Israel

ISRAEL É O POVO DE DEUS?
Por Frank Brito

Parte I – Parte II

“Naquele dia Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra. Porque o SENHOR dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança”. (Isaías 19:24-25)

Diante dos últimos acontecimentos no Oriente Médio, muitos cristãos tem se perguntando: Israel é o povo de Deus? Ou na dispensação do Novo Testamento, depois da vinda de Jesus Cristo, eles deixaram de ser? Para responder a essas perguntas temos que voltar ao livro de Gênesis, que é onde lemos sobre a origem de todos os povos que agora existem, incluindo o povo de Israel.

A ORIGEM DAS NAÇÕES

Inicialmente, o mundo não era dividido em nações. O livro de Gênesis nos informa que depois do Dilúvio “toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala” (Gn 11:1) e que eles eram suficientemente unidos e organizados para que migrassem juntos para “um vale na terra de Sinar”. (Gn 11:2) A divisão veio como um juízo da parte de Deus: “E o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro”. (Gn 11:6-7) Todas as nações que agora existem vieram das famílias de Sem, Cão e Jafé (Gn 10). Da descendencia de Sem veio Abraão (Gn 11:11-26) e, por meio dele, Deus formou a nação de Israel:

“Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra”. (Gênesis 12:1-3)

O juízo de Deus sobre a torre de Babel marcou o princípio de uma mudança importante na história do mundo. De Adão até Babel (Gn 1-11), Deus vinha se relacionando com o mundo como um todo. Depois de Babel, Deus chamou Abraão e Sua atenção progressivamente passou a se voltar cada vez mais para Israel, que se formou a partir dos descendentes de Abraão. As palavras do salmista refletem bem qual era situação geral até a vinda de Cristo: “Mostra a sua palavra a Jacó, os seus estatutos e os seus juízos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; e quanto aos seus juízos, não os conhecem. Louvai ao SENHOR”. (Sl 147:19-20) A situação só mudou com a vinda de Cristo:

“Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne… Naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto”. (Efésios 2.11-13)

TODAS AS FAMÍLIAS DA TERRA

Que Israel não continuaria sozinha perpetuamente, que os gentios também seriam introduzidos à comunhão com Deus, já havia sido prometido por Deus desde que Ele chamou Abrão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra”. (Gn 12.1-3) Todas as nações que existem no mundo se formaram a partir das famílias de Sem, Cão e Jafé que, por sua vez, iam formando outras famílias (Gn 10). A nação de Israel foi formada a partir da família de Sem, por meio das famílias de Abraão, de Isaque e de Jacó. Deus prometeu a Abraão que a nação que se formaria por meio de sua família seria abençoada e que esta nação seria o instrumento de Deus para estender Sua benção ao mundo inteiro. No livro de Gênesis encontramos Deus repetindo essa mesma promessa mais três vezes: “Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra”. (Gn 18.18) “E em tua descendência serão benditas todas as nações da terra”. (Gn 22.18) “E multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra”. (Gn 26.4)

À medida que a vinda de Jesus Cristo se aproximava, Deus confirmava esta mesma promessa com uma clareza cada vez maior. Na Lei encontramos Israel sendo posta numa posição que permitiria uma influência espiritual sobre as demais nações:

“Vedes aqui vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o SENHOR meu Deus; para que assim façais no meio da terra a qual ides a herdar. Guardai-os pois, e cumpri-os, porque isso será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Este grande povo é nação sábia e entendida. Pois, que nação há tão grande, que tenha deuses tão chegados como o SENHOR nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? E que nação há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta Lei que hoje ponho perante vós?” (Ex 19.6, Dt 4.5-8)

A fidelidade e obediência de Israel permitiria que a nação vislumbrasse a promessa feita a Abraão. Seria um testemunho para todas as nações da glória de Deus e da justiça de Seus mandamentos. Infelizmente, na maior parte do tempo Israel foi um péssimo exemplo. Mas existiram importantes exceções. Salomão, por exemplo, antes de Sua apostasia, teve grande influência internacional por sua grande fidelidade a Deus, conforme a promessa de Deus em Deuteronômio 4.5-8. Tamanha sabedoria era um testemunho para as nações da glória do único Deus verdadeiro:

