IX – O Culto Imperial

paganREVELAÇÃO EM PARÁBOLAS: Uma Breve Introdução ao Apocalipse de S. João
Por Frank Brito

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O CULTO IMPERIAL

“E vi subir da terra outra besta… e fazia que a terra e os que nela habitavam adorassem a primeira besta…” (Apocalipse 13.11-12)

A segunda besta – o falso profeta – é diretamente ligada e dependente da primeira besta – o Império Romano. Isso indica que ela também não pode ser interpretada como significando algo em nosso próprio tempo ou futuro a nós que estamos no século XXI, mas precisa ser entendida como tendo sido diretamente ligada e dependente do Império Romano já no tempo do Apóstolo João. A primeira besta refere-se primariamente ao poder político do Império. Já a descrição segunda besta deixa claro que seu poder era primariamente religioso.  Por isso, a besta que sobe da terra não é mais chamada de “besta” no resto do livro e passa a ser chamada de “falso profeta” enquanto a que sobe do mar é chamada simplesmente de “a besta”[1]. O título de “falso profeta” reflete o fato de sua função ser primariamente religiosa.

O Império Romano era uma teocracia pagã[2]. O paganismo imperial era administrado pelo Collegium Pontificum – o Colégio de Pontífices. Ao Colégio de Pontífices competia a suprema superintendência de todos os assuntos referentes à religião, assim como matérias relacionadas ao interesse público e à vida privada. Além disso, era a instituição responsável pela guarda dos livros que continham as regras rituais, e também por dar consultas a qualquer um que solicitasse informações em matéria de religião. Religião esta que, em Roma, alcançava os mais variados assuntos.  Ao Colégio incumbia a tarefa de zelar pela observância da religião e dos ritos, evitando que qualquer irregularidade pudesse surgir da negligência no cumprimento dos antigos costumes, ou da tentativa de introdução de ritos estrangeiros. Os pontífices determinavam a forma de adoração dos deuses da cidade, assim como passaram, com o tempo, a dispor sobre a forma própria de enterro e até de interpretação dos fenômenos da natureza. Era Collegium Pontificum o responsável por promover o culto e a adoração ao imperador. Juramentos precisavam ser feitos em nome do espírito do imperador e sua imagem precisava ser adorada publicamente. O culto imperial foi um dos fatores da centralização e de unificação do Império Romano, sendo essencial para a sobrevivência de Roma e por isso eram tratados como traidores aqueles que o negligenciava. O paganismo romano era o fundamento do poder político do Império.  A segunda besta – o falso profeta – eram os promotores do paganismo imperial, administrado pelo Colégio de Pontífices.

O paganismo romano tinha dois aspectos importantes. Primeiro, havia o culto e a adoração aos deuses sancionados por Roma. Segundo, havia o culto e a adoração aos imperadores. A aprovação dos deuses não dependia tanto do comportamento moral de uma pessoa, mas da observância precisa de rituais religiosos. Os deuses não eram como o Deus de Israel, reconhecido por sua santidade e exigindo dos homens uma conduta igualmente santa. Cada deus precisava de uma imagem – geralmente uma estátua ou relevo em pedra ou bronze – e um altar ou templo no qual se ofereciam orações e sacrifícios. Pedidos e orações eram apresentadas aos deuses como uma troca: se o deus fez o que foi solicitado (chamado de nuncupatio), então o adorador promete fazer uma determinada coisa em troca (chamada de solutio). Para convencer os deuses a favorecer os pedidos, um adorador poderia fazer oferendas de comida ou vinho, ou realizar um ritual de sacrifício de um animal antes de comê-lo. O lado público da religião era mais organizado e mais formal do que o privado. Em casa, o chefe da família realizava os rituais religiosos para sua família. Fora dos lares, os deuses eram adorados pelo Estado, que empregava colégios de sacerdotes altamente treinados e sacerdotisas.

