rainbowJESUS ENSINOU QUE A ERA CRISTÃ PRECISA TERMINAR?
Por Frank Brito

“Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus, Daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés”. (Hebreus 10:12-13)

“Nossa doutrina, porém, sublime acima de toda glória do mundo, invicta acima de todo poder, importa que seja enaltecida, pois não é nossa, mas do Deus vivo e de seu Cristo, a quem o Pai constituiu Rei, para que domine de mar a mar e desde os rios até os confins do orbe das terras. E de tal forma, em verdade, deve ele imperar, que, percutida só pela vara de sua boca, a terra toda, com seu poder de ferro e bronze, com seu resplendor de ouro e prata, ele a despedaçará como se outra coisa não fosse senão diminutos vasos de oleiro, na exata medida em que os profetas vaticinam acerca da magnificência de seu Reino”. (João Calvino, Institutas da Religião Cristã, Carta ao Rei Francisco)

Em sua página no Facebook, o Rev. Leandro Lima comentou a última decisão da Suprema Corte dos EUA a favor do “casamento gay”. Nesta postagem, ele defende o que acredita ser a maneira correta de um cristão enxergar tais acontecimentos. Entre outras coisas, Rev. Leandro Lima está equivocado nos seguintes pontos:

  • Ele erradamente identifica o movimento gay como um dos possíveis sinais de que nós já chegamos ao “fim dos tempos”.
  • Ele erradamente defende que, para que o Segundo Advento de Cristo aconteça, é necessário que o mundo passe por um processo de descristianização.

FIM DOS TEMPOS?

O Rev. Leandro Lima diz sobre o “fim dos tempos”:

“Mas o que, como cristãos, podemos dizer disso tudo? Reclamar e exclamar horrorizados expressões como: “é o fim dos tempos”? Talvez seja mesmo, e nesse caso, não deveríamos estar horrorizados, mas com a certeza indirimível de que tudo está acontecendo como tinha que ser. Sim, a era cristã precisa terminar, pois se ela não terminar, Jesus não voltará”.

Há diversos problemas com este trecho, mas o que mais me surpreende é a ideia de que “talvez” a institucionalização do “casamento gay” seja o sinal de que tenhamos chegado no “fim dos tempos”A Bíblia explicitamente ensina que o fim dos tempos começou com a primeira vinda de Cristo.

Diferente do que muitos pensam, quando o Novo Testamento menciona os “últimos tempos”, “últimos dias” e termos parecidos, o objetivo é falar de toda a história do mundo a partir da primeira vinda de Jesus Cristo e não somente aos últimos momentos da história antes de sua Segunda Vinda.

Atos dos Apóstolos diz:

“Pedro, porém, pondo-se em pé com os onze, levantou a voz e disse-lhes: Varões judeus e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo esta a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos; e também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e minhas servas, naqueles dias, e profetizarão”. (Atos 2.14-18)

Pedro menciona que Joel havia profetizado a efusão do Espírito para acontecer nos últimos dias e isso estava se cumprindo naquele momento. Portanto, devemos entender que no tempo dos apóstolos os últimos dias já haviam chegado.

O mesmo Apóstolo diz em sua epístola:

“… sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo, o qual, na verdade, foi conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas manifesto no fim dos tempos por amor de vós”. (I Pedro 1.18-20)

Aqui Pedro lembra aos cristãos que eles foram salvos não por dinheiro, mas pelo sacrifício expiatório de Jesus Cristo. E ele deixa claro que isso aconteceu no fim dos tempos. Em sua epístola aos Coríntios, Paulo escreveu:

“… tudo isto lhes acontecia como exemplo, e foi escrito para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos”. (I Coríntios 10.11)

Paulo menciona que ele e seus contemporâneos haviam chegado aos fins dos séculos. Ele não poderia estar falando dos últimos momentos da História do mundo, logo antes da vinda de Jesus Cristo porque ele escreveu isso há mais de vinte séculos. Como bem explicou o teólogo presbiteriano, Rev. Kenneth Gentry:

