XVII – A Guerra de Cristo Contra a Besta

fallA GUERRA DE CRISTO CONTRA A BESTA
Por Frank Brito

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“E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça… E vi a besta, e os reis da terra, e os seus exércitos reunidos, para fazerem guerra àquele que estava assentado sobre o cavalo, e ao seu exército”. (Apocalipse 19.11,19)

Muitos erradamente interpretam que esta visão seja sobre a segunda vinda de Cristo no fim do mundo. Mas o texto não fala d’Ele descendo do céu, mas como estando no céu. Ele está agora batalhando contra Seus inimigos. Não começará a fazer isso somente na segunda vinda. O propósito dessa visão era mostrar que, apesar de toda perseguição que a Igreja sofria, Jesus Cristo é o “Rei dos reis, e Senhor dos senhores” (v. 16), o Rei-guerreiro celestial que batalharia contra as forças do Império Romano – a besta e o falso profeta. “Estes combaterão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; vencerão os que estão com ele, chamados, e eleitos, e fiéis”. (Ap 17.14)

Diferente de Israel que caiu naquela mesma geração, a vitória do Cristianismo sobre o Império Roma foi um processo mais complexo e demorado, ainda que não menos gloriosa. A perseguição imperial durou cerca de três séculos. Apesar disso, Roma caiu e a Igreja prevaleceu. Jonathan Edwards descreveu, com muita precisão, a vitória do Cristianismo sobre a Roma pagã:

“Jerusalém foi destruída… antes que se passasse aquela geração que era contemporânea a Cristo. A destruição do paganismo imperial aconteceu cerca de duzentos e sessenta anos depois disto. Ao descrever o sucesso do Evangelho neste período, eu irei, I. Descrever a oposição do Império Romano; II. Como a obra do Evangelho continuou apesar de toda oposição; III. A circunstância peculiar de tribulação e angústia em que a Igreja se encontrou logo antes da libertação por meio de Constantino; e IV. A grande revolução na época de Constantino.

Eu mostrarei um resumo da oposição feita contra o Evangelho e o Reino de Cristo pelo Império Romano. Esta oposição aconteceu principalmente depois da destruição de Jerusalém. Ainda que tenha iniciado antes, a perseguição antes da destruição de Jerusalém foi principalmente dos judeus. Quando Jerusalém foi destruída, os judeus se tornaram incapazes de perturbar a Igreja. Sendo assim, o Diabo voltou sua mão para outro lugar e usou outros instrumentos. A oposição no Império Romano contra o Reino de Cristo era principalmente de dois tipos.

Utilizaram toda erudição, filosofia e sagacidade para se opor. Cristo veio ao mundo em uma era em que a erudição e a filosofia estavam no auge no Império Romano. O Evangelho, que anuncia um Salvador crucificado, não era de forma alguma agradável as noções dos filósofos. O sistema cristão de confiar no Redentor crucificado parecia tolo e ridículo para eles. Mas o apóstolo comentou que a doutrina de Cristo crucificado parecia tolice para os gregos (I Co 1.23) e, portanto, os sábios e filósofos se opunham com toda sagacidade que tinham. Temos uma amostra desta oposição na maneira com que trataram o apóstolo Paulo em Atenas, que era, e havia sido por muitas eras, o assento principal dos filósofos em todo mundo. Lemos em Atos 17.18 que os filósofos epicureus e estoicos foram ao seu encontro dizendo, ‘Que quer dizer este paroleiro? Parece que é pregador de deuses estranhos’. Eles estavam ansiosos para escarnecer e ridicularizar o Cristianismo e depois da queda de Jerusalém, diversos filósofos publicaram livros para combatê-lo. Os principais foram Celso e Porfírio que escreveram com virulência e desprezo, de maneira parecida com os deístas de nossa época. Apesar de serem grandes inimigos e cheios de desprezo pela religião cristã, eles nunca negaram os fatos registrados sobre Cristo e Seus apóstolos no Novo Testamento, particularmente os milagres que operavam, mas aceitavam que realmente aconteciam. Eles viveram muito próximos da época destes milagres para negá-los; foram operados de maneira tão pública e tão recentemente que nem os judeus ou pagãos pareciam negá-los, mas simplesmente atribuíam ao poder da magia.