“E deu Deus a Salomão sabedoria, e muitíssimo entendimento, e largueza de coração, como a areia que está na praia do mar. E era a sabedoria de Salomão maior do que a sabedoria de todos os do oriente e do que toda a sabedoria dos egípcios. E era ele ainda mais sábio do que todos os homens, e do que Etã, ezraíta, e Hemã, e Calcol, e Darda, filhos de Maol; e correu o seu nome por todas as nações em redor. E disse três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco. Também falou das árvores, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que nasce na parede; também falou dos animais e das aves, e dos répteis e dos peixes. E vinham de todos os povos a ouvir a sabedoria de Salomão, e de todos os reis da terra que tinham ouvido da sua sabedoria”. (I Reis 4.29-34)

“Vendo, pois, a rainha de Sabá toda a sabedoria de Salomão, e a casa que edificara, E a comida da sua mesa, e o assentar de seus servos, e o estar de seus criados, e as vestes deles, e os seus copeiros, e os holocaustos que ele oferecia na casa do SENHOR, ficou fora de si. E disse ao rei: Era verdade a palavra que ouvi na minha terra, dos teus feitos e da tua sabedoria. E eu não cria naquelas palavras, até que vim e os meus olhos o viram; eis que não me disseram metade; sobrepujaste em sabedoria e bens a fama que ouvi. Bem-aventurados os teus homens, bem-aventurados estes teus servos, que estão sempre diante de ti, que ouvem a tua sabedoria! Bendito seja o SENHOR teu Deus, que teve agrado em ti, para te pôr no trono de Israel; porque o SENHOR ama a Israel para sempre, por isso te estabeleceu rei, para fazeres juízo e justiça“. (I Reis 10:4-9)

No Livro dos Salmos também encontramos a promessa sendo reafirmada continuamente. Já no Salmo 2 encontramos o juramento de Deus de que todas as nações certamente seriam entregues ao Seu Filho e, com base nesta promessa, os governantes destas nações são avisados sobre o perigo de não se submeter a Ele: “Falarei do decreto do Senhor; ele me disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e as extremidades da terra por possessão… Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor, e regozijai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que não se ire, e pereçais no caminho; porque em breve se inflamará a sua ira”. (Sl 2:7-12) O Salmo 22, citado pelo Senhor na cruz pouco antes de morrer (Mt 27:46), fala de como Sua morte seria o instrumento de Deus para cumprir Sua promessa feita a Abraão: “Todos os limites da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor, e diante dele adorarão todas as famílias das nações. Porque o domínio é do Senhor, e ele reina sobre as nações”. (Sl 22:27-28) Sem dúvidas, este é um tema central por todo o livro dos Salmos: “Deus reina sobre as nações; Deus está sentado sobre o seu santo trono. Os príncipes dos povos se reúnem como povo do Deus de Abraão, porque a Deus pertencem os escudos da terra; ele é sumamente exaltado”. (Sl 47:8-9) “Louvar-te-ei, Senhor, entre os povos; cantar-te-ei louvores entre as nações”. (Sl 57:9) “Deus se compadeça de nós e nos abençoe, e faça resplandecer o seu rosto sobre nós, para que se conheça na terra o seu caminho e entre todas as nações a sua salvação. Louvem-te, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos. Alegrem-se e regozijem-se as nações, pois julgas os povos com equidade, e guias as nações sobre a terra. Louvem-te, ó Deus, os povos; louvem os povos todos”. (Sl 67:1-5) “Permaneça o seu nome eternamente; continue a sua fama enquanto o sol durar, e os homens sejam abençoados nele; todas as nações o chamem bem-aventurado”. (Sl 72:17) “Todas as nações que fizeste virão e se prostrarão diante de ti, Senhor, e glorificarão o teu nome”. (Sl 86:9) “As nações, pois, temerão o nome do Senhor, e todos os reis da terra a tua glória”. (Sl 102:15) Todos estes textos refletem a promessa abrâmica: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:1-3), “Em tua descendência serão benditas todas as nações da terra” (Gn 22:18).

