IV – Luz do Mundo

candleREVELAÇÃO EM PARÁBOLAS: Uma Breve Introdução ao Apocalipse de S. João
Por Frank Brito

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LUZ DO MUNDO

“E ouvi por detrás de mim uma grande voz, como de trombeta, que dizia: O que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas: a Éfeso, a Esmirna, a Pérgamo, a Tiatira, a Sardes, a Filadélfia e a Laodicéia. E voltei-me para ver quem falava comigo. E, ao voltar-me, vi sete candeeiros de ouro, e no meio dos candeeiros, um semelhante a Filho de Homem…” (Apocalipse 1.10-13)

O objetivo aqui é identificar a Igreja como a luz do mundo. Jesus Cristo explicou o significado dos candeeiros de ouro: “… os sete candeeiros são as sete igrejas”. (Apocalipse 1.20)São os destinatários originais do livro, as “sete igrejas que estão na Ásia”.(Ap 1.4)As sete igrejas eram igrejas reais. Sabemos disso por que o Apocalipse especifica que as igrejas eram localizadas na Ásia além de especificar a cidade em que cada igreja era localizada. Ao mesmo tempo, devemos lembrar que por toda a Bíblia o número sete indica algum tipo de simbolismo. No Apocalipse há sete cartas para sete igrejas (2-3), sete selos (6-7), sete trombetas (8-11), sete taças (16) e sete bem-aventuranças (1.3, 14.13, 16.15, 19.9, 20.6, 22.7, 22.14). Na Bíblia, o número sete indica plenitude qualitativa. Apesar de terem sido igrejas reais, as sete igrejas do Apocalipse apontam também para a Igreja de Jesus Cristo em sua plenitude.  Tudo o que foi dito as sete igrejas não é dito somente pra elas, mas pra toda a Igreja, de todos os tempos. Um fato interessante é que o Apóstolo Paulo também escreveu suas epístolas a sete igrejas: Romanos, Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses e Tessalonicenses.

As sete igrejas foram descritas como candeeirospra indicar que a Igreja não tem uma luz que seja propriamente sua. Candeeiros são somente instrumentos pelo qual a luz se propaga. Jesus Cristo falou mais sobre isso no Sermão da Montanha:

“Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo do alqueire, mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mateus 5.13-20)

Na analogia de Jesus o sal, a candeia e a cidade representam os homens. O sal pode salgar ou ser insípido e a candeia pode iluminar ou ser escondida. O sabor do sal, a iluminação da candeia e da cidade situada sobe o monte são equivalentes a “boas obras” (v. 16) que os homens podem vir a praticar. Já o sal insípido e a luz escondida são equivalentes aos operadores da iniquidade que “para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens” (v.13).

Diferentes pessoas definem o bem e o mal de diferentes maneiras. Mas isso é somente consequência da ruína de Adão.  A essência de todo e qualquer pecado consiste na ideia de que o homem possa estabelecer as suas próprias palavras, o próprio julgamento, a própria opinião, no lugar da Palavra de Deus. Em resposta a isso, Jesus avisou: “Não penseis que vim destruir a Lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido” (v. 19). O bem e o mal não podem ser definidos por homens porque o homem não é Deus. O bem e o mal são definidos pela Lei de Deus.

A noção da Lei como padrão pra distinguir o bem do mal foi posteriormente ensinada pelo Apóstolo Paulo: “eu não conheci o pecado senão pela Lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a Lei não dissesse: Não cobiçarás”. (Rm 7.7) E também: “o que vem pela Lei é o pleno conhecimento do pecado”. (Rm 3.20) O Apóstolo João ensinou o mesmo: “o pecado é a transgressão da Lei”. (I João 3.4) A Lei nos revela o que é justo e o que é injusto, o que é certo e o que é errado, o que é o bem e o que é o mau, o que é pecado e o que não é. Quando a Lei diz “não cobiçarás”, está revelando que a concupiscência é imoral. O mesmo é válido para todo o resto.

