sunearthO SHABBATH E O DIA DO SENHOR
Por Frank Brito

Parte I – Parte II – Parte III – Parte IV – Parte V

“Eu, João, que também sou vosso irmão, e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo. Eu estava no Espírito no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta”. (Apocalipse 1:9-10)

O propósito deste estudo é demonstrar que o dia de Domingo é o dia de shabbath, o santo dia do Senhor, que deve ser santificado a Ele em obediência ao quarto mandamento: “Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o shabbath do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas”. (Êx 20:9-10)

O DIA DO SENHOR

O Apóstolo João começou o Apocalipse dando diversas informações sobre as circunstâncias em que o livro foi escrito: Primeiro, ele identifica a si mesmo como o autor: “Eu, João”. Segundo, ele diz onde estava: “estava na ilha chamada Patmos”. Terceiro, ele diz o que estava fazendo lá: “por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo”. Quarto, ele diz quando ele recebeu os oráculos: “Eu estava no Espírito no Dia do Senhor”.

Mas o que significa dizer que um dia específico é do Senhor? Deus não é o dono de tudo, incluindo do tempo e, portanto, todos os dias não são do Senhor? Como, então, João pode ter se referido a um dia específico, distinto dos demais, como sendo do Senhor? O significado fica claro quando analisamos outras coisas que a Bíblia diz pertencer ao Senhor:

“Então falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Santifica-me todo o primogênito, o que abrir toda a madre entre os filhos de Israel, de homens e de animais; porque meu é”. (Êxodo 13:1-2)

“E eu, eis que tenho tomado os levitas do meio dos filhos de Israel, em lugar de todo o primogênito, que abre a madre, entre os filhos de Israel; e os levitas serão meus. Porque todo o primogênito é meu; desde o dia em que tenho ferido a todo o primogênito na terra do Egito, santifiquei para mim todo o primogênito em Israel, desde o homem até ao animal: meus serão; Eu sou o SENHOR”. (Números 3:12-13)

“Também todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são do SENHOR; santas são ao SENHOR”. (Levítico 27:30)

Em um sentido amplo, todos os homens, animais, sementes do campo e frutos das árvores pertencem a Deus, pois “do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl 24:1). Ao mesmo tempo, em um sentido mais estrito, as coisas poderiam ser santificadas a Deus, o que significa dizer que pertenciam a Ele de uma maneira especial, tendo sido separadas e consagradas para o uso dEle de uma maneira exclusiva e diferenciada das demais coisas que são comuns, que não são santificadas. As “dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores”, por exemplo, eram “santas ao Senhor”, isto é, eram do Senhor de maneira especial e por isso o homem não poderia consumi-las ou comercializá-las da mesma maneira que faria com o restante de seus alimentos.

Na dispensação do Novo Testamento, o mesmo princípio aplica-se a Ceia do Senhor. Uma ceia é simplesmente um jantar. Em um sentido amplo, todos os alimentos e todas as refeições pertencem ao Senhor. Mas ao identificar uma ceia específica como sendo a Ceia do Senhor, a Bíblia está dizendo que essa Ceia pertence a Ele de maneira especial. Ou seja, a Ceia do Senhor é uma refeição santificada, consagradas para o uso especial dEle, de uma maneira exclusiva e diferenciada das refeições comuns. Um dos problemas dos Coríntios, alias, era não diferenciar tratar a Ceia do Senhor, uma refeição sagrada, como se fosse uma refeição comum (I Co 11:22, 27-29). Aquilo que pertence ao Senhor, de maneira especial, é sagrado e, portanto, não pode ser tratado como se fosse comum. O vinho e o pão que bebo e como na minha casa são comuns. O vinho e o pão que como e bebo na ocasião da Ceia são do Senhor. Ou seja, são santificados a Ele. Como explica a Confissão de Fé de Westminster:

“Nesta ordenança o Senhor Jesus constituiu seus ministros para declarar ao povo a sua palavra de instituição, orar, abençoar os elementos, pão e vinho, e assim separá-los do comum para um uso sagrado, tomar e partir o pão, tomar o cálice dele participando também e dar ambos os elementos aos comungantes e tão somente aos que se acharem presentes na congregação”. (Confissão de Westminster, 29:3)

O mesmo aplicava-se ao pão usado nas cerimônias religiosas do Antigo Testamento: “E, respondendo o sacerdote a Davi, disse: Não tenho pão comum à mão; há, porém, pão sagrado” (I Sam 21:4). Com base nesse princípio, a Bíblia exige que façamos distinção entre o comum e o sagrado: “Os seus sacerdotes violentam a minha Lei, e profanam as minhas coisas santas; não fazem diferença entre o santo e o comum”. (Ezequiel 22:26)

Então, ainda que, em um sentido amplo, todos os dias pertencem ao Senhor, João não estava falando de todos os dias, mas de um dia específico, um dia que pertencia ao Senhor de maneira especial, sendo santo e separado para Ele, diferente dos demais dias. Não era um dia comum. Era o Dia do Senhor, isto é, um dia sagrado.

