o SENHOR, aquele contra quem pecamos, e nos caminhos do qual não queriam andar, não dando ouvidos à sua Lei?” (Isaías 42.24)

Esse é o contexto para entender as palavras de Isaías sobre o sacrifício expiatório de Jesus Cristo na cruz:

“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”. (Isaías 53.4-5)

Isso remete diretamente ao que havia sido dito na abertura do livro:

“Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres não espremidas, nem ligadas, nem amolecidas com óleo”. (Isaías 1.5-6)

Isaías apresentou a crucificação de Jesus Cristo como o meio pelo qual os transgressores da Lei seriam reconciliados com Deus. E se a rebelião do povo consistia no fato de que eram transgressores da Lei, segue-se que a reconciliação não pode ser entendida de outra maneira se não a transformação espiritual do povo para que passassem a obedecer a Lei. Além disso, Isaías profetizou que a reconciliação não incluiria Israel somente, mas também os gentios:

“Palavra que viu Isaías, filho de Amós, a respeito de Judá e de Jerusalém. E acontecerá nos últimos dias que se firmará o monte da casa do SENHOR no cume dos montes, e se elevará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações. E irão muitos povos, e dirão: Vinde, subamos ao monte do SENHOR, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a Lei, e de Jerusalém a palavra do SENHOR. E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em enxadões e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerrear”. (Isaías 2.1-4)

Isaías profetizou que com a vinda de Jesus Cristo nos últimos dias, Ele confirmaria e estabeleceria a Lei de Deus como padrão de justiça para todas as nações. Atos dos Apóstolos narra o princípio do cumprimento:

“E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotámia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, Cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus”. (Atos 2.1-11)

É importante lembrar que a efusão do Espírito aconteceu especificamente no Dia de Pentecostes. Sob o Antigo Pacto, o Dia de Pentecostes comemorava a entrega dos Dez mandamentos da Lei de Deus no Monte Sinai. Isso tem ligação direta com aquilo que o Espírito Santo veio fazer:

“Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis“. (Ezequiel 36.25-27)

“Porquanto o que era impossível à Lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; Para que a justiça da Lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à Lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele”. (Romanos 8.3-9)

A efusão do Espírito Santo aconteceu no Dia de Pentecostes porque neste dia comemorava-se a entrega dos Dez mandamentos da Lei de Deus e o que o Espírito Santo veio fazer foi precisamente nos capacitar a cumprir esta mesma Lei. Isso aconteceu “nos últimos dias” (At 2.17) conforme também profetizou Isaías que “de Sião sairá a Lei, e de Jerusalém a Palavra do Senhor”. (Is 2.3) A saída da Lei de Sião significa simplesmente que a Lei deixaria de estar restrita a Israel somente, mas serviria como padrão de justiça para todas as nações. Isaías enfatiza o mesmo no resto do livro:

“Eis aqui o meu Servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu Espírito sobre ele; ele trará justiça as nações. Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na praça. A cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega; com verdade trará justiça. Não faltará, nem será quebrantado, até que ponha na terra a justiça; e as ilhas aguardarão a sua Lei“. (Isaías 42.1-4)

“Sim, diz ele: Pouco é que sejas o meu Servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te porei para luz das nações, para seres a minha salvação até a extremidade da terra. Assim diz o Senhor, o Redentor de Israel, e o seu Santo, ao que é desprezado dos homens, ao que é aborrecido das nações, ao servo dos tiranos: Os reis o verão e se levantarão, como também os príncipes, e eles te adorarão, por amor do Senhor, que é fiel, e do Santo de Israel, que te escolheu. Assim diz o Senhor: No tempo aceitável te ouvi, e no dia da salvação te ajudei; e te guardarei, e te darei por pacto do povo, para restaurares a terra, e lhe dares em herança as herdades assoladas”. (Isaías 49.6-8)

“Atendei-me, povo meu e nação minha, inclinai os ouvidos para mim; porque de mim sairá a Lei, e o meu juízo farei repousar para a luz dos povos. Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação, e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão, e no meu braço esperarão. Levantai os vossos olhos para os céus, e olhai para a terra em baixo, porque os céus desaparecerão como a fumaça, e a terra se envelhecerá como roupa, e os seus moradores morrerão semelhantemente; porém a minha salvação durará para sempre, e a minha justiça não será abolida. Ouvi-me, vós que conheceis a justiça, povo em cujo coração está a minha Lei; não temais o opróbrio dos homens, nem vos turbeis pelas suas injúrias. Porque a traça os roerá como a roupa, e o bicho os comerá como a lã; mas a minha justiça durará para sempre, e a minha salvação de geração em geração”. (Isaías 51.4-8)