De acordo com o NT os “últimos dias” começaram no século I (1Co 10.11; Hb 9.26; 1Jo 2.18; 1Pe 1.20). De fato, o derramamento do Espírito no Pentecostes dá o início formal aos “últimos dias”, pois Pedro explica: “Mas isto é o que havia sido falado pelo profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias” (At 2.16,17a). Falando-se então em sentido teológico, a história está dividida em “primeiros dias” (antes de Cristo) e “últimos dias” (depois de Cristo): “No passado, por meio dos profetas, Deus falou aos pais muitas vezes e de muitas maneiras; nestes últimos dias, porém, ele nos falou pelo Filho” (Hb 1.1,2a). Os “últimos dias” se estendem do período do século I até a segunda vinda de Cristo, que será “o fim” (1Co 15.24; cp. Mt 13.39,40,49), quando Jesus ressuscitar os mortos e os julgar (Jo 6.39,44,54; 11.24; 12.48). Como consequência, os dias em que vivemos desde o século I constituem os últimos dias — não virá nada depois deles (de outro modo eles não seriam “os últimos dias”)”. (Kenneth Gentry, “Pós-Milenarismo Para Leigos”, p. 20)

O maior motivo pelo qual muitos pensam que os últimos tenha que significar os últimos momentos da história logo antes de Segunda Vinda de Cristo é que a palavra “dias” pode dar a impressão de um período curto de tempo. Mas o uso da palavra pela própria Bíblia mostra que ela não precisa necessariamente indicar um período curto, mas pode se referir a um período com até mesmo séculos de duração. Vemos isso já nos primeiros capítulos de Gênesis: “E foram todos os dias que Adão viveu novecentos e trinta anos, e morreu”. (Gênesis 5:5) Todos que são citados na genealogia de Gênesis 5 viveram durante séculos. E a palavra dias – no hebraico יום (yom) – é usada pra se referir a este longo período de tempo.

Sendo assim, não é possível que “talvez” a institucionalização do “casamento gay” seja o sinal de que tenhamos chegado no “fim dos tempos”. O verdadeiro sinal de que chegamos no fim dos tempos não é o movimento gay, mas a vinda do Filho de Deus ao mundo.

“COMO NOS DIAS DE NOÉ”

Segundo o Rev. Leandro Lima, uma das características do “fim dos tempos” é que a “era cristã” irá terminar:

“Sim, a era cristã precisa terminar, pois se ela não terminar, Jesus não voltará”.

Aqui ele defende uma ideia que se tornou muito comum em tempos modernos: que à medida que o fim da história se aproxima, há um aumento contínuo e progressivo de pecado, sofrimento, desastres naturais, guerras e perseguições aos fiéis, até que, por fim, a personificação de toda a iniquidade se manifestará na pessoa do Anticristo. Essa pessimismo em relação a história do mundo é muito comum entre Pré-Milenistas e Amilenistas, mas a Bíblia ensina exatamente o contrário (como será demonstrado em uma segunda parte deste estudo).

O argumento do Rev. Leandro Lima gira em torno da comparação que Cristo faz com “os dias de Noé”:

“Um dos exemplos evocados por Cristo foi justamente os “dias de Noé”, quando as pessoas “comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento” (Lc 17.26-27)”.

Essa comparação de Cristo aparece tanto no Evangelho de Mateus quanto no Evangelho de Lucas. Em nenhum dos dois textos, é possível interpretar as palavras de Cristo como significando que “a era cristã precisa terminar, pois se ela não terminar, Jesus não voltará”:

Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai. E, como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem. Então, estando dois no campo, será levado um, e deixado o outro; estando duas moendo no moinho, será levada uma, e deixada outra. Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor. Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa. Por isso, estai vós apercebidos também; porque o Filho do homem há de vir à hora em que não penseis. Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim. Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens. Mas se aquele mau servo disser no seu coração: O meu senhor tarde virá; E começar a espancar os seus conservos, e a comer e a beber com os ébrios, virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora em que ele não sabe, e separa-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes”. (Mateus 24:36-51)

Aqui o Senhor Jesus faz quatro comparações:

