XIV – Fogo do Altar

jerusalem

FOGO DO ALTAR
Por Frank Brito

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“Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas”. (Apocalipse 17.1)

O juízo de Deus sobre a grande prostituta por meio do exército romano foi profetizado na visão das sete trombetas (Ap 8-11):

“Quando abriu o sétimo selo, fez-se silêncio no céu, quase por meia hora. E vi os sete anjos que estavam em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas”. (Apocalipse 8.1-2)

O silêncio de meia hora é uma referência à iminência do juízo de Deus que revela Sua soberania e domínio: “Tu, sim, tu és tremendo; e quem subsistirá à tua vista, quando te irares? Desde o céu fizeste ouvir o teu juízo; a terra tremeu e se aquietou, quando Deus se levantou para julgar, para salvar a todos os mansos da terra”. (Sl 76.7-9) “Cale-se, toda a carne, diante do Senhor; porque ele se levantou da Sua santa morada”. (Zc 2.13) Diante da manifestação de Seu poder todo universo se cala. O destino das nações não é determinado por qualquer autonomia no próprio homem ou por qualquer força inerente na natureza. O domínio é de Deus, o destino dos povos é ordenado por Seu poder, e por isso o juízo sobre as nações é descrito como partindo de Seu santo templo celestial.

O Apocalipse mostra também que o juízo sobre Israel aconteceu em resposta à oração dos santos:

“Veio outro anjo, e pôs-se junto ao altar, tendo um incensário de ouro; e foi-lhe dado muito incenso, para que o oferecesse com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que está diante do trono. E da mão do anjo subiu diante de Deus a fumaça do incenso com as orações dos santos. Depois do anjo tomou o incensário, encheu-o do fogo do altar e o lançou sobre a terra”. (Apocalipse 8.3-5)

Infelizmente, muitos usam a soberania ou onisciência de Deus como justificativa pra fazer pouco caso da importância oração. Mas aqui Deus mostra que a eficácia da oração é tão grande que não é somente um meio de termos nossas necessidades pessoais atendidas, mas é um meio de transformar o mundo! Aqui Deus mostra que quando Igreja ora com fé, fogo do altar celestial é lançado a terra. Por vezes demais ficamos indignamos com a maneira que as coisas são, com injustiças que ganham cada vez mais força, mas ao mesmo tempo não dobramos nossos joelhos nem clamamos a Deus com a mesma intensidade e perseverança com que ficamos indignados. Deixamos de crer que Deus que de fato rege e governa as nações? Deixamos de crer na Divina Providência a passamos a crer no poder do acaso ou da soberania das conspirações humanas? Aos que pensam assim, ainda que implicitamente, o Salmo não mede palavras:

“Atendei, ó tolos, dentre o povo; e vós, insensatos, quando haveis de ser sábios? Aquele que fez ouvido, não ouvirá? ou aquele que formou o olho, não verá? Porventura aquele que disciplina as nações, não corrigirá?” (Salmo 94.8-10)

A referência aos “trovões, vozes, relâmpagos e terremoto” (Ap 8.5) remete ao que aconteceu no estabelecimento do Antigo Pacto:

“Ao terceiro dia, ao amanhecer, houve trovões, relâmpagos, e uma nuvem espessa sobre o monte; e ouviu-se um sonido de buzina mui forte, de maneira que todo o povo que estava no arraial estremeceu. E Moisés levou o povo fora do arraial ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte. Nisso todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; e a fumaça subiu como a fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia fortemente”. (Êxodo19.16-18)

A epístola aos Hebreus explica que esse acontecimento reflete a separação e inacessibilidade de Deus para aqueles que permanecem sob seu juízo:

“Pois não tendes chegado ao monte palpável, aceso em fogo, e à escuridão, e às trevas, e à tempestade, e ao sonido da trombeta, e à voz das palavras, a qual os que a ouviram rogaram que não se lhes falasse mais; porque não podiam suportar o que se lhes mandava: Se até um animal tocar o monte, será apedrejado. E tão terrível era a visão, que Moisés disse: Estou todo aterrorizado e trêmulo. Mas tendes chegado ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, a miríades de anjos; à universal assembleia e Igreja dos primogênitos inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados; e a Jesus, o mediador de um novo pacto, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel”. (Hebreus 12.18-24)