“Eis que o meu Servo procederá com prudência; será levantado, e elevado, e mui sublime. Como pasmaram muitos à vista dele, pois o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua figura mais do que a dos outros filhos dos homens. Assim borrifará muitas nações, e os reis fecharão as suas bocas por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo que eles não ouviram entenderão”. (Isaías 52.13-15)

Isaías diz que isso aconteceria mediante a morte de Jesus Cristo, quando ele fosse “levantado” (cf. Is 52.13; Jo 3.14; 12.32). Mas em nenhum momento ele diz que isso estaria consumado imediatamente. O que Isaías diz é que “Ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em enxadões e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerrear”. (Is 2.4) É necessário que Jesus julgue e repreenda as nações. A repreensão dos povos de Isaías 2 deve ser lido a luz das bênçãos e maldições pactuais da Lei. Quando Deus libertou Israel da escravidão do Egito, Ele revelou, por Sua Lei, que a rebelião dos povos trás os juízos históricos de Deus (cf. Lv 26; Dt 28-29). Se as nações forem obedientes, recebem as bênçãos de Deus e são bem sucedidos no domínio sobre a terra. Se forem desobedientes, recebem maldições. O juízo de Deus não é simplesmente individual sobre aqueles que pecam. É também coletivo e intergeracional. Gerações que dão continuidade ao pecado de seus pais aumentam progressivamente a ira de Deus até tenham enchido a medida da iniquidade para que o povo seja julgado. Sobre isso, John Knox escreveu:

“Quando eu me recordo das terríveis ameaças de Deus, pronunciadas contra reinos e nações às quais a luz da Palavra de Deus foi oferecida, mas foi desdenhosamente rejeitada (Lv 26.14-39; Mt 10.14-15); enquanto meu coração lamenta com sinceridade por sua atual situação, queridos amados em Nosso Senhor Jesus, todas as forças do corpo e da alma se estremecem pelas pragas que virão… Isto eu afirmo, que fugir da idolatria é tão lucrativo, e tão necessário para o cristão que, a menos que ele faça isso, todo lucro terreno se converterá em perda e perpétua condenação. Lucro pode ser referente aos corpos ou as almas de nós mesmos ou de nossa posteridade. Comodidades corporais consistem nas principais coisas que os homens buscam para o corpo: riquezas, honra, vida longa, saúde e sossego na terra. O único conforto e alegria da alma é Deus por sua Palavra expelindo a ignorância, o pecado e a morte, e no lugar destes plantando o verdadeiro conhecimento d’Ele mesmo e com isso a justiça e vida em Cristo Jesus, Seu Filho. Se o lucro do corpo ou na alma nos move, então é necessário que evitemos a idolatria. Pois é evidente que a alma não tem vida nem conforto se não por Deus somente, com quem os idolatras não tem qualquer comunhão ou participação além do que tem os demônios (I Co 6.9). E ainda que os abomináveis idólatras triunfem por um momento, se aproxima a hora em que a vingança de Deus não ferirá somente a alma, mas até mesmo suas carcaças vis sofrerão pragas, como Ele já ameaçou fazer antes. Suas cidades serão queimadas, suas terras serão devastadas, seus inimigos habitarão em suas fortalezas, suas esposas e filhas serão humilhadas, seus filhos caíram ao fio da espada. Não encontrarão misericórdia porque recusaram o Deus da misericórdia, quando amorosa e pacientemente ele os chamou (Lv 26.14-19; Jr 6.11-12; Lv 26.1-13)… Mas vocês vão querer saber qual a base de minha certeza; Deus queira que ao ouvi-la vocês compreenderão e crerão firmemente no mesmo. Minha certeza não se baseia nas maravilhas de Merlin, nem nas sentenças obscuras de profecias profanas, mas (1.) a verdade clara da Palavra de Deus, (2.) a justiça invencível do Deus eterno, e (3.) o curso ordinário de seus castigos e pragas desde o princípio, são a base de minha certeza. A Palavra de Deus ameaça a destruição de todos os desobedientes; Sua justiça imutável requer o mesmo. Os castigos e pragas ordinários dão exemplos de como isto acontece (Dt. 28.15-68; Jr. 5.15-17; Am. 3.2, 11-15; Dt. 29.10-29). Sendo assim, qual homem pode deixar de profetizar? A Palavra de Deus fala claramente que se um homem ouvir as maldições da Lei de Deus, e ainda assim, em seu coração, prometer a si mesmo felicidade e boa sorte, pensando que terá paz, ainda que ele ande na imaginação de sua própria vontade e coração; a tal homem Deus não será misericordioso, mas Sua ira se ascenderá contra ele, e destruirá seu nome de debaixo do céu”.[3]

