V – O Templo de Deus

heavenREVELAÇÃO EM PARÁBOLAS: Uma Breve Introdução ao Apocalipse de S. João
Por Frank Brito

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O TEMPLO DE DEUS

“Depois destas coisas, olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu, e a primeira voz que ouvira, voz como de trombeta, falando comigo, disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer. Imediatamente fui arrebatado em espírito, e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono”. (Apocalipse 4.1-2)

O objetivo desta visão é identificar o céu como o verdadeiro templo de Deus – o templo do Novo Pacto – em contraste com o santuário terrestre – o templo do Antigo Pacto – que era somente uma sombra. Da mesma forma que o sacerdócio levítico era somente uma sombra do sacerdócio de Cristo e o sistema sacrifical era somente uma figura do sacrifício de Cristo, o templo terrestre era uma figura do verdadeiro templo de Deus – o céu:

“Ora, também o primeiro pacto tinha ordenanças de serviço sagrado, e um santuário terrestre… Mas Cristo, tendo vindo como sumo sacerdote dos bens já realizados, por meio do maior e mais perfeito tabernáculo… Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, mas no próprio céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus”. (Heb 9.1,11, 24)

A correspondência entre os dois santuários – o terrestre e o celestial – é importante pra entender muitas das visões no Apocalipse já que o tema do livro inteiro é a transferência do Pacto Mosaico para o Novo Pacto. Quando João foi arrebatado ao céu ele viu o trono, correspondendo ao propiciatório (cf. Ex 25.17, Ap 4.2); as sete lâmpadas, correspondendo ao candelabro (cf. Ex 37.17-24, Ap 4.5);  o mar de vidro, correspondendo a pia de bronze (cf. Ex 38.8, I Rs 7.23, Ap 4.6);  as criaturas viventes, correspondendo aos querubins  (Ex 25.18-29); o Cordeiro, correspondendo aos animais do sistema sacrifical (Ap 5.6) e os vinte e quatro anciões, correspondendo a vinte e quatro divisões de sacerdotes (I Cr 24) que havia no culto do templo. O Apocalipse menciona o templo em sete ocasiões diferentes (Ap 4-5; 7.15; 11.1-2; 14.15,17; 15.5-6,8; 16.1,17;21.22). Em todas é tratado como o centro da atuação de Deus sobre os eventos da história.

A primeira coisa que João viu quando foi arrebatado ao santuário celestial foi que “um trono estava posto” (Ap 4.2). O trono representa o domínio de Deus. As visões do Apocalipse falavam do futuro do mundo. Mas o futuro não pode ser entendido se não como o desenvolvimento dos propósitos de Deus. Deus é o soberano predestinador de tudo o que jamais acontece. Nada acontece fora de Seu eterno propósito. Tudo e todos são regidos por seu poder e para sua glória. Deus “faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade”. (Ef 1.11) Jesus Cristo ensinou que isso é verdade até para questões mínimas como a morte de um pássaro: “Não se vendem dois passarinhos por um asse? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai”. (Mateus 10.29) Nabucodonosor reconheceu é verdade para todas as coisas:

“… eu, Nabucodonosor, levantei ao céu os meus olhos, e voltou a mim o meu entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre; porque o seu domínio é um domínio sempiterno, e o seu reino é de geração em geração. E todos os moradores da terra são reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera no exército do céu e entre os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Daniel 4.34-35)

Por isso o Apocalipse apresenta o trono de Deus – em seu santo templo – como o centro de todas as coisas. O Senhor, assentado em seu trono, é a garantia que os justos certamente serão exaltados da mesma maneira que os ímpios serão julgados:

“O Senhor está no seu santo templo, o trono do Senhor está nos céus; os seus olhos contemplam, as suas pálpebras provam os filhos dos homens. O Senhor prova o justo e o ímpio; a sua alma odeia ao que ama a violência. Sobre os ímpios fará chover brasas de fogo e enxofre; um vento abrasador será a porção do seu copo. Porque o Senhor é justo; ele ama a justiça; os retos, pois, verão o seu rosto”. (Sl 11:4-7)

Em seguida João viu algumas características peculiares daquele que estava assentado sobre o trono:

“… e aquele que estava assentado era, na aparência, semelhante a uma pedra de jaspe e sárdio; e havia ao redor do trono um arco-íris semelhante, na aparência, à esmeralda”. (Apocalipse 4.3)