O monte Sinai foi onde Moisés recebeu a Lei. Mas se nenhum homem tem em si mesmo a capacidade de cumprir qualquer um dos mandamentos de Deus, então “tudo o que a Lei diz, aos que estão debaixo da Lei o diz, para que se cale toda boca e todo o mundo fique sujeito ao juízo de Deus”. (Rm 3.19) É isso que os “trovões, vozes, relâmpagos e terremoto” (Ap 8.5) indicam. Já o monte Sião era o local do templo. O templo era o lugar de sacrifícios e, portanto de reconciliação com Deus. Sendo assim, o monte Sinai aponta para a condenação da Lei enquanto o monte Sião aponta para a justificação pela graça. É por isso que o Apocalipse mostra a Israel espiritual sobre o monte Sião e não sobre o monte Sinai: “E olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o Monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, que traziam na fronte escrito o nome dele e o nome de seu Pai”. (Ap 14.1) Foi sobre isso que Apóstolo Paulo escreveu aos Gálatas:

“Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da livre. Todavia o que era da escrava nasceu segundo a carne, mas, o que era da livre, por promessa. O que se entende por alegoria: pois essas mulheres são dois pactos; um do monte Sinai, que dá à luz filhos para a servidão, e que é Agar. Ora, esta Agar é o monte Sinai na Arábia e corresponde à Jerusalém atual, pois é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém que é de cima é livre; a qual é nossa mãe. Pois está escrito: Alegra-te, estéril, que não dás à luz; esforça-te e clama, tu que não estás de parto; porque mais são os filhos da desolada do que os da que tem marido. Ora vós, irmãos, sois filhos da promessa, como Isaque. Mas, como naquele tempo o que nasceu segundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim é também agora. Que diz, porém, a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre. Pelo que, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre”. (Gálatas 4.22-31)

A visão dos “trovões, vozes, relâmpagos e terremoto” (Ap 8.5) aponta para o juízo de Deus que viria sobre a Israel carnal que estava prestes a ser lançada fora da mesma maneira que foi Agar.

Então o primeiro anjo tocou a primeira trombeta:

“O primeiro anjo tocou a sua trombeta, e houve saraiva e fogo misturado com sangue, que foram lançados na terra; e foi queimada a terça parte da terra, a terça parte das árvores, e toda a erva verde”. (Apocalipse 8.7)

A visão de fogo sendo lançado na terra lembra as palavras de Jesus: “Vim lançar fogo à terra; e que mais quero, se já está aceso?” (Lc 12.49) O sangue misturado indica que a vingança é pelo sangue dos mártires. “E nela se achou o sangue dos profetas, e dos santos, e de todos os que foram mortos na terra”. (Ap 18.24) “Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas: e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros os perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra”. (Mt 23.34-35) O fogo e a saraiva juntos lembram o juízo de Deus sobre o Egito: “E Moisés estendeu a sua vara para o céu, e o Senhor enviou trovões e saraiva, e fogo desceu à terra; e o Senhor fez chover saraiva sobre a terra do Egito”. (Ex 9.23) O objetivo é dizer que Israel havia se tornado como o Egito e por isso teria o mesmo destino. A comparação é mais explícita no capítulo 11 quando fala “da grande cidade, que espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado”. (Ap 11.8)[1] Deus avisou:  “Se ouvires atentamente a voz do Senhor teu Deus, e fizeres o que é reto diante de seus olhos, e inclinares os ouvidos aos seus mandamentos, e guardares todos os seus estatutos, sobre ti não enviarei nenhuma das enfermidades que enviei sobre os egípcios; porque eu sou o Senhor que te sara”. (Ex 15.26) Mas Israel não inclinou seus ouvidos.

