mosesO SEGUNDO MANDAMENTO
Por Frank Brito

“Guardai, pois, com diligência as vossas almas, porque não vistes forma alguma no dia em que o Senhor vosso Deus, em Horebe, falou convosco do meio do fogo; para que não vos corrompais, fazendo para vós alguma imagem esculpida, na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou de mulher; ou semelhança de qualquer animal que há na terra, ou de qualquer ave que voa pelo céu; ou semelhança de qualquer animal que se arrasta sobre a terra, ou de qualquer peixe que há nas águas debaixo da terra”. (Deuteronômio 4:15-18)

Aqui é dito que o modo com que o Senhor se manifestou a Israel tinha um propósito pedagógico. Ele recitou todos os Dez Mandamentos, mas o modo com que Ele se manifestou para recitá-los tinha como objetivo ensinar algo especificamente sobre o segundo mandamento: “Não vistes forma alguma no dia em que o Senhor vosso Deus, em Horebe, falou convosco do meio do fogo; para que não vos corrompais, fazendo para vós alguma imagem esculpida, na forma de qualquer figura”. Deus não se manifestou de maneira visível enquanto falava com o povo para que eles aprendessem que não poderiam fazer imagens de dEle. Para que essa verdade fosse mais claramente enfatizada, Deus dá exemplos de imagens que não poderiam ser feitas:

Para que não vos corrompais, e vos façais alguma imagem esculpida na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou mulher; figura de algum animal que haja na terra; figura de alguma qualquer ave que voa pelos céus; figura de algum animal que se arrasta sobre a terra; figura de algum peixe que esteja nas águas debaixo da terra”. (Deuteronômio 4:16-18)

É importante observar que não é somente proibido prestar culto a Deus por meio de imagens, mas é proibido até mesmo fazer imagens para representa-lo, ainda que não seja especificamente para culto.  É isso que Deus quis enfatizar no modo com que Ele se manifestou a todo povo: “E o Senhor vos falou do meio do fogo; ouvistes o som de palavras, mas não vistes forma alguma; tão somente ouvistes uma vozNão vistes forma alguma no dia em que o Senhor vosso Deus, em Horebe, falou convosco do meio do fogo; para que não vos corrompais, fazendo para vós alguma imagem esculpida, na forma de qualquer figura”. No livro do profeta Isaías, vemos mais claramente o motivo dessa proibição:

Bel está abatido, Nebo se encurvou, os seus ídolos são postos sobre os animais e sobre as feras; as cargas dos vossos fardos são canseiras para as feras já cansadas. Juntamente se encurvaram e se abateram; não puderam livrar-se da carga, mas a sua alma entrou em cativeiro. Ouvi-me, ó casa de Jacó, e todo o restante da casa de Israel; vós a quem trouxe nos braços desde o ventre, e sois levados desde a madre. E até à velhice eu serei o mesmo, e ainda até às cãs eu vos carregarei; eu vos fiz, e eu vos levarei, e eu vos trarei, e vos livrarei. A quem me assemelhareis, e com quem me igualareis, e me comparareis, para que sejamos semelhantes? Gastam o ouro da bolsa, e pesam a prata nas balanças; assalariam o ourives, e ele faz um deus, e diante dele se prostram e se inclinam. Sobre os ombros o tomam, o levam, e o põem no seu lugar; ali fica em pé, do seu lugar não se move; e, se alguém clama a ele, resposta nenhuma dá, nem livra alguém da sua tribulação. Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores. Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade”. (Isaías 46:1-10)

Aqui é feito um contraste entre o Deus verdadeiro e os falsos deuses dos gentios. Os falsos deuses têm imagens, mas o Deus verdadeiro não tem porque Ele é inigualável, incomparável e Soberano.  Retratá-lo é ofendê-lo, rebaixando Sua glória ao nível ao fruto da “imaginação dos homens” (At 17:29), ao nível da “obra da mão do artífice” (Dt 27:15). Em outras palavras, a proibição de retratá-lo é derivado de Sua natureza e de Seus atributos. Como bem explicou João Calvino:

“Ora, sabemos que o sol fora adorado pelos persas. Também, tantas quantas estrelas as pessoas estultas divisavam no céu, outros tantos deuses para si inventavam. Quase não houve animal algum que para os egípcios não se convertesse em representação de alguma divindade. Os gregos, verdade seja dita, pareceram exceder em sabedoria aos demais, pois adoraram a Deus sob forma humana. Entretanto, Deus não compara essas imagens entre si, como se uma fosse mais apropriada, outra o fosse menos; ao contrário, repudia, sem exceção, todas as efígies esculturadas, pinturas e outras representações, mediante as quais os supersticiosos supuseram que ele lhes haveria de estar perto.

