XVI – As Duas Testemunhas

courtAS DUAS TESTEMUNHAS
Por Frank Brito

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“E concederei às minhas duas testemunhas que, vestidas de saco, profetizem por mil duzentos e sessenta dias”. (Apocalipse 11.3)

Se as duas testemunhas foram mortas pela besta (Ap 11.7), não há dúvidas que já estavam ativas no primeiro século. Compreender a relação entre os mártires e a destruição de Jerusalém e do templo é a chave para compreender a visão das duas testemunhas. Israel é descrita no Apocalipse na figura de uma mulher adultera-prostituta que havia traído seu Deus-marido com a besta-Roma. Sendo assim, a nação se tornou passiva de pena capital por adultério (cf. Lv 20.10, Dt 22.22-24). No caso da execução da adultera Israel, as testemunhas eram a Igreja perseguida e mártir[1]. Eles eram testemunhas da iniquidade de Israel e por isso foram instrumentos para sua execução (Ap 6.9, 8.3-5).

O número dois aponta para o fato de que eram necessárias pelo menos duas testemunhas para que qualquer pena capital fosse aplicada: “Pela boca de duas ou de três testemunhas, será morto o que houver de morrer; pela boca duma só testemunha não morrerá”. (Dt 17.6) O significado primário do número dois é simplesmente dizer que a Igreja do primeiro século seria como testemunhas no tribunal celestial para a execução da Israel que era como uma mulher adultera. Todavia, devemos considerar também que o número dois aponta para o padrão estabelecido por Jesus para que o Evangelho fosse pregado a Israel:

“Depois disso designou o Senhor outros setenta, e os enviou adiante de si, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir. E dizia-lhes: Na verdade, a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Ide; eis que vos envio como cordeiros ao meio de lobos. Não leveis bolsa, nem alforje, nem alparcas; e a ninguém saudeis pelo caminho. Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz seja com esta casa. E se ali houver um filho da paz, repousará sobre ele a vossa paz; e se não, voltará para vós. Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que eles tiverem; pois digno é o trabalhador do seu salário. Não andeis de casa em casa. Também, em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei do que puserem diante de vós. Curai os enfermos que nela houver, e dizer-lhes: É chegado a vós o reino de Deus. Mas em qualquer cidade em que entrardes, e vos não receberem, saindo pelas ruas, dizei: Até o pó da vossa cidade, que se nos pegou aos pés, sacudimos contra vós. Contudo, sabei isto: que o Reino de Deus é chegado. Digo-vos que naquele dia haverá menos rigor para Sodoma, do que para aquela cidade”. (Lucas 10.1-12)

Aqui Jesus fala dos discípulos sendo enviados de dois em dois e recebendo poder até mesmo para fazer descer do céu o juízo de Deus sobre aqueles que não recebessem a pregação, o mesmo que vemos com as duas testemunhas (Ap 11.6). É importante notar também que Jesus relaciona tais cidades rebeldes com Sodoma da mesma maneira que acontece na visão das duas testemunhas (Ap 11.8). Nos Atos dos Apóstolos vemos este mesmo padrão sendo seguido pelos apóstolos. Pedro e João curaram o homem coxo de nascença  na porta do templo (At 3.1-8), testemunharam para os israelitas (At 3.12-26) e depois para os principais sacerdotes e anciãos (At 4.1-23). Depois os dois foram chamados de Jerusalém para orarem pela descida do Espírito Santo sobre os samaritanos (At 8.14-17). Posteriormente, lemos sobre como Paulo e Barnabé foram companheiros ministeriais, sendo reconhecidos como as colunas do apostolado dos gentios (Gl 2.9).

O Apocalipse diz também que as duas testemunhas “são as duas oliveiras e os dois candeeiros que estão diante do Senhor da terra”. (Ap 11.4) É importante perceber que ele diz são (no tempo presente) porque as “duas testemunhas” já estavam em plena atividade quando o Apocalipse foi escrito. A comparação lembra as palavras de Zacarias:

“Falei mais, e lhe perguntei: Que são estas duas oliveiras à direita e à esquerda do castiçal? Segunda vez falei-lhe, perguntando: Que são aqueles dois ramos de oliveira, que estão junto aos dois tubos de ouro, e que vertem de si azeite dourado? Ele me respondeu, dizendo: Não sabes o que é isso? E eu disse: Não, meu senhor. Então ele disse: Estes são os dois ungidos, que assistem junto ao Senhor de toda a terra”. (Zacarias 4.11-14)