É por isso que a Bíblia diz que a desobediência a Lei é a característica das pessoas carnais (Rm 8.7), que o prazer e a meditação na Lei do Senhor é a característica dos justos (Sl 1.2), que a Lei do Senhor no coração é o que faz dos homens justos e sábios (Sl 37.31), que são bem aventurados aqueles que andam na Lei do Senhor (Sl 119.1), que são soberbos aqueles que não andam segundo a Lei (Sl 119.85), que os que abandonam a Lei acabam louvando a maldade dos ímpios (Pv 28.4) e que Deus reconhece como abominável até mesmo a oração daqueles que não ouvem a Lei  (Pv 28.9).

O homem como sal e luz remete a posição original de Adão quando foi criado por Deus. O homem foi criado pra dominar e governar a terra, conforme as habilidades e características concedidas a ele por Deus. O homem foi criado pra ser o sal da terra e a luz do mundo. Como Salvador do mundo, Jesus Cristo veio restaurar a humanidade ao seu propósito original. Por isso Jesus começou seu ministério publico “Arrependei- vos, porque é chegado o Reino dos céus”. (Mateus 4.17) No sermão da montanha, Jesus marcou o inicio de seu ministério público chamando os homens a se a se voltarem em arrependimento para a Lei de Deus.

A comparação dos que guardam a Lei de Deus com a luz já havia sido feita no Antigo Testamento: “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito”. (Pv 4.18) “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho”. (Sl 119.105) “À Lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Is 8.20) A ideia de que o povo de Deus deveria instruir as nações na Lei de Deus também já estava no Antigo Testamento:

“Guardai-os e observai-os, porque isso é a vossa sabedoria e o vosso entendimento à vista dos povos, que ouvirão todos estes, estatutos, e dirão: Esta grande nação é deveras povo sábio e entendido. Pois que grande nação há que tenha deuses tão chegados a si como o é a nós o Senhor nosso Deus todas as vezes que o invocamos? E que grande nação há que tenha estatutos e preceitos tão justos como toda esta lei que hoje ponho perante vós? Tão-somente guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, para que não te esqueças das coisas que os teus olhos viram, e que elas não se apaguem do teu coração todos os dias da tua vida; porém as contarás a teus filhos, e aos filhos de teus filhos”. (Deuteronômio 4.6-9)

A Lei de Deus dá entendimento e sabedoria. É por isso que o primeiro Salmo chama de bem aventurado aquele que medita na Lei de Deus (Sl 1.2). Isso pressupõe que para compreender o significado da Lei não basta simplesmente ler os mandamentos. É necessário refletir e meditar sobre cada mandamento pra então compreender e extrair as reais implicações do que ele diz.  Quanto maior for a meditação, maior será o entendimento; maior será a capacidade de discernir o bem e o mal. Como diz o Salmo 119: “Oh! quanto amo a tua Lei! ela é a minha meditação o dia todo. O teu mandamento me faz mais sábio do que meus inimigos, pois está sempre comigo. Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres, porque os teus testemunhos são a minha meditação”. (Sl 119.97-99)

A necessidade de meditação existe porque o propósito da Lei não é revelar diretamente todas as circunstancias possíveis em que é necessário discernir o bem e o mal. Não há dúvidas de que “vem pela Lei é o pleno conhecimento do pecado”. (Rm 3.20) Mas isso não é sempre diretamente. Muitas vezes é indiretamente.  A obrigação de obedecer ao que a Lei diz não se refere exclusivamente ao que é dito explicitamente, mas também ao que é uma conclusão lógica e necessária do que é dito explicitamente. Por isso é necessário meditação. Pra extrair todas as implicações do que cada mandamento diz. Segue dois exemplos pra deixar claro como isso funciona:

I) “Os presbíteros que governam bem sejam tidos por dignos de duplicada honra, especialmente os que labutam na pregação e no ensino. Porque diz a Escritura: Não atarás a boca ao boi quando debulha. E: Digno é o trabalhador do seu salário”. (I Timóteo 5.17-18)