1) “Nos dias de Noé…” (v. 37)

2) “Estando dois no campo… estando dos no moinho…” (v. 40-41)

3) “O pai de família…” (v. 43)

4) “O servo fiel e prudente…” (45)

É importante perceber nenhuma das comparações que o Senhor faz neste capítulo tem como objetivo nos informar sobre qual seria a proporção de cristãos e ímpios no momento de Sua vinda ou nos informar quais tipos de pecados existiriam em mais abundância no mundo. Todas as quatro comparações feitas por Jesus neste capítulo, entre os versos 37 e 51, tem como propósito reafirmar e aplicar o que Ele tinha dito no verso 36: “Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai”. As comparações que seguem, entre os versos 37 e 51, nos ensinam as implicações práticas desta verdade: como ninguém sabe do dia e da hora que Cristo virá, os ímpios serão julgados e destruídos de forma inesperada, sendo pegos de surpresa. 

No caso da comparação com o dilúvio, o sentido também é este: Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem”. As palavras, “assim como… assim será também”, indica que há alguma semelhança entre os dois eventos – o juízo de Deus no tempo de Noé e o juízo de Deus na vinda de Cristo. Mas isso não significa que tudo sobre os dois eventos seja semelhante. No juízo de Deus no tempo de Noé, o Senhor julgou o mundo por meio de um dilúvio e jurou que nunca mais faria o mesmo (Gn 9:15). Sendo assim, o juízo com a vinda de Cristo não poderá ser por um dilúvio. E se não poderá ser por um dilúvio, temos que reconhecer nem tudo sobre os dois eventos seja semelhante. Temos que buscar o ponto de semelhança específico na comparação feita por Cristo. A semelhança entre os dois eventos não está na proporção de cristãos e ímpios que haverá na terra no momento de Sua vinda e também não está em quais tipos de pecados existiriam em mais abundância no mundo. Na comparação de Cristo, a semelhança entre os dois eventos está exclusivamente no fato de que os ímpios serão julgados e destruídos de forma inesperada, sendo pegos de surpresa, como havia acontecido no tempo de Noé. Quando Ele diz, “comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento”, o propósito é dizer simplesmente que estariam vivendo suas vidas normalmente, com nada extraordinário acontecendo, até que, em meio ao curso normal da vida, Jesus viria. O sentido é exatamente o mesmo do que lemos logo em seguida:

“Então, estando dois no campo, será levado um, e deixado o outro; estando duas moendo no moinho, será levada uma, e deixada outra. (Mateus 24:40-42)

Novamente, o propósito é dizer simplesmente dizer que as pessoas estariam vivendo suas vidas normalmente, até que, em meio ao curso normal da vida, Jesus viria. “No campo” e “moendo no moinho” são exemplos de lugares comuns que as pessoas poderiam estar. Como lemos também em Lucas 17:

“Digo-vos que naquela noite estarão dois numa cama; um será tomado, e outro será deixado. Duas estarão juntas, moendo; uma será tomada, e outra será deixada. Dois estarão no campo; um será tomado, o outro será deixado”. (Lucas 17:34-36)

Suponhamos que eu diga, “Assim como Paulo se converteu de modo inesperado, no caminho de Damasco, eu também”. A semelhança entre os dois eventos, a conversão de Paulo e a minha, está no fato de que nos convertemos de modo inesperado. Não está no fato entre eu ter me convertido no caminho de Damasco ou em qualquer outra coisa. Da mesma forma, a semelhança com Noé, apontada por Cristo, não é nenhuma outra se não que a vinda de Cristo pegará os ímpios de surpresa para que eles sejam julgados e destruídos, enquanto eles estarão seguindo o curso normal de suas vidas.

O Rev. Leandro Lima tenta ainda relacionar o “casamento gay” com o que lemos o que lemos sobre casamento em Gênesis 6:

“Questões em relação ao casamento, portanto, estariam no centro da agenda do mundo mais uma vez, antes da volta de Cristo. Em Gênesis 6 temos a descrição de padrões de casamento inaceitáveis por Deus, e isso resultou diretamente no dilúvio”.