Os dois ungidos do livro de Zacarias eram Josué – o sacerdote – e Zorobabel – o rei (Zc 3-4; cf. Ed 3,5-6; Ag 1-2).  Mas o Apocalipse começa mencionando que estes dois ofícios se cumpriram em Jesus Cristo (Ap 1.5) e por extensão na Igreja como um todo (Ap 1.6). Por isso as testemunhas são identificadas desta forma. A Igreja possui o sacerdócio real. Sobre o poder da Igreja, o texto diz:

“E, se alguém lhes quiser fazer mal, das suas bocas sairá fogo e devoraráos seus inimigos; pois se alguém lhes quiser fazer mal, importa que assim seja morto. Elas têm poder para fechar o céu, para que não chova durante os dias da sua profecia; e têm poder sobre as águas para convertê-las em sangue, e para ferir a terra com toda sorte de pragas, quantas vezes quiserem”. (Apocalipse 11.5-6)

O fogo saindo da boca equivale ao que foi dito ao profeta Jeremias:

“Dai voltas às ruas de Jerusalém, e vede agora, e informai- vos, e buscai pelas suas praças a ver se podeis achar um homem, se há alguém que pratique a justiça, que busque a verdade; e eu lhe perdoarei a ela… Portanto assim diz o Senhor, o Deus dos exércitos: Porquanto proferis tal palavra, eis que converterei em fogo as minhas palavras na tua boca, e este povo em lenha, de modo que o fogo o consumirá. Eis que trago sobre vós uma nação de longe, ó casa de Israel, diz o Senhor; é uma nação durável, uma nação antiga, uma nação cuja língua ignoras, e não entenderás o que ela falar”. (Jeremias 5.1,14-15)

“Não é a minha palavra como fogo, diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a pedra?” (Jeremias 23.29)

Não devemos entender com isso que Deus literalmente transformou as palavras de Jeremias em fogo ou que o povo de Israel foi literalmente transformado em lenha. Deus estava simplesmente dizendo que os oráculos de Jeremias trariam juízo sobre o povo. No contexto de Jeremias, isso se cumpriu por meio do Império Babilônico. Com base nisso, devemos entender que o fogo saindo da boca das duas testemunhas no Apocalipse se refere aos seus oráculos que trariam juízo sobre Israel da mesma forma que havia acontecido no tempo de Jeremias. A Igreja tem um ministério profético de proclamar a Palavra de Deus como teve Jeremias. Da mesma maneira, “o poder para fechar o céu, para que não chova durante os dias da sua profecia” e o “poder sobre as águas para convertê-las em sangue, e para ferir a terra com toda sorte de pragas, quantas vezes quiserem” (Ap 11.6) tem como objetivo comparar o ministério profético da Igreja com Elias e Moisés. Isto se cumpriu à medida que o juízo de Deus caiu contra seus perseguidores em resposta as orações dos santos. O que Jeremias, Elias e Moisés fizeram em sua própria época, a Igreja fez no primeiro século e precisa fazer mais uma vez agora:

“Então estendeu o Senhor a mão, e tocou-me na boca; e disse- me o Senhor: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca. Olha, ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares e derribares, para destruíres e arruinares; e também para edificares e plantares”. (Jeremias 1.9-10)

O texto fala também de como a Igreja seria perseguida e morta pela besta:

“E, quando acabarem o seu testemunho, a besta que sobe do abismo lhes fará guerra e as vencerá e matará. E jazerão os seus corpos na praça da grande cidade, que espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado”. (Apocalipse 11.7-8)

O que é dito aqui é equivalente ao que é dito no capítulo 13:

“Também lhe foi permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe autoridade sobre toda tribo, e povo, e língua e nação”. (Apocalipse 13.7)

A vitória é real, mas é temporária e não é final. Os mártires foram perseguidos, maltratados e mortos. Mas por meio da morte, eram transportados ao céu – o templo de Deus – para estarem com o Cordeiro:

“… segundo a minha ardente expectativa e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a ousadia, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte. Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro… tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor”. (Filipenses 1.20-23)

“Disse-me ele: Estes são os que vêm de grande tribulação, e levaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso estão diante do trono de Deus, e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que está assentado sobre o trono estenderá o seu tabernáculo sobre eles. Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem cairá sobre eles o sol, nem calor algum; porque o Cordeiro que está no meio, diante do trono, os apascentará e os conduzirá às fontes das águas da vida; e Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima”. (Apocalipse 7.14-17)

“E vi como que um mar de vidro misturado com fogo; e os que tinham vencido a besta e a sua imagem e o número do seu nome estavam em pé junto ao mar de vidro, e tinham harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e admiráveis são as tuas obras, ó Senhor Deus Todo-Poderoso; justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos séculos. Quem não te temerá, Senhor, e não glorificará o teu nome? Pois só tu és santo; por isso todas as nações virão e se prostrarão diante de ti, porque os teus juízos são manifestos”. (Apocalipse 15:2-4)

A visão das duas testemunhas descreve o martírio e a vitória celestial da Igreja:

“E, quando acabarem o seu testemunho, a besta que sobe do abismo lhes fará guerra e as vencerá e matará. E jazerão os seus corpos na praça da grande cidade, que espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado. Homens de vários povos, e tribos e línguas, e nações verão os seus corpos por três dias e meio, e não permitirão que sejam sepultados. E os que habitam sobre a terra se regozijarão sobre eles, e se alegrarão; e mandarão presentes uns aos outros, porquanto estes dois profetas atormentaram os que habitam sobre a terra. E depois daqueles três dias e meio o espírito de vida, vindo de Deus, entrou neles, e puseram-se sobre seus pés, e caiu grande temor sobre os que os viram. E ouviram uma grande voz do céu, que lhes dizia: Subi para cá. E subiram ao céu em uma nuvem; e os seus inimigos os viram. E naquela hora houve um grande terremoto, e caiu a décima parte da cidade, e no terremoto foram mortos sete mil homens; e os demais ficaram atemorizados, e deram glória ao Deus do céu”. (Apocalipse 11.7-13)

Flávio Josefo narrou este terrível terremoto em Guerra dos Judeus 4.4.5. As duas testemunhas são mortas pela besta-Roma e seus corpos jazem na grande cidade (cf. Ap 17.8), a prostituta-Jerusalém. Isto simplesmente reflete o fato de que a perseguição da Igreja no primeiro século aconteceu por uma aliança entre o Império Romano e os líderes judaicos[2] da mesma maneira que havia acontecido com Jesus. O texto fala também de uma visão das duas testemunhas na nuvem. É possível que isso tenha se cumprido no que foi relatado por Flávio Josefo:

“Alguns dias depois da festa, no dia vigésimo primeiro do mês de Iyar, um fenômeno prodigioso e incrível aconteceu: suponho que o relato pareceria uma fábula, caso não tivesse sido relatado por pessoas que a viram e caso tais eventos que se lhe seguiram não fosse de uma natureza tão considerável a ponto de merecer tais sinais. Antes do nascer do sol viram-se carruagens e soldados entre as nuvens…”[3]

Tacitus relatou o mesmo acontecimento:

“No céu apareceu uma visão de exércitos em conflito… Um relâmpago repentino vindo das nuvens iluminou o templo… A maioria estava convencida de que as antigas escrituras de seus sacerdotes indicavam que o tempo presente seria a época exata em que o oriente iria triunfar e da Judeia viria homens destinados a governar o mundo”.[4]

O Apocalipse fala dos santos como “os exércitos que estão no céu” (Ap 19.4). Portanto, é provável que a visão que teve o povo de Jerusalém de carruagens e soldados no céu tenha sido uma visão da Igreja mártir gloriosa testemunhando no tribunal celeste contra a prostituta-Israel para que fosse executada.


[1] É interessante notar que a palavra traduzida como testemunha é μαρτυρία – marturiano grego, de onde vem a palavra mártir no português.

[2] Um fato recorrente nos Atos dos Apóstolos.

[3] Flávio Josefo. Guerra dos Judeus.

[4] Tacitus, Histories, 5:13.

1 opinião sobre “XVI – As Duas Testemunhas”

  1. Vinicius Franco disse:

    E os “3 dias e meio” ? É uma referência ao período de perseguição sob Nero? Se sim, pq as demais referências temporais quanto à duração da perseguição são literais (1260 dias, 42 meses, um tempo, tempos e metade de um tempo) e essa é simbólica?

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