Na prática, Roma não estava tão preocupado com as diversas religiões, filosofias e cultos que surgiam no império, no entanto que cada uma delas se conformasse às normais morais do Império e as exigências da adoração e culto imperial. A perseguição e intolerância só existiam à medida que o Império sentia que alguma religião ou sistema filosófico era uma ameaça as bases do Império. O que nós precisamos entender claramente é que os primeiros cristãos não foram perseguidos simplesmente porque adoravam Jesus Cristo. Onde o paganismo é a norma, mais um ou menos um deus faz pouca diferença. Os primeiros leitores do Apocalipse não foram perseguidos simplesmente por prestar culto e adoração a Jesus Cristo, mas porque adoravam Jesus Cristo somente, o serviam incondicionalmente e não estavam dispostos a dividir ou seu culto com outros deuses e senhores. Diante do culto ao Imperador e a sua imagem, eles estavam firmes na verdade revelada pelo único Deus verdadeiro, o Deus de Israel: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás…” (Ex 20.3-5)E também: “Pois, ainda que haja também alguns que se chamem deuses… para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem nós vivemos; um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual existem todas as coisas, e por ele nós também”. (I Co 8.5-6)

Jesus Cristo não é um mero homem que nasceu há mais de dois mil anos. Ele é ninguém menos do que o único Deus verdadeiro, o Deus Todo-Poderoso encarnado, conforme o Isaías previu séculos antes: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o governo estará sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Do aumento do seu governo e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para estabelecê-lo e o fortificar em retidão e em justiça, desde agora e para sempre; o zelo do Senhor dos exércitos fará isso”.(Is 9.6-7) Por isso, é a obrigação de todos os homens adorá-lo e cultuá-lo como Deus da mesma maneira que fez Tomé: “Depois disse a Tomé: Chega aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; chega a tua mão, e mete-a no meu lado; e não mais sejas incrédulo, mas crente. Respondeu-lhe Tomé: Senhor meu, e Deus meu!”(Jo 20.27-28)

Foi sabendo disto e querendo rivalizar com o Deus de Israel que Satanás não somente fazia com que falsos deuses fossem adorados, mas fez também com que os imperadores romanos fossem reconhecidos e adorados como sendo encarnações e manifestações humanas destes falsos deuses. Os césares de Roma eram adorados como deuses, sendo oficialmente designados com os títulos de Sebastos[3], Divus[4] e Theos[5].  Normalmente o culto aos imperadores acontecia depois que morriam. Mas diferente dos demais, Calígula e Nero promoveram o adoração a si mesmos quando ainda estavam vivos. Calígula – a quarta cabeça da besta – acreditava ser Zeus encarnado. O historiador Flávio Josefus escreveu sobre como ele queria impor seu culto até mesmo no templo de Deus em Jerusalém:

“Ele estendeu sua impiedade até mesmo contra os judeus. Enviou Petrônio com um exército a Jerusalém para colocar suas estátuas no Templo, e ordenou-lhe que, caso os judeus não autorizassem, ele deve matar aqueles que criassem oposição, e levar todo o resto para em cativeiro”.[6]

A única coisa que impediu que sua imagem fosse de fato instalada no templo de Deus em Jerusalém foi que ele morreu assassinado. Nero – a sexta cabeça da besta – acreditava ser a encarnação do deus Apollo. Foi reconhecido como “Deus Todo-Poderoso” e “Salvador do mundo”. O historador Dio Cassius[7] descreveu o culto a Nero prestado por Tiridates, rei da Armênia:

“De fato, a conferência não se limitou a meras conversas. Uma plataforma elevada foi erigida e imagens de Nero foram postas em cima. Na presença dos armênios, partos e romanos Tindates se aproximou das imagens e prestou-lhes reverência. Então, depois de sacrificar a elas, chamando-as por nomes grandiosos nomes, ele tirou o diadema de sua cabeça e pôs sobre elas… Thidates publicamente se prostrou diante de Nero que estava assentado na rostra no Forum: ‘Mestre, eu sou descendente de Arsaces, irmão dos reis Vologaesus e Pacorus, e teu escravo. E eu vim a ti, meu Deus, para adorar-te como eu faço com Mitra. O destino que determinaste para mim será meu, porque tu és a minha Fortuna e meu Destino’”.[8]

Na mesma obra, ele fala sobre o destino de um senador romano que se recusou a prestar culto e sacrifícios a “divina” habilidade musical de Nero:

“Thrasaea foi executado porque ele deixou de aparecer regularmente no Senado… e porque ele nunca ia… fazer sacrifícios a Voz Divina Nero como faziam o resto”.[9]

