sunearthO SHABBATH E O DIA DO SENHOR

Por Frank Brito

Parte I – Parte II – Parte III – Parte IV – Parte V

SHABBATH E REDENÇÃO

No segundo registro dos Dez Mandamentos no Pentateuco, há uma mudança significante no quarto mandamento:

Guarda o dia de shabbath, para o santificar, como te ordenou o SENHOR teu Deus. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho. Mas o sétimo dia é o shabbath do SENHOR teu Deus; não farás nenhum trabalho nele, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro de tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem como tu; porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o SENHOR teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; por isso o SENHOR teu Deus te ordenou que guardasses o dia de shabbath.” (Deuteronômio 5:12-15)

Deuteronômio 5 lista os mesmos Dez Mandamentos que encontramos em Êxodo 20, com uma única diferença. O motivo dado para a necessidade de guardar em o shabbath em Deuteronômio 5 é diferente de Êxodo 20. Em Êxodo 20, o motivo é a semana da criação: “Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou” (Ex 20:11). Em Deuteronômio 5, a explicação é a salvação do Egito: “Lembra-te de que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; pelo que o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia do shabbath” (Dt 5:15). Por que os motivos dados são aparentemente tão diferentes? Que relação há entre o resgate do Egito e o dia de shabbath? E que relação há entre a criação do mundo e a salvação Egito? E As atividades de Cristo nos dias de shabbath nos ajudam a entender:

“E aconteceu também noutro shabbath, que entrou na sinagoga, e estava ensinando; e havia ali um homem que tinha a mão direita mirrada. E os escribas e fariseus observavam-no, se o curaria no shabbath, para acharem de que o acusar. Mas ele bem conhecia os seus pensamentos; e disse ao homem que tinha a mão mirrada: Levanta-te, e fica em pé no meio. E, levantando-se ele, ficou em pé. Então Jesus lhes disse: Uma coisa vos hei de perguntar: É lícito nos shabbaths fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida, ou matar? E, olhando para todos em redor, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele assim o fez, e a mão lhe foi restituída sã como a outra”. (Lucas 6:6-10)

“Aconteceu num shabbath que, entrando ele em casa de um dos principais dos fariseus para comer pão, eles o estavam observando. E eis que estava ali diante dele um certo homem hidrópico. E Jesus, tomando a palavra, falou aos doutores da lei, e aos fariseus, dizendo: É lícito curar no shabbath? Eles, porém, calaram-se. E, tomando-o, o curou e despediu. E disse-lhes: Qual será de vós o que, caindo-lhe num poço, em dia de shabbath, o jumento ou o boi, o não tire logo?” (Lucas 14:1-5)

“E disse-lhes: O shabbath foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do shabbath”. (Marcos 2:27)

É importante observar aqui que Jesus não transgrediu o mandamento do shabbath. Os judeus estavam prontos para acusa-lo de ter quebrado, mas Ele não tinha quebrado de fato. É justamente por não ter quebrado que Cristo perguntou: “É lícito no shabbath fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida ou matar?” Ou seja, o mandamento do shabbath não o proibia de operar uma cura neste dia. Isso era uma invenção deles. A acusação era falsa, baseada em tradições humanas, não no mandamento de Deus (cf. Mt 15:3). Uma das coisas mais importantes que precisamos entender sobre Jesus Cristo é que “nele não há pecado” (I Jo 3:5), pois Ele é “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Heb 7:26), “como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Heb 4:15). Por isso Cristo desafiou seus inimigos dizendo: “Quem dentre vós me convence de pecado? Se digo a verdade, por que não me credes?” (Jo 8:46) Sendo assim, não há dúvidas de que Jesus Cristo cumpriu a Lei de Deus perfeitamente, sem qualquer tipo de violação, incluindo a violação do dia de shabbath.

Quando entendemos as verdadeiras implicações do shabbath, fica evidente que as curas operadas por Cristo nesse dia eram na verdade parte de Sua observância desse dia. Pois o mandamento ordena não somente que eu descanse, mas também que eu conceda descanso aos outros: “… não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas” (Ex 20:10). Além disso, o mandamento, conforme registrado em Deuteronômio 5, estabelece que a necessidade de conceder descanso aos outros é derivada do fato de que o Senhor é o nosso libertador que nos dá descanso: “Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o SENHOR teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; por isso o SENHOR teu Deus te ordenou que guardasses o dia de shabbath”. (Dt 5:15) O Senhor nos deu descanso, libertando-nos. Portanto, temos que dar descanso ao nosso próximo. Isso deixa claro que as curas que Cristo operou nesse dia eram parte de Sua observância do shabbath.  Pois quando Ele curou o homem que tinha uma mão mirrada e quando Ele curou o homem hidrópico, Ele estava dando descanso a estes homens, libertando-os de suas tribulações. Por isso Ele perguntou também aos fariseus: “Qual será de vós o que, caindo-lhe num poço, em dia de shabbath, o jumento ou o boi, o não tire logo?” (Lc 14:1-5) O mandamento exigia que eles tirassem, pois ele ordena o descanso também para “o teu animal”.