A visão parece se referir ao mesmo que é dito no fim do capítulo 16: “E sobre os homens caiu do céu uma grande saraivada, pedras quase do peso de um talento; e os homens blasfemaram de Deus…” (Ap 16.21) É provável que o cumprimento tenha sido naquilo que o historiador Flávio Josefo escreveu que aconteceu durante a guerra:

“As catapultas que todas as legiões haviam preparados para eles foram admiravelmente projetadas. Mas as que pertenciam à décima legião eram ainda mais extraordinárias. Aquelas que lançavam dardos e aquelas que lançavam pedras eram maiores e mais fortes que as outras. Elas não somente repeliram as incursões dos judeus, mas também obrigou aqueles que estavam sobre os muros a se afastar. As pedras que eram lançadas tinham o peso de um talento… Quanto aos judeus, a principio eles viam a pedra vindo, pois era de cor branca e por isso poderia ser percebida não somente pelo grande barulho que fazia, mas também por causa de seu grande brilho…”[2]

Aqui Flávio Josefo nos conta que os romanos atacaram Jerusalém lançando dardos (que eram lançados com fogo) e pedras de cor branca e cujo peso era de um talento (cf. Ap 16.21). Isso faria com que tais pedras fossem semelhantes à saraivacaindo do céu. É provável que seja essa a comparação que o Apocalipse faz quando fala em saraiva e fogo sendo lançados sobre a terra.

O texto diz também que “foi queimada a terça parte da terra, a terça parte das árvores, e toda a erva verde.” (Ap 8.7) Flávio Josefo descreveu a situação:

“Verdadeiramente a aparência da terra era muito melancólica; pois aqueles lugares que antes eram adorados com árvores e jardins agradáveis se tornaram desolados… nem poderia qualquer estrangeiro, que viu a Judéia e os mais belos subúrbios da cidade anteriormente… fazer outra coisa se não lamentar e chorar com tristeza por uma mudança tão grande”.[3]

“A terça parte” (Ap 8.7) significa simplesmente que a destruição não era ainda sobre o todo, mas era parcial. A mesma linguagem foi usada em Ezequiel para se referir ao mesmo – uma destruição parcial – quando ele falou da invasão Babilônica contra Jerusalém:

“Assim diz o Senhor Deus: Esta é Jerusalém; coloquei-a no meio das nações, estando os países ao seu redor; ela, porém, se rebelou perversamente contra os meus juízos, mais do que as nações, e os meus estatutos mais do que os países que estão ao redor dela; porque rejeitaram as minhas ordenanças, e não andaram nos meus preceitos… Portanto, tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, pois que profanaste o meu santuário com todas as tuas coisas detestáveis, e com todas as tuas abominações, também eu te diminuirei; e não te perdoarei, nem terei piedade de ti. Uma terça parte de ti morrerá da peste, e se consumirá de fome no meio de ti; e outra terça parte cairá à espada em redor de ti; e a outra terça parte, espalha-la-ei a todos os ventos, e desembainharei a espada atrás deles. Assim se cumprirá a minha ira, e satisfarei neles o meu furor, e me consolarei; e saberão que sou eu, o Senhor, que tenho falado no meu zelo, quando eu cumprir neles o meu furor”. (Ezequiel 5.5-6,11-13)

Em seguida o segundo anjo tocou a segunda trombeta:

“O segundo anjo tocou a sua trombeta, e foi lançado no mar como que um grande monte ardendo em fogo, e tornou-se em sangue a terça parte do mar. E morreu a terça parte das criaturas viventes que havia no mar, e foi destruída a terça parte dos navios”. (Apocalipse 8.8-9)

Esta visão lembra as palavras do profeta Jeremias:

“Assim diz o Senhor: Eis que levantarei um vento destruidor contra Babilônia… Eis-me aqui contra ti, ó monte destruidor, diz o Senhor, que destróis toda a terra; estenderei a minha mão contra ti, e te revolverei dos penhascos abaixo, e farei de ti um monte incendiado. E não tomarão de ti pedra para esquina, nem pedra para fundamentos; mas desolada ficarás…” (Jeremias 51.1,25-26)

Aqui Deus não fala sobre um monte literal. O monte representa o Império Babilônico. E o monte sendo incendiado e sendo revolvido dos penhascos abaixo representa a destruição da Babilônia. A visão de Jeremias se cumpriu quando a Babilônia foi atacada pelo Império Medo-Persa[4]. O Apocalipse compara Israel com a Babilônia (Ap 17.5) e por isso descreve sua destruição da mesma maneira. O próprio Jesus fez a mesma comparação usando a figura do monte:

“Ora, de manhã, ao voltar à cidade, teve fome; e, avistando uma figueira à beira do caminho, dela se aproximou, e não achou nela senão folhas somente; e disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti. E a figueira secou imediatamente. Quando os discípulos viram isso, perguntaram admirados: Como é que imediatamente secou a figueira? Jesus, porém, respondeu-lhes: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até, se a este monte disserdes: Ergue-te e lança-te no mar, isso será feito”. (Mateus 21.18-21)

Jesus estava falando de um monte literal? Se de fato estava, não há qualquer evidência histórica de qualquer cristão que tenha conseguido fé suficiente para transportar montes. Mas qual seria o objetivo de alguém querer lançar um monte ao mar? Por que isso sequer seria motivo de oração? O fato é que Jesus não estava falando de um monte literal. O monte se referia a Israel. No contexto, Jesus expulsou os vendilhões do templo (Mt 21.12-13), discutiu publicamente com as autoridades judaicas (Mt 21.23-32,23.1-39) e lhes avisou sobre a destruição de Jerusalém e do templo naquela mesma geração (Mt 21.33-46, Mt 23.34-39).  Quando Jesus secou a figueira, isso era uma forma de avisar sobre o que estava prestes a acontecer com Israel[5]. Da mesma forma. o monte sendo lançado ao mar é equivalente a Israel assim como o monte no oráculo de Jeremias era equivalente a Babilônia.

É importante perceber que Jesus disse que o monte sendo lançado ao mar seria em resposta a orações imprecatórias de seus discípulos. No Apocalipse vemos que isso de fato se cumpriu porque as trombetas começaram a tocar justamente em resposta a oração dos santos (Ap 8.3-4). Esse é o poder da oração. Uma nação inteira foi destruída em resposta a oração com fé[6].

O texto diz que mediante isso “tornou-se sangue a terça parte do mar. E morreu a terça parte das criaturas viventes que havia no mar, e foi destruída a terça parte dos navios”. (Ap 8.8-9) Novamente, vemos uma semelhança com o Egito (cf. Ap 11.8): “Assim diz o Senhor: Nisto saberás que eu sou o Senhor: Eis que eu, com esta vara que tenho na mão, ferirei as águas que estão no rio, e elas se tornarão em sangue. E os peixes que estão no rio morrerão, e o rio cheirará mal; e os egípcios terão nojo de beber da água do rio”. (Ex 7.17-18)

Flávio Josefo narrou o que parece ter sido o cumprimento:

“Mas agora quando os navios estavam prontos, Vespasiano colocou a bordo o número de suas forças que achou suficiente… Às vezes os romanos pulavam em seus navios, com uma espada em mão, e os matava… E quanto aos que estavam se afogando no mar, se levantassem suas cabeças da água, eram mortos pelos dardos ou pegos pelos navios… E houve um terrível odor e uma visão muito triste nos dias que seguiram… pois quanto ao litoral, estava cheio de naufrágios e de cadáveres completamente inchados; e à medida que os cadáveres eram inflamados pelo sol e apodreciam, corrompiam o ar, de modo que a miséria não era objeto de comiseração somente para os judeus, mas para aqueles que os odiavam e haviam sido os autores daquela miséria… O número de mortos, incluindo os que haviam morrido antes na cidade, era de seis mil e quinhentos”.[7]

O mar “tornou-se sangue” porque estava cheio de cadáveres dos que morreram na batalha naval, na qual “foi destruída a terça parte dos navios” (Ap 8.9).