Jaspe, sárdio e esmeralda estavam entre as pedras preciosas que existiam em abundância no Éden (Ez 28.13). Também estavam entre as pedras que existiam no peitoral do Sumo Sacerdote (Ex 28.15-17). Havia doze pedras no total. As pedras eram organizadas em quatro fileiras de três pedras cada uma. Cada pedra representava uma das doze tribos de Israel (Ex 28.21).O sárdio era a primeira pedra no peitoral do Sumo Sacerdote (Ex 28.17).O jaspe era a última (Ex 28.20)Assim como no peitoral do Sumo Sacerdote, o Apocalipse também associa as doze pérolas as doze tribos de Israel: “E tinha um grande e alto muro com doze portas, e nas portas doze anjos, e nomes escritos sobre elas, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel”. (Ap 21.12)Se a ordem das pedras for a mesma ordem do nascimento dos patriarcas, isso significa que o sárdio é equivalente a Rúben – o primogênito – e o jaspe é equivalente a Benjamim – o caçula. É provável que as pedras sigam a mesma ordem do nascimento, pois esta ordem é mantida na maioria das vezes em que as tribos são listadas juntas. Sendo assim, o propósito de dizer que “aquele que estava assentado era, na aparência, semelhante a uma pedra de jaspe e sárdio”, é identificar o Senhor como o primeiro e o último: Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o primeiro e o derradeiro”. (Ap 22.13)

O arco-íris ao redor do trono aponta para o pacto que Deus fez com Noé: “O meu arco tenho posto nas nuvens, e ele será por sinal de haver um pacto entre mim e a terra”. (Gn 9.13) Pra entender a importância deste pacto para as visões do Apocalipse precisamos entender bem o contexto original em que o pacto foi estabelecido:

“Então disse o Senhor: O meu Espírito não permanecerá para sempre no homem, porquanto ele é carne, mas os seus dias serão cento e vinte anos… Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente… E disse o Senhor: Destruirei da face da terra o homem que criei, tanto o homem como o animal, os répteis e as aves do céu… Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor… Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra. Então disse Deus a Noé: O fim de toda carne é chegado perante mim; porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os destruirei juntamente com a terra. Faze para ti uma arca…” (Gênesis 6.3,5-14)

O aviso de Deus de que seu Espírito não permaneceria mais com o homem está relacionado ao fato de que o Éden ainda existia sobre a terra como o lugar especial da habitação de Deus. Frequentemente, os termos Éden e Jardim do Éden são usados como sinônimos. Mas o Gênesis diz que o Jardim ficava somente no Leste da região chamada de Éden (Gen 2.8). Além disso, as Escrituras revelam que o Jardim ficava no topo de um monte (Ez 28.13-14). Isso explica porque na Bíblia os montes são sempre associados a revelação e manifestação de Deus. No monte Moriá que Deus ofereceu um substituto penal pra impedir que Abraão sacrificasse Isaque (Gen 22.2). Foi também no monte de Moriá que Salomão construiu o templo (I Cr 3.1). A revelação da Lei por meio de Moisés aconteceu no monte Sinai (Ex 19.20) Foi também no monte Sinai que Deus reestabeleceu Elias como seu mensageiro para as nações (I Rs 19). O primeiro sermão de Jesus aconteceu sobre um monte (Mt 5-7).  Neste sermão, ele descreveu a Igreja como uma cidade edificada sobre uma montanha. Foi sobre um monte que aconteceu sua transfiguração (Mc 3.13-19). Foi sobre um monte que aconteceu seu sermão profético. Foi sobre um monte e num jardim que ele foi tentado e preso antes de ser morto (Mt 26.30). E foi também sobre um monte que ele deu a Grande Comissão (28.16-20).

Quando o homem foi expulso do Jardim, Deus “pôs ao oriente do jardim do Éden os querubins” (Gen 3.24) pra impedir que ele voltasse. A necessidade dos querubins estarem somente ao oriente do Jardim significa que ele era inacessível de qualquer outra parte. É interessante notar que a palavra paraíso significa jardim fechado (cf. Ct 4.12). É provável que os homens tenham continuado a habitar próximo ao Jardim do Éden por muito tempo. O Gênesis diz: “saiu Caim da presença do Senhor, e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden”. (Gen 4.16) Assim, os sacrifícios eram provavelmente oferecidos em um encontro com Deus na entrada do Jardim onde estavam os querubins.