O quarto mandamento, então, ao estabelecer o descanso humano no Dia do Senhor, estabelece Sua liberdade no Senhor, pois “o Filho do homem do shabbath é o Senhor” (Mr 2:28) e “o SENHOR teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; por isso o SENHOR teu Deus te ordenou que guardasses o dia de shabbath”. (Dt 5:15) “O shabbath foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do shabbath” (Marcos 2:27), para que Ele descansasse de suas obras em Deus, sabendo que sua vida é para a honra e glória do Senhor.

Isso remete ao que já falamos sobre ordem original da criação ser normativa para nós, tendo força de lei moral. É por isso que a Bíblia trata a obra de redenção como uma Re-Criação. O motivo é que o pecado deformou o mundo e o propósito da redenção é restaurar a ordem original da criação: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criação é” (II Co 5:17). O homem, como criação de Deus, foi deformado pelo pecado mas, por Jesus Cristo, ele é re-criado.  É por isso que João descreve a vinda de Cristo usando a linguagem de Gênesis 1:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. (João 1:1-5)

Como escreveu S. Atanásio de Alexandria:

“Pois o primeiro fato que você precisa entender é esse: que a renovação da criação é operada pelo mesmo Verbo que criou no princípio. Portanto, não há qualquer inconsistência entre a criação e a salvação. Pois o Pai usou o mesmo Agente para as duas obras, trazendo a salvação do mundo através do mesmo Verbo que criou o mundo no princípio”. (S. Atanásio de Alexandria, “Sobre a Encarnação do Verbo”)

Quando analisamos a narrativa e estrutura literária do Pentateuco, vemos claramente que a intenção original de Moisés também era comparar o Exodo de Israel com a narrativa da criação do mundo:

“Porque a porção do SENHOR é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança. Achou-o numa terra deserta, num ermo solitário (תּהוּ – tohu) cheio de uivos; cercou-o, instruiu-o, e guardou-o como a menina do seu olho. Como a águia desperta a sua ninhada, move-se (רחף – rachaph) sobre os seus filhos, estende as suas asas, toma-os, e os leva sobre as suas asas, assim só o SENHOR o guiou; e não havia com ele deus estranho”. (Deuteronômio 32:9-12)

A palavra traduzida aqui como “solitário” é tohu e a palavra traduzida como “move-se” é rechaph. Por que isso é significante? Porque só existem um outro lugar do Pentateuco em que Moisés usa estas mesmas palavras:

“No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma (תּהוּ – tohu) e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia (רחף – rachaph) sobre a face das águas”. (Gênesis 1:1-2)

A intenção de Moisés, então, era claramente dizer que o ermo solitário era comparável a terra “sem forma e vazia” no princípio da criação e também que o Senhor guiando o Seu povo como a águia que move-se sobre os seus filhos era comparável ao Espírito Santo que se “movia sobre a face das águas”. Isso significa que a história da redenção de Israel deve ser entendida como uma forma de Re-Criação. Ou seja, a redenção de Israel deveria ser entendida como uma Re-Criação.

Além de descrever a redenção como uma obra de Re-Criação, a Bíblia descreve os juízos de Deus como uma forma de Des-Criação (uma versão invertida da narrativa da criação de Gênesis 1). Vemos isso, por exemplo, no caso do juízo de Deus contra o Egito. Diferente das águas cheias de vida que havia na Criação (Gn 1:20-22), as águas do Egito ficaram cheios de peixes mortos (Ex 7:17-25). Diferente do domínio sobre os animais que Adão recebeu na Criação (Gn 1:26-28), o Egito foi dominado por rãs, gafanhotos, moscas e piolhos (Ex 8). A criação da luz e a separação entre a luz e as trevas (Gn 1:3-5) foi subvertida quando Deus amaldiçoou o Egito com “trevas espessas” (Ex 10:21). Diferente de toda a vegetação que a terra produziu na Criação (Gn 1:11-12), vegetação do Egito foi destruída por saraiva, fogo e gafanhotos (Ex 9-10). Em vez de frutificar e multiplicar (Gn 1:28), muitos dos egípcios e seus animais morreram, incluindo todos os primogênitos dos egípcios (Ex 12:29). Ou seja, o Egito, que era como o “Jardim do SENHOR” (Gn 13:10), foi revertida para a uma terra sem forma e vazia (cf. Dt 32:9-12; Gn 1:1-2). Em outras palavras, enquanto Deus Re-Criava Israel, Ele Des-Criava o Egito. Em outras palavras, o pecado faz com que o mundo se desvie daquilo que Deus o criou para ser enquanto o propósito da redenção é reordenar o mundo segundo a criação de Deus.

