heart“Porque bem sabemos que a Lei é espiritual”. (Romanos 7:14)

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos céus”. (Mateus 5:20)

“E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne”. (Ezequiel 11:19)

A espiritualidade da Lei de Deus significa que ela “se estende tanto ao entendimento, à vontade, aos afetos e a, todas as outras potências da alma – como às palavras, às obras e ao procedimento”. (CMW, P. 99) Diferente do que alguns pensam, isso foi ensinado já por Moisés, não é algo que veio somente com Jesus. O sexto mandamento, por exemplo, ordena: “Não matarás”. (Êx 20:13) O Apóstolo João, em sua primeira carta, explicou que exigência deste mandamento não é somente externa, mas também interna:

“Todo o que odeia a seu irmão é homicida”. (I João 3:15)

Ou seja, ainda que alguém não literalmente passe uma faca no pescoço de seu irmão ou dê um tiro nele para matá-lo, se ela odiar o seu irmão em seu coração, ela já é culpada de transgredir o sexto mandamento, “não matarás” e, portanto, já é homicida. Jesus explicou o mesmo em relação ao sétimo mandamento, “não adulterarás” (Ex 20:14):

“Todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela”. (Mateus 5:28)

Ou seja, eu não preciso literalmente deitar com a mulher do meu próximo para ter cometido adultério. Se eu desejá-la em meu coração, eu já terei transgredido o sétimo mandamento internamente, em meu coração. Na verdade, o mesmo pode ser dito de todas as leis morais. A inveja contra o próximo por causa de seus bens, por exemplo, deve ser caracterizado como uma forma de roubo em meu coração. É por isso que Cristo declarou que a busca pela obediência externa, ao mesmo tempo em que se negligencia a obediência interna, não passa de hipocrisia:

“Hipócritas! bem profetizou Isaias a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim… porque do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias”. (Mat 15:7-8,19)

Aqui Jesus está simplesmente citando Isaías:

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim“. (Isaías 29:13)

É importante observar que Cristo citou pecados contra o terceiro (“blasfêmias”), sexto (“homicídios”), sétimo (“adultérios, prostituição”), oitavo (“furtos”) e nono (“falsos testemunhos”) mandamentos e declarou que a transgressão de todos eles já começa no coração, nos “maus pensamentos”, antes de se tornarem ações externas e perceptíveis aos olhos humanos.

Isso já era o que ensinou o próprio Moisés e todo o Antigo Testamento. Como está escrito: “E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente“. (Gn 6:5) “E o SENHOR sentiu o suave cheiro, e o SENHOR disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice, nem tornarei mais a ferir todo o vivente, como fiz”. (Gn 8:21) Como diz a própria Lei, Deus deveria ser amado e obedecido, “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6:5). E também: “Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o teu próximo, e por causa dele não sofrerás pecado. Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR”. (Lv 19:17-18) E também: “… vos lembreis de todos os mandamentos do Senhor, e os observeis; e para que não vos deixeis arrastar à infidelidade pelo vosso coração ou pela vossa vista, como antes o fazíeis; para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os observeis, e sejais santos para com o vosso Deus”. (Nm 15:39-40) “Todos os mandamentos que hoje eu vos ordeno cuidareis de observar, para que vivais, e vos multipliqueis, e entreis, e possuais a terra que o Senhor, com juramento, prometeu a vossos pais. E te lembrarás de todo o caminho pelo qual o Senhor teu Deus tem te conduzido durante estes quarenta anos no deserto, a fim de te humilhar e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos“. (Dt 8:1-2) “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz”. (Dt 10:16) “Também o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, a fim de que ames ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, para que vivas”. (Dt 30:6) “… quando obedeceres à voz do Senhor teu Deus, guardando os seus mandamentos e os seus estatutos, escritos neste livro da Lei; quando te converteres ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma”. (Dt 30:10) Todo o resto do Antigo Testamento ensina o mesmo: “Cesse a maldade dos ímpios, mas estabeleça-se o justo; pois tu, ó justo Deus, provas o coração e os rins. O meu escudo está em Deus, que salva os retos de coração“. (Sl 7:9-10) “A transgressão fala ao ímpio no íntimo do seu coração; não há temor de Deus perante os seus olhos”. (Sl 36:1) “Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua Lei está dentro do meu coração”. (Sl 40:8) “Se nos tivéssemos esquecido do nome do nosso Deus, e estendido as nossas mãos para um deus estranho, porventura Deus não haveria de esquadrinhar isso? pois ele conhece os segredos do coração“. (Sl 44:20-21) “E sucedia que, tendo decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó e os santificava; e, levantando-se de madrugada, oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; pois dizia Jó: Talvez meus filhos tenham pecado, e blasfemado de Deus no seu coração. Assim o fazia Jó continuamente”. (Jó 1:5)

Isso deixa claro que, quando Jesus ensinou que a obediência à Lei de Deus deve incluir não somente nossas ações externas, mas também nossos pensamentos, desejos e intenções internas, Ele não estava introduzindo qualquer novidade. Ele estava simplesmente reafirmando a Lei e os Profetas contra as distorções dos escribas e fariseus:

“Hipócritas! bem profetizou Isaias a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim“. (Mateus 15:7-8)

E também:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios de rapina e de intemperança. Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo, para que também o exterior se torne limpo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”. (Mateus 23:25-28)

Foi contra eles que Paulo também escreveu:

“Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, Nem se dêem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora. Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida. Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas; Querendo ser mestres da Lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam. Sabemos, porém, que a Lei é boa, se alguém dela usa legitimamente“. (I Timóteo 1:3-8)

Os escribas e fariseus “exteriormente [pareciam] justos aos homens, mas por dentro [estavam] cheios de hipocrisia e de iniquidade” (Mt 23:25-28) porque eles usavam a Lei ilegitimamente, não entendendo que o seu fim era “um coração puro” (IT 1:4), mas, de forma geral, reduziam os mandamentos à obrigações exclusivamente externas. Foi especialmente contra isso que Cristo pregou no Sermão do Monte:

“Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. Não cuideis que vim destruir a Lei ou os Profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus“. (Mateus 5:13-20)

O propósito de Cristo no Sermão do Monte, não foi o de ab-rogar a Lei, mas foi o de confirmá-la e expliclá-la contra as distorções dos escribas e fariseus. A Lei é boa, se alguém dela usa legitimamente, reconhecendo que o fim do mandamento é o amor de um coração puro e, portanto, que ela “se estende tanto ao entendimento, à vontade, aos afetos e a, todas as outras potências da alma – como às palavras, às obras e ao procedimento”. (CMW, P. 99) Os escribas e fariseus minimizavam e distorciam isso e por isso se a nossa justiça não exceder a deles, isto é, se nós exteriormente parecermos justos aos homens, sendo, por dentro, cheios de hipocrisia e iniquidade, sem a purificação interior que Deus requer, substituindo a verdadeira Lei de Deus por tradições humanas (Mt 15:6), de modo nenhum entraremos no Reino dos Céus.

Com isso em mente, quando consideramos as palavras do Senhor no Sermão do Monte, fica claro que os escribas e fariseus reduziam os mandamentos à obrigações exclusivamente externas porque eles reduziam as obrigações dos mandamentos às meras obrigações das leis civís. Por exemplo:

Todo aquele que matar alguma pessoa, conforme depoimento de testemunhas, será morto; mas uma só testemunha não testemunhará contra alguém, para que morra. E não recebereis resgate pela vida do homicida que é culpado de morte; pois certamente morrerá“. (Números 35:30-31)

Aqui nós temos uma lei civil que estabelece a pena de morte pelo crime de homicídio, que é uma quebra do sexto mandamento, “não matarás” (Ex 20:13). Mas, como já demonstramos a exigência moral deste mandamento é mais ampla do que a exigência estabelecida pela lei civil. A exigência moral “se estende tanto ao entendimento, à vontade, aos afetos e a, todas as outras potências da alma” (CMW, P. 99), de forma que “todo o que odeia a seu irmão é homicida” (I Jo 3:15) e por isso “não odiarás a teu irmão no teu coração” (Lv 19:17). Porém, o mero ódio no coração não é suficiente para incriminar alguém sob a perspectiva da lei civil de Número 35:30-31, apesar de ser um pecado sob a perspectiva da lei moral. Como escreveu João Calvino:

“Na Lei a vida do homem é amoldada não só à honestidade exterior, mas também à retidão interior e espiritual. Embora ninguém possa negar isto, pouquíssimos, entretanto, disso se apercebem devidamente. Isso acontece porque não atentam para o Legislador, em função de cuja índole se deve aquilatar também a natureza da Lei. Se, mediante um decreto, algum rei proíba o fornicar, o matar, o furtar, confesso que não incorrerá em penalidade quem haja apenas concebido na mente o desejo de fornicar, de matar, de furtar, contudo nada destas coisas tem perpetrado. Isto é, visto que a jurisdição do legislador mortal não se estende senão à conduta externa, não se lhe violam as ordenanças senão mediante crimes consumados. Deus, porém, a cujo olho nada foge e que se não atém tanto à aparência externa quanto à pureza de coração, sob a proibição de fornicação, homicídio, furto, proíbe a concupiscência, a ira, o ódio, a cobiça do alheio, o dolo e tudo desse gênero. Ora, uma vez que ele é um legislador espiritual, fala à alma não menos que ao corpo”. (João Calvino, Institutas da Religião Cristã, Livro II, Capítulo VIII)

Os escribas e fariseus confundiam uma coisa com a outra, eles reduziam os mandamentos à obrigações exclusivamente externas porque eles reduziam as obrigações dos mandamentos às meras obrigações das leis civis:

“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e, Quem matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca, será réu diante do sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno“. (Mateus 5:21-22)

“Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela”. (Mateus 5:27-28)

Nestes dois casos, a intenção de Jesus era a mostrar que, diferente do que dizia a tradição dos anciãos que os escribas e fariseus seguiam (Mt 15:1-9), as obrigações morais destes mandamentos eram mais abrangentes do que o que era exigido pela lei civil. Sob a pena da lei civil, ninguém é réu de juízo se não os que externamente transgride estes mandamentos, literalmente passando a faca no pescoço do próximo ou indo para a cama com sua mulher. Mas, diante do tribunal celeste, o mandamento não é tão limitado. Sob a perspectiva do tribunal celeste, todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo e todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela”, pois a Lei, sendo espiritual, “se estende tanto ao entendimento, à vontade, aos afetos e a, todas as outras potências da alma” (CMW, P. 99). As leis civis exigem uma obediência meramente externa, que pode ser muito bem simulada até mesmo por incrédulos e hipócritas sem regeneração, como os escribas e fariseus, e por isso eles reduziam as obrigações morais dos mandamentos às meras obrigações civis.

“Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores”. (Mateus 7:15)

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