Dio Cassius escreveu também sobre como Nero foi recebido em Roma em 68 A.D. ao voltar de uma viagem para a Grécia:

“Nero foi deificado pelos gregos como ‘Zeus, nosso Libertador’. Sobre o altar de Zeus no templo principal da cidade eles escreveram as palavras ‘a Zeus, nosso Libertador, a saber, Nero eternamente’. No templo de Apolo eles colocaram a sua estátua e o chamavam de ‘o novo sol, iluminando os helenos’, e ‘o unico amante dos gregos de todos os tempos’”.[10]

Segundo o Apocalipse, o paganismo imperial não era promovido somente pelo poder da espada e da perseguição implacável, mas também pela operação de sinais e prodígios: “E operava grandes sinais… e, por meio dos sinais que lhe foi permitido fazer na presença da besta, enganava os que habitavam sobre a terra…” (Ap 13.13-14)Quanto a isso, devemos lembrar que a Bíblia nunca atribui a capacidade de operar sinais e prodígios somente aos servos e profetas de Deus. As Escrituras continuamente avisam sobre o perigo de não ser enganado falsos profetas que também manifestam a capacidade de operar sinais e prodígios.

Deus avisou sobre o perigo de falsos profetas que seriam capazes de operar sinais e prodígios: “Se se levantar no meio de vós profeta, ou sonhador de sonhos, e vos anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o sinal ou prodígio de que vos houver falado, e ele disser: Vamos após outros deuses – deuses que nunca conhecestes – e sirvamo-los! Não ouvireis as palavras daquele profeta, ou daquele sonhador…” (Dt 13.1-3). O próprio Jesus avisou sobre o mesmo perigo “… hão de surgir falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios; de modo que, se possível fora, enganariam até os escolhidos”. (Mt 24.24) Os magos do Egito eram capazes de transformar varas em serpentes: “Faraó também mandou vir os sábios e encantadores; e eles, os magos do Egito, também fizeram o mesmo com os seus encantamentos. Pois cada um deles lançou a sua vara, e elas se tornaram em serpentes; mas a vara de Arão tragou as varas deles”. (Ex 7.11-12)No Novo Testamento, lemos sobre as feitiçarias de Simão: “Ora, estava ali certo homem chamado Simão, que vinha exercendo naquela cidade a arte mágica, fazendo pasmar o povo da Samária, e dizendo ser ele uma grande personagem; ao qual todos atendiam, desde o menor até o maior, dizendo: Este é o Poder de Deus que se chama Grande”. (At 8.9-10)A Bíblia nunca diz que o poder sobrenatural seja uma garantia que alguém seja um verdadeiro servo de Deus. A única garantia é que os ensinamentos estejam em conformidade com a Palavra de Deus. Os que se guiam por sinais e prodígios sem considerar se os ensinamentos dos que operam tais sinais são conforme a Palavra de Deus sofrem grandes riscos de serem enganados por falsos mestres e falsos profetas. Sobre isto, João Calvino escreveu com muita clareza:

“A marca distintiva da boa doutrina, da qual o autor é Cristo, é esta: Ela não se inclina a buscar a glória dos homens, mas a de Deus (Jo 7.18; 8.50)… Convém que tenhamos sempre em mente que Satanás tem seus milagres, os quais, embora sejam falazes prestidigitações, antes que genuínos prodígios, entretanto são de tal natureza, que podem seduzir os desavisados e simplórios (II Ts 2.9, 10). Mágicos e encantadores sempre se destacaram por seus milagres. A idolatria sempre foi nutrida por milagres de causar pasmo. Contudo, eles não legitimam nossa superstição, nem dos magos, nem dos idólatras”.[11]

Nós não podemos subestimar a realidade e força de manifestações sobrenaturais para popularizar falsas religiões e heresias. Falsas religiões e heresias não se estabelecem no mundo simplesmente porque as pessoas são ingênuas demais pra perceber que se trata de falsidade. Na maioria dos casos, a inspiração satânica que rege as falsas religiões não somente cuida que a mentira seja bem propagada, mas também faz com que sinais e prodígios acompanhem a divulgação das mentiras.  Jesus não estava blefando quando disse que os falsos profetas fariam “grandes sinais e prodígios; de modo que, se possível fora, enganariam até os escolhidos”. (Mt 24.24)Apesar disso, não devemos ser ingênuos pra acreditar que todo suposto sinal e prodígio operado por falsos profetas sejam de fato manifestações sobrenaturais. Demônios são comprometidos com a divulgação da mentira e nunca com a verdade. O propósito é que falsas religiões e heresias sejam bem divulgadas e seguidas. Isto é feito de qualquer maneira que puderem, seja por manifestações sobrenaturais legítimas, seja por meros truques e ilusionismo. Desta maneira, não foi sem charlatanismo, truques, sinais e prodígios de mentiras que o paganismo romano era promovido e difundido por todo Império.

