III – Um Sacrifício Vivo

lambREVELAÇÃO EM PARÁBOLAS: Uma Breve Introdução ao Apocalipse de S. João
Por Frank Brito

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UM SACRIFÍCIO VIVO

“… e nos fez reino, sacerdotes para Deus, seu Pai, a ele seja glória e domínio pelos séculos dos séculos. Amém”. (Apocalipse 1.6)

O objetivo aqui é identificar toda a Igreja como um sacerdócio real como extensão do sumo sacerdócio de Cristo. O que é dito aqui da Igreja era o que já havia sido dito de Israel no preâmbulo da Lei: “Vós sereis para mim reino sacerdotal e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel”. (Êx 19.6) Isso mostra que não devemos entender que a vocação de Deus para Seu povo sob o Novo Pacto seja substancialmente diferente da vocação de Deus sob o Pacto Mosaico. O Novo Pacto não institui um propósito diferente para o povo de Deus, mas simplesmente capacita o povo a cumprir aquilo que já havia sido exigido de Israel.

De que maneira somos feitos sacerdotes e reis? Por nosso novo nascimento. A Bíblia ensina que desde o pecado de Adão todos nascem mortos. Não biologicamente mortos, mas espiritualmente mortos:

“Eis que eu nasci em iniquidade, e em pecado me concedeu minha mãe”. (Salmo 51.5)

“Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras”. (Salmo 58.3)

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram”. (Romanos 5.12)

“Todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira…” (Efésios 2.3)

É por isso que Jesus ensinou a Nicodemos que nosso nascimento biológico não nos garante a entrada no Reino de Deus. “Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. (João 3.3) O segundo nascimento não é da mesma natureza que o primeiro. O primeiro é biológico. O segundo é espiritual. No primeiro, nos tornamos filhos de nossos pais e, portanto, herdeiros do pecado original. No novo nascimento nos tornamos filhos de Deus: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus”. (João 1.11-13) A Bíblia também se refere a este novo nascimento como uma ressurreição:

“Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais outrora andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos de desobediência, entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo”. (Efésios 2.1-5)

“Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida”. (João 5.24)

Haverá a ressurreição corporal no fim do mundo. Mas antes disso, há a ressurreição espiritual na história – o novo nascimento. Assim como todos nascem biologicamente, todos ressuscitarão corporalmente. Todavia, nem todos ressuscitam espiritualmente. Os que ressuscitam espiritualmente ressuscitarão corporalmente para a vida eterna. Já os que ressuscitarão corporalmente sem na história ressuscitarem espiritualmente sofrerão a morte eterna no tormento eterno:

“Não vos admireis disso, porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida, e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo”. (João 5.28-29)

É sobre nosso novo nascimento que o Apocalipse fala quando diz que Cristo “nos fez reino, sacerdotes para Deus, seu Pai”. (Ap 1.6) Os sacerdotes levitas efetuavam sacrifícios de animais. Mas Jesus Cristo ofereceu a si mesmo como sacrifício na cruz tendo ressuscitado no terceiro dia. Assim também, o Apóstolo Paulo falou daqueles que estão em Cristo como sacrificando a si mesmo:

“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”. (Gálatas 2.20)

“Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida”. (Romanos 6.4)

“Tendo sido sepultados com ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos; e a vós, quando estáveis mortos nos vossos delitos e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-nos todos os delitos”. (Colossenses 2.12-13)

Assim como Jesus Cristo ofereceu a si mesmo como sacrifício, nós também somos espiritualmente sacrificados para vivermos uma nova vida com Deus. Não é um sacrifício literal, da mesma forma que nosso novo nascimento não é literal. É o sacrifício de nossa vida de rebelião contra Deus:

“…vós também, quais pedras vivas, sois edificados como casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo”. (I Pedro 2.5)

“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”. (Romanos 12.1-2)

Da mesma forma que as Escrituras revelam que o sacerdócio de Cristo foi o meio pelo qual seu Reino foi estabelecido, o Apocalipse revela que é por nosso sacrifício vivo de entrega a Deus que ele “nos fez reino”. O sacerdócio real do cristão é um chamado para manifestar o Reino de Deus sobre a terra.

Apesar de não se tratar primariamente de um sacrifício literal, a resistência do cristão a mentalidade iniqua no meio em que vive poderá literalmente lhe custar à vida. Era um risco constante para a maioria dos cristãos no primeiro século. A vasta maioria dos cristãos que vive no Ocidente do século XXI não tem condições de sequer começar a imaginar o que isso significa. Mas ainda é um perigo constante para muitos cristãos em muitas partes do mundo. A virtude do mártir não está na morte em si mesma. Morrer não é em si mesmo virtuoso. “Pois, que glória é essa, se, quando cometeis pecado e sois por isso esbofeteados, sofreis com paciência? Mas se, quando fazeis o bem e sois afligidos, o sofreis com paciência, isso é agradável a Deus”. (I Pd 2.20) A essência da corrupção, seja nas coisas mínimas, seja nas coisas grandes, consiste na noção de que o bem estar é mais importante do que a obediência e fidelidade ao que é certo e justo. A virtude do mártir consiste na sua fidelidade incondicional ao que é certo ainda que isso lhe custe a própria vida. É neste sentido que a Bíblia fala de conversão e santificação como um martírio. Ainda que uma minoria seja literalmente martirizada, todos são chamados ao espírito do martírio: a fidelidade incondicional a Deus ainda que isso custe o nosso bem estar. As Escrituras louvam os mártires não simplesmente por morrer, mas porque “eles venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até a morte”. (Ap 12.11) Se isso precisa valer até mesmo em circunstâncias que custam nossas vidas, quanto mais em coisas menores que enfrentamos todos os dias? Que sejamos dignos de honrar nosso sacerdócio real.

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