DIAS SAGRADOS

Desde as primeiras páginas do Antigo Testamento, a Bíblia fala de dias específicos que deveriam ser reconhecidos e honrados como dias sagrados, ou seja, dias que pertenciam ao Senhor de maneira especial. O primeiro a ser mencionado era o dia de shabbath semanal.

“Assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados. E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera”. (Gênesis 2:1-3)

Aqui somos informados que Deus criou o universo em um espaço de seis dias, no sétimo Ele havia “acabado… a obra que fizera” e por isso Ele “abençoou” e “santificou” este dia. Como já falamos, quando a Bíblia fala que as coisas são santificadas a Deus, isso significa dizer que pertencem a Ele de uma maneira especial, tendo sido separadas para o uso dEle de uma maneira exclusiva e diferenciada das demais coisas que são comuns, que não são santificadas. Então, ainda que, em um sentido amplo, todos os dias da obra da criação pertenciam ao Senhor, somente um era o Dia do Senhor, pois somente um foi santificado por Ele. A palavra traduzida como “descansou” é שׁבּת – shabbath – e trás a ideia de cessação, repouso ou descanso. Dia de shabbath, então, significa dia de repouso. O primeiro shabbath aconteceu quando Deus cessou a obra da criação, depois de um período de seis dias.

Quando a isso, é interessante observar que o Dia do Senhor era o sétimo dia da semana em relação ao início da criação de Deus, mas, em relação à humanidade, o Dia do Senhor era o primeiro dia completo da semana. Pois o homem foi criado entre a metade e o final do sexto dia (Gn 1:26) e a mulher foi criada algumas horas depois dele (Gn 1:20-23). O dia seguinte era o Dia do Senhor, o sétimo dia da semana de Deus e o primeiro dia completo de Adão. Provavelmente, este foi o dia da queda, o Dia do Senhor, no qual Ele, em seu descanso, “passeava no jardim pela viração do dia” (Gn 3:8). A semana da criação, então, tinha o Dia do Senhor em seu fim, mas a semana de Adão tinha este dia em seu princípio.

A ideia de que um dia a cada semana seria o Dia do Senhor foi reafirmado nos Dez Mandamentos:

Lembra-te do dia do shabbath, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o shabbath do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do shabbath, e o santificou”. (Êxodo 20:8-11)

“Se desviares o teu pé do shabbath, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao shabbath deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do SENHOR o disse”. (Isaías 58:13-14)

Aqui precisamos entender a importante ligação entre a santidade do dia e a obrigação de descansar nele. A passagem de Isaías explica a ligação com mais clareza. Porque o dia é do Senhor, não nosso, nós não devemos nele seguir nossos caminhos, fazer nossa própria vontade ou falar nossas próprias palavras. A distinção feita aqui entre as nossas coisas e as coisas do Senhor deve ser entendida à luz da distinção entre o comum e o sagrado. O santo Dia do Senhor pertence a Ele de uma maneira que os outros dias não pertencem. Na lei do dízimo, por exemplo, noventa por cento da produção agropecuária de um homem pertencia a ele próprio, mas a dízima pertencia ao Senhor (Lv 27:3). E enquanto cada homem tinha sua própria casa, havia a “casa do SENHOR” (Ex 23:19). Da mesma forma, no quarto mandamento Deus estabelece que temos seis dias para fazer todas nossas obras, mas um destes dias é dEle, é o santo Dia do Senhor. Em um sentido amplo, todos os homens, animais, sementes do campo, frutos das árvores pertencem a Deus, pois “do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl 24:1), mas neste sentido específico, somente algumas coisas são santificadas a Ele, ou seja, pertencem a Ele de maneira especial. Em um sentido amplo, todos os dias da semana pertence a Ele, mas neste sentido específico somente um dia da semana é o “o Dia do Senhor” (Ap 1:10). Por isso, “seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o shabbath do SENHOR teu Deus” (Ex 20:9-10). A obrigação de descansar das minhas obras neste dia, então, é diretamente derivada da santidade do dia. Porque o dia é santo, porque Ele pertence ao Senhor, não a nós, não devemos nele seguir nossos caminhos, fazer nossa própria vontade ou falar nossas próprias palavras.

É importante observar também que, no quarto mandamento, Deus estabeleceu que o homem deveria santificar um dia a cada sete como um dia de shabbath, ou dia de descansar de suas próprias obras, mas não disse exatamente que dia deveria ser guardado assim. Em que momento a contagem deveria começar para que um dos dias fosse guardado? As palavras do quarto mandamento, por si só, nada diz sobre isso. Para que os israelitas soubessem que dia exatamente deveriam guardar, em que momento eles deveriam começar a contagem, era necessário que eles consultassem outras partes da Escritura, além das meras palavras do quarto mandamento.