Além de promover o culto Imperial, o Apocalipse diz também que a segunda besta “fez que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, lhes fosse posto um sinal na mão direita, ou na testa, para que ninguém pudesse comprar ou vender, senão aquele que tivesse o sinal…” (Ap 13:16-17)Assim como é o caso do número da besta, a marca da besta também sempre foi causa de muita especulação. Muitos daqueles que interpretam a besta como significando algo contemporâneo ou futuro a nós que estamos no século XXI acreditam que a marca da besta será algum tipo de chip implantado sob a pele das pessoas de forma que esse se torne o único meio de efetuar transações econômicas. Costumam acreditar que existe em nosso próprio tempo uma conspiração mundial para unificar todo o sistema econômico do mundo de forma que tudo seja submetido ao poder da besta. Mas em um livro cheio de dragões, bestas e criaturas semelhantes, é fatal achar que não devemos pensar duas vezes antes de entender as visões literalmente. Devemos comparar Escritura com Escritura e não Escritura com nossa própria imaginação para chegar a conclusões sólidas sobre o que cada símbolo significa. Devemos procurar na própria Bíblia pistas pra compreender o que o Apocalipse significa em fez de deixar nossa imaginação voar com base no noticiário do dia.

A ideia de um povo sendo marcado na testa ou na mão tem origem no livro de Deuteronômio: “Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te. Também as atarás por sinal na tua mão e te serão por frontais entre seus olhos”. (Dt 6.4-8) Este mandamento foi citado por Jesus Cristo como sendo maior de todos os mandamentos da Lei de Deus: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento”. (Mt 22.36-38)O coração, sendo um órgão de nosso corpo, não pode ser aberto por meio de uma cirurgia pra que literalmente escrevamos palavras lá. Também não era possível que toda a Lei de Deus fosse literalmente atada na mão ou na testa entre os olhos[12]. A ordem de Deus aqui não pode possivelmente ser entendida literalmente. A linguagem aqui é evidentemente figurada.

Na Bíblia o coração costuma se referir figuradamente ao centro das vontades, desejos e intenções do homem.  Quando Deus diz que sua Lei deve ser inscrita em nossos corações, ele não está mandando que façamos uma cirurgia. Ele está ordenando que nossas vontades e desejos sejam submissos aos seus mandamentos. Assim também, quando ele fala da Lei de Deus na testa diante de nossos olhos, ele está falando figuradamente que devemos amar a Deus “de todo o teu entendimento”. (Mt 22.37) E quando Deus fala de sua Lei atada em nossa mão, ele está falando figuradamente do dever de amá-lo “de todas as tuas forças”. (Dt 6.5)

Esse é o pano de fundo para a visão da marca da besta. Os servos da besta não tem a Lei de Deus atada na testa (mente) ou na mão (força). Eles não prestam obediência a Deus e sim a besta. O objetivo do Apocalipse não era alertar sobre um chip que só viria séculos depois. Era alertar sobre o perigo de prestar obediência e culto aos imperadores de Roma. Era alertar sobre o perigo de substituir os mandamentos de Jesus Cristo pelos mandamentos de deuses pagãos. Quando João mandou seus destinatários não fossem marcados pela besta, isso realmente era uma possibilidade a eles. Não seria possível somente para nós mais de dois mil anos depois, mas era algo para aqueles que estavam sendo perseguidos e caçados por Roma. Aqueles que se recusavam a adorar Nero eram brutalmente perseguidos. Não podiam levar suas vidas normalmente. Não podiam comprar ou vender. Perdiam a casa, a família, os bens, a honra e até a própria vida.

