VI – O Livro Selado

selado
REVELAÇÃO EM PARÁBOLAS: Uma Breve Introdução ao Apocalipse de S. João
Por Frank Brito

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O LIVRO SELADO

“Vi na destra do que estava assentado sobre o trono um livro escrito por dentro e por fora, bem selado com sete selos”. (Ap 5.1)

O livro escrito por dentro e por fora significa o pacto de Deus com os homens. Séculos antes do Apocalipse, o livro do profeta Ezequiel já falara deste mesmo livro:

“E tu, ó filho do homem, não os temas, nem temas as suas palavras; ainda que estejam contigo sarças e espinhos, e tu habites entre escorpiões; não temas as suas palavras, nem te assustes com os seus semblantes, ainda que são casa rebelde. Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes. Mas tu, ó filho do homem, ouve o que te digo; não sejas rebelde como a casa rebelde; abre a tua boca, e come o que eu te dou. E quando olhei, eis que tua mão se estendia para mim, e eis que nela estava um rolo de livro. E abriu-o diante de mim; e o rolo estava escrito por dentro e por fora; e nele se achavam escritas lamentações, e suspiros e ais”. (Ez 2.6-10)

O livro continha os oráculos de Deus contra o povo de Israel – “lamentações, suspiros e ais” (v.10). Como no caso de todos os profetas do Antigo Testamento, os oráculos de Ezequiel eram simplesmente previsões da aplicação histórica das bênçãos e maldições do pacto entre Deus e Israel. Para entender isso melhor, precisamos entender a estrutura dos pactos bíblicos. Encontramos a origem dos pactos já na criação do homem. Em Adão, Deus estabeleceu um pacto com a humanidade inteira. É o chamado pacto de domínio[1] ou mandato cultural[2]. Nele a humanidade recebeu de Deus a responsabilidade de guardar, cultivar e dominar sobre a terra:

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. (Gênesis 1.26-27)

A imagem de Deus no homem é o que lhe distingue das demais criaturas e lhe que capacita a cumprir sua vocação. Diferente dos animais, o homem não foi criado para ser movido por meros instintos. Foi dotado da capacidade de compreensão. As faculdades intelectuais no homem permite que ele compreenda tanto o mundo ao seu redor quanto o próprio Deus que o criou. Para isso o homem foi dotado também dos sentidos. Por meio do tato, do olfato, da audição, do paladar e da visão o homem é capaz de perceber e interagir de diferentes maneiras com o que está a sua volta. Como extensão de intelecto e de seus sentidos, o homem foi dotado de criatividade.  A criatividade é um reflexo do poder no homem do poder criador de Deus. Permite que o homem seja capaz não somente de compreender a realidade da criação de Deus como ela é, mas também de transformá-la e moldá-la. Foi pela criatividade concedida por Deus que Jubal se desenvolveu instrumentos musicais (Gn 4.21) e Tubal-Caim foi capaz de usar o cobre e o ferro pra criar instrumentos cortantes (Gn 4.22). O intelecto e a criatividade humana são os atributos que permitem a existência da ciência, da tecnologia, da arte, da música, da poesia, da literatura, da mídia, dos meios de transportes e de tantas outras invenções. Além disso, o homem foi criado também com a capacidade de sentir emoções e demonstrar afeto. Como filho de Deus, Adão foi criado para amar e se alegrar em seu Criador. Na criação de Eva, Deus criou a possibilidade do amor humano se estender a outros como ele. Estabeleceu a relação conjugal como a manifestação mais sublime deste amor. Quando Deus estabeleceu a relação conjugal como o meio de crescer e multiplicar, o que fez foi revelar o amor como sendo o fundamento de toda nossa existência.

