ThomasO AMOR É O CUMPRIMENTO DA LEI
Por Thomas Schirrmacher

Parte IParte II – Parte III

Sobre o Autor:  Thomas Schirrmacher é o reitor do Martin Bucer Seminar na Alemanha, onde leciona nas áreas de teologia sistemática, apologética e ética.

Uma Nova Era de Amor?

O último exemplo é o mais importante para o assunto aqui. “Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:43-44). Aqui Jesus introduziu uma nova era de amor? Não! De maneira nenhuma! Qualquer um com um mínimo de conhecimento do Antigo Testamento deve saber que “Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo” é contrario a palavra e ao espírito do Antigo Testamento. Era parte do ensino de alguns fariseus e escribas, como Otto Michel explicou:

“Aqui Jesus estava se referindo a uma determinada interpretação do Antigo Testamento, não ao próprio Antigo Testamento. Em geral, Jesus proíbe Seus discípulos de vingar o ódio com ódio: ‘Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam’ (Lc 6:27)”.

O amor aos inimigos está profundamente enraizado no Antigo Testamento. O direito de se vingar de Seus inimigos pertence a Deus. Ele delegou parte dessa tarefa ao Estado pelo poder da espada (Rm 13:4) e a Igreja usando a espada do Espírito pela proclamação da Lei, pela disciplina eclesiástica e pela oração. Mas nenhuma pessoa privada jamais recebeu permissão para odiar seu inimigo pessoal. Era proibido se regozijar com a queda do próprio inimigo (Pv 24:17), e Jó declarou que ele nunca fez isso (Jó 31:29). “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe pão para comer, e se tiver sede, dá-lhe água para beber”(Pv 25:21). A Lei afirma que era preciso devolver o boi e o jumento do inimigo que estava perdido e “se vires deitado debaixo da sua carga o jumento daquele que te odeia” o crente deveria ajudar o jumento junto com seu inimigo (Ex 23:5).

Certa vez pediram meu pai para dar uma palestra explicando se o Deus do Antigo e do Novo Testamento é o mesmo. Ele começou a palestra citando dezenas de passagens das Escrituras provando que o Deus do Antigo Testamento era o Deus de amor e misericórdia que frequentemente deixava a vingança de lado. Depois ele foi para o livro de Apocalipse para mostrar que o Deus do Novo Testamento é um Deus de vingança que odeia Seus inimigos. Depois Ele perguntou aos seus ouvintes como eles poderiam harmonizar o Deus amoroso do Antigo Testamento com o Deus de juízo do Novo Testamento. Os ouvintes ficaram inicialmente confusos, mas logo entenderam a lição.

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”

Jesus substituiu a Lei com o amor? Será que o cruel Antigo Testamento foi substituído pelo Novo Testamento que tem o mandamento de amor como centro? Como isso pode ser possível se um mandamento central do Novo Testamento “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” é uma citação do Antigo Testamento?

Vejamos a própria