Em seguida o terceiro anjo tocou a terceira trombeta:

“O terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela, ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas. O nome da estrela era Absinto; e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas”. (Apocalipse 8.10-11)

A visão da estrela caindo do céu remete as palavras de Isaías:

“Proferirás esta parábola contra o rei de Babilônia, e dirás: Como cessou o opressor! como cessou a tirania! Já quebrantou o Senhor o bastão dos ímpios e o cetro dos dominadores; cetro que feria os povos com furor, com açoites incessantes, e que em ira dominava as nações com uma perseguição irresistível… Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por terra tu que prostravas as nações!” (Isa 14.4-6,12)

A queda da estrela aqui significava a queda da Babilônia. A profecia se cumpriu quando a Babilônia foi atacada pelo Império Medo-Persa. Na Bíblia autoridades são frequentemente comparadas a estrelas (cf. Gn 37.9; Is 13.10; Ez 32.7,8; Jd 13, Ap 1.16-20). Novamente, o objetivo do Apocalipse é comparar Israel com a Babilônia e por isso descreve sua destruição da mesma maneira.

O absinto é uma erva amarga frequentemente usada para descrever a tristezas, as aflições e o sofrimento (cf. Dt 29.18; Pv 5.4; Jr 9.15; 23.15; Lm 3.15.19; Am 5.7; Ap 8.11). Deuteronômio associa o absinto à maldição pactual sobre Israel pela transgressão da Lei de Deus:

“… para que entre vós não haja homem, nem mulher, nem família, nem tribo, cujo coração hoje se desvie do Senhor nosso Deus, e vá servir aos deuses dessas nações; para que entre vós não haja raiz que produza absinto e fel, e aconteça que alguém, ouvindo as palavras deste juramento, se abençoe no seu coração, dizendo: Terei paz, ainda que ande na teimosia do meu coração para acrescentar à sede a bebedeira”. (Deuteronômio 29.18-19)

Esta maldição seria o inverso do que Deus fez acontecer na libertação do Egito:

“Depois Moisés fez partir a Israel do Mar Vermelho, e saíram para o deserto de Sur; caminharam três dias no deserto, e não acharam água. E chegaram a Mara, mas não podiam beber das suas águas, porque eram amargas; por isso chamou-se o lugar Mara. E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: Que havemos de beber? Então clamou Moisés ao Senhor, e o Senhor mostrou-lhe uma árvore, e Moisés lançou-a nas águas, as quais se tornaram doces. Ali Deus lhes deu um estatuto e uma ordenança, e ali os provou”. (Êxodo 15.22-25)

Água é fundamental para a sobrevivência humana. Por isso é frequentemente citada na Bíblia como símbolo do sustento espiritual do Senhor (cf. João 4.14). A água amarga é o reverso disso e aponta para a maldição daqueles que se opõe a Deus. A transformação da água amarga em doce por Moisés apontava para as benções pactuais de Deus sobre Israel. Jeremias profetizou sobre a aplicação histórica da maldição do absinto:

“E diz o Senhor: porque deixaram a minha Lei, que lhes pus diante, e não deram ouvidos à minha voz, nem andaram nela, antes andaram obstinadamente segundo o seu próprio coração, e após baalins, como lhes ensinaram os seus pais. Portanto assim diz o Senhor dos exércitos, Deus de Israel: Eis que darei de comer absinto a este povo, e lhe darei a beber água de fel”. (Jeremias 9.13-15)

“Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, de sorte que não se convertam da sua maldade; eles têm- se tornado para mim como Sodoma, e os moradores dela como Gomorra. Portanto assim diz o Senhor dos exércitos acerca dos profetas: Eis que lhes darei a comer absinto, e lhes farei beber águas de fel; porque dos profetas de Jerusalém saiu à contaminação sobre toda a terra”. (Jeremias 23.14-15)

O cumprimento histórico da maldição da terceira trombeta parece ser equivalente à terceira taça: “O terceiro anjo derramou a sua taça nos rios e nas fontes das águas, e se tornaram em sangue. E ouvi o anjo das águas dizer: Justo és tu, que és e que eras, o Santo; porque julgaste estas coisas; porque derramaram o sangue de santos e de profetas, e tu lhes tens dado sangue a beber; eles o merecem”. (Ap 16:4-6) O cumprimento envolveu dois fatores. Primeiro, a terceira trombeta e a terceira taça são uma consequência direta da segunda trombeta e da segunda taça. Os cadáveres dos seis mil e quinhentos que foram mortos envenenou a água potável. Segundo, envenenar fontes d’água de beber da cidade que seria atacada era uma prática militar comum do exército romano[8].