Os atributos humanos são reflexos dos atributos do próprio Deus e possibilita que ele cumpra aquilo Deus o mandou cumprir – exercer domínio sobre a terra. Como escreveu o Dr. R.J. Rushdoony[3]:

“O chamado para exercer domínio não é somente a vocação do homem, mas é também sua natureza. Uma vez que Deus é o Senhor e Criador absoluto e soberano, cujo domínio é total e cujo poder é sem limites, o homem, criado à sua imagem, é participante deste atributo comunicável de Deus. O homem foi criado para exercer o domínio sob Deus, como o vice-regente designado por Deus sobre a terra. Assim, o domínio é um impulso básico da natureza humana”. [4]

Mas a vocação do homem não é o de exercer um domínio absoluto e incondicional. Deus é o único soberano absoluto. O domínio do homem é sempre subordinado a Deus, devendo respeitar os limites estabelecidos por sua Lei. A tentação de Satanás que conduziu a humanidade inteira à ruína foi justamente a sugestão de que o homem não deveria se conformar com um domínio limitado e subordinado, mas que deveria usurpar a posição de soberania absoluta do próprio Criador:

“Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus…” (Gênesis 3.1-5)

O fator determinante que faz com que a Soberania de Deus seja sempre absoluta e incondicional e o domínio do homem seja sempre limitado éque Deus exerce o monopólio sobre o bem e o mal:

“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. (Gênesis 2.16-17)

A liberdade de comer de tudo – com exceção da arvore do bem e do mal – significava que ao homem foi dado o domínio sobre toda a terra para que fosse exercido em subordinação a Deus – conforme a Sua Lei. O homem não poderia estabelecer a si mesmo como o determinador do bem e do mal, pois isso pertence a Deus somente. Deus e não qualquer outra criatura é a origem, causa e finalidade do universo. Aquilo que as coisas são, a realidade como ela é, incluindo o conceito de justiça, necessariamente existe de forma anterior ao homem. Assim, o homem não tem a autoridade para administrar a criação conforme sua própria vontade, mas deve exercer seu domínio como vice-regente de Deus, em conformidade as suas ordenanças[5].

A ideia de que o homem pode, de forma autônoma, redefinir o bem e o mal é por definição irracional e nem sequer pode ser defendido com qualquer tipo de coerência. Para que o homem pudesse por si mesmo estabelecer o justo e o injusto, o bem e o mal seria necessário que ele fosse a origem do universo, sendo a existência todas as coisas dependente dele. Ou seja, ele teria que ser, conforme foi sugerido pelo Diabo, o próprio Deus. A sugestão do Diabo era que o homem se esquecesse de quem realmente era. Que criasse em seu coração a expectativa de que sua própria realidade, sua própria lei, seu próprio domínio poderia tomar o lugar da Palavra e Soberania de Deus. Seu desejo era o de estabelecer um domínio independente segundo as próprias palavras e intenções a parte da Lei de Deus. Este mesmo princípio se manifesta em toda forma de pecado, não somente no pecado que trouxe a ruina de nossos primeiros pais. A essência de todo e qualquer pecado consiste na ideia de que o homem possa estabelecer as suas próprias palavras, o próprio julgamento, a própria opinião, a própria realidade como soberana.

Deus criou a raça humana inteira a partir de um só homem[6] e isso é o que estabelece unidade orgânica de toda humanidade. Por causa desta unidade a imagem de Deus é comum a todos, sem exceção.  Todos são, como homens, portadores do mesmo valor, honra e dignidade que tiveram nossos primeiros pais. É também decorrente desta unidade que o pecado de Adão não afetou somente a ele mesmo, mas toda sua descendência foi afetada nele. “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram”. (Rm 5.12)

Ainda que a queda de Adão não tenha feito com que a imagem de Deus no homem fosse destruída (cf. Gen 9.6, Tg 3.9), fez com que fosse corrompida em todos os aspectos de seu ser. Seus atributos não foram aniquilados, mas cada um deles foi completamente deturpado pela inclinação ao pecado.  Primeiro, a comunhão original que havia com Deus foi imerso em densas trevas de mentira e engano. “Tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se estultos”. (Rm 1.21-22) Segundo, seu intelecto deixou de funcionar com sabedoria e se tornou “entenebrecido no entendimento, separado da vida de Deus pela ignorância”. (Ef 4.18) Terceiro, em vez de usar sua criatividade pra refletir a glória de Deus, o Criador “toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente”. (Gen 6.5) Quarto, seus sentimentos e afeições deixaram refletir amor e foram substituídos por sentimentos de ódio e engano: “A sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo dos seus lábios; a sua boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Nos seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante dos seus olhos”. (Rm 3.13-18) Quinto, seu corpo carregar a glória da imortalidade e agora opera sob a maldição das dores, enfermidades e morte.