O tema da Re-Criação no contexto da redenção de Israel é especialmente claro na construção do tabernáculo. Na narrativa do processo de construção do tabernáculo, Deus fala sete vezes com Moisés: “Então falou o SENHOR a Moisés, dizendo” (Ex 25:1, 30:11, 17, 22, 34, 31:1, 12). Isso remete à semana da criação, na qual Deus trouxe o mundo à existência por meio de sua Palavra: “E disse Deus: haja…” (Gn 1). Na sétima vez que Deus falou com Moisés, foi para mandar o povo guardar o dia de shabbath: “Falou mais o SENHOR a Moisés, dizendo: Tu, pois, fala aos filhos de Israel, dizendo: Certamente guardareis meus shabbaths; porquanto isso é um sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica” (Ex 31:12-13). Isso remete ao shabbath no último dia da semana da criação (Gn 2:1-3). O trabalho principal de Adão e Eva lavrar e guardar o Jardim do Éden (Gn 2:15). O principal trabalho dos sacerdotes era guardar e administrar o tabernáculo (Nm 3:6-8). A entrada do Jardim do Éden era no Oriente (Gn 3:24). A entrada do tabernáculo também era pelo lado Oriental (Ex 26). A entrada do Jardim foi guardada por querubins (Gn 3:24). A entrada ao santo dos santos também foi guardada por querubins (Ex 26:31-33). As pedras preciosas que haviam no Jardim do Éden (Ez 28:13) eram as mesmas que havia no peitoral do Sumo Sacerdote (Ex 28:17).

Além disso, é importante observar que as bênçãos prometidas para Israel na terra prometida refletem o padrão original da Criação. Em Deuteronômio 28, há um resumo dessas bênçãos e cada uma delas tem referência a algo que encontramos em Gênesis 1, como famílias numerosas (cf. Dt 28:4,11), animais férteis e vigorosos (Dt 28:4,11), plantações abençoadas (Dt 28:4,11), estabilidade climática (Dt 28:12) e a paz e descanso sabático (Dt 28:3,7,10).

É por isso que Isaías descreveu a restauração do povo de Deus, para que recebessem as bênçãos do pacto, como uma Nova Criação:

“Assim que aquele que se bendisser na terra, se bendirá no Deus da verdade; e aquele que jurar na terra, jurará pelo Deus da verdade; porque já estão esquecidas as angústias passadas, e estão escondidas dos meus olhos. Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão. Mas vós folgareis e exultareis perpetuamente no que eu crio; porque eis que crio para Jerusalém uma alegria, e para o seu povo gozo. E exultarei em Jerusalém, e me alegrarei no meu povo; e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor. Não haverá mais nela criança de poucos dias, nem velho que não cumpra os seus dias; porque o menino morrerá de cem anos; porém o pecador de cem anos será amaldiçoado. E edificarão casas, e as habitarão; e plantarão vinhas, e comerão o seu fruto. Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore, e os meus eleitos gozarão das obras das suas mãos. Não trabalharão debalde, nem terão filhos para a perturbação; porque são a posteridade bendita do SENHOR, e os seus descendentes estarão com eles. E será que antes que clamem eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei. O lobo e o cordeiro se apascentarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; e pó será a comida da serpente. Não farão mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o SENHOR”. (Isaías 65:16-25)

Com isso em mente, vemos uma importante relação entre o que é dito em Êxodo 20:11 e o que é dito em Deuteronômio 5:15 sobre o shabbath. Êxodo fala sobre a Criação: “Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia de shabbath, e o santificou” (Êxodo 20:11) e Deuteronômio fala sobre a obra da redenção, que é uma obra de Re-Criação: “Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o SENHOR teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; por isso o SENHOR teu Deus te ordenou que guardasses o dia de shabbath”. (Dt 5:15) O dia de shabbath, então, existe para celebrar tanto a obra da Criação quanto a obra da redenção que é essencialmente uma obra de Re-Criação, pela qual Deus reordena o mundo segundo seu propósito original, segundo Sua lei natural.

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