Isso pode ser facilmente inferido das razões que ele anexa à sua proibição. Primeiramente, através de Moisés [Dt 4.15]: “Lembra-te do que o Senhor te falou no vale do Horebe: ouviste uma voz, porém corpo não viste; guarda-te, portanto, a ti mesmo, para que não aconteça que, se fores enganado, para ti faças qualquer representação” etc. Vemos como Deus opõe abertamente sua voz a todas as representações, para que saibamos que, todos quantos buscam para ele formas visíveis, dele se apartam.

Dentre os profetas, será suficiente um só, Isaías, que é muito incisivo nesta demonstração, visto que ensina que a majestade de Deus é maculada de vil e absurda ficção, quando o incorpóreo é nivelado à matéria corpórea, o invisível à representação visível, o espírito à coisa inanimada, o imenso a um pequeno pedaço de madeira, pedra ou ouro (Is 40.18; 41.7, 29; 45.9; 46.5). Paulo também arrazoa de modo idêntico: “Visto que somos geração de Deus, não devemos pensar que o divino seja semelhante ao ouro, à prata ou à pedra trabalhada pela arte ou invenção do homem” (At 17.29). Do quê transparece que, qualquer estátua que se erige, ou imagem que se pinta para representar a Deus, simplesmente lhe desagrada como coisas afrontosas a sua majestade”. (Institutas da Religião Cristã, 1:11:2)

Como escreveu também Heinrich Bullinger:

“Visto que Deus como Espírito é, em essência, invisível e imenso, não pode, certamente, ser expresso por qualquer arte ou imagem. Por essa razão, não tememos afirmar com a Escritura que imagens de Deus não passam de mentiras. Assim, rejeitamos não somente os ídolos dos gentios mas também as imagens dos cristãos”. (Segunda Confissão Helvética, Artigo 4)

  • Teofanias e Imagens de Deus

Foi dito que quando Deus se manifestou em Horebe “não vistes forma alguma; tão somente ouvistes uma voz”, mas nem sempre esse foi caso. Neste caso, havia um propósito pedagógico específico: enfatizar o segundo mandamento. Em outros casos, apesar de Deus, em sua essência, ser invisível, Ele de fato manifestava-se de maneira visível. É o que chamamos de teofanias. Para Abraão, por exemplo, Ele apareceu como homem:

“Depois apareceu-lhe o SENHOR nos carvalhais de Manre, estando ele assentado à porta da tenda, no calor do dia. E levantou os seus olhos, e olhou, e eis três homens em pé junto a ele. E vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro e inclinou-se à terra”. (Gênesis 18:1-2)

Posteriormente vemos claramente que o SENHOR era um destes homens:

“E disse: Certamente tornarei a ti por este tempo da vida; e eis que Sara tua mulher terá um filho. E Sara escutava à porta da tenda, que estava atrás dele. E eram Abraão e Sara já velhos, e adiantados em idade; já a Sara havia cessado o costume das mulheres. Assim, pois, riu-se Sara consigo, dizendo: Terei ainda deleite depois de haver envelhecido, sendo também o meu senhor já velho? E disse o SENHOR a Abraão: Por que se riu Sara, dizendo: Na verdade darei eu à luz ainda, havendo já envelhecido? Haveria coisa alguma difícil ao SENHOR? Ao tempo determinado tornarei a ti por este tempo da vida, e Sara terá um filho. E Sara negou, dizendo: Não me ri; porquanto temeu. E ele disse: Não digas isso, porque te riste”. (Gênesis 18:10-15)

E os outros dois homens eram na verdade anjos:

“E levantaram-se aqueles homens dali, e olharam para o lado de Sodoma; e Abraão ia com eles, acompanhando-os”. (Gênesis 18:16)

“E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma”. (Gênesis 19:1)

Enquanto os dois anjos foram destruir Sodoma, o SENHOR permaneceu com Abraão conversando sobre a destruição de Sodoma:

“Então viraram aqueles homens os rostos dali, e foram-se para Sodoma; mas Abraão ficou ainda em pé diante da face do SENHOR. E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio?” (Gênesis 18:22-23)

Em outras ocasiões, Deus se manifestou visivelmente na forma do Anjo do Senhor:

“E apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote em Midiã; e levou o rebanho atrás do deserto, e chegou ao monte de Deus, a Horebe. E apareceu-lhe o Anjo do SENHOR em uma chama de fogo do meio duma sarça; e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia. E Moisés disse: Agora me virarei para là, e verei esta grande visão, porque a sarça não se queima. E vendo o SENHOR que se virava para ver, bradou Deus a ele do meio da sarça, e disse: Moisés, Moisés. Respondeu ele: Eis-me aqui. E disse: Não te chegues para cá; tira os sapatos de teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa. Disse mais: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. E Moisés encobriu o seu rosto, porque temeu olhar para Deus. E disse o SENHOR: Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores. Portanto desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra, a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel; ao lugar do cananeu, e do heteu, e do amorreu, e do perizeu, e do heveu, e do jebuseus”. (Êxodo 3:1-8)

E no batismo de Cristo, Deus se manifestou descendo como pomba:

“E, sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele”. (Mateus 3:16)

Essas teofanias são significantes para o correto entendimento do segundo mandamento. Apesar de Deus se manifestar como homem e como o Anjo do Senhor em diversas partes do Antigo Testamento, os israelitas não poderiam fazer imagens destas teofanias. Apesar de Deus, em Sua essência, ser invisível, Ele ocasionalmente manifestava-se em forma visível e essas manifestações existiam paralelamente às proibições de fazer imagens dEle. Apesar de Deus se manifestado como homem Abraão, ainda assim foi dito aos israelitas: “Para que não vos corrompais, e vos façais alguma imagem esculpida na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou mulher”.

  • Imagens do Espírito Santo e de Cristo

Se as teofanias de Deus no Antigo Testamento não davam qualquer justificativa para os israelitas fazerem imagens dEle, com base nestas teofanias, não temos qualquer motivo para crer que quando o Espírito “como pomba descia sobre Ele” (Mc 1:10) recebemos autorização para fazermos imagens dEle como pomba ou como qualquer outra ave. As palavras de Deuteronômio são muito claras, Deus chama isso de corrupção: “para que não vos corrompais, fazendo para vós alguma imagem esculpida, na forma de qualquer figura, semelhança… de qualquer ave que voa pelo céu” (Dt 4:16-17) Não podemos esquecer jamais que “o Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus; no entanto não são três Deuses, mas um Deus” (Credo Atanasiano) e, portanto, não podemos fazer imagens da pessoa do Espírito tanto quanto não podemos fazer imagens da pessoa do Pai.

Da mesma forma, se os israelitas não poderiam fazer uma imagem do Anjo do Senhor (Ex 3:2), que era o eterno Filho de Deus, gerado do Pai antes de todos os tempos, antes de Sua encarnação, não há motivos para crer que podemos fazer imagens de Cristo agora. Não podemos jamais nos esquecer que Cristo é “verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial ao Pai, segundo a Divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade” e que nestas duas naturezas há “um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito… não dividido ou separado em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor” (Credo da Calcedônia). É por isso, em relação ao Pai, Jesus é “o resplendor da Sua glória, e a expressa imagem da Sua Pessoa” (Hb 1:3). Sendo assim, retratá-lo é ofendê-lo, rebaixando Sua glória ao nível ao fruto da “imaginação dos homens” (At 17:29), ao nível da “obra da mão do artífice” (Dt 27:15). Historicamente, isso é o que todas as Igrejas Reformadas e Presbiterianas sempre defenderam em suas Confissões e Catecismos:

A Segunda Confissão Helvética:

“Embora Cristo tenha assumo a natureza humana, não a assumiu para fornecer modelo a escultores e pintores. Afirmou que não veio “revogar a Lei ou os Profetas” (Mat 5.17). E as imagens são proibidas pela Lei e pelos Profetas (Deut 4.15; Is 44.9)”. (Segunda Confissão Helvética, Artigo 4)

O Catecismo de Heidelberg:

P. 96 – O que Deus exige no segundo mandamento?

R. Não podemos, de maneira alguma, representar Deus por imagem ou figura (1). Devemos adorá-Lo somente da maneira que Ele ordenou em sua palavra (2).