Em resposta a tamanha ingratidão, Deus condenou a humanidade inteira a morte e expulsou o primeiro casal do jardim de Éden:

“Ora, não suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente. O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden para lavrar a terra, de que fora tomado. E havendo lançado fora o homem, pôs ao oriente do jardim do Éden os querubins, e uma espada flamejante que se volvia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida”. (Gênesis 3.22-23)

O alimento é o meio pelo qual o homem dá continuidade a própria vida. Quem deixa de comer, morre de fome.  Mas nenhum alimento a nossa disposição hoje é capaz cumprir essa função perfeitamente. Não importa quão saudável seja nossa dieta, em algum momento morreremos mesmo assim. Nada do que podemos colocar em nosso cardápio poderá impedir a chegada da morte. Esse não era o caso da árvore da vida. Se alimentar de seus frutos significaria viver eternamente. A árvore da vida era o único alimento que poderia cumprir perfeitamente a função de nos sustentar. Sendo assim, a necessidade de impedir que o homem tivesse acesso a árvore da vida vinha da necessidade de impedir que ele vivesse eternamente. A punição de Deus incluiu exatamente aquilo que o Diabo tentou convencer Eva que não aconteceria: “Disse a serpente à mulher: Certamente não morrereis”. (Gen 3.4)

Os pactos posteriores que encontramos na Bíblia são simplesmente renovações do pacto que Deus estabeleceu com Adão. O Pacto que Deus estabeleceu com Israel ao libertar da escravidão do Egito, por exemplo, foi essencialmente o restabelecimento do mesmo pacto que Ele havia sido estabelecido com Adão[7]. Da mesma forma que, em Adão, Deus estabeleceu o domínioda humanidade inteira sobre a terra, Ele estabeleceu o domínio de Israel sobre a terra prometida. O domínio de Israel sobre a terra prometida foi simplesmente o chamado de Deus para que a nação retomasse a tarefa da qual Adão havia se desviado. A vocação de Deus para Israel era que a nação fizesse aquilo que Adão falhou em fazer. Por isso, o princípio da vida e da morte diante de Adão no Éden é essencialmente o mesmo que Deus colocou diante de Israel no deserto: “O céu e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti de que te pus diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência”. (Dt 30.19) Se Israel fosse obediência, receberia as bênçãos de Deus seria bem sucedido no domínio sobre a terra. Se fosse desobediente, receberia maldições. As bênçãos do pacto devem ser lidas como uma progressiva reversão da ruina que entrou no mundo em Adão:

“Se ouvires atentamente a voz do Senhor teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno, o Senhor teu Deus te exaltará sobre todas as nações da terra; e todas estas bênçãos virão sobre ti e te alcançarão, se ouvires a voz do Senhor teu Deus”. (Deuteronômio 28.1-2)

As benções prometidas incluíam:

1) Teriam paz, segurança e prosperidade onde quer que estivessem  seja no campo ou na cidade. (v. 3)

2) Suas famílias seriam numerosas e prósperas. (v. 4,11)

3) Seus animais seriam férteis e vigorosos. (v. 4, 11)

4) Suas plantações seriam abençoadas (v. 4,11)

5) Seriam uma potência militar, incapazes de serem vencidos na guerra. (v.7)

6) Seriam bem sucedidos em tudo que se dedicassem a fazer. (v. 8)

7) Seriam respeitados internacionalmente. (v.10)

8) Teriam estabilidade climática, não havendo secas. (v. 12)

9) Seriam uma potência econômica, respeitada internacionalmente. (v. 12)

Para manter a si mesma nesta posição e continuar sendo beneficiado por Deus, Israel deveria se manter obediente a Lei de Deus. As bênçãos de Israel eram condicionadas a obediência a Deus. Deus prometeu paz, prosperidade e desenvolvimento cultural a Israel caso permanecessem fiéis a Ele. Ao mesmo tempo, Deus prometeu ruína nestas mesmas coisas caso Israel não se mantivesse fiel. “Se, porém, não ouvires a voz do Senhor teu Deus, se não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que eu hoje te ordeno, virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão…” (Deuteronômio 28.15) As maldições incluíam:

1)  Seriam fracassados onde quer que estivessem, seja na cidade ou no campo. (v. 16)