No Grande Dilúvio “as águas prevaleceram excessivamente sobre a terra; e todos os altos montes que havia debaixo do céu foram cobertos”. (Gen 7.19) Isso significa que o monte do Éden também foi submergido. Assim, o Dilúvio marcou o fim da habitação especial de Deus entre os homens. É por isso que somente depois do Dilúvio que o Gênesis fala que Deus foi chamado de El Elyon – O Deus Altíssimo (cf. Gen 14.18). Isso reflete o afastamento de Deus da terra. Não haveria mais qualquer lugar da terra no qual o homem poderia se encontrar com Deus. O lugar especial da habitação de Deus passou a ser o céu[1].

A primeira coisa que Noé fez depois de sair da arca foi oferecer sacrifícios a Deus:

“Edificou Noé um altar ao Senhor; e tomou de todo animal limpo e de toda ave limpa, e ofereceu holocaustos sobre o altar. Sentiu o Senhor o suave cheiro e disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice; nem tornarei mais a ferir todo vivente, como acabo de fazer. Enquanto a terra durar, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite. Abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra”. Disse também Deus a Noé, e a seus filhos com ele: Eis que eu estabeleço o meu pacto convosco e com a vossa descendência depois de vós, e com todo ser vivente que convosco está: com as aves, com o gado e com todo animal da terra; com todos os que saíram da arca, sim, com todo animal da terra. Sim, estabeleço o meu pacto convosco; não será mais destruída toda a carne pelas águas do dilúvio; e não haverá mais dilúvio, para destruir a terra. E disse Deus: Este é o sinal do pacto que firmo entre mim e vós e todo ser vivente que está convosco, por gerações perpétuas: O meu arco tenho posto nas nuvens, e ele será por sinal de haver um pacto entre mim e a terra. E acontecerá que, quando eu trouxer nuvens sobre a terra, e aparecer o arco nas nuvens, então me lembrarei do meu pacto, que está entre mim e vós e todo ser vivente de toda a carne; e as águas não se tornarão mais em dilúvio para destruir toda a carne. O arco estará nas nuvens, e olharei para ele a fim de me lembrar do pacto perpétuo entre Deus e todo ser vivente de toda a carne que está sobre a terra. Disse Deus a Noé ainda: Esse é o sinal do pacto que tenho estabelecido entre mim e toda a carne que está sobre a terra”. (Gênesis 8.20-22;9.1,8-17)

A existência de sacrifícios desde o princípio do mundo aponta para a restauração do homem ao propósito para o qual foi criado. O primeiro sacrifício foi ministrado pelo próprio Deus quando ele fez túnicas pra cobrir a nudez de Adão e Eva (Gen 3.1). Depois da expulsão, lemos sobre as ofertas de Caim e Abel. Não há detalhes de como os primeiros homens foram informados da necessidade de sacrifícios, mas é certo que tenha sido sob a ordem do próprio Deus. De fato, a comunhão com Deus ainda não havia sido inteiramente restaurada. A morte continuava a reinar. O homem continuava expulso do Éden e impedida de entrar pelos querubins. Ainda assim, os sacrifícios apontavam para algum tipo de restauração daquilo que foi perdido. O sacrifício do animal apontava para a ira de Deus se desviando do homem e sendo imputada sobre um substituto penal.

Sabemos que o substituto penal não era literalmente o animal. Como não há detalhes sobre como a prática começou, não sabemos ao certo até que ponto havia desde o principio um entendimento claro do significado dos sacrifícios em relação a Jesus Cristo. O que podemos saber é que alguma noção eles certamente poderiam ter do valor simbólico do sacrifício. Afinal, “é impossível que o sangue de touros e de bodes tire pecados” (Heb 10:4) e Deus não se agrada do “sacrifício de tolos”. (Ecl 5.1) Consequentemente, de alguma maneira eles teriam sido informados sobre o fato de que tais de sacrifícios não eram eficazes em si mesmos para efetuar expiação ou estabelecer a comunhão com Deus e que eram somente representantes pactuais que apontavam para uma realidade que transcendia o próprio animal. É uma hipótese perfeitamente plausível que Deus tenha lhes dado um conhecimento mais extenso sobre Jesus Cristo e seu sacrifício expiatório sem que tenha ficado registrado no Gênesis. Mas o mais provável é era que eles simplesmente tinham consciência do sacrifício como um símbolo da misericórdia de Deus restabelecendo a comunhão com a humanidade, mas sem uma noção tão clara do animal como o representante pactual de Jesus Cristo.