A autoridade do Império Romano usou toda sua força, ao longo do tempo, para perseguir e se possível fosse extirpar o Cristianismo. Fizeram isso em dez perseguições gerais sucessivas. Podemos observar que Cristo veio ao mundo quando a força do domínio e autoridade pagã estava no auge sob a monarquia romana. Todas as forças desta monarquia foram empregadas por muito tempo para opor e perseguir a Igreja Cristã, e se possível destruí-la, em dez tentativas consecutivas, conhecidas como as dez perseguições pagãs.

A primeira destas, que foi a perseguição sob Nero, aconteceu um pouco antes da destruição de Jerusalém, na qual o apóstolo Pedro foi crucificado e o apóstolo Paulo foi decapitado, logo depois de escrever sua segunda epístola a Timóteo. Quando ele escreveu aquela epístola, ele era um prisioneiro em Roma sob Nero, e diz, “Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”. (II Tm 4.6-7) Muitos outros milhares de cristãos foram mortos nesta perseguição. As outras nove perseguições aconteceram todas depois da destruição de Jerusalém. Algumas foram extremamente terríveis e excederam em muito a primeira perseguição sob Nero. Um Imperador depois do outro era tomado pelo mais profundo ódio com o propósito de extirpar a Igreja Cristã da terra, de forma que não existisse nem mesmo o nome cristão mais no mundo. Milhares de milhares foram executados cruelmente, pois não poupavam idade nem sexo.

A segunda perseguição geral, sob Domiciano, foi à próxima  e aconteceu depois da destruição de Jerusalém […] Sob essa perseguição foi calculado que cerca de quarenta mil sofreu martírio; o que não significou nada comparada com algumas perseguições posteriores. Dez mil sofreram aquela forma de execução cruel, crucificação, na terceira perseguição sob o Imperador Adriano. Sob a quarta perseguição, que começou ao redor do Ano de Cristo 162, muitos foram martirizados na Inglaterra, a terra de nossos antepassados, onde alguns supõe que o Cristianismo foi implantado nos dias dos apóstolos. E nas últimas perseguições, os imperadores romanos já estavam irritados com o fracasse de seus antecessores, que não foram capazes de extirpar o Cristianismo, ou impedir seu progresso, e por isso se enfureceram de forma que foram os mais violentos em suas tentativas.

Assim, a grande parte dos primeiros trezentos anos depois de Cristo se passaram com perseguições cruéis e violentas contra a Igreja pelas forças romanas. Satanás estava muito indisposto a perder seu domínio sobre uma parte tão grande e ilustre do mundo como os países contidos no Império Romano, sobre os quais ele havia dominado tranquilamente por muitas eras. Portanto, quando viu que estava escapando de suas mãos com tanta velocidade, ele reagiu rapidamente. Todo o inferno se ergueu para lutar com todas as forças.

Eu mostrarei o sucesso do Evangelho no mundo antes do tempo de Constantino, apesar de toda oposição. Ainda que a erudição e força do Império Romano eram tão vastos e as duas coisas foram empregadas ao máximo contra o Cristianismo, foi tudo em vão. Não podiam extirpar nem impedir o progresso. Apesar de tudo, o Reino de Cristo prevaleceu maravilhosamente e o reino pagão de Satanás foi abandonado e consumido diante d’Ele, em conformidade com este texto, ‘a traça os roerá como a roupa, e o bicho os comerá como a lã’. (Is 51.8) E era muito visível que quanto mais perseguiam a Igreja, mais ela crescia. Por isso o ditado se tornou famoso: ‘O sangue dos mártires é a semente da Igreja’ […] Justino Mártir, um pai eminente na Igreja Cristã, disse que naqueles dias não havia qualquer parte da humanidade em que orações e ações de graças não eram feitas ao grande Criador do mundo, no nome de Cristo crucificado, entre gregos ou bárbaros, ou por qualquer outro nome que poderiam se chamar, mesmo as nações mais rudes e impolidas. Tertuliano, outro pai eminente da Igreja Cristã e que viveu no inicio da era seguinte, testificou que em seus dias a religião cristã havia se estendido aos limites mais longínquos do mundo conhecido, que ele reconhecia como sendo a Bretanha. Com isso ele demonstrou que o Reino de Cristo era mais extenso que qualquer uma das quatro grandes monarquias. Ele disse também que os cristãos… haviam enchido todos os lugares dos domínios romanos, suas cidades, ilhas, castelos, corporações, conselhos, exércitos, tribos, palácio, senado, e cortes de jurisdição; abandonavam somente seus templos pagãos.