(1) Dt 4:15,16; Is 40:18,19,25; At 17:29; Rm 1:23-25. (2) Dt 12:30-32; lSm 15:23; Mt 15:9.

P. 97 – Não se pode fazer imagem alguma?

R. Não se pode nem deve fazer nenhuma imagem de Deus. As criaturas podem ser representadas, mas Deus nos proíbe fazer ou ter imagens delas para adorá-las ou para servir a Deus por meio delas (1).

(1) Êx 34:13,14,17; Dt 12:3,4; Dt 16:22; 2Rs 18:4 Is 40:25.

P. 98 – Mas não podem ser toleradas as imagens nas igrejas como ‘livros para ignorantes’?

R. Não, porque não devemos ser mais sábios do que Deus. Ele não quer ensinar a seu povo por meio de ídolos mudos (1), mas pela pregação viva de sua Palavra (2).

(1) Jr 10:5,8; Hc 2:18,19. (2) Rm 10:14-17; 2Tm 3:16,17; 2Pe 1:19.

O Catecismo Maior de Westminster:

P. 108 – Quais são os deveres exigidos no segundo mandamento?

R.: Os deveres exigidos no segundo mandamento são – o receber, observar e guardar, puros e inalterados, todo o culto e todas as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra, especialmente a oração e ações de graças em nome de Cristo; a leitura, a prédica, e o ouvir da Palavra; a administração e a recepção dos sacramentos; o governo e a disciplina da igreja; o ministério e a sua manutenção; o jejum religioso, o jurar em nome de Deus e o fazer os votos a Ele; bem como o desaprovar, detestar e opor-nos a todo o culto falso, e, segundo a posição e vocação de um, o remover tal culto e todos os símbolos de idolatria.

Deut. 32:43; Mat 28:20; I Tim. 6:13-14; Fil. 4:6; Ef. 5:20; Deut. 17:18-19; At. 15:21; II Tim. 4:2; At 10:33; Mat. 28:19 e 16:18 e 18:15-17; I Co 12:28; Ef. 4:11-12; Tim. 5-17-18; Joel 2:12; I Co 7:5; Deut. 6:13; Sal. 76:11; At. 17:16-17; Sal 16:4; Deut. 7:5; Isa. 30:22.

P. 109 – Quais são os pecados proibidos no segundo mandamento?

R.: Os pecados proibimos no segundo mandamento são – o estabelecer, aconselhar, mandar, usar e aprovar de qualquer maneira qualquer culto religioso não instituído por Deus; o fazer qualquer imagem de Deus, de todas e qualquer das três pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente em qualquer forma de imagem ou semelhança de criatura alguma; toda a adoração dela, ou de Deus nela ou por meio dela; o fazer qualquer imagem de deuses imaginários e todo o culto ou serviço a eles pertencentes; todas as invenções supersticiosas, corrompendo o culto de Deus, acrescentando ou tirando dele, quer sejam inventadas e adotadas por nós, quer recebidas por tradição de outros, embora sob o título de antiguidade, de costume, de devoção, de boa intenção, ou por qualquer outro pretexto; a simonia, o sacrilégio; toda a negligência, desprezo, impedimento e oposição ao culto e ordenanças que Deus instituiu.

Num. 15:39; Deut. 13:6-8; Oze. 5:11; Miq. 6:16; I Reis 11:33 e 12:23; Deut. 12:30-32 e 4:15-16; At. 17:29; Rom. 1:21-23,25; Gal. 4:8; Exo. 32:5,8; I Reis 18:26-28; At. 17:22; Col. 2 :21-23; Mal. 1:7-8,14; Deut. 4:2; Sal. 104:39; Mat. 15:9; I Ped. 1:8; Jer. 44:17; Isa. 55:3-5; Gal. 1:13-14; I Sam. 13:12 e 15:21; At. 8:18-19; Rom. 2:22; Mal. 3:8 e 1:7,13; Mat. 22:5 e 23:13; At. 13:45.

E a Arca da Aliança?