A marca da besta não é a única marca do Apocalipse. Alguns versos depois, lemos sobre outros que também foram marcados: “E olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o Monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, que traziam na testa escrito o nome dele e o nome de seu Pai”. (Ap 14.1)Esta não era uma tatuagem que Deus faria na testa de seus eleitos. É somente uma forma figurada de falar da obediência daqueles que tiveram coragem de resistir ao Império. Podiam ser roubados, perseguidos e brutalmente assassinados. Mas “venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até a morte”. (Ap 12.11) Isto é o que o próprio Jesus já havia ensinado: “Quem achar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á”. (Mt 10.39)

A relação entre o poder políticodo Império Romano e os promotores do paganismo imperial nos serve de lição para entender questões importantíssimas sobre o funcionamento do mundo. A função da segunda besta era fazer com que o sistema religioso, a ideologia, a economia e toda a forma de pensar dos habitantes do Império Romano fosse de maneira que justificasse o poder político do Império. Para que o Império Romano deixasse de ser o que era, seria necessário que primeiro fosse minada e subvertida as bases do paganismo romano.  O filósofo e economista Friedrich Hayek descreveu bem a questão:

“A sociedade só mudará de rumo se houver mudança no campo das ideias. Primeiro você tem que se dirigir aos intelectuais, professores e escritores, com uma argumentação bem fundamentada. Será a influência deles sobre a sociedade que prevalecerá e os políticos seguirão atrás”. 

O que precisamos entender nesta relação é que em todo sistema de poder e autoridade precisa que seja difundida entre o povo uma ideologia, uma filosofia, uma cosmovisão que sirva pra fortalecer a sua autoridade. Isto pode ser verificado em todas as épocas e em todas as formas de governo. No caso do Império Romano, a ideologia que estabelecia, fortalecia e justificava a autoridade dos imperadores era o paganismo imperial. A política romana era somente o desenvolvimento lógico e a aplicação na esfera política da religião e modo de pensar dos habitantes do Império. O poder político do Império Romano não poderia existir da maneira que existiu sem que o paganismo romano fosse da maneira que era.

Podemos ver esse principio em pleno funcionamento na história do povo de Israel. Para que a monarquia tivesse espaço em Israel, foi necessário primeiro que mudasse a mentalidade do povo. Foi necessário que suas ideias políticas fossem moldadas a partir de pressupostos pagãos, invejando o sistema político das nações vizinhas:

“Então todos os anciãos de Israel se congregaram, e vieram ter com Samuel, a Ramá, e lhe disseram: Eis que já estás velho, e teus filhos não andam nos teus caminhos. Constitui-nos, pois, agora um rei para nos julgar, como o têm todas as nações. Mas pareceu mal aos olhos de Samuel, quando disseram: Dá-nos um rei para nos julgar. Então Samuel orou ao Senhor. Disse o Senhor a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não é a ti que têm rejeitado, porém a mim, para que eu não reine sobre eles. Conforme todas as obras que fizeram desde o dia em que os tirei do Egito até o dia de hoje, deixando-me a mim e servindo a outros deuses, assim também fazem a ti”. (I Samuel 8.4-8)

Os falsos profetas e sacerdotes apóstatas tinham um papel fundamental na transformação da mentalidade do povo:

“Pois os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar a instrução, porque ele é o mensageiro do Senhor dos exércitos. Mas vós vos desviastes do caminho; a muitos fizestes tropeçar na Lei; corrompestes o pacto de Levi, diz o Senhor dos exércitos”.(Malaquias 2.7-8)

“O ancião e o varão de respeito, esse é a cabeça; e o profeta que ensina mentiras, esse e a cauda. Porque os que guiam este povo o desencaminham; e os que por eles são guiados são devorados”. (Isaías 9.15-16)