Deus reafirmou o mesmo nos livros proféticos. Em nenhum dos outros profetas vemos isso com tanta clareza quanto no livro do profeta Isaías. Com muita razão, Isaías tem sido chamado de “O Quinto Evangelho” e seu autor de “O Evangelista do Antigo Testamento”. O motivo é a grande quantidade de profecias relacionadas à vinda de Jesus Cristo – o Servo Sofredor. Uma das coisas mais enfatizadas por Isaías a respeito de Jesus é que Ele seria o meio pelo qual os gentios seriam chamados: “E acontecerá naquele dia que a raiz de Jessé, a qual estará posta por estandarte dos povos, será buscada pelos gentios; e o lugar do seu repouso será glorioso”. (Is 11:10; cf. Rm 15:12) “Eis aqui o meu Servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; Ele trará justiça aos gentios… Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei, e te darei por aliança do povo, e para luz dos gentios”. (Is 42:1,6; cf. Lc 2:32; At 13:47-48) “Disse mais: Pouco é que sejas o meu Servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra. Assim diz o SENHOR, o Redentor de Israel, o seu Santo, à alma desprezada, ao que a nação abomina, ao servo dos que dominam: Os reis o verão, e se levantarão, como também os príncipes, e eles diante de ti se inclinarão, por amor do SENHOR, que é fiel, e do Santo de Israel, que te escolheu”. (Is 49:6-7) “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus”. (Is 52:10) “Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime. Como pasmaram muitos à vista dele, pois o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua figura mais do que a dos outros filhos dos homens. Assim borrifará muitas nações, e os reis fecharão as suas bocas por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo que eles não ouviram entenderão”. (Is 52:13-15, cf. Rm 15:20-21)

Esse é o contexto para entender as palavras do Senhor antes de subiu ao céu: “Ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). As nações precisam ser ensinadas porque Deus prometeu a Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:1-3) e “em tua descendência serão benditas todas as nações da terra” (Gn 22:18).

ISRAEL, MEU PRIMOGÊNITO

As promessas abraâmicas foram feitas a todas as nações, mas, ao mesmo tempo, garantiam que Israel seria a primeira a ser beneficiada: “E multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra”. (Gn 26:4) Em Gênesis 17, vemos maiores detalhes sobre este pacto:

“Quando Abrão tinha noventa e nove anos, apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda em minha presença, e sê perfeito; e firmarei o meu pacto contigo, e sobremaneira te multiplicarei. Ao que Abrão se prostrou com o rosto em terra, e Deus falou-lhe, dizendo: Quanto a mim, eis que o meu pacto é contigo, e serás pai de muitas nações; não mais serás chamado Abrão, mas Abraão será o teu nome; pois por pai de muitas nações te hei posto; far-te-ei frutificar sobremaneira, e de ti farei nações, e reis sairão de ti; estabelecerei o meu pacto contigo e com a tua descendência depois de ti em suas gerações, como pacto perpétuo, para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti. Dar-te-ei a ti e à tua descendência depois de ti a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em perpétua possessão; e serei o seu Deus. Disse mais Deus a Abraão: Ora, quanto a ti, guardarás o meu pacto, tu e a tua descendência depois de ti, nas suas gerações. Este é o meu pacto, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Que todo o varão entre vós será circuncidado; e isto será por sinal de pacto entre mim e vós. A idade de oito dias, todo varão dentre vós será circuncidado… E o homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança“. (Gênesis 17:1-12)

Esse texto é crucial para entendermos a pergunta de nosso estudo. Aqui precisamos estar atentos para cinco elementos fundamentais:

1) As promessas do pacto.

2) Os membros do pacto.

3) As exigências do pacto.

4) O sinal do pacto.

5) A possibilidade de excomunhão do pacto.