A repreensão dos povos para que o mundo fosse convertido começou no princípio dos últimos dias, quando “Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás… para que não mais engane as nações” (Ap 20:2). Desde então, Cristo tem repreendido as nações e continuará a fazê-lo “até que a plenitude dos gentios haja entrado”. (Rm 11.25). Neste tempo a transformação espiritual e obediência a Lei de Deus será tão grande em todo o mundo que “uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerrear”. (Is 2.4) O Apocalipse profetizou o juízo de Deus sobre dois povos: Israel e a Roma Imperial.  “Tudo isto lhes acontecia como exemplo, e foi escrito para aviso nosso…”. (I Co 10.11) É um retrato de como Deus lida com todas as nações.

O Apóstolo Paulo explicou que a conversão nacional de Israel acontecerá após a conversão do mundo inteiro (cf. Rm 11.11-21,15,25) e que isso acontecerá antes da ressurreição final (cf. Rm 11.15). Isaías profetizou sobre como seria esse tempo:

“Mas alegrai-vos e regozijai-vos perpetuamente no que eu crio; porque crio para Jerusalém motivo de exultação e para o seu povo motivo de gozo. E exultarei em Jerusalém, e folgarei no meu povo; e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor. Não haverá mais nela criança de poucos dias, nem velho que não tenha cumprido os seus dias; porque a criança morrerá de cem anos; mas o pecador de cem anos será amaldiçoado. E eles edificarão casas, e as habitarão; e plantarão vinhas, e comerão o fruto delas. Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore, e os meus escolhidos gozarão por longo tempo das obras das suas mãos: Não trabalharão debalde, nem terão filhos para calamidade; porque serão a descendência dos benditos do Senhor, e os seus descendentes estarão com eles. E acontecerá que, antes de clamarem eles, eu responderei; e estando eles ainda falando, eu os ouvirei. O lobo e o cordeiro juntos se apascentarão, o leão comerá palha como o boi; e pó será a comida da serpente”. (Isaías 65.18-25)

O pre-milenismo defende que esta profecia se refere ao mundo após a segunda vinda. Mas isso não pode ser verdade porque Isaías descreve um mundo em que ainda há morte (v. 20) e o Apóstolo Paulo explicou que após a segunda vinda não haverá mais morte nem pecador (cf. I Co 15.24-25,51-55). Mas se a visão é de um mundo em que há morte, então necessariamente tem que se cumprir antes da segunda vinda. Isaías previu um tempo em que ainda haveria morte, mas haveria também uma longa expectativa de vida. Se considerarmos a repreensão dos povos de Isaías 2 a luz das bênçãos e maldições pactuais da Lei, fica claro o que estas palavras significam. A longevidade é uma das bênçãos do pacto por obediência a Lei de Deus:

“Pelo que hoje deves saber e considerar no teu coração que só o Senhor é Deus, em cima no céu e embaixo na terra; não há nenhum outro. E guardarás os seus estatutos e os seus mandamentos, que eu te ordeno hoje, para que te vá bem a ti, e a teus filhos depois de ti, e para que prolongues os dias na terra…” (Deuteronômio 4.39-40)

Se considerarmos que Isaías 65 retrata o estado do mundo logo antes do fim, fica claro que a longa expectativa de vida será fruto da obediência das nações a Deus. “Porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar. Naquele dia a raiz de Jessé será posta por estandarte dos povos, à qual recorrerão as nações; gloriosas lhe serão as suas moradas”. (Is 11.9-10) O Apóstolo Paulo explicou que este capítulo está se cumprindo no tempo presente, à medida que as nações estão sendo chamadas por Deus: “Digo pois que Cristo foi feito ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos pais; e para que os gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia, como está escrito… Haverá a raiz de Jessé, aquele que se levanta para reger os gentios; nele os gentios esperarão”. (Rm 15.8-13)

Os amilenistas costumam argumentar que a profecia de Isaías 65 parece utópica demais para que seja entendida literalmente. Primeiro, a visão fala de uma expectativa de vida que não é somente longa, mas ultrapassa todos os limites do otimismo, além de todas nossas imaginações. Pessoas morrendo aos cem anos são descrita como crianças (v. 20) e morrer com essa idade é tratado como uma maldição contra os ímpios. Já o tempo de vida dos justos será “como os dias da árvore” (v. 22). Além disso, a visão fala de animais selvagens e carnívoros completamente mansos e se alimentando como se fossem herbívoros. Não é utopia demais imaginar que o mundo ainda será assim?