Sem Jesus Cristo a humanidade não poderia ter sequer continuado a existir. Evidentemente, Jesus Cristo ainda não havia nascido. Mas o Novo Testamento ensina com muita clareza que tais sacrifícios eram sombras e figuras do sacrifício de Jesus Cristo (cf. Heb 9-10). Este sim é o fator determinante e eficaz para a expiação do pecado e da restauração da comunhão com Deus. Sendo assim, os méritos de sua morte foram, retroativamente, a causa eficaz da paciência e misericórdia de Deus desde o princípio do mundo. Com isso em mente, devemos entender a Escritura fala dos sacrifícios, o propósito é revelar Jesus Cristo como o único fundamento da esperança humana para a restauração daquilo que havia se perdido em Adão. O Apocalipse reflete isso quando identifica Jesus Cristo como o Cordeiro que foi morto.  O veredicto para o pecado é a morte. Mas o animal como um substituto penal aponta pra Jesus Cristo como a esperança da vida eterna. A morte do primeiro animal pra cobrir a nudez do homem apontava para a morte de Jesus Cristo pra nos cobrir de nossos pecados. Os sacrifícios apontavam para Cristo como o centro da história e única esperança do mundo. Noé foi salvo porque “achou graça aos olhos do Senhor”. (Gen 6.8) E a causa desta graça não poderia ser outra coisa se não a imputação da justiça de Cristo sobre ele conforme pactualmente representado nos sacrifícios que ofereceu.

A história do mundo de Adão até Noé revela o padrão geral pelo qual Deus se relaciona com a humanidade. Primeiro, somos informados que o pecado trás o juízo de Deus. E o juízo de Deus não é somente individualmente sobre aqueles que pecam. É também coletivo e intergeracional. Gerações que dão continuidade ao pecado de seus pais aumentam progressivamente a ira de Deus até tenham enchido a medida da iniquidade para que sejam julgados. Segundo, somos informados pelo sacrifício de animais que Jesus Cristo é a única esperança. Sem Jesus Cristo, a humanidade não poderia ter sequer continuado a existir. Jesus Cristo é o único meio pelo qual a humanidade pode fugir do juízo de Deus – individualmente ou coletivamente. Fora de Jesus Cristo não há justificação, remissão de pecados ou sequer a capacidade de obedecer aos mandamentos de Deus. Em Jesus Cristo, a humanidade é restaurada ao seu propósito original. Terceiro, somos informados que à medida que os ímpios vão sendo julgados, os justos recebem o domínio da terra em seu lugar. Antes do Grande Dilúvio, o mundo zombava de Noé e de sua fé em Deus. Mas quando o Dilúvio acabou, ele e sua família se tornaram os herdeiros da terra.

Foi depois que Noé ofereceu sacrifícios que Deus estabeleceu seu pacto ele. Na verdade, foi somente o restabelecimento do mesmo pacto que já havia sido estabelecido com Adão. Noé recebeu a mesma ordem de aumentar a população da terra (cf. Gen 1.28, 9.1). A terra e os animais continuaram sendo tratados por Deus como subordinadas ao homem (cf. Gen 1.28, 9.2,15). E a imagem de Deus foi novamente mencionada como o fator determinante que diferencia o homem das demais criaturas (cf. Gen 1.27, 9.5-6). Além disso, Deus fez duas promessas que estão diretamente ligadas à vocação do homem conforme o que foi estabelecido com Adão. Ele prometeu que até o fim do mundo preservaria a estabilidade geral do clima e das estações que mantem a estabilidade da terra (Gen 8.22). E ele também prometeu que nunca mais destruiria o mundo como ele acabara de fazer (Gen 9.11,15). O propósito destas promessas é garantir que a raça humana seja capaz de dar continuidade a sua vocação de dominar sobre a terra como vice-regente de Deus.