Sobre as promessas do pacto, a maior e mais importante é a promessa de que Deus instituiu o pacto, “contigo e com a tua descendência depois de ti em suas gerações, como pacto perpétuo, para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti”. Ou seja, a maior e mais importante promessa é a de ser o povo de Deus:

“Falou mais Deus a Moisés, e disse-lhe: Eu sou Jeová. Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó, como o Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome Jeová, não lhes fui conhecido. Estabeleci o meu pacto com eles para lhes dar a terra de Canaã, a terra de suas peregrinações, na qual foram peregrinos. Ademais, tenho ouvido o gemer dos filhos de Israel, aos quais os egípcios vêm escravizando; e lembrei-me do meu pacto. Portanto dize aos filhos de Israel: Eu sou Jeová; eu vos tirarei de debaixo das cargas dos egípcios, livrar-vos-ei da sua servidão, e vos resgatarei com braço estendido e com grandes juízos. Eu vos tomarei por meu povo e serei vosso Deus; e vós sabereis que eu sou Jeová vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas dos egípcios. Eu vos introduzirei na terra que jurei dar a Abraão, a Isaque e a Jacó; e vo-la darei por herança. Eu sou Jeová”. (Êxodo 6:2-8)

Israel, então, é declarado povo de Deus porque Ele é o Deus de Israel, segundo a promessa do pacto que Ele fez com Abraão: “para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti” (Gn 17:7).

Isso responde também o segundo ponto, sobre os membros do pacto. Jeová não deveria ser o Deus somente de Abraão individualmente, mas de toda sua família, de toda sua casa, isto é, de sua descendência, de geração em geração, que formaria assim o povo de Deus. Além disso, a promessa do pacto incluía também o domínio do povo de Israel sobre a terra prometida:

“Dar-te-ei a ti e à tua descendência depois de ti a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em perpétua possessão; e serei o seu Deus”. (Gênesis 17:8)

Quanto as exigências do pacto, os membros do pacto, começando por Abraão, deveriam responder às exigências do pacto com fidelidade a Deus: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda em minha presença, e sê perfeito” (Gn 17:1). Ou seja, se eles eram o povo de Deus, eles deveriam ser fiéis a Deus, andando em Sua presença, como Abraão que “creu no Senhor, e o Senhor imputou-lhe isto como justiça” (Gn 15:6). É por isso que posteriormente Deus disse sobre Abraão:

“E disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que faço, visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e por meio dele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o tenho escolhido, a fim de que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para praticarem retidão e justiça; a fim de que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a respeito dele tem falado”. (Gênesis 18:17-19)

E também:

“E havia fome na terra, além da primeira fome, que foi nos dias de Abraão; por isso foi Isaque a Abimeleque, rei dos filisteus, em Gerar. E apareceu-lhe o SENHOR, e disse: Não desças ao Egito; habita na terra que eu te disser; Peregrina nesta terra, e serei contigo, e te abençoarei; porque a ti e à tua descendência darei todas estas terras, e confirmarei o juramento que tenho jurado a Abraão teu pai; E multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra; Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis“. (Gênesis 26:1-5)

Isso é o mesmo que posteriormente reafirmado por Moisés, que sendo eles o povo de Deus, deveriam andar em fidelidade a Ele:

“Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas o SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao SENHOR teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, Que guardes os mandamentos do SENHOR, e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Deuteronômio 10:12-13)

Este é o significado do preâmbulo dos Dez Mandamentos: “Então falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”. (Êx 20:1-2) Porque Ele era o Deus deles e eles eram o Seu povo, eles deveriam ouvir a Sua voz, guardando seus mandamentos, andando em Sua presença, exatamente como Ele havia dito para Abraão (Gn 17:1).

Quanto ao sinal do pacto, era a circuncisão: “Circuncidar-vos-eis na carne do prepúcio; e isto será por sinal de pacto entre mim e vós”. (Gênesis 17:11) A circuncisão era um sinal do pacto, isto é, era um sinal exterior das promessas e exigências que estavam sendo estabelecidas no pacto. É por isso que, tendo Gênesis 17 como ponto de partida, o resto da Bíblia enfatiza a relação entre a circuncisão externa e esta realidade espiritual que a circuncisão significa:

“Eu também andei para com eles contrariamente, e os fiz entrar na terra dos seus inimigos; se então o seu coração incircunciso se humilhar, e então tomarem por bem o castigo da sua iniqüidade”. (Levítico 26:41)

Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz […] Ao SENHOR teu Deus temerás; a ele servirás, e a ele te chegarás, e pelo seu nome jurarás“. (Deuteronômio 10:16-20)

“E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas“. (Deuteronômio 30:6)

Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitadores de Jerusalém, para que a minha indignação não venha a sair como fogo, e arda de modo que ninguém o possa apagar, por causa da maldade das vossas obras”. (Jeremias 4:4)

Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne”. (Filipenses 3:3)

O coração circunciso significa a obediência do homem às exigências do pacto de forma que ele responde positivamente a promessa de ter o Senhor como Seu Deus. É para isso que que a circuncisão externa aponta e por isso é chamado de sinal do pacto. Paulo escreveu que “se tu és transgressor da Lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão”(Rom 2:25). A circuncisão era um sinal e por isso a circuncisão era como a incircuncisão quando o judeu, pela transgressão da Lei, era infiel a Deus e, sendo assim, rejeitava a promessa de ter o Senhor como Seu Deus.

Isso nos conduz a um quinto elemento do pacto que mencionamos, a possibilidade de excomunhão do pacto: “Mas o incircunciso, que não se circuncidar na carne do prepúcio, essa alma será extirpada do seu povo; violou o meu pacto“. (Gênesis 17:14) Ou seja, a promessa de ter o Senhor como Deus não era inerente a todo descendente biológico de Abraão de maneira incondicional. Aqui vemos a possibilidade de ser eliminado do povo. Os que não fossem circuncidados, ainda que fossem biologicamente descendente de Abraão, não deveriam ser contado como parte do povo de Deus.

Assim Deus instituiu Seu pacto com o povo de Israel, não para que fosse a única nação pactuada com Ele, mas para que fosse a primeira:

“E multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra”. (Gênesis 26:4)

Por isso Deus disse a Faraó:

“E disse o SENHOR a Moisés: Quando voltares ao Egito, atenta que faças diante de Faraó todas as maravilhas que tenho posto na tua mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo. Então dirás a Faraó: Assim diz o SENHOR: Israel é meu filho, meu primogênito. E eu te tenho dito: Deixa ir o meu filho, para que me sirva; mas tu recusaste deixá-lo ir; eis que eu matarei a teu filho, o teu primogênito“. (Êxodo 4:21-23)

Como bem explicou João Calvino:

“Esta passagem, então, refere-se a vocação dos Gentios, que Deus já havia decretado que traria à comunhão com Seu povo eleito, para que fossem unidos ao Seu primogênito… a descendência santa de Abraão é comparada com as nações que, naquele tempo, ainda eram pagãs”. (João Calvino, A Harmonia da Lei, Comentário de Êxodo 4:22)

UM SÓ POVO, UM SÓ CORPO

Como já demonstramos, a promessa do Senhor, “para te ser por Deus” (Gn 17:7) não incluía Israel somente, mas também os gentios. A vantagem de Israel foi o de ser o primeiro chamado (cf. Rm 2:10, 9:1-5) para que, por meio daquilo que Deus faria neles, os gentios também fossem incluídos no mesmo pacto (cf. Gn 12:13,18:18, Gn 22:18, Gn 26:4, Gn 17:5). A circuncisão foi dada como sinal externo da promessa sendo cumprida em Israel, de Israel sendo chamado para servir a Deus em comunhão com Ele. Mas a promessa original incluía também os gentios e, portanto, a vocação de Israel, tendo a circuncisão como sinal, foi um cumprimento ainda parcial da promessa abraâmica. Deus havia prometido: “E far-te-ei uma grande nação… e em ti serão benditas todas as famílias da terra”(Gen 12:2-3). O sinal da circuncisão, estabelecida em Gênesis 17, é um sinal somente da primeira parte desta promessa, “far-te-ei uma grande nação”, mas, ainda assim, não trata da segunda parte, que as nações seriam incluídas neste mesmo pacto. Jesus veio para cumprir a promessa:

“Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto”. (Efésios 2:11-13)