Muitos não entendem como a proibição do segundo mandamento pode ser reconciliado com o fato de que Deus mandou que Moisés construísse imagens de anjos para que fossem postos na Arca da Aliança:

“Farás também dois querubins de ouro; de ouro batido os farás, nas duas extremidades do propiciatório. Farás um querubim na extremidade de uma parte, e o outro querubim na extremidade da outra parte; de uma só peça com o propiciatório, fareis os querubins nas duas extremidades dele. Os querubins estenderão as suas asas por cima, cobrindo com elas o propiciatório; as faces deles uma defronte da outra; as faces dos querubins estarão voltadas para o propiciatório. E porás o propiciatório em cima da arca, depois que houveres posto na arca o testemunho que eu te darei”. (Êxodo 25:18-21)

O motivo é simples se entendermos que o segundo mandamento não proíbe que façamos qualquer imagem. Como bem explica o Catecismo de Heidelberg, que já foi citado:

P. 97 – Não se pode fazer imagem alguma?

R. Não se pode nem deve fazer nenhuma imagem de Deus. As criaturas podem ser representadas, mas Deus nos proíbe fazer ou ter imagens delas para adorá-las ou para servir a Deus por meio delas.

Anjos não são deuses. Anjos são criaturas de Deus. Portanto, podem ser representados.

Os Bezerros de Ouro

Um fato importante de entender é que quando o povo no deserto fez um bezerro de ouro, eles entendiam que tratava-se de imagem do Deus verdadeiro, não a imagem de qualquer outro deus:

“E Arão lhes disse: Arrancai os pendentes de ouro, que estão nas orelhas de vossas mulheres, e de vossos filhos, e de vossas filhas, e trazei-mos. Então todo o povo arrancou os pendentes de ouro, que estavam nas suas orelhas, e os trouxeram a Arão. E ele os tomou das suas mãos, e trabalhou o ouro com um buril, e fez dele um bezerro de fundição. Então disseram: Este é teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito. E Arão, vendo isto, edificou um altar diante dele; e apregoou Arão, e disse: Amanhã será festa ao SENHOR. E no dia seguinte madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se a comer e a beber; depois levantou-se a folgar”. (Êxodo 32:1-7)

“Fizeram um bezerro em Horebe e adoraram a imagem fundida. E converteram a Sua glória na figura de um boi que come erva”. (Salmo 106:19-20)

“E recusaram ouvir-te, e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste, e endureceram a sua cerviz e, na sua rebelião, levantaram um capitão, a fim de voltarem para a sua servidão; porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te, e grande em beneficência, tu não os desamparaste. Ainda mesmo quando eles fizeram para si um bezerro de fundição, e disseram: Este é o teu Deus, que te tirou do Egito; e cometeram grandes blasfêmias”. (Neemias 9:17-18)

  • Até a Terceira e Quarta Geração

É importante observar também que, anexado ao segundo mandamento, está uma terrível ameaça contra todos os que prestam cultos a estas imagens:

“Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos”. (Êxodo 20:5-6)

Isso é o que Paulo reafirma aos Romanos:

“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça. Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; (Romanos 1:18-23)

O Catecismo Maior de Westminster comenta:

  1. Quais são as razões anexas ao segundo mandamento para lhe dar maior força?

As razões anexas para o segundo mandamento, para lhe dar maior força, contidas nestas palavras: “Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Deus forte e zeloso, que vinga a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e que usa de misericórdia até mil gerações com aqueles que me amam e que guardam os meus preceitos”, são, além da soberania de Deus sobre nós e o seu direito de propriedade em nós, o seu zelo fervoroso pelo seu culto e indignação vingadora contra todo o culto falso, considerando-o uma apostasia religiosa, tendo por inimigos os violadores desse mandamento e ameaçando puni-los até diversas gerações e tendo por amigos os que guardam os seus mandamentos, prometendo-lhes a misericórdia até muitas gerações.

Exo. 20:5-6; Sal. 14:11; Apoc. 15:3-4; Exo. 34:13-14; I Co. 10-20-22; Ose 2:2-4; Deut. 5:29.