O objetivo da visão no Apocalipse do arco-íris sobre o trono de Deus é trazer a memória a promessa de Deus para sua Criação. A promessa fora feita tantos séculos antes, mas “Deus não é homem, para que minta… Porventura, tendo ele dito, não o fará? Ou, havendo falado, não o cumprirá?” (Num 23.19) O arco-íris aparece sobre o trono porque é o poder e fidelidade de Deus que garante que a promessa será cumprida independente de qualquer oposição. O trono de Deus é a causa de o mundo ser preservado. “O Senhor reina; está vestido de majestade. O Senhor se revestiu, cingiu-se de fortaleza; o mundo também está estabelecido, de modo que não pode ser abalado. O teu trono está firme desde a antiguidade; desde a eternidade tu existes”. (Sl 93.1-2)

O texto diz que era o “arco-íris semelhante, na aparência, à esmeralda”. (Ap 4.3) Assim como o jaspe e o sárdio, a esmeralda estavam entre as pedras preciosas que que existiam no peitoral do Sumo Sacerdote (Ex 28.15-17). A esmeralda era a primeira pedra da segunda fileira (Ex 28.18). Isto significa que a esmeralda era a quarta pedra e condiz com a ordem em que a esmeralda aparece nos fundamentos do muro da Nova Jerusalém: “E os fundamentos do muro da cidade estavam adornados de toda a pedra preciosa. O primeiro fundamento era jaspe; o segundo, safira; o terceiro, calcedônia; o quarto, esmeralda”. (Ap 21.19) Se cada pedra representava uma tribo de Israel, a esmeralda representava o quarto filho, Judá (Gn 29.35).  Judá foi a tribo de onde veio Jesus Cristo conforme já havia sido profetizado por Miquéias:  “Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é que me sairá aquele que há de reinar em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. (Miquéias 5.2) Sendo assim, devemos entender que o arco-íris era semelhante a esmeralda pra significar que Jesus Cristo é aquele que faz cumprir o pacto que Deus fizera com Noé. Jesus Cristo é a única esperança. Em Jesus Cristo, a humanidade é restaurada ao seu propósito original em comunhão com Deus.

Em seguida, João viu os vinte e quatro anciões:

“Havia também ao redor do trono vinte e quatro tronos; e sobre os tronos vi assentados vinte e quatro anciãos, vestidos de branco, que tinham nas suas cabeças coroas de ouro”. (Apocalipse 4.4)

Os vinte e quatro anciões representam o novo sacerdócio do qual o sacerdócio levítico era somente uma sombra. O trono e a coroa indicam que sejam reis. O número vinte e quatro deve-se ao fato de que no Antigo Pacto este era o número de divisões de sacerdotes (I Cr 24) no culto do templo. Os vinte e quatro anciões são reis e sacerdotes simultaneamente porque o sacerdócio levítico do Antigo Pacto foi substituído pelo sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 7.15). É o que o Apocalipse já havia dito sobre os cristãos de forma geral: “e nos fez reino, sacerdotes para Deus”. (Ap 1.6) E também: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.(1Pe 2:9) Esta é uma característica de todos os cristãos. É possível que o número vinte e quatro seja também uma referência aos doze filhos e de Israel e aos doze apóstolos (cf. Ap 21.12,14) de forma que estes representam a totalidade do povo de Deus no Antigo e Novo Testamento. Mas se entendemos que o propósito da visão é simplesmente comparar o templo terrestre com o celestial, não há é absolutamente necessário que o número vinte e quatro seja entendido literalmente. É uma maneira de dizer que os cristãos são os sucessores dos levitas e que o culto judaico centralizado no templo terrestre foi substituído pelo culto cristão centralizado no céu.

Os cristãos em vida não estão literalmente no céu. Mas Paulo ensinou que estamos figuradamente assentados com Cristo no céu:

“Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus, para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus”. (Ef 2.4-7)

“Se, pois, fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; porque morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”. (Colossenses 3.1-3)

Aqui Paulo fala da morte e ressurreição espiritual que nos faz reis e sacerdotes. É mediante este sacerdócio real que “ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus” (Ef 2.5). Não poderíamos ser sacerdotes sem esta ligação espiritual com o céu, pois só é sacerdote quem ministra no santuário (cf. Hb 8.1-6). É isso que a visão dos vinte e quatro anciões procura representar, que os cristãos ministram espiritualmente com Cristo no templo celestial.


[1] Na ocasião da construção da torre de Babel o texto dá a entender que a habitação de Deus já era no céu: “Então desceu o Senhor para ver…” (Gen 11:5)

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