2)  Alto índice de esterilidade entre as mulheres e famílias amaldiçoadas (v. 18)

3)  Seriam fracassados nas plantações e na criação de animais. Suas plantações seriam atacadas por pestes. (v. 18, 21,38-40, 42)

4)  Seriam fracassados em tudo o que se dedicassem a fazer. (v. 20)

5)  Se multiplicariam enfermidades como tísica, úlceras, tumores malignos, sarnas, loucura e cegueira. (v. 22, 27-28, 35, 59)

6)  Haveria secas. (v. 23,24)

7)  Seriam militarmente fracassados e dominados por tiranos. (v. 25, 26, 32-34, 36, 41, 48-57)

8)  Seriam internacionalmente envergonhados. (v. 37)

9)  Seriam fracassados economicamente. (v. 44)

10)  Seriam expatriados. (v.64)

11)  Se tornariam idolatras. (v. 64)

Se entendermos os pactos bíblicos como renovações do pacto que Deus já havia estabelecido com Adão, entenderemos que as bênçãos e maldições que encontramos no Pacto Mosaico eram simplesmente a revelação de um princípio vigente desde que Deus instituiu o pacto de domínio com Adão. Por ser uma vocação para a humanidade inteira – pois todos foram criados em Adão – quando Deus revelou Sua Lei a Israel, tudo o que ele fez foi deixar claro que o princípio se aplicava tanto a Israel quanto aos gentios:

“Guardareis, pois, todos os meus estatutos e todos os meus preceitos, e os cumprireis; a fim de que a terra, para a qual eu vos levo, para nela morardes, não vos vomite. E não andareis nos costumes dos povos que eu expulso de diante de vós; porque eles fizeram todas estas coisas, e eu os abominei. Mas a vós vos tenho dito: Herdareis a sua terra, e eu vo-la darei para a possuirdes, terra que mana leite e mel”. (Levítico 20.22-24)

Aqui Deus fala de determinados povos que estavam prestes a ser destruídos. Os povos eram “os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus”. (Dt 7.1) No caso dos amorreus, Deus já havia prometido julgá-los desde o tempo de Abraão:

“Ao pôr-do-sol, caiu profundo sono sobre Abrão, e grande pavor e cerradas trevas o acometeram; então, lhe foi dito: Sabe, com certeza, que a tua posteridade será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos. Mas também eu julgarei a gente a que têm de sujeitar-se; e depois sairão com grandes riquezas. E tu irás para os teus pais em paz; serás sepultado em ditosa velhice. Na quarta geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus”. (Gênesis 15.12-16)

Deus profetizou que o povo de Israel seria escravizado pelos egípcios. Depois disso, os egípcios seriam julgados e Israel seria liberto da escravidão. Tendo sido liberto, Israel seria conduzido à terra prometida, que era onde Abraão morava quando a profecia aconteceu. Parte da terra já pertencia a outros povos. Um destes povos eram os amorreus. Portanto, para que Israel tomasse posse da terra prometida, teriam que derrotar os amorreus. Desta maneira os amorreus seriam julgados da mesma maneira que seria o Egito.

Deus explicou o motivo da destruição destes povos: “Pela maldade destas nações o SENHOR, teu Deus, as lança de diante de ti”. (Deu 9.4) Avisou aos hebreus também do que era necessário pra que não fossem destruídos da mesma maneira: “Guardareis, pois, todos os meus estatutos e todos os meus preceitos, e os cumprireis; a fim de que a terra, para a qual eu vos levo, para nela morardes, não vos vomite”. (Lv 20.22) A linguagem remete ao que havia sido dito a Caim: “Agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para da tua mão receber o sangue de teu irmão”. (Gen 4.11) O pecado faz com que a terra seja profanada, pois o homem é pactualmente responsável pelo domínio da terra. Figuradamente, a terra engole o pecado. O vômito da terra é uma reação ao pecado que a terra foi obrigada a engolir. O vômito significa o juízo de Deus. É o juízo de Deus na história contra os povos que se rebelam contra Ele.