Se quisermos entender porque as coisas são da maneira que são em nosso próprio contexto histórico, uma das primeiras coisas que precisamos fazer é identificar quem são os nossos “falsos profetas” que promovem o culto às “novas bestas”. Não há dúvidas de que a besta e o falso profeta do Apocalipse se cumpriram no passado. Mas as Escrituras continuamente mostram que narrativas de acontecimentos passados e as profecias de eventos que já se cumpriram não têm importância somente para aqueles que viveram na época em que aconteceram: “Tudo isto lhes acontecia como exemplo, e foi escrito para aviso nosso…”. (I Co 10.11)Sendo assim, a besta e o falso profeta servem de exemplo e aviso para nós que vivemos tantos séculos depois. Assim como os cristãos no tempo de João, nós também agora precisamos identificar quem são as novas bestas e os novos falsos profetas. Precisamos identificar quais são as novas formas de poder que se colocam contra a verdade de Deus e quem são os responsáveis por promover as crenças, a ideologia e toda a forma de pensar que sustentam este poder. Precisamos identificar quais são os verdadeiros interesses daqueles que promovem a mentalidade e forma de pensar dos homens em nossos dias. Precisamos identificar de que maneira os homens em nossos dias marcados na mão e na testa, de que forma a lei da besta é escrita em seus corações, de que forma é promovido o culto e adoração aos novos “imperadores”. E acima de tudo, precisamos proclamar quem é único e verdadeiro Imperador – Jesus Cristo. Acima de tudo, precisamos reconhecer qual é a única e verdadeira Lei – a Lei do Todo-Poderoso Deus de Israel. Precisamos ser marcados com o selo de Deus no lugar da marca da besta. Como está escrito:

“Tendo cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade, e tendes a vossa plenitude nele, que é a cabeça de todo principado e potestade”.(Cl 2.8-10)

Cristãos contemporâneos desperdiçam tempo, papel e tinta demais falando sobre a besta que acreditam que virá e sobre conspirações mundiais para estabelecer seu reino. Os danos causados para missão da Igreja por causa de uma perspectiva assim são incalculáveis. Primeiro, os cristãos que não acreditam mais que nações inteiras possam ser transformadas pelo poder do Evangelho porque acreditam que há uma conspiração predestinada, profetizada e, portanto, inevitável para que o mundo seja completamente dominado pela besta. Ao se convencer de que a besta está prestes a dominar o mundo inteiro, os cristãos inevitavelmente deixam de ter motivos para lutar para que o Evangelho de Jesus Cristo domine o mundo inteiro. Por isso não é mais comum ouvirmos cristãos piedosos pedirem a Deus para nosso país aquilo que John Knox pediu sobre a Escócia: “Ó Deus, dá-me a Escócia ou morrerei!”

Outro problema sério é que quando a Igreja se foca em se preparar para a vinda de uma besta futura ela não percebe que muitos dos sucessores da besta e do falso profeta já estão em plena atividade entre nós. Nos programas de televisão, nos jornais, nas músicas, no cinema, nas escolas, nas universidades e até mesmo em muitas igrejas, “filosofias e vãs sutilezas” (Cl 2.8) são propagadas sistematicamente por novos falsos profetas cujo objetivo é promover o poder, autoridade e as estruturas de poder das novas bestas. O que seriam das inúmeras leis de proteção à homossexualidade ou de defesa ao aborto que a cada dia cresce no mundo se anos antes coisas como o existencialismo, o marxismo, o evolucionismo, o liberalismo teológico, o feminismo, o secularismo, o ateísmo e tantos outros meios de subversão e relativização da moral não tivesse sido tão difundido na mídia, nas escolas, nas universidades, nos seminários?  Da mesma maneira que a função do paganismo imperial era fazer com que a forma de pensar dos habitantes do Império Romano fosse de maneira que justificasse o poder político de Roma, também agora o objetivo dos grandes formadores de opinião de nossa geração é perpetuar o domínio de uma política a cada dia mais iniqua e abominável. E não nos deixemos enganar. Os modernos falsos profetas têm seus “sinais” também. O tempo que cristãos contemporâneos desperdiçam tentando identificar a besta que acreditam que virá seria mais bem gasto identificando os falsos profetas e as bestas que já estão entre nós. Se compreendessem que a besta do Apocalipse já veio e foi derrotada entenderiam também que nossa luta contra as novas bestas não será vã porque elas também serão eventualmente derrotadas.


[1] Apocalipse 16.13; 19.20; 20.10

[2] Beard, North, Price. Religions of Rome: Volume I.  Cambridge University Press, 1998.

[3] Alguém que deve ser adorado.

[4] Divino.

[5] Deus.

[6] Flávio Josefus,Guerra dos Judeus, Livro II, 10.1.

[7] Dio Cassius foi um notável historiador romano e funcionário público. Publicou uma História de Roma em 80 volumes.