Escritores pagãos e cristãos daqueles dias comentavam que, os famosos oráculos pagãos nos templos – onde príncipes e outros de eras passadas inquiriam e recebiam respostas com uma voz audível de seus deuses, que eram na realidade demônios – estavam ficando mudos e não davam mais respostas […] Porfírio, que era um oponente da religião cristã, escreveu estas palavras: ‘Não é surpresa que a cidade tem sido tem sido dominada por doenças por tantos anos; Esculápio e o resto dos deuses abandonou a relação com os homens. Pois desde que Jesus começou a ser adorado, nenhum homem tem mais recebido qualquer ajuda ou beneficio publico dos deuses’. Assim o Reino de Cristo prevalecia contra o reino de Satanás.

Agora eu mostrarei as circunstâncias peculiares de tribulação e angústia um pouco antes de Constantino o Grande assumir o trono. Sofrerão esta tribulação sob a décima perseguição pagã e que, por ser a última, foi a mais pesada e severa. Com o fim da nona perseguição, a Igreja experimentou um período de tranquilidade por quarenta anos. Mas abusou da liberdade e começou a desenvolver uma religião fria, sem vida e cheio de brigas. Deus foi ofendido e trouxe sobre eles esta prova terrível […] As autoridades atacaram com violência extrema para que o Cristianismo fosse extirpado, queimando Bíblias e destruindo todos os cristãos […] Às vezes incendiavam casas com multidões reunidas queimando tudo; em outros momentos esquartejavam tantas multidões que os perseguidores se cansavam com o trabalho de matar e atormentá-los.

Esta perseguição durou cerca de dez anos e da mesma forma que excedeu todas as perseguições anteriores em número de mártires, também excedeu na variedade e multidão de invenções para a tortura e crueldade.

Esta foi a época mais sombria para a Igreja Cristã, logo antes do raiar do dia. Foram conduzidos aos piores extremos até que Deus apareceu para a libertação gloriosa, assim como a escravidão dos israelitas no Egito foi extremamente severa e cruel logo antes da libertação por meio de Moisés. Os inimigos pensaram que haviam prevalecido e consumado a destruição da mesma forma que Faraó e seus exércitos acreditaram que estava tudo acabado para os filhos de Israel no Mar Vermelho.

Agora eu falarei da grande revolução por meio de Constantino […] O povo de Roma estava se cansando do governo daqueles tiranos que vinha dominando naqueles tempos e mandaram chamar Constantino, que estava na cidade de York na Inglaterra, para assumir o trono […] Ele assumiu o trono cerca de trezentos e vinte anos depois de Cristo. Há diversas coisas que precisam ser notadas que aconteceram quando Constantino assumiu o trono, ou imediatamente depois.

A Igreja Cristã foi inteiramente liberta da perseguição. O dia de seu livramento veio depois de uma noite tão escura de aflição: o chorou continuou por uma noite, mas agora o livramento e a alegria chegaram com a manhã. Deus se manifestou para julgar o seu povo quando viu que as forças estavam acabadas e não restava mais nada. Cristãos não tinham mais a perseguição para temer. Seus perseguidores foram todos derrubados e muitos de seus governantes eram cristãos também.

Deus agora se manifestou para executar juízos terríveis sobre seus inimigos. Os registros históricos fornecem relatos surpreendentes do quão terrível foi fim de imperadores, príncipes, generais e capitães pagãos, que se empenhavam na perseguição de cristãos; morrendo miseravelmente, um após o outro, sofrendo estranhos tormentos do corpo, horrores na consciência, com a mão de Deus visivelmente pesando contra eles.

O paganismo foi, em grande medida, abolido por todo o Império Romano. Imagens eram destruídas e templos pagãos derrubados. Imagens de ouro e prata eram derretidas e transformadas em dinheiro. Alguns dos principais ídolos eram levados para Constantinopla e lá eram arrastados pela cidade para que o povo pudesse zombar. Os sacerdotes pagãos eram expulsos e banidos.