  • Não Façais Como os Gentios

Uma das maiores ênfases na Lei é que os servos de Deus não deveriam imitar os pagãos, em seus costumes:

“Estes são os estatutos e os juízos que tereis cuidado em cumprir na terra que vos deu o SENHOR Deus de vossos pais, para a possuir todos os dias que viverdes sobre a terra. Totalmente destruireis todos os lugares, onde as nações que possuireis serviram os seus deuses, sobre as altas montanhas, e sobre os outeiros, e debaixo de toda a árvore frondosa; E derrubareis os seus altares, e quebrareis as suas estátuas, e os seus bosques queimareis a fogo, e destruireis as imagens esculpidas dos seus deuses, e apagareis o seu nome daquele lugar. Assim não fareis ao SENHOR vosso Deus”. (Deuteronômio 12:1-4)

“Guarda-te, que não te enlaces seguindo-as, depois que forem destruídas diante de ti; e que não perguntes acerca dos seus deuses, dizendo: Assim como serviram estas nações os seus deuses, do mesmo modo também farei eu. Assim não farás ao SENHOR teu Deus”. (Deuteronômio 12:30-31)

Os pagãos faziam e fazem imagens de seus deuses, mas nós não devemos imitá-los. Devemos servir ao Senhor da maneira que Ele nos ordenou, não fazendo imagens dEle. Nos Atos dos Apóstolos vemos como essa diferença em relação às imagens, entre os servos de Deus e os pagãos, foi visível para muitos do Império Romano:

“E, naquele mesmo tempo, houve um não pequeno alvoroço acerca do Caminho. Porque um certo ourives da prata, por nome Demétrio, que fazia de prata nichos de Diana, dava não pouco lucro aos artífices, aos quais, havendo-os ajuntado com os oficiais de obras semelhantes, disse: Senhores, vós bem sabeis que deste ofício temos a nossa prosperidade; e bem vedes e ouvis que não só em Éfeso, mas até quase em toda a Ásia, este Paulo tem convencido e afastado uma grande multidão, dizendo que não são deuses os que se fazem com as mãos. E não somente há o perigo de que a nossa profissão caia em descrédito, mas também de que o próprio templo da grande deusa Diana seja estimado em nada, vindo a ser destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo veneram”. (Atos 19:23-27)

A preocupação de Demétrio é simples de entender. Sua profissão era fazer imagens dos deuses. Paulo estava pregando sobre o segundo mandamento e ele havia sido bem sucedido em convencer uma grande multidão. Se ele continuasse com seu sucesso evangelístico, eles ficariam sem emprego. Demétrio não era cristão, mas o que ele sabia e via em Paulo era suficiente para ele perceber que, na religião de Paulo não havia imagens e, portanto, se todos virassem cristãos, ele estaria economicamente arruinado. Se Paulo fizesse ou incentivasse que fossem feitas imagens de Deus, de Cristo ou do Espírito Santo, essa preocupação específica não faria qualquer sentido e a polêmica nem sequer seria levantada. Sob a perspectiva de suas crenças pagãs, seria simplesmente mais uma religião com imagens de seus deuses como qualquer outra. O que causou sua preocupação foi que a religião que Paulo trazia tinha essa diferença crucial em relação aos pagãos: o Deus que Ele prega não tem imagens e toda nossa prosperidade depende disso. A mesma distinção, entre os falsos deuses com imagens e o Deus verdadeiro sem imagens, ficou muito clara também quando Paulo pregou em Atenas:

“E, enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria. De sorte que disputava na sinagoga com os judeus e religiosos, e todos os dias na praça com os que se apresentavam. E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele; e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos; porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição. E tomando-o, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas? […] E, estando Paulo no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos[…]Sendo nós, pois, geração de Deus, não havemos de cuidar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos homens. Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam”. (Atos 17:16-18, 22, 29-30)

Paulo estava pregando sobre Jesus e os atenienses queriam saber que “deuses estranhos” e “nova doutrina” era essa. Em seu sermão, Paulo aplicou o segundo mandamento contra eles, fazendo um contraste entre a religião que ele anunciava, sem imagens, e a idolatria ateniense, com deuses que tinham imagens. Novamente, se Paulo fizesse ou incentivasse que fossem feitas imagens de Deus, de Cristo ou do Espírito Santo, este ponto específico de sua mensagem não faria muito sentido aos ouvidos dos atenienses, pois eles não veriam qualquer diferença entre os seus deuses, com imagens, e o Deus de Paulo, que também teria uma imagem. Essa foi uma das diferenças cruciais que Paulo apontou entre o que ele pregava e o que os atenienses criam e faziam.

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