[8] Dio Cassius, História Romana, 62.5.2.

[9] Ibid., 62.26.3

[10] Arthur Weigall, Nero: Emperor cfti (London: Thornton Butterworth, 1933), p. 276.

[11] João Calvino, Institutas da Religião Cristã. Livro I, “A Função dos Milagres”.

[12] Há judeus tentam cumprir isso literalmente por meio do que chamam de Tefilin. Tefilins, também conhecidos como filactérios, são duas caixinhas de couro, cada qual presa a uma tira de couro de animal, dentro das quais está contido um pergaminho com os quatro versos da Torá em que se baseia o uso dos filactérios: Êxodo 13.1-10, Êxodo 13.11-16, Deuteronômio 6.4-9 e Deuteronômio 11.13-21. Em seu método de utilização coloca-se uma caixinha no braço e enrola-se uma das tiras na mão enquanto e a outra caixinha é colocada na testa, entre os olhos, como frontal. Mas os Tefilins não podem ser reconhecidos como um meio válido de cumprir o mandamento. Primeiro, quando Deus diz “estas palavras que hoje te ordeno” ele não está se referindo somente ao que diz estes versos. Refere-se a toda a Lei que estava sendo ensinada naquela ocasião. Segundo, se a ordem aqui deve ser entendida literalmente, por qual motivo não cumprem literalmente também a ordem de que tais coisas estivessem escritas em seus corações?

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9 opiniões sobre “IX – O Culto Imperial”

  1. Vinicius Franco disse:

    Os 144 mil de Ap 7 são os mesmos do cap 14? Pois ao que me aparece, os do cap 7 se referem ao remanescente judeu que foi salvo, mas o do cap 14 pelo que vc escreveu se referem a todos os fiéis eleitos da perseguição…

  2. Vinicius Franco disse:

    E os detalhes? Rsrs

  3. Vinicius Franco disse:

    A minha dúvida é pq no cap 7 os 144 mil se referem ao remanescente judeu salvo e no capítulo 14 se refere a todos os eleitos? Pq não são os mesmos?

  4. Frank Brito. disse:

    Ah, desculpa, eu não tinha percebido que era a mesma postagem que eu tinha mandado ler… rs

    Então…

    Apocalipse 12 >>> A mulher (Israel) foge para o deserto.
    Apocalipse 13 >>> A besta (Balaque) e o falso profeta (Balaão)
    Apocalipse 14 >>> 144.000 (o remanescente que sobrevive)

    Ou seja, dos capítulo 12 ao 14, a narrativa é inteiramente baseada na história de Israel no deserto…

    144.000 = a mulher = o remanescente que não caiu na cilada de Balaque e Balaão (a besta e o falso profeta)

    “Pois não quero, irmãos, que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar; e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés, e todos comeram do mesmo alimento espiritual; e beberam todos da mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os acompanhava; e a pedra era Cristo. Mas Deus não se agradou da maior parte deles; pelo que foram prostrados no deserto. Ora, estas coisas nos foram feitas para exemplo, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos torneis, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar. Nem nos prostituamos, como alguns deles fizeram; e caíram num só dia vinte e três mil”. (I Co 10:1-8)

    Por isso Apocalipse 14 diz:

    “Estes são os que não se contaminaram com mulheres”. (Ap 14:4)

    Os judeus carnais, no deserto, se contaminaram, mas o remanescente não. Ou seja, continua sendo o remanescente de Israel, como é no capítulo 7. Por isso diz:

    “Estes foram comprados dentre os homens para serem as PRIMÍCIAS para Deus e para o Cordeiro”. (Ap 14:4)

    As primícias foram o remanescente de Israel:

    “Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; PRIMEIRO do judeu, e também do grego”. (Romanos 1:16)

    “glória, porém, e honra e paz a todo aquele que pratica o bem, PRIMEIRAMENTE AO JUDEU, e também ao grego”; (Rom 2:10)

    É por isso que, em seguida, depois de falar do remanescente de Israel (os 144.000), fala-se dos gentios:

    “E vi outro anjo voando pelo meio do céu, e tinha um evangelho eterno para proclamar aos que habitam sobre a terra e a toda nação, e tribo, e língua, e povo”,(Apocalipse 14:6)

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