No tempo do Novo Testamento, a oposição dos judeus incrédulos a isso era tão grande que eles chegaram ao ponto de exigir a execução de Paulo pelo simples fato dele mencionar que foi chamado por Deus para ensinar aos gentios:

“E aconteceu que, tornando eu para Jerusalém, quando orava no templo, fui arrebatado para fora de mim. E vi aquele que me dizia: Dá-te pressa e sai apressadamente de Jerusalém; porque não receberão o teu testemunho acerca de mim. E eu disse: Senhor, eles bem sabem que eu lançava na prisão e açoitava nas sinagogas os que criam em ti. E quando o sangue de Estêvão, tua testemunha, se derramava, também eu estava presente, e consentia na sua morte, e guardava as capas dos que o matavam. E disse-me: Vai, porque hei de enviar-te aos gentios de longe. E ouviram-no até esta palavra, e levantaram a voz, dizendo: Tira da terra um tal homem, porque não convém que viva”. (Atos 22:17-22)

Esta questão é motivo de polêmica por todo o Novo Testamento, tendo motivado a convocação do Concílio de Jerusalém. Deus estava de fato chamando os gentios para fazerem parte do mesmo pacto que Deus estabeleceu com Abraão ou não? Os judaizantes do primeiro século, em oposição ao Antigo Testamento, respondiam que não. O Apóstolo Pedro, em concordância com o Antigo Testamento, respondeu que sim:

“E, havendo grande contenda, levantou-se Pedro e disse-lhes: Homens irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre nós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem. E Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; E não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé”. (Atos 15:7-9)

Paulo perguntou: “É porventura Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios?”(Rom 3:29). O que precisa ser entendido aqui é que essa pergunta está diretamente relacionado ao pacto que Deus fez com Abraão em Gênesis. Como já demonstramos a promessa do pacto era: “para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti”. (Gn 17:7) Os gentios estariam sendo incluídos nisso ou isso deveria ser entendido como se dirigindo exclusivamente a Israel? O pacto era para Israel ou os gentios estavam sendo incluídos no mesmo pacto? Deus é porventura somente de Israel ou é dos gentios também? Para qualquer um que lembrasse da promessa original feita a Abraão, a resposta de Paulo seria bastante óbvia: “Também dos gentios, certamente”.(Rom 3:29) É por isso que imediatamente depois de discutir isso, no capítulo seguinte, Paulo começa a falar das promessas abraâmicas que, desde o princípio, incluía os gentios:

“(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem”. (Romanos 4:17)

Em outras palavras, os gentios, por meio de Jesus Cristo foram inseridos no pacto tanto quanto Israel havia, pois o Senhor é o Deus dos gentios, não somente de Israel. Como ele escreveu aos Efésios:

“Por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho“. (Efésios 3:4-6)

Paulo não poderia ser mais claro. Os gentios são co-herdeiros com Israel e, portanto, judeus e gentios pertencem ao mesmo corpo, sendo co-participantes da mesma promessa abraâmica que, em Cristo, foi confirmada pelo Evangelho (cf. II Co 1:20). Além disso, no capítulo seguinte ele diz que “há um só corpo” (Ef 4:4), que é a Igreja (cf. Rm 12:5; I Co 10:16-17; 12:12-27), o povo de Deus simplesmente porque o povo de Deus são todos com quem Deus instituiu Seu pacto “para te ser por Deus” (Gn 17:7).

O BATISMO COMO SINAL DO PACTO

“Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. (Mateus 28:19)

Da mesma forma que o sinal da circuncisão, estabelecida em Gênesis 17, era um sinal da promessa abraâmica sendo cumprida na nação de Israel, o batismo é um sinal da mesma promessa sendo cumprida em todas as nações. Como explicou o Apóstolo Paulo:

“Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa”. (Gálatas 3:27-29)

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos”. (Colossenses 2:11-12)

