John Stott

A ESCATOLOGIA DO CELIBATO EM I CORÍNTIOS 7

“E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele”. (Gênesis 2:18)

“Ora, quanto às coisas que me escrevestes, bom seria que o homem não tocasse em mulher”. (I Coríntios 7:1)

Superficialmente, o comentário de S. Paulo pode parecer contradizer a declaração de Deus. Em Gênesis lemos que Deus criou uma esposa porque não era bom que Adão estivesse só. Mas aos Coríntios S. Paulo diz que “bom seria que o homem não tocasse em mulher”. Como harmonizar as duas verdades? A interpretação que acredito ser mais coerente é que S. Paulo estava falando, não de uma norma universal, mas de circunstâncias particulares do primeiro século, relacionadas à sua expectativa escatológica para o futuro próximo.

O CELIBATO DE JEREMIAS

Primeiro, a recomendação de Paulo aos Coríntios é parecida com a ordem que Jeremias recebeu de Deus:

“E veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Não tomarás para ti mulher, nem terás filhos nem filhas neste lugar. Porque assim diz o SENHOR, acerca dos filhos e das filhas que nascerem neste lugar, acerca de suas mães, que os tiverem, e de seus pais que os gerarem nesta terra: Morrerão de enfermidades dolorosas, e não serão pranteados nem sepultados; servirão de esterco sobre a face da terra; e pela espada e pela fome serão consumidos, e os seus cadáveres servirão de mantimento para as aves do céu e para os animais da terra”. (Jeremias 16:1-4)

Jeremias passou seu ministério público profetizando que o povo de Judá e a cidade de Jerusalém seriam destruídos pelo Império Babilônico. Foi em meio a essas circunstâncias que Deus ordenou que ele fosse um celibatário: “Não tomarás para ti mulher, nem terás filhos nem filhas neste lugar”. Ou seja, Deus não estava ali tratando de uma norma universal, mas de circunstâncias particulares – a guerra com a Babilônia – que justificariam o celibato de Jeremias. O padrão é que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18), mas circunstâncias especiais, como as que Jeremias viveu, podem fazer com que o celibato seja preferível.

AI DAS GRÁVIDAS

É bom ter filhos? Sem dúvidas, é uma extensão do casamento e é mandamento de Deus: “Frutificai e multiplicai-vos” (Gn 1:28). Por isso “os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre o seu galardão” (Sl 127:3). Mas há circunstâncias específicas, como as que Jeremias viveu, em que é melhor não se casar e ter filhos. É sobre isso que Cristo falou no sermão profético:

“Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; os que estiverem no meio da cidade, saiam; e os que nos campos não entrem nela. Porque dias de vingança são estes, para que se cumpram todas as coisas que estão escritas. Mas ai das grávidas, e das que criarem naqueles dias! porque haverá grande aperto na terra, e ira sobre este povo. E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem”. (Lucas 21:20-24)

Aqui Jesus Cristo profetizou a Guerra Judaico-Romana, na qual Jerusalém foi novamente destruída quarenta anos depois, em 70 AD, como havia sido no tempo de Jeremias. As circunstâncias, então, são parecidas: “Porque assim diz o SENHOR, acerca dos filhos e das filhas que nascerem neste lugar, acerca de suas mães, que os tiverem, e de seus pais que os gerarem nesta terra: Morrerão de enfermidades dolorosas, e não serão pranteados nem sepultados; servirão de esterco sobre a face da terra; e pela espada e pela fome serão consumidos, e os seus cadáveres servirão de mantimento para as aves do céu e para os animais da terra” (Jr 16:1-4). Por isso, Cristo diz também: “Mas ai das grávidas, e das que criarem naqueles dias! porque haverá grande aperto na terra, e ira sobre este povo” (Lc 21:23). E se as circunstâncias eram parecidas, devemos concluir que, para muitos no primeiro século, o celibato seria a melhor decisão.

AS DIFICULDADES PRESENTES

De maneira parecida, não devemos entender que Paulo estava tratando de uma norma universal, que o celibato era sempre melhor do que o casamento, mas que ele estava tratando de circunstâncias especiais:

“Ora, quanto às coisas que me escrevestes, bom seria que o homem não tocasse em mulher… Quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, porém, o meu parecer, como quem tem alcançado misericórdia do Senhor para ser fiel. Tenho, pois, por bom, por causa da presente tribulação, que é bom para o homem o estar assim. Estás ligado à mulher? não busques separar-te. Estás livre de mulher? não busques mulher. Mas, se te casares, não pecas; e, se a virgem se casar, não peca. Todavia os tais terão tribulações na carne, e eu quereria poupar-vos. Isto, porém, vos digo, irmãos, que o tempo se abrevia; o que resta é que também os que têm mulheres sejam como se não as tivessem”. (I Coríntios 7:1,25-29)

Aqui Paulo deixa claro que o que ele estava explicando sobre o celibato não deveria ser entendido como um mandamento do Senhor. Ou seja, não era um padrão universal a ser adotado por todos, mas somente por aqueles que recebiam a vocação e dom para isso (v. 7). Dentro disso, ele dá o seu conselho pessoal que, diante das circunstâncias em que eles se encontravam e diante das perguntas que eles haviam feito (“quanto às coisas que me escrevestes”), seria uma decisão sábia. Ele explica que o seu conselho era “por causa da presente tribulação” porque “os tais terão tribulações na carne, e eu quereria poupar-vos”. Isso não deve ser entendido como as tribulações de quaisquer casamentos, como se solteiros também não tivessem as suas, mas como as tribulações específicas que a Igreja do primeiro século enfrentavam e enfrentariam. É importante observar que a palavra traduzida como “tribulação” é a mesma palavra que aparece em Lucas 21, referindo-se ao “grande aperto na terra”:

“Mas ai das grávidas, e das que criarem naqueles dias! porque haverá grande aperto (ἀναγκή – anagke) na terra, e ira sobre este povo”. (Luk 21:23)

“Tenho, pois, por bom, por causa da presente tribulação (ἀναγκή – anagke), que é bom para o homem o estar assim”. (I Coríntios 7:26)

E na segunda carta aos Coríntios, ele usa essa mesma palavra para descrever as tribulações que ele, como Apóstolo, passava:

“Antes, como ministros de Deus, tornando-nos recomendáveis em tudo; na muita paciência, nas aflições, nas necessidades (ἀναγκή – anagke), nas angústias, Nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns”. (II Coríntios 6:4-5)

E em I Coríntios 7:28, outra palavra é usada para descrever as tribulações que os casados sofreriam:

“Mas, se te casares, não pecas; e, se a virgem se casar, não peca. Todavia os tais terão tribulações (θλίψις – thlipsis) na carne, e eu quereria poupar-vos”. (I Coríntios 7:28)

Essa palavra também aparece nos Evangelhos, no contexto das perseguições aos cristãos:

“Mas não têm raiz em si mesmos, antes são temporãos; depois, sobrevindo tribulação (θλίψις – thlipsis) e perseguição, por causa da palavra, logo se escandalizam”. (Marcos 4:17)

E no Apocalipse, a palavra é usada para se referir à perseguição que os cristãos, ainda no primeiro século:

“E ao anjo da igreja que está em Esmirna, escreve: Isto diz o primeiro e o último, que foi morto, e reviveu: Conheço as tuas obras, e tribulação (θλίψις – thlipsis), e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás”. (Apocalipse 2:8-9)

“Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação (θλίψις – thlipsis) de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida”. (Apocalipse 2:10)

Além disso, nos Atos dos Apóstolos, vemos como havia um clima de perseguição em Corinto quando Paulo chegou para pregar lá pela primeira vez:

“Mas, sendo Gálio procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus concordemente contra Paulo, e o levaram ao tribunal, Dizendo: Este persuade os homens a servir a Deus contra a Lei”. (Atos 18:12-13)

Esse clima de perseguição havia em todo o Império Romano, como o Novo Testamento deixa claro. Não muitos anos depois, o Imperador Nero passou a sistematicamente perseguir os cristãos por todo o Império, conforme narrou o historiador romano da época, Tácito:

“…Mas nem todo o socorro que uma pessoa poderia ter prestado, nem todas as recompensas que um príncipe poderia ter dado, nem todos os sacrifícios que puderam ser feitos aos deuses, permitiram que Nero se visse livre da infâmia da suspeita de ter ordenado o grande incêndio, o incêndio de Roma. De modo que, para acabar com os rumores, acusou falsamente as pessoas comumente chamadas de cristãs, que eram odiadas por suas atrocidades, e as puniu com as mais terríveis torturas. Cristo, o que deu origem ao nome cristão, foi condenado à extrema punição por Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério; mas, reprimida por algum tempo, a superstição perniciosa irrompeu novamente, não apenas em toda a Judéia, onde o problema teve início, mas também em toda a cidade de Roma, onde conflui e se celebra quanto de atroz e vergonhoso houver por onde quer. Assim, começou-se por deter os que confessavam a sua fé; depois pelas indicações que estes deram, toda uma ingente multidão ficou convicta, não tanto do crime de incêndio, quanto de ódio ao gênero humano. A sua execução era acompanhada por escárnios, e assim uns, cobertos de peles de animais, eram rasgados pelos dentes dos cães; outros, cravados em cruzes eram queimados ao cair o dia como se fossem luminárias noturnas. Para este espetáculo, Nero cedera os seus próprios jardins e celebrou uns jogos no circo, misturado em vestimenta de auriga entre a plebe ou guiando ele próprio o seu carro. Daí que, ainda castigando os culpáveis e merecedores dos últimos suplícios, tinham-lhes lástima, pois acreditavam que o castigo não era por utilidade pública, mas para satisfazer a crueldade dele próprio”. (Públio Cornelio Tácito, Annais, XV.44.)

Então, diante de circunstâncias assim, fica fácil de entender porque “digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu” (I Co 7:8). Se já é terrível sofrer e ser perseguido sozinho, imagina sofrer e ser perseguido com sua mulher e filhos, sabendo que, a qualquer momento, eles podem ser levados para serem torturados e mortos, como o próprio Paulo fazia antes de se converter:

“E fez-se naquele dia uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judéia e de Samaria, exceto os apóstolos. E uns homens piedosos foram enterrar Estêvão, e fizeram sobre ele grande pranto. E Saulo assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão“. (Atos 8:1-3)

Com essa linha de interpretação, a recomendação de Paulo poderia ser diretamente aplicada em circunstâncias modernas semelhantes. Um missionário indo para a Coréia do Norte, por exemplo, estará melhor se for sozinho, sem colocar esposa e filhos em risco. Além disso, há outros motivos especial que poderíamos considerar em que um homem pode receber a vocação do celibato. Essas razões, todavia, não devem ser entendidas como norma, mas como exceções.

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