Em seguida o quarto anjo tocou a quarta trombeta:

“O quarto anjo tocou a sua trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, a terça parte da lua, e a terça parte das estrelas; para que a terça parte deles se escurecesse, e a terça parte do dia não brilhante, e semelhantemente a da noite”. (Apocalipse 8.12)

Novamente, o objetivo aqui é comparar Israel com a Babilônia. Isaías comparou o juízo de Deus contra a Babilônia com o sol, a luz e as estrelas sendo feridas:

Peso de Babilônia, que viu Isaías, filho de Amós. Alçai uma bandeira sobre o monte elevado, levantai a voz para eles; acenai-lhes com a mão, para que entrem pelas portas dos nobres. Eu dei ordens aos meus santificados; sim, já chamei os meus poderosos para executarem a minha ira, os que exultam com a minha majestade. Já se ouve a gritaria da multidão sobre os montes, como a de muito povo; o som do rebuliço de reinos e de nações congregados. O SENHOR dos Exércitos passa em revista o exército de guerra. Já vem de uma terra remota, desde a extremidade do céu, o SENHOR, e os instrumentos da sua indignação, para destruir toda aquela terra. Clamai, pois, o dia do SENHOR está perto; vem do Todo-Poderoso como assolação. Portanto, todas as mãos se debilitarão, e o coração de todos os homens se desanimará. E assombrar-se-ão, e apoderar-se-ão deles dores e ais, e se angustiarão, como a mulher com dores de parto; cada um se espantará do seu próximo; os seus rostos serão rostos flamejantes. Eis que vem o dia do SENHOR, horrendo, com furor e ira ardente, para por a terra em assolação, e dela destruir os pecadores. Porque as estrelas dos céus e as suas constelações não darão a sua luz; o sol se escurecerá ao nascer, e a lua não resplandecerá com a sua luz”. (Isaías 13.1-10)

Em seguida o quinto anjo tocou a quinta trombeta:

“O quinto anjo tocou a sua trombeta, e vi uma estrela que do céu caíra sobre a terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo. E abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço, como fumaça de uma grande fornalha; e com a fumaça do poço escureceram-se o sol e o ar. Da fumaça saíram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o que têm os escorpiões da terra. Foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens que não têm na fronte o selo de Deus. Foi-lhes permitido, não que os matassem, mas que por cinco meses os atormentassem. E o seu tormento era semelhante ao tormento do escorpião, quando fere o homem… Tinham sobre si como rei o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom e em grego Apoliom”. (Apocalipse 9.1-4,11)

Os gafanhotos lembram o que aconteceu com o Egito (Ex 10.3-5) e novamente o objetivo é comparar Israel com os egípcios. Mas o texto indica que os gafanhotos não sejam qualquer flagelo físico, mas que sejam tormentos de espíritos imundos. Pois diz que “foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma” e que mesmo no caso dos “homens que não têm na fronte o selo de Deus” (v. 4) “Foi-lhes permitido, não que os matassem, mas que por cinco meses os atormentassem”. (v. 5) Isto deixa claro que o flagelo não era físico. O texto diz também que “foi-lhes dado poder, como o que têm os escorpiões da terra” (v. 3) e que “o seu tormento era semelhante ao tormento do escorpião, quando fere o homem” (v. 5). Jesus comparou demônios com escorpiões:

“Voltaram depois os setenta com alegria, dizendo: Senhor, em teu nome, até os demônios se nos submetem. Respondeu-lhes ele: Eu via Satanás, como raio, cair do céu. Eis que vos dei autoridade para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e nada vos fará dano algum. Contudo, não vos alegreis porque se vos submetem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus”. (Lucas 10.17-20)

A expulsão de demônios era recorrente tanto no ministério publico de Jesus quando no ministério dos apóstolos. Mas isso não foi o suficiente para impedir a apostasia da maioria dos judeus. Isso foi explicado com clareza por Jesus:

“Ora, havendo o espírito imundo saído do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra. Então diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E, chegando, acha-a desocupada, varrida e adornada. Então vai e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entretanto, habitam ali; e o último estado desse homem vem a ser pior do que o primeiro. Assim há de acontecer também a esta geração perversa”. (Mateus 12.43-45)