Dizer que a perspectiva de um mundo assim não pode ser outra coisa se não utopia é ignorar os primeiros capítulos do livro de Gênesis. Na genealogia de Gênesis 5, entre os patriarcas que viveram antes do dilúvio, havia uma esperança de vida média de cerca de 900 anos. Não há nada fantasioso ou utópico sobre isso. O que é fantasioso e mitológico é a noção moderna de que a raça humana é um mero fruto de forças cegas da natureza, que seus ancestrais eram animais e que a morte é natural. A morte não é natural porque não fez parte da criação original de Deus. Foi o castigo de Deus por causa da rebelião de nossos primeiros pais. Antes do dilúvio tal castigo não era aplicado se não depois de muitos séculos e os homens viviam por quase um milênio. E o estado em que nos encontramos agora é simplesmente a maldição de Deus pairando sobre toda criação. Da mesma forma, não há nada de utópico ou fantasioso sobre um mundo em que animais selvagens e carnívoros serão mansos e se alimentarão como herbívoros. No princípio do mundo os animais não se alimentavam de carne e nem eram hostis, mas eram mansos e herbívoros: “E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todo ser vivente que se arrasta sobre a terra, tenho dado todas as ervas verdes como mantimento”. (Gn 1.30-31) Jesus Cristo veio ao mundo para restaurar tudo o que foi perdido em Adão. É isso o que Ele está fazendo agora ao conduzir todas as nações a obediência a Lei de Deus. À medida que a história avança, os povos serão conduzidos à maior obediência. Assim, a maldição adâmica é revertida e o mundo experimentará cada vez mais as bênçãos do pacto adquiridas por Cristo na cruz. Como está escrito:

“Porque, se pela ofensa de um só, a morte veio a reinar por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Portanto, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação e vida. Porque, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um muitos serão constituídos justos”. (Romanos 5.17-19)


[1] Diferente do que muitos pensam, quando o Novo Testamento menciona os “últimos tempos”, “últimos dias” e termos parecidos, elas estão se referindo a toda a história do mundo a partir da primeira vinda de Jesus Cristo e não somente aos últimos momentos da história antes de sua Segunda Vinda.

[2] João Calvino, Harmony of the Gospels, Mateus 13.31.

[3] John Knox, Selected Writings.

4 opiniões sobre “XVIII – Os Mil Anos”

  1. Frank, vc vai terminar essa série?

    • Frank Brito. disse:

      Sim, ando sem tempo porque andei trocando de trabalho e estou na correria, mas vou tentar postar o resto neste fim de semana ou pelo menos mais uns 2…

      abraços!

  2. Hewerton Leão Simões disse:

    Muito bom, Frank!!

    Só uma dúvida:

    Você não acha que quando Isaías 65:25 diz que os animais carnívoros e herbívoros pastarão juntos isso pode estar se referindo simplesmente que haverá uma ordem de paz em todas as esferas do mundo, e não que o leão pastará junto com o boi literalmente?

    Acredito que Isaías tenha usado de uma linguagem hiperbólica para ressaltar o quanto o mundo será perfeito na consumação final do Reino (Era Dourada).

    Você acha que esse tipo de pensamento e interpretação é contrário ao que o Texto de Isaías 65:17-25 diz? E é contrário ao que o pós-milenismo advoga? Há algum pós renomado que defenda essa interpretação não literal deste texto?

    Desde já grato.

  3. Vinicius Franco disse:

    Frank, deixe-me perguntar: obviamente hj calculamos a idade das pessoas baseado no nosso calendário (gregoriano) que tem 365 dias. Não sabemos se a era adamica sequer havia um calendário para calcular os seus dias, e se houvesse um, talvez seus dias fossem mto mais reduzidos. Como vc acha que podemos saber a longevidade dos primeiros seres humanos?

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