Na verdade, o mesmo pode ser dito de outros mandamentos. O sexto mandamento, por exemplo, diz simplesmente, “não matarás”, sem distinguir explicitamente entre a vida de um ser humano e a vida de um animal. “Não matarás” inclui os animais? Não podemos matar animais para comer? Sabemos que não inclui, que podemos matar animais para comer. Mas as meras palavras do sexto mandamento não esclarecem isso. Para sabermos disso, é necessário consultarmos outras partes da Escritura (cf. Gn 9:1-6). Assim também, o quarto mandamento estabelece a necessidade de guardar um dia entre sete como Dia do Senhor, mas não identifica exatamente qual dia. Sobre isso, os israelitas foram informados ainda no livro de Êxodo:

“E aconteceu que à tarde subiram codornizes, e cobriram o arraial; e pela manhã havia uma camada de orvalho ao redor do arraial. Quando desapareceu a camada de orvalho, eis que sobre a superfície do deserto estava uma coisa miúda, semelhante a escamas, coisa miúda como a geada sobre a terra. E, vendo-a os filhos de Israel, disseram uns aos outros: Que é isto? porque não sabiam o que era. Então lhes disse Moisés: Este é o pão que o Senhor vos deu para comer. Isto é o que o Senhor ordenou: Colhei dele cada um conforme o que pode comer; um gômer para cada cabeça, segundo o número de pessoas; cada um tomará para os que se acharem na sua tenda. Assim o fizeram os filhos de Israel; e colheram uns mais e outros menos. Quando, porém, o mediam com o gômer, nada sobejava ao que colhera muito, nem faltava ao que colhera pouco; colhia cada um tanto quanto podia comer. Também disse-lhes Moisés: Ninguém deixe dele para amanhã. Eles, porém, não deram ouvidos a Moisés, antes alguns dentre eles deixaram dele para o dia seguinte; e criou bichos, e cheirava mal; por isso indignou-se Moisés contra eles. Colhiam-no, pois, pela manhã, cada um conforme o que podia comer; porque, vindo o calor do sol, se derretia. Mas ao sexto dia colheram pão em dobro, dois gômeres para cada um; pelo que todos os principais da congregação vieram, e contaram-no a Moisés. E ele lhes disse: Isto é o que o Senhor tem dito: Amanhã é repouso, shabbath santo ao Senhor; o que quiserdes assar ao forno, assai-o, e o que quiserdes cozer em água, cozei-o em água; e tudo o que sobejar, ponde-o de lado para vós, guardando-o para amanhã. Guardaram-no, pois, até o dia seguinte, como Moisés tinha ordenado; e não cheirou mal, nem houve nele bicho algum. Então disse Moisés: Comei-o hoje, porquanto hoje é o shabbath do Senhor; hoje não o achareis no campo. Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o shabbath; nele não haverá. Mas aconteceu ao sétimo dia que saíram alguns do povo para o colher, e não o acharam. Então disse o Senhor a Moisés: Até quando recusareis guardar os meus mandamentos e as minhas leis? Vede, visto que o Senhor vos deu o shabbath, por isso ele no sexto dia vos dá pão para dois dias; fique cada um no seu lugar, não saia ninguém do seu lugar no sétimo dia. Assim repousou o povo no sétimo dia. A casa de Israel deu-lhe o nome de maná. Era como semente de coentro; era branco, e tinha o sabor de bolos de mel”. (Êxodo 16:12-31)

Aqui é narrada a história de quando Deus milagrosamente alimentou todo o povo com o maná do céu. O maná era um pão especial que Deus diariamente fazia aparecer no decorrer da semana. Cada dia da semana o povo tinha que colher o maná para comer no mesmo dia. Ele não podia ser guardado para o dia seguinte. Se eles tentassem fazer isso, o maná criava bicho e passava a cheirar mal. Mas em um dia da semana havia uma exceção para essa regra. Este deveria ser guardado como o dia de shabbath. Para ensiná-los sobre isso, neste dia, Deus não fazia aparecer maná. Um dia antes, o povo tinha que colher o que seria necessário para dois dias: “Vede, visto que o Senhor vos deu o shabbath, por isso Ele no sexto dia vos dá pão para dois dias; fique cada um no seu lugar, não saia ninguém do seu lugar no sétimo dia. Assim repousou o povo no sétimo dia” (v. 29-30). Esta contagem começou “aos quinze dias do mês segundo, depois de sua saída da terra do Egito” (Êx 16:1). Ou seja, o dia que deveria ser guardado como dia de shabbath seria o sétimo dia a partir do dia 15 do segundo mês, que foi o dia 21 do segundo mês. A contagem dos meses havia começado com a libertação do povo do Egito: “E falou o SENHOR a Moisés e a Arão na terra do Egito, dizendo: Este mesmo mês vos será o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos meses do ano”. (Êx 12:1-3).

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