Aqui Jesus explicou que o fato de alguém ter um demônio expulso de seu corpo não significa que esta pessoa seja de fato convertida. Uma pessoa só é de fato cristã quando é habitação do Espírito Santo (cf. Rm 8.9, I Co 3.16, Gl 4.6). Na explicação de Jesus, o espírito imundo havia saído do homem, mas ele não se tornou habitação do Espírito Santo. A casa estava varrida e adornada, mas estava “desocupada”. (v. 44). Sendo assim, o demônio voltou com outros ainda piores e aquele homem se tornou ainda pior do que era antes do demônio ser expulso dele (v. 45).

Isso é um princípio universal que se aplica a todos que passam por uma conversão externa e aparente, mas que não passam por uma conversão genuína. Mas Jesus explicou que isso é o que aconteceria coletivamente com a nação de Israel naquela mesma geração. Jesus, e os apóstolos depois d’Ele passaram anos limpando Israel de espíritos imundos. Mas, ainda assim, a maioria não creu. E porque não creram demônios ainda piores voltaram para atormentar Israel. Esse é o significado da visão do ataque de gafanhotos com poder de escorpião no toque da quinta trombeta. Quando a medida da iniquidade de Israel finalmente se encheu, o povo foi entregue por Deus aos mais terríveis demônios para serem atormentados. É por isso que não podiam fazer dano aos que tinham “na fronte o selo de Deus”. (Ap 9.4) O Apóstolo Paulo explicou qual era o selo de Deus: “no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. (Ef 1.13) “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção”. (Ef 4.30) O texto diz também que “o ruído das suas asas era como o ruído de carros de muitos cavalos que correm ao combate”. (Ap 9:9) Este foi um barulho semelhante ao feito pelos anjos na nuvem de glória (cf. Ez 1.24, 3.13, II Rs 7.5-7). A diferença é que estes eram anjos caídos.

Em seguida o sexto anjo tocou a sexta trombeta:

“O sexto anjo tocou a sua trombeta; e ouvi uma voz que vinha das quatro pontas do altar de ouro que estava diante de Deus, a qual dizia ao sexto anjo, que tinha a trombeta: Solta os quatro anjos que se acham presos junto do grande rio Eufrates. E foram soltos os quatro anjos que haviam sido preparados para aquela hora e dia e mês e ano, a fim de matarem a terça parte dos homens”. (Ap 9.13-15)

O rio Eufrates formava a fronteira entre Israel e as forças pagãs que no Antigo Testamento Deus ocasionalmente levantava para castigar seu povo (Jr 6.1, 22; 10.22; 13.20; 25.9,26; 46.20,24; 47.2; Ez 26.7;38.6,15; 39.2).  Portanto, a descrição do Apocalipse, criaria na mente do judeu, uma associação imediata daquilo que estava para vir com terrores do passado. O que o Apocalipse está mostrando com isso é que a destruição de Jerusalém pelos romanos seria semelhante às invasões anteriores de nações pagãs. Flávio Josefo deixou registrado que três mil tropas foram escolhidas dentre aqueles que eram guardavam o rio Eufrates[9] e que diversos reis do oriente apoiaram Roma e também enviaram soldados[10].

“E, quando ia chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela, Dizendo: Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! Mas agora isto está encoberto aos teus olhos. Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lados”. (Lucas 19.41-43)


[1] A comparação é implícita em Gálatas 4. Paulo reconhece os judeus incrédulos como filhos de Agar e ela era egípcia (Gn 16.1). A ligação espiritual dos israelitas incrédulos com o Egito pode ser verificada já quando o povo estava no deserto, pois eles constantemente manifestavam o desejo de voltar para lá (Ex 14.11; Ex 16.2-3; Ex 17.2-3; Nm 14.1-4). Vemos o mesmo no período dos profetas na constante confiança que depositavam nas alianças com o Egito (Is 30.1-7).

[2] Flávio Josefo, “A Guerra dos Judeus”, Livro V, Capítulo 6, seção 3.

[3] Ibid., Livro VI, capítulo 1, seção 1.