É por isso que quando Jesus mandou ensinar todas as nações, Ele mandou batizá-las. Paulo explicou que “nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea” porque as promessas foram feitas a todas estas classes de pessoas e por isso todas são herdeiras da promessa. A circuncisão apontava para a promessa sendo cumprida em Israel. O batismo aponta para a promessa sendo cumprida em todas as nações. O conteúdo da promessa, todavia, é substancialmente o mesmo e por isso o Apóstolo Paulo trata a circuncisão e o batismo com sacramentalmente equivalentes. João Calvino resumiu bem a questão:

“Quando o Senhor manda Abraão observar a circuncisão, ele prefacia que será o Deus dele e de sua semente, acrescentando que nele estavam a afluência e a suficiência de todas as coisas, para que Abraão tivesse consciência de que sua mão haveria de ser-lhe a fonte de todo bem (Gn 17.1-10); palavras nas quais se contém a promessa da vida eterna, como as interpreta Cristo, daí formulando argumento para se comprovar a imortalidade e ressurreição dos fiéis. Ora, Cristo diz: “Ele não é Deus de mortos, mas de vivos” (Mt 22.32; Mc 12.27; Lc 20.38). Por isso também Paulo, demonstrando aos efésios de que gênero de condenação o Senhor os libertara, daqui se conclui que não tinham a circuncisão; que não haviam sido admitidos ao pacto da circuncisão; conclui que estiveram sem Deus, sem esperança; que eram estranhos aos testamentos da promessa (Ef 2.12), todas as coisas que o próprio pacto compreendia. Mas que o primeiro acesso a Deus, o primeiro ingresso à vida imortal é a remissão dos pecados. Do quê se conclui que esta promessa da circuncisão corresponde à promessa do batismo quanto à nossa purificação. Depois o Senhor ordena a Abraão que andasse diante dele em sinceridade e inocência de coração (Gn 17.1), o que diz respeito à mortificação, ou regeneração. E para que ninguém nutre dúvida de que a circuncisão seja o sinal de mortificação, Moisés o expõe mais claramente em outro lugar (Dt 10.15, 16), quando exorta o povo de Israel a circuncidar ao Senhor o prepúcio do coração, uma vez que ele fora escolhido dentre todas as nações da terra para que fosse o povo de Deus. Visto que Deus, quando adota para si a posteridade de Abraão para seu povo, preceitua que ela fosse circuncidada, assim Moisés pronuncia ser necessário que seu coração fosse circuncidado, explicando assim qual é o verdadeiro sentido desta circuncisão carnal (Dt 30.6). Então, para que ninguém porfiasse de suas próprias forças, Moisés ensina que essa é obra da graça de Deus. Todas estas coisas são tantas vezes inculcadas pelos profetas que não é necessário aqui acumular muitos testemunhos, os quais são por toda parte profusos. Portanto, temos na circuncisão uma promessa espiritual outorgada aos patriarcas, como se dá em nosso batismo, uma vez que ela significa a remissão dos pecados e a mortificação da carne. Além disso, como já ensinamos ser Cristo, em quem reside uma e outra destas duas coisas, o fundamento do batismo, assim se faz evidente que ele o é também da circuncisão. Pois ele próprio é prometido a Abraão e nele a bênção de todas as nações (Gn 12.2, 3). O sinal da circuncisão é adicionado para selar-se esta graça. Já se pode ver, sem nenhuma dificuldade, nestes dois sinais, o batismo e a circuncisão, o que é semelhante ou o que é diverso. A promessa em que afirmamos consistir a virtude dos sinais é uma e a mesma em ambos, isto é, a promessa do favor paterno de Deus, da remissão dos pecados, da vida eterna. Então, a coisa figurada é também uma e a mesma, a saber, a regeneração. O fundamento em que se apoia o cumprimento destas coisas é um e o mesmo em ambos: Cristo. Por isso, não existe nenhuma diferença no mistério interior, no que consiste toda a força e propriedade dos sacramentos. A diferença que resta, essa consiste na cerimônia externa, que é porção mínima, quando a parte mais importante depende da promessa e da coisa significada. Desse modo é lícito concluir que tudo quanto convém à circuncisão, excetuada a diferença da cerimônia visível, pertence igualmente ao batismo. A regra do Apóstolo nos conduz pela mão a esta dedução e comparação, mercê da qual se deve medir e pesar toda a interpretação da Escritura segundo a analogia da fé (Rm 12.3,6). E neste aspecto, seguramente, a verdade nos é oferecida quase que tangivelmente. Ora, exatamente como a circuncisão, visto que era para os judeus uma como que senha pela qual se se assegurava ainda mais que foram adotados por povo e família de Deus, e também eles próprios, por sua vez, professavam alistar-se com Deus, era-lhes o ingresso inicial na Igreja, agora também, mediante o batismo, somos iniciados em relação a Deus para sermos contados em seu povo e nós, pessoal e reciprocamente, juremos a seu nome. Portanto, parece fora de dúvida que o batismo foi introduzido no lugar da circuncisão e tem em vista as mesmas funções”. (João Calvino, Institutas da Religião Cristã, 4:15:3-4)

