ThomasO AMOR É O CUMPRIMENTO DA LEI
Por Thomas Schirrmacher

Parte IParte II – Parte III

Sobre o Autor:  Thomas Schirrmacher é o reitor do Martin Bucer Seminar na Alemanha, onde leciona nas áreas de teologia sistemática, apologética e ética.

O Sermão no Monte

Em nossa reflexão sobre lei e amor, vamos considerar a polêmica em torno do Sermão do Monte. Jesus está aqui dando uma nova lei ou ele está reafirmando a Lei do Antigo Testamento? Aqueles que acreditam que Jesus está proclamando uma nova lei no Sermão do Monte, demonstram desconhecer (1) as respostas de Jesus aos fariseus, (2) o próprio texto do sermão, e especialmente (3) os mandamentos do Antigo Testamento.

(1) Jesus sempre usou o Antigo Testamento para refutar os fariseus. Como Ele poderia usar o Antigo Testamento como Sua autoridade contra os fariseus se os fariseus representassem o Antigo Testamento? Jesus repetidamente reprovou os fariseus e escribas pelo mau uso, má interpretação e rejeição do Antigo Testamento. Isso pode ser visto especialmente em Marcos 7:1-5 (Mt 15:1-13). Aqui Jesus diz, por exemplo: “Vós deixais o mandamento de Deus, e vos apegais à tradição dos homens. Disse-lhes ainda: Bem sabeis rejeitar o mandamento de deus, para guardardes a vossa tradição”. Nos “ais” contra os fariseus e escribas em Mateus 23 imediatamente antes de profetizar a destruição de Jerusalém em Mateus 24, Jesus anunciou: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na Lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas”(Mt 23:23).

(2) Podemos ver o mesmo no próprio Sermão da Montanha. A lista de assuntos começando com “Ouvistes que foi dito… Eu, porém, vos digo” (Mt 5:21-48) é introduzida por uma declaração clara de que Jesus veio cumprir a Lei: “Não penseis que vim destruir a Lei ou os Profetas; não vim destruir, mas cumprir”(Mt 5:17). Ele veio confirmar até mesmo “o menor destes mandamentos” (Mt 5:19, ler Mateus 5:17-20). Será possível que Jesus iniciou essa lista com essa declaração para então provar que a Lei seria ab-rogada ou trocada? Não deveríamos esperar que Jesus estava provando detalhadamente que até mesmo o menor dos mandamentos devem ser cumpridos? Não devemos esperar que Ele citaria exemplos da justiça errada ensinada pelos fariseus e da verdadeira justiça dEle?

(3) Os próprios exemplos provam que esta expectativa está correta. O repetido “Eu, porém, vos digo” no Sermão do Monte não é direcionado contra o Antigo Testamento, mas contra a teologia dos fariseus e a interpretação deles do Antigo Testamento. Quando Jesus cita “Ouvistes que foi dito…”, Ele não está citando o Antigo Testamento, mas a tradição dos fariseus e a interpretação deles do Antigo Testamento. Ele não diz “Está escrito…”, porque o que está escrito é o mesmo que “Eu, porém vos digo…”.

Quando Jesus disse aos Seus ouvintes “Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela” (Mt 5:28), Ele não estava inventando um conceito novo de pecado interior em contraste com a orientação externa do Antigo Testamento. Ele estava lembrando seus ouvintes que o Decálogo não contém somente o sétimo mandamento contra o adultério, mas também o décimo mandamento: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo” (Ex 20:17; Dt 5:21). As franjas nas vestes eram para que “vos lembreis de todos os mandamentos do Senhor, e os observeis; e para que não vos deixeis arrastar à infidelidade pelo vosso coração ou pela vossa vista, como antes o fazíeis” (Nm 15:39). Jó disse: “Fiz pacto com os meus olhos; como, pois, os fixaria numa virgem?” (Jó 31:1). E Salomão advertiu contra o adultério com as seguintes palavras: “Não cobices no teu coração a sua formosura, nem te deixes prender pelos seus olhares” (Pv 6:25). Quão pobre é o conhecimento do Antigo Testamento daqueles que dizem que o conceito de pecado no coração é um conceito novo! Não conhecem nem mesmo o décimo mandamento que, alias, também proíbe o pecado da inveja que conduz ao roubo (o oitavo mandamento).

O mesmo é verdade quando Jesus lembra os judeus que Deus não somente proibiu o homicídio literal, mas também o homicídio por pensamentos e palavras (Mt 5:21-26). No Antigo Testamento, o ódio e o rancor são aqueles pecados interiores que conduzem ao homicídio (Est 5:9; Pv 27:4; Am 1:11; Gn 49:6-7; Dt 19:6; Pv 16:14). Como no Sermão da Montanha, o Antigo Testamento somente autoriza a matar por legítima defesa, em caso de guerra ou como uma pena no tribunal, não por uma pessoa por contra própria. O dever do Estado de julgar criminosos foi reafirmado por Jesus no Sermão do Monte (Mt 5:25-26; veja também o texto paralelo em Lc 12:57-59). “Olho por olho, e dente por dente” nunca foi dado como um mandamento para vingança particular, mas como base para julgamentos justos nos tribunais (Ex 21:23-25; Lv 24:19-29; Dt 19:21).

Jesus não proibiu fazer juramentos, mas jurar por alguém ou alguma coisa além do próprio Deus: “De maneira nenhuma jureis… pelo Céu… ou pela terra…” etc. (Mt 5:34-35; Tg 5:12), como é comprovado pelo texto paralelo de Mateus 23:16-22. O Antigo Testamento ordena: “Pelo Seu nome jurarás” (Dt 6:13) e afirma: “Todo o que por Ele jura se alegrará nEle” (Sl 63:11). Portanto, Paulo faz juramentos diversas vezes ao escrever aos cristãos (II Co 1:23; Fp 1:8; I Ts 2:5,10; Rm 1:9; comparar com At 21:23).

Se juramentos fossem proibidos porque agora todos os cristãos sempre dizem a verdade, como explicaríamos que o próprio Deus faz juramentos centenas de vezes no Antigo Testamento? Segundo Hebreus 6:19, Deus fez um juramento a Abraão assim que, “querendo Deus mostrar mais abundantemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu conselho” (Hb 6:17), porque “o juramento para confirmação é o fim de toda contenda” (Hb 6:16). Um juramento não é uma mera afirmação da verdade, mas cria fatos que não podem ser quebrados ou anulados. Um juramento cria um pacto com bênçãos e maldições, algo que não pode ser dito de toda palavra verdadeira que falamos. Se juramentos fossem proibidos no Novo Testamento, não seria possível se casar, pois o casamento é um pacto por juramento (Pv 2:16-17; Ml 2:14; Ez 16:8; Jr 5:7).

Parte IParte II – Parte III

Tradução: Frank Brito
Fonte: Love is the Fulfillment of the Law

Anúncios