[4] Isso foi profetizado ainda mais claramente no livro de Daniel que explicitamente identificou o Império Medo-Persa como o instrumento de Deus para destruir a Babilônia (cf.. Dn 5.8, 2.38, 7.5).

[5] O profeta Oséias comparou Israel com uma figueira: “Achei a Israel como uvas no deserto, vi a vossos pais como a fruta temporã da figueira no seu princípio; mas eles foram para Baal- Peor, e se consagraram a essa coisa vergonhosa, e se tornaram abomináveis como aquilo que amaram”. (Oséias 9.10)

[6] Isso deve nos levar a perguntar: De que forma os santos têm se movido em oração contra dominadores iníquos que perseguem o povo de Deus implacavelmente em nações islâmicas? De que forma a Igreja tem se levanta em oração contra os operadores da iniquidade que afligem o órfão, a viúva, o pobre e o desamparado?

[7] Flávio Josefo, “A Guerra dos Judeus”, Livro III, capítulo 10, seção 9.

[8] Jonathan P. Roth, The Logistics of the Roman Army.

[9] Flávio Josefo, Guerra dos Judeus 5:1:16.

[10] Ibid., 3:4:2, 5:1:6.

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5 opiniões sobre “XIV – Fogo do Altar”

  1. Vinicius Franco disse:

    “o ruído das suas asas era como o ruído de carros de muitos cavalos que correm ao combate”. (Ap 9:9) – será que isso poderia ser identificado com o exército romano? – quer dizer, o tormento dos demônios seria equivalente aos avanços da milícia romana, talvez as angústias que o cerco de Jerusalém trouxe sobre os habitantes?

  2. Frank Brito. disse:

    Possivelmente.

  3. Vinicius Franco disse:

    Uma dúvida que eu sempre tive no Apocalipse é a seguinte: o sexto selo claramente se refere à parusia, certo? Pq depois desse evento existe um sétimo selo que inaugura o evento das sete trombetas? Parece que os sete selos estão intimamente ligados com as sete trombetas, e que essa ligação está implícita no sétimo selo, que liga as duas visões. Pq então depois da descrição da parusia, ainda existe a descrição das sete trombetas?

    • Frank Brito. disse:

      “o sexto selo claramente se refere à parusia, certo?”

      Não é Parousia. Este simbolismo vem do Antigo Testamento e já havia se cumprido, por exemplo, na destruição do Império Babilônico:

      “Oráculo acerca de Babilônia, que Isaías, filho de Amoz, recebeu numa visão. Alçai uma bandeira sobre o monte escalvado; levantai a voz para eles; acenai-lhes com a mão, para que entrem pelas portas dos príncipes. Eu dei ordens aos meus consagrados; sim, já chamei os meus valentes para executarem a minha ira, os que exultam arrogantemente. Eis um tumulto sobre os montes, como o de grande multidão! Eis um tumulto de reinos, de nações congregadas! O Senhor dos exércitos passa em revista o exército para a guerra. Vêm duma terra de longe, desde a extremidade do céu, o Senhor e os instrumentos da sua indignação, para destruir toda aquela terra. Uivai, porque o dia do Senhor está perto; virá do Todo-Poderoso como assolação. Pelo que todas as mãos se debilitarão, e se derreterá o coração de todos os homens. E ficarão desanimados; e deles se apoderarão dores e ais; e se angustiarão, como a mulher que está de parto; olharão atônitos uns para os outros; os seus rostos serão rostos flamejantes. Eis que o dia do Senhor vem, horrendo, com furor e ira ardente; para pôr a terra em assolação e para destruir do meio dela os seus pecadores. Pois as estrelas do céu e as suas constelações não deixarão brilhar a sua luz; o sol se escurecerá ao nascer, e a lua não fará resplandecer a sua luz”. (Isaías 13:1-10)

      • Vinicius Franco disse:

        Sim, mas Jesus não descreveu Sua vinda nos mesmos termos no sermão profético no monte das oliveiras? Sendo assim, o sexto selo não é uma alusão àquelas palavras de Jesus no sermão e tbm ao oráculo profético de Isaias? Se for assim, o sexto selo não estaria se referindo a vinda de Jesus para julgamento no ano 70 DC?

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