ACASO REJEITOU DEUS AO SEU POVO?

“Pergunto, pois: Acaso rejeitou Deus ao seu povo? De modo nenhum; por que eu também sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou ao seu povo que antes conheceu”. (Romanos 11:1-2)

Aqui Paulo cita a si mesmo, um israelita da tribo de Benjamim, como prova de que Deus “não rejeitou ao seu povo que antes conheceu”. Mas se é assim, isso não significaria que Deus tem agora dois povos, a Igreja e Israel? Não, se considerarmos que o que ele ensina aqui é mesmo que ele ensina aos Efésios, que “os gentios são co-herdeiros” (Ef 3:6) com Israel, pois Cristo “de ambos os povos fez um” (Ef 2:14). Ou seja, Deus não tem dois povos, mas somente um, que é a Igreja que inclui judeus como parte desta Igreja. Deus não rejeitou Israel, não porque qualquer judeu, independente de tudo, seja considerado por Ele como parte de Seu povo, mas porque porque há judeus que, assim como Paulo, pertencem ao “remanescente segundo a eleição da graça” (Rm 11:5) e, portanto, são povo de Deus porque pertencem a parte da Igreja. Para que esse ponto fique claro, basta lembrarmos o que Deus falou com Abraão sobre a possibilidade de excomunhão do pacto:

“Mas o incircunciso, que não se circuncidar na carne do prepúcio, essa alma será extirpada do seu povo; violou o meu pacto“. (Gênesis 17:14)

Ou seja, a promessa de ter o Senhor como Deus não era inerente a todo descendente biológico de Abraão de maneira incondicional. Aqui vemos a possibilidade de ser eliminado do povo. Os que não fossem circuncidados, ainda que fossem biologicamente descendente de Abraão, não deveriam ser contado como parte do povo de Deus: “essa alma será extirpada do seu povo“. Como já demonstramos, na dispensação do Novo Testamento, Deus substituiu o sinal da circuncisão pelo sinal do batismo e, portanto, “a promessa em que afirmamos consistir a virtude dos sinais é uma e a mesma em ambos” (Calvino, Institutas, 4:15:3-4). Sendo assim, todo aquele que se recusa a ser batizado não deve ser contado como parte do povo de Deus. O batismo é o sinal e selo do pacto que Deus fez com Abraão, “para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti”, mas aquele que “violou o seu pacto” é “extirpado do seu povo” (Gn 17:14). Concluímos, então, que “Deus não rejeitou ao seu povo que antes conheceu” (Rm 11:2) porque, em fidelidade ao que Ele jurou a Abraão, Ele preserva Seu pacto em Israel por meio do “remanescente segundo a eleição da graça” (Rm 11:5), que Ele introduz em Sua Igreja, que é o Seu único povo (Ef 2:14), por meio do batismo em uma só fé (Ef 4:5). Os demais judeus, que rejeitam essa fé e esse batismo, foram “extirpada do seu povo” (Gn 17:14) e, portanto, não fazem parte do povo de Deus. Nas palavras de Paulo, esses são os “ramos que foram quebrados” e, portanto, não são “participantes da raiz e da seiva da oliveira” (Rm 11:17). Somente a Igreja é porque “todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo… se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa”. (Gl 3:27,29)

Parte I – Parte II

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