Aqui o Apóstolo Paulo explicou que os líderes da igreja têm o direito de ser economicamente sustentados pelo trabalho que exercem.   Ele cita dois textos bíblicos pra provar que o direito é real. O primeiro é um mandamento da Lei. “Não atarás a boca ao boi quando estiver debulhando”. (Deu 25:4) O segundo está no Evangelho de Lucas (Lc 10.7). Mas o mandamento da Lei fala de boi. Não fala nada sobre presbíteros. Como o Apóstolo Paulo poderia ter usado isso como base pra provar que os líderes da igreja têm o direito de ser economicamente sustentados? Porque a obrigação de obedecer ao que a Lei diz não se refere exclusivamente ao que é dito explicitamente, mas também ao que é uma conclusão lógica e necessária do que é dito explicitamente. Explicitamente, a Lei diz que quando o boi trabalha ele tem o direito de ser alimentado. O boi não pode ser explorado. O boi tem direito ao seu “salário”. Mas os homens tem mais valor do que qualquer animal (cf. Mt 10.31, Lc 12.7). Consequentemente, um homem tem muito mais direito ao seu salário do que o boi tem o direito de ser alimentado.  Segue-se então que o mandamento sobre não atar a boca do boi nos ensina que os presbíteros têm o direito de ser economicamente sustentados.  E pra chegar a esta conclusão não basta simplesmente ler.  É necessário refletir e meditar. “Bem-aventurado o homem que… tem seu prazer na Lei do Senhor, e na sua Lei medita de dia e noite”. (Sl 1.1-2)

II) “Quando edificares uma casa nova, farás no terraço um parapeito, para que não tragas sangue sobre a tua casa, se alguém dali cair”. (Dt 22:8)

Aqui Deus fala sobre a construção de um terraço em uma casa nova. O terraço não poderia ser construído de forma a trazer riscos de vida. A construção não poderia ser perigosa. O texto fala exclusivamente da construção de uma casa e não de qualquer outra construção. Mas se obrigação de obedecer ao que a Lei se refere também ao que é uma conclusão lógica e necessária do que é dito explicitamente, devemos entender que este mandamento faz uma exigência a toda construção e a qualquer situação em que as pessoas podem ser colocadas em risco de vida. A essência do mandamento é dizer que devemos zelar pela segurança de nosso próximo. O parapeito no terraço é somente uma aplicação circunstancial deste principio. Mas isso não é dito explicitamente. Pra chegar a esta conclusão não basta ler.  É necessário meditar. Quanto maior a meditação, maior o entendimento; maior a capacidade de discernir o bem e o mal.

A necessidade de meditar na Lei nos leva a necessidade de compreender a estrutura da Lei. A necessidade de refletir e meditar na natureza de cada mandamento pressupõe a necessidade de compreender como cada mandamento se relaciona com os demais. Por vezes demais ímpios e crentes encaram os mandamentos bíblicos como uma mera lista de proibições desconexas cujo único objetivo aparente é nos privar de ser feliz. O motivo principal que faz a maioria pensar assim é que encaram os mandamentos da maneira isolada, não refletem na relação dos mandamentos nem nas implicações dos mandamentos para o bom funcionamento de toda Criação. O fato é que nenhuma proibição Divina existe arbitrariamente, mas é sempre a proteção de valores que foram positivamente estabelecidos por Deus. A proibição do homicídio, por exemplo, existe pra proteger a vida humana. Já a proibição do adultério existe pra proteger a instituição do casamento.

Pra começar a entender, precisamos considerar o que Jesus ensinou sobre os mandamentos mais importantes da Lei:

“Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”.(Mateus 22.36-40)

Muitos acreditam que estes dois mandamentos foram inaugurados por Jesus. Mas isso não é verdade. Jesus foi interrogado sobre o grande mandamento na Lei. E ele respondeu citanda a Lei: “Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te”. (Dt 6.4-7) “Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o teu próximo, e não levarás sobre ti pecado por causa dele. Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”. (Lv 19.17-18) Jesus ensinou que toda a Lei e os Profetas são logicamente dependentes destes dois mandamentos. Isso significa que nenhum mandamento da Lei pode jamais ser entendido como contrário ao amor. Isso significa que todos os mandamentos da Lei precisam ser entendidos como aplicações do amor.

Diferentes pessoas definem o amor de diferentes maneiras. O que a Lei nos dá é a definição Divina do amor. Mas a definição do amor não é estabelecida pelo homem. O amor não é qualquer sentimentalismo humano baseado em sua mera preferência pessoal. O verdadeiro amor é definido unicamente pela Lei de Deus:

“A ninguém devais coisa alguma, senão o amor recíproco; pois quem ama ao próximo tem cumprido a Lei. Com efeito: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De modo que o amor é o cumprimento da Lei”. (Rm 13.8-10)

Aqui o Apóstolo Paulo nos dá uma pista importância para compreender a estrutura da Lei. Jesus ensinou que “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19.17-18) é o segundo mais importante mandamentos e que os demais mandamentos que regem as relações humanas precisam ser entendidos como logicamente dependentes deste. O que o Apóstolo faz aqui é a aplicação deste principio para explicar a proibição do adultério, do assassinato, do roubo e da cobiça. O mandamento de amar o próximo é uma exigência ampla. E as proibições de adulterar, assassinar, roubar e cobiçar definem o que o amor ao próximo significa. Se amamos então não assassinamos, não roubamos, não adulteramos nem cobiçamos o que é seu. Não inclui somente estas coisas, é claro. Há outros mandamentos que definem a relação interpessoal que poderíamos citar como derivados destes. Mas o ponto é que o significado do amor ao próximo é definido pela totalidade dos mandamentos que tratam do relacionamento interpessoal. Pra entender o que o amor ao próximo significa, precisamos meditar sobre a natureza de cada mandamento a luz do maior. Isso não é verdadeiro somente para o mandamento de amar o próximo, mas também para a definição do que significa amar a Deus.

A importância disso não pode ser subestimada. A objetividade da Lei de Deus é a única coisa que pode impedir que o homem seja entregue ao engano da subjetividade, do sentimentalismo de seu próprio coração. Um casal homossexual, por exemplo, poderá argumentar que eles têm o direito se casar porque eles se amam. E um adúltero poderá argumentar que ele trai sua esposa porque ele ama sua amante. Sem a objetividade da Lei de Deus, qualquer um define amor como bem entende.

É natural que todo cristão e toda igreja de alguma maneira fale da necessidade de santificação. Mas simplesmente mencionar a palavra santificação é fácil. Dizer que é preciso obedecer a Deus também é fácil. Até os escribas e fariseus falavam nisso. O grande teste é esse: Qual é o padrão usado pra definir o que é pecado e o que não é? Santificação significa viver em obediência a Deus. Mas qual é o padrão usado pra definir o que é justo e injusto, o que é pecado e o que é virtude? “Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mt 5.20) Sem a objetividade da Lei de Deus, somos entregues as tradições humanas, ao sentimentalismo, ao misticismo e a tudo o que o coração corrompido do homem for capaz de inventar. Faça o teste na sua Igreja: você ouve explicações detalhadas sobre o significado e aplicação da Lei de Deus com a mesma frequência que ouve falar em santidade e obediência? E não basta falar de amor. Qualquer bêbado, homossexual ou feiticeiro é capaz de falar em amor. Com que frequência você ouve o significado do amor sendo definido com objetividade pelos mandamentos de Deus? Se não ouve, há grandes riscos que sejam meros mandamentos humanos, mas não obediência a Deus.

Quando meditamos na Lei continha diversos mandamentos, ritos, costumes e cerimonias que eram somente sombras e tipos que apontavam para uma situação temporária em Israel, mas que se cumpriram com a vinda de Jesus Cristo. Um exemplo disso são os sacrifícios de animais. Estes animais sacrificados não tinham em si mesmos a capacidade de efetuar qualquer purificação ou expiação pelos pecados:

“Porque tendo a Lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam”. (Hebreus 10.1)

Estes sacrifícios somente sombras do sacrifício expiatório na cruz do verdadeiro Sumo Sacerdote, Jesus Cristo. Com a vinda de Jesus Cristo não foi anulado aquilo que as cerimonias significavam. O sacrifício animal significava a remissão dos pecados. Mas os homens continuam recebendo remissão dos pecados.  Apesar disso, nós não estamos mais sob a obrigação de sacrificar animais. O que o rito significava se cumpriu em Cristo. A essência do rito continua conosco, mas foi abolida sua observância externa. Isso é verdade não só para o sacrifício animal, mas pra todas as cerimonias da Lei:

“… e tendes a vossa plenitude nele, que é a cabeça de todo principado e potestade, no qual também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo; tendo sido sepultados com ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos; e a vós, quando estáveis mortos nos vossos delitos e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-nos todos os delitos; e havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz; e, tendo despojado os principados e potestades, os exibiu publicamente e deles triunfou na mesma cruz. Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombras das coisas vindouras; mas o corpo é de Cristo”. (Colossenses 2.10-17)

Não estamos mais sob a obrigação de guardar as festas judaicas, de guardar o sábado ou de deixar de comer coisas como a carne de porco ou camarão. Tais coisas eram sombras que se cumpriram em Cristo. Mas isso não significa que a Lei tenha de alguma forma sido anulada. “Anulamos, pois, a lei pela fé? De modo nenhum; antes estabelecemos a Lei”. (Rm 3.31) Apesar de não haver continuidade das cerimonias e ritos da Lei, ela não é anulada porque nós temos em Cristo o cumprimento do que tais ritos e cerimonias significavam. Aquilo que era revelado em sombras, nós agora temos revelado em toda plenitude por Jesus Cristo. Como Jesus tinha dito no sermão da montanha: “Não penseis que vim destruir a Lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir”. (Mt 5.17) Sobre isso, João Calvino comentou:

“Mas agora que a coisa em si é dada para nós, não deve descansar por mais tempo nas sombras. De fato, a Lei não é abolida (Mateus 5.18; Efésios 2,15; Colossenses 1.14, 17); por isso temos de manter agora a substância e a verdade dela. Assim, a sombra é eliminada pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo…”[1]

Aos Colossenses, Paulo citou como sombra: a circuncisão, as leis dietéticas, os sábados e as festas judaicas. Ele não cita aqui o sistema de sacrifícios, mas o principio é o mesmo porque, como já vimos, a carta aos Hebreus fala dos sacrifícios (entre outros rituais da Lei) como sombras (cf. Heb 8.3-6,10.1). Isso deixa claro que a circuncisão, as leis dietéticas, os sábados e as festas judaicas estão na mesma categoria do sistema sacrificial. Apontavam para uma realidade que já se cumpriu com a vinda de Cristo e por isso não temos a obrigação de guardar tais coisas se possuímos a Cristo para quem tais coisas apontavam. Isso não significa que a Lei é anulada, pois a substancia do que tais coisas significavam continuam conosco tendo se cumprindo, ainda que sem os mesmos sinais externos, pois eram somente sombras. A Confissão Belga resume isso com clareza:

“Cremos que as cerimônias e figuras da Lei terminaram com a vinda de Cristo e que, assim, todas as sombras chegaram ao fim. Por isso, os cristãos não devem mais usá-las. Contudo, para nós, sua verdade e substância permanecem em Cristo Jesus, em quem têm seu cumprimento”.[2]

Em vez de refletir e meditar na Lei de Deus pra compreender e extrair as reais implicações do que ela diz, os escribas e fariseus estavam continuamente buscando meios de anular a obrigação de cumpri-la. Eram reconhecidos como os grandes mestres da Lei em Israel. Mas na realidade eram os grandes transgressores:

“Então chegaram a Jesus uns fariseus e escribas vindos de Jerusalém, e lhe perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos, quando comem. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? Pois Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e, Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser a seu pai ou a sua mãe: O que poderias aproveitar de mim é oferta ao Senhor; esse de modo algum terá de honrar a seu pai. E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus. Hipócritas! bem profetizou Isaias a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem”. (Mateus 15.1-9)

A Lei de Deus manda que o homem honre seu pai e sua mãe. Isso é uma obrigação tão séria que Jesus citou aqui o fato de que amaldiçoar (invocar imprecações contras eles) os pais era um crime passivo pena capital: “Qualquer que amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente será morto; amaldiçoou a seu pai ou a sua mãe; o seu sangue será sobre ele”. (Lv 20.9) A honra em questão envolvia a necessidade de sustentar os pais nos momentos de dificuldade financeira, especialmente na velhice. Mas os escribas e fariseus negligenciavam isso em nome de uma “causa santa”. Aquilo que seria usado pra sustentar seus pais era ofertado a Deus. Por ser uma oferta a Deus, acreditavam que estavam fazendo algo sublime. Mas Jesus não mediu palavras “Hipócritas!”. Obedecer a Deus significa fazer o que sua Lei manda e não inventar votos e ofertas por tradições que nos impedem de cumprir o que sua Lei manda. O que os escribas e fariseus mais queriam era uma demonstração pública do quanto eram piedosos e espirituais. O que eles queriam era a glória humana. O que eles não queriam era obedecer a Deus.

Foi por causa disso que no sermão da montanha Jesus avisou: “se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mt 5.20) A maior problema dos escribas e fariseus era que “amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus”. (Jo 12.43) Todo sistema de religião do escriba e fariseu era centralizado na busca pela glória do homem. Sua preocupação não era o que Deus exige de nós, mas o que os homens vão achar. Por isso seu sistema moral não era fundamentado na Lei de Deus, mas em tradições humanas.

No final de sermão Jesus anunciou qual a diferença crucial entre os que verdadeiramente servem a Deus e os que somente chamam pelo seu nome, mas na realidade são iníquos: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus… Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”. (Mt 7.21-23) No grego bíblico, a palavra lei é νόμος – nomos. Já palavra iniquo é ἄνομος – anomos – e iniquidade é ἀνομία – anomia. Iniquidade significa literalmente “sem lei”. A semelhança dos escribas e fariseus, os que praticam a iniquidade são aqueles que quebram, rejeitam e se opõe a Lei de Deus. Não importa se chamam pelo Senhor da boca pra fora. Se não fazem a vontade do Pai – revelada em sua Lei – serão rejeitados.

O sucesso da Igreja em sua missão de ser candeeiro depende dela se conformar as exigências da Lei de Deus e ensiná-la para as nações. Essa é a base tanto dos elogios quanto das críticas que as igrejas recebem no Apocalipse. As sete cartas às sete igrejas tem muito a nos ensinar sobre a natureza e o propósito da Igreja de todas as eras.

Primeiro, somos informados que a Igreja não é uma instituição infalível. Isto inclui até mesmo a Igreja no primeiro século. Muitos veem a Igreja Primitiva como o padrão de pureza e conduta para todos os séculos. Mas isso é uma fantasia. O Novo Testamento não esconde a quantidade de problemas que assolava a Igreja Primitiva, muitas piores que em muitas de nossas igrejas no século XXI. Na Igreja Primitiva havia quem matinha relações sexuais com a própria madrasta (I Co 5), quem promovia bebedeiras na Ceia do Senhor (I Co 11.23), cultos desorganizados (I Co 14) incluindo mulheres que queriam pregar e exercer autoridade na Igreja (I Co 14.34-35), quem não cria na ressurreição dos mortos (I Co 15), quem defendia a idolatria e a participação em cultos pagãos (I Co 10, Ap 2.14, 2.20-21), quem queria reinstituir a necessidade das cerimonias judaicas (Cl 2), quem defendia que a circuncisão era um critério para a salvação (At 15, Gl), quem defendia a justificação com base nos méritos de cumprir a Lei (Gl), quem defendia o racismo (Gl 2.11-12) quem pregava com segundas intenções e interesses desonestos (Fp 1.15, II Ti 6.5), quem prestava culto a anjos (Cl 2.18), quem queria favorecer os ricos e desprezar os pobres na igreja (Tg 2.1-5), quem se apresentava como cristão mas na verdade era um anticristo (I João 2.18-19) e muitas outras coisas. O padrão de comportamento da Igreja é definido pela Palavra de Deus e não pela Igreja de qualquer era, até mesmo a Igreja Primitiva.

Segundo, somos informados de que o fato de uma igreja ter sido santa e exemplar antes não significa que sempre será. Jesus avisou a igreja em Efésio: “Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor”. (Ap 2.4) Com base nisso, ele ameaçou: “Lembra-te, pois, donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; e se não, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro, se não te arrependeres”. (Ap 2.5) Se os candeeiros representavam as igrejas, o perigo aqui é que a Igreja em Éfeso deixaria de existir ou pela menos que deixaria de ser reconhecida como igreja caso não se arrependesse de seus pecados. Ignorar essa ameaça é o erro fundamental do catolicismo romano. Gloriam-se da grande honra que a igreja em Roma teve no passado e com base nisso concluem que até o fim do mundo ela não será passiva de apostasia e de ser excluída pelo Senhor.

Terceiro, somos informados que a existência de falsos cristãos em uma igreja não significa que este seja o caso de todos na congregação. Sobre a igreja em Tiatira foi dito: “Mas tenho contra ti que toleras a mulher Jezabel, que se diz profetisa; ela ensina e seduz os meus servos a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas a ídolos”. (Ap 2.20) Mas ao mesmo tempo foi dito também: “Digo-vos, porém, a vós os demais que estão em Tiatira, a todos quantos não têm esta doutrina, e não conhecem as chamadas profundezas de Satanás, que outra carga vos não porei”. (Ap 2.24) O que isso nos ensina é que não devemos julgar o estado espiritual de toda uma igreja com base no comportamento de alguns.

Quarto, somos informados de que o julgamento de Deus começa pela Igreja. As visões do Apocalipse descrevem o juízo de Deus sobre a besta (Ap 19), a grande prostituta (Ap 17-18), Satanás (Ap 20.2-3,10) e sobre todos os ímpios no Juízo Final (Ap 20.12-15). Mas o Apocalipse menciona as sete Igrejas antes de qualquer uma destas coisas. “Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e se começa por nós, qual será o fim daqueles que desobedecem ao evangelho de Deus?” (I Pd 4.17) O julgamento começa pela Igreja porque “daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá”. (Lc 12.48) Se a Igreja é fiel em sua missão, o mundo é iluminado. Se for infiel, o mundo permanece em trevas. A salvação do mundo depende da fidelidade da Igreja. A Igreja é a instituição mais importante da terra. Muitos privilégios e responsabilidades foram dados a Igreja. Consequentemente, muito lhe é cobrado.


[1] João Calvino, Comentário de Deuteronômio 5.12-14.

[2] Confissão Belga, Artigo 25, “Cristo: o cumprimento da Lei”.

1 opinião sobre “IV – Luz do Mundo”

  1. Ótimo Frank!!

    Que Deus continue lhe abençoando e dando coragem e capacitação para expor tão bem o Evangelho do Senhor da Glória. Muito boa a exposição sobre o papel da Igreja na manifestação da Luz de Deus (Sua Santa Lei) sobre o mundo. Espero que você poste o resto do livro A Exposição de Apocalipse.

    Um grande abraço e fica na paz do nosso Senhor Jesus Cristo.

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