“Os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus” (Dt 7.1) foram julgados por Deus por meio do exército de Israel pelo mesmo motivo que Deus garantiu que Israel era passivo de ser julgado. Séculos depois, Israel foi de fato julgado por meio dos exércitos da Babilônia. Foram julgados pela transgressão da Lei de Deus conforme revelado a Moisés. Isto deixa claro que as exigências da Lei de Deus não tinha jurisdição sobre Israel somente. “Ora, nós sabemos que tudo o que a Lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que se cale toda boca e todo o mundo fique sujeito ao juízo de Deus”. (Rm 3.19) Deixa claro também que o principio que rege a ascensão ou queda das nações não é arbitrário. A ascensão ou queda das nações depende inteiramente do grau de adesão destas nações as exigências da Lei de Deus. As nações são exaltadas ou rebaixadas pela aplicação das bênçãos e maldições do pacto. A história não é arbitrária, pois é movida pela Divina Providência que exalta e rebaixa as nações à medida que obedecem ou transgridem a Lei Deus. A função dos profetas era simplesmente lembrar os povos sobre a necessidade de se voltar para a Lei de Deus e avisá-los sobre como as bênçãos ou maldições pactuais seriam aplicadas mediante a obediência ou a rebelião. Como diz Jeremias:

“Então estendeu o Senhor a mão, e tocou-me na boca; e disse- me o Senhor: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca. Olha, ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares e derribares, para destruíres e arruinares; e também para edificares e plantares”. (Jeremias 1.9-10)

É sob esta ótica que devemos entender o “livro escrito por dentro e por fora”. (Ap 5.1) Assim como em Ezequiel, aqui também o livro aponta para o pacto. Para os transgressores, o pacto trás as maldições da Lei. Mas para as nações que confiam no Senhor, o pacto trás suas bênçãos. As maldições do pacto fazem com que os filhos de Adão recebam o mesmo fim que ele quando se rebelam contra a responsabilidade de exercer o domínio sobre a terra em conformidade com a vontade revelada de Deus. Mas por outro lado, “Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, o povo que ele escolheu para sua herança”. (Sl 33.12)

O direito da humanidade de viver sobre a terra não é incondicional. É condicionada a subordinação do homem a Deus. Os malfeitores são vomitados pela terra porque são rebeldes contra propósito para o qual foram criados. Ao julgar os perversos, Deus impede que seus propósitos sejam consumados. O vômito da terra são as maldições do pacto. O vômito da terra estabelece que somente aqueles que se conformam aos propósitos de Deus prevalecerão. O vômito da terra é a certeza do fracasso de tudo e todos que se levantam contra o propósito preordenado por Deus para sua criação. Como uma espada de dois gumes, a aplicação do pacto faz com que o domínio seja transferido dos malfeitores para os santos. A medida que os malfeitores são julgados na história, os santos são glorificados com as bênçãos do pacto. Para Israel isso significou a herança da terra prometida. Para os povos que lá moravam, significou a destruição. “Todas as veredas do Senhor são misericórdia e verdade para aqueles que guardam o seu pacto e os seus testemunhos… a sua descendência herdará a terra”. (Sl 25.10,13) “Aqueles que esperam no Senhor herdarão a terra. Pois ainda um pouco, e o ímpio não existirá; atentarás para o seu lugar, e ele ali não estará. Mas os mansos herdarão a terra, e se deleitarão na abundância de paz”. (Sl 37.7-11) Esse é o significado da abertura dos sete selos do livro escrito por dentro e por fora: a aplicação das maldições do pacto sobre o mundo rebelde e as bênçãos do pacto aplicadas sobre os justos.


[1] Não é chamado de “pacto” diretamente em Gênesis 1, mas é estruturado como os pactos bíblicos e é explicitamente chamado assim em Oséias 6.7.

[2] É chamado assim na tradição reformada holandesa.

[3] Rousas John Rushdoony foi um filósofo, historiador e teólogo calvinista.

[4] Rushdoony, The Institutes of Biblical Law, pp. 448-452.

[5] A parábola do proprietário da vinha (cf. Mt 20.1) descreve bem essa relação.

[6] Incluindo sua esposa que foi criada de sua costela (Gen 2.21).

[7] É por isso que Deus compara a transgressão do povo de Israel com a transgressão de Adão: “Mas eles transgrediram o pacto, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim”. (Oséias 6.7) O pacto Mosaico foi simplesmente a revelação da vocação original do homem para que Israel cumprisse.

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