A Igreja Cristã foi conduzida a um estado de grande paz e prosperidade. Todos os magistrados pagãos eram rebaixados e somente cristãos avançavam para lugares de autoridade por todo Império. Agora havia presidentes cristãos, governadores cristãos, juízes e oficiais cristãos, no lugar dos pagãos. Constantino trabalhou para dar honra aos bispos e ministros e para construir e embelezar igrejas; igrejas cristãs grandes e bonitas eram erguidas em todo o mundo no lugar dos antigos templos pagãos.

Satanás, o príncipe das trevas, o rei e deus dos pagãos estava sendo derrubado. O leão que ruge foi conquistado pelo Cordeiro de Deus, no mais forte domínio que ele já teve. Isso foi um cumprindo impressionante de Jeremias 10.11: “Os deuses que não fizeram os céus e a terra desaparecerão da terra e de debaixo deste céu”. (Jr 10,11) A maior parte do mundo estava sendo levada a abandonar seus deuses e sua velha religião, com os quais estavam acostumados. Eles estavam acostumados a adorar esses deuses por tanto tempo que não sabiam nem mesmo quando haviam começado. Está escrito que era algo desconhecido que uma nação mudasse de deuses (Jr 2.10,11), mas agora a maioria das nações do mundo conhecido estava sendo levados a abandonar seus deuses antigos. A multidão dos deuses que eles adoravam foram todos abandonados. Milhares deles foram renunciados para que passassem a adorar o único Deus e Cristo, o único Salvador. Isto foi o extraordinário cumprimento de Isaías 2.17,18: “E a arrogância do homem será humilhada, e a sua altivez se abaterá, e só o SENHOR será exaltado naquele dia. E todos os ídolos desaparecerão totalmente”. (Is 2.17-18) E desde então, aqueles deuses que eram tão famosos no mundo, como Júpiter, Saturno, Minerva e Juno são somente lembrados como coisas do passado. Há muitos séculos eles não têm templos, altares e adoradores.

O Evangelho prevalecendo da maneira que fez contra uma oposição tão forte demonstra claramente a mão de Deus. O governo romano que, com tanta violência, trabalhou para impedir o sucesso do Evangelho e para destruir a Igreja de Cristo, foi o Império mais potente que já havia aparecido no mundo; e não somente isso, mas também pareciam ter a Igreja nas mãos. Os cristãos que estavam sob seu domínio nunca pegaram nas armas para se defender, se armaram unicamente com a paciência e armas espirituais. Ainda assim, essa grande potencia não podia conquista-los, mas o Cristianismo é que prevaleceu. O Império Romano havia dominado muitos reinos poderosos; eles dominaram a monarquia Grega, apesar desta ter resistido ao máximo. Mas não foram capazes de conquistas a Igreja em suas mãos. Pelo contrário, a Igreja triunfou e prevaleceu.

Nenhuma outra causa suficiente pode ser atribuída por esse sucesso do Evangelho, exceto o poder do próprio Deus”. (Jonathan Edwards, A History of the Work of Redemption, “The Success of Redemption from the Destruction of Jerusalem, to the Time of Constantine”)

6 opiniões sobre “XVII – A Guerra de Cristo Contra a Besta”

  1. Gostaria de saber se Jonathan Edwards escreveu algo sobre a história da igreja deste ponto da história em diante…

    • Frank Brito. disse:

      Sim. Em “A History of Redemption”. Tem gratuitamente em inglê no ccel.org. Algo específico que gostaria de ler? Talvez eu possa traduzir.

      • Sim, gostaria de saber como ele interpretou a decadência espiritual da igreja no catolicismo romano com a advento do Papado. Visto que vários reformadores insistiam em que o homem da iniquidade era o Papa, gostaria de saber o que um reformado puritano pensava sobre isso.

  2. Frank Brito. disse:

    Vou ver o que posso traduzir sobre isso para você.

    • Vinicius Franco disse:

      Vc não faria mal se traduzisse esse tratado completo para a gente, né? Kkkkkkkkkkk

      Tanta coisa e ainda ficou incompleto, que pena!

  3. Vinicius Franco disse:

    Frank, as dez perseguições se referem aos “dez dias de tribulação” em Ap 2.10?

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