Mas quando Jesus diz,“casavam e davam-se em casamento”, ele não poderia estar falando do “casamento gay”. Primeiro, porque Jesus reconhecia somente o casamento que Deus tinha criado no Gênesis:

“E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”. (Gênesis 1:27-28)

“E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idônea. Então o SENHOR Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; E da costela que o SENHOR Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne“. (Gênesis 2:20-24)

“Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem”. (Mateus 19:4-6)

Se Jesus reconhecia o casamento exclusivamente conforme Deus o fez “no princípio”, como Ele poderia estar referindo-se ao “casamento gay” quando diz, “casavam e davam-se em casamento”? Além disso, se considerarmos a expressão específica usada por Jesus, veremos que ele, além de não estar falando de “casamento gay”, estava fazendo referência à uma estrutura familiar que, no Ocidente moderno, seria reconhecida como bastante conservadora e tradicional. Elenão diz simplesmente que as pessoas “casavam-se”, mas também que elas “davam-se em casamento”. O que isso significa? É o mesmo que lemos em I Coríntios 7:

“Mas, se alguém julga que trata indignamente a sua virgem, se tiver passado a flor da idade, e se for necessário, que faça o tal o que quiser; não peca; casem-se (…) De sorte que, o que a dá em casamento faz bem; mas o que não a dá em casamento faz melhor”. (I Coríntios 7:36-38)

Aqui Paulo não está falando com a própria virgem, mas com seu pai. Quando ele diz, “o que a dá em casamento”, ele está referindo-se ao pai entregando sua filha ao marido em casamento. Como lemos também em Deuteronômio 7:

“Quando o SENHOR teu Deus te houver introduzido na terra, à qual vais para a possuir, e tiver lançado fora muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os perizeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; E o SENHOR teu Deus as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas; nem te aparentarás com elas; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos; Pois fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós, e depressa vos consumiria”. (Deuteronômio 7:1-4)

Isso significa que em Mateus 24, quando o Senhor diz, “casavam e davam-se em casamento”, ele está se referindo, não ao casamento gay, mas a uma estrutura familiar que reconheceríamos como conservadora: o pai de família transferindo sua autoridade, como cabeça de sua família, para o marido.

O argumento mais forte do Rev. Leandro Lima está na referência de Cristo a Sodoma e Gomorra:

“Mas, o segundo momento evocado por Cristo é ainda mais emblemático: “O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas, no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre e destruiu a todos. Assim será no dia em que o Filho do Homem se manifestar” (Lc 17.28-30). Em Sodoma e Gomorra, um dos maiores pecados, que resultou na destruição das cidades, foi o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo!”

A referência à Sodoma e Gomorra não é registrada em Mateus 24, mas somente no texto paralelo de Lucas 17:

“E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam, e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio, e os consumiu a todos. Como também da mesma maneira aconteceu nos dias de Ló: Comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; Mas no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, e os consumiu a todos”. (Lucas 17:26-29)

Aqui o argumento pode parecer ter mais força porque, como o Rev. Leandro Lima corretamente identifica, “um dos maiores pecados, que resultou na destruição das cidades, foi o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo!” 

A primeira e mais importante coisa que precisamos entender sobre isso é o que já dissemos sobre as comparações de Mateus 24. Novamente, na comparação que Cristo faz, a semelhança entre os dois eventos não está na proporção de cristãos e ímpios que haverá na terra no momento de Sua vinda e também não está em quais tipos de pecados existiriam em mais abundância no mundo. Na comparação de Cristo, a semelhança entre os dois eventos está exclusivamente no fato de que os ímpios serão julgados e destruídos de forma inesperada, sendo pegos de surpresa, de forma inesperada, enquanto viviam suas vidas normalmente. Quando Ele diz, “comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento”, na comparação com o dilúvio, o sentido é o mesmo de quando Ele diz, “Comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam”, na comparação com Sodoma e Gomorra. O propósito é dizer simplesmente que as pessoas estarão vivendo suas vidas normalmente, com nada extraordinário acontecendo, até que, em meio ao curso normal de suas vidas, Jesus virá e os pegará de surpresa.

Além disso, é significante que o Rev. Leandro Lima reconheça que a homossexualidade foi somente um dos pecados que levou Sodoma a ser destruído e não o único. Há outros detalhes e fatores que são frequentemente esquecidos, mas que são importantes para entender melhor outras referências de Cristo a estes povos nos Evangelhos. Primeiro, devemos considerar o que diz Ezequiel:

Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: Soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado. E se ensoberbeceram, e fizeram abominações diante de mim; portanto, vendo eu isto as tirei dali”. (Ezequiel 16:49-50)

Aqui Ezequiel não menciona, explicitamente, o pecado da imoralidade sexual. Sem dúvidas, a imoralidade sexual está incluída nas “abominações diante de mim”. Mas a ênfase aqui é outra: Sodoma era uma civilização rica e soberba, que exercia tirania contra os fracos, pobres e necessitados. Este parece ser o pano de fundo do que lemos no próprio Gênesis:

“Disse mais o SENHOR: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito, descerei agora, e verei se com efeito têm praticado segundo o seu clamor, que é vindo até mim; e se não, sabê-lo-ei”. (Gênesis 18:20-21)

A linguagem aqui, sobre o “clamor”, é a mesma que encontramos no Êxodo sobre o juízo de Deus contra o Egito:

“E aconteceu, depois de muitos dias, que morrendo o rei do Egito, os filhos de Israel suspiraram por causa da servidão, e clamaram; e o seu clamor subiu a Deus por causa de sua servidão. E ouviu Deus o seu gemido, e lembrou-se Deus da sua aliança com Abraão, com Isaque, e com Jacó; E viu Deus os filhos de Israel, e atentou Deus para a sua condição”. (Êxodo 2:23-25)

“E disse o SENHOR: Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores. Portanto desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra, a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel; ao lugar do cananeu, e do heteu, e do amorreu, e do perizeu, e do heveu, e do jebuseu”. (Êxodo 3:7-8)

E também:

O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás; pois estrangeiros fostes na terra do Egito. A nenhuma viúva nem órfão afligireis. Se de algum modo os afligires, e eles clamarem a mim, eu certamente ouvirei o seu clamor. E a minha ira se acenderá, e vos matarei à espada; e vossas mulheres ficarão viúvas, e vossos filhos órfãos”. (Êxodo 22:21-24)

Tanto em Gênesis quanto nessas passagens em Êxodo, a ideia é a mesma: uma civilização rica e soberba exerce tirania contra os fracos e necessitados e, por conta disso, estes clamam a Deus. Porque eles clamaram a Deus, Deus ouve o clamor e derrama Sua ira sobre os seus opressores. Isso deve nos levar a crer que a provável causa principal para a destruição de Sodoma não foi a homossexualidade, mas a tirania contra o fraco, o pobre e o necessitado, conforme lemos em Ezequiel 16. A primeira civilização na Bíblia que Deus expressamente disse que estaria destruindo primariamente por conta da imoralidade sexual, incluindo a homossexualidade, foram os povos cananeus (Levítico 18 e 20), não Sodoma e Gomorra.

Ainda sobre o caso de Sodoma, na carta aos Hebreus está escrito:

“Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, sem o saberem, hospedaram anjos“. (Hebreus 13:2)

A palavra traduzida como “hospitalidade” é φιλονεξία (philonexia) e significa literalmente “amor aos estrangeiros”. A Bíblia King James, em inglês, transmite a ideia de forma mais literal:

“Be not forgetful to entertain strangers: for thereby some have entertained angels unawares”. (Hebrew 13:2)

Claramente, o texto está referindo-se ao que lemos em Gênesis. Tanto Abraão (Gn 18) quanto Ló hospedaram anjos (Gn 19:1-3), como estrangeiros. Os anjos que Ló hospedou foram os mesmo que Abraão já havia hospedado (cf. Gn 18:16; 19:1-3). Apesar de Ló ter observado a virtude da hospitalidade que Hebreus 13:2 recomenda, os moradores de Sodoma não agiram da mesma maneira. Os sodomitas cercaram a casa de Ló, onde os anjos estavam, pensando que eram homens, com o objetivo de violentá-los sexualmente.

“E antes que se deitassem, cercaram a casa, os homens daquela cidade, os homens de Sodoma, desde o moço até ao velho; todo o povo de todos os bairros. E chamaram a Ló, e disseram-lhe: Onde estão os homens que a ti vieram nesta noite? Traze-os fora a nós, para que os conheçamos“. (Gênesis 19:4-5)

“Conhecer” aqui, evidentemente, tem o sentido de se relacionar sexualmente, como é o caso de muitas outras passagens (Gn 4:1; 17; Mt 1:25). Neste contexto particular, precisamos entender que o pecado de Sodoma não foi somente a tentativa de manter relações com esses homens, que na verdade eram anjos. O contexto maior era o fato deles terem feito isso como forma de oprimir aqueles que pensavam ser estrangeiros. Desta forma, eles fizeram o contrário do que Hebreus 13:2 manda fazer: “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos“. E também o que lemos em Êxodo: “O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás (…) Se de algum modo os afligires, e eles clamarem a mim, eu certamente ouvirei o seu clamor“. (Ex 22:21-23) Por isso, lemos no Gênesis: “Disse mais o SENHOR: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito, descerei agora, e verei se com efeito têm praticado segundo o seu clamor, que é vindo até mim; e se não, sabê-lo-ei“. (Gn 18:20-21)

Tendo isso entendido, podemos entender melhor algumas menções a Sodoma nos Evangelhos:

E, em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, procurai saber quem nela seja digno, e hospedai-vos aí, até que vos retireis. E, quando entrardes nalguma casa, saudai-a; E, se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas, se não for digna, torne para vós a vossa paz. E, se ninguém vos receber, nem escutar as vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá menos rigor para o país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade“. (Mateus 10:11-15)

No contexto, Cristo estava dando instruções para Seus apóstolos pregarem para “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10:6). Em cada cidade que eles fossem pregar, eles deveriam buscar uma casa para se hospedar. Se a cidade não demonstrasse hospitalidade, se rejeitasse os apóstolos e o Evangelho que eles anunciavam, os apóstolos deveriam anunciar o juízo de Deus contra aquela cidade, sacudindo o pó de seus pés. É aí que Jesus menciona Sodoma: “… haverá menos rigor para o país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade”. Por que ele menciona Sodoma e Gomorra? Aparentemente porque o pecado de não demonstrar hospitalidade aos apóstolos, como mensageiros de Deus, seria semelhante ao pecado de Sodoma e Gomorra, quando não demonstraram hospitalidade aos anjos, que eram mensageiros de Deus. Não há qualquer evidência que, ao citar Sodoma e Gomorra, Cristo esteja lidando especificamente com o problema da homossexualidade.

Sendo assim, não temos qualquer evidência de que quando, em Lucas 17, Cristo menciona Sodoma, ele também esteja lidando especificamente com o problema da homossexualidade. Também não temos qualquer evidência de que ele esteja referindo-se a um mundo sem influência cristã. Como foi demonstrado, em Lucas 17, seu propósito foi dizer simplesmente que os ímpios serão julgados e destruídos de forma inesperada, sendo pegos de surpresa enquanto viviam suas vidas normalmente. “Como também da mesma maneira aconteceu nos dias de Ló: Comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, e os consumiu a todos”. (Lucas 17:28-29)

Em outra postagem, será demonstrado que o ensino do Rev. Leandro Lima em Sua postagem, que a era cristã precisa terminar, pois se ela não terminar, Jesus não voltará”, é exatamente o contrário do que a Bíblia realmente ensina. O que a Bíblia ensina é que a era cristã precisa crescer, se expandir e avançar e que se ela não avançar, Jesus não voltará.  Isso é explicitamente ensinado por Cristo nos Evangelhos, conforme o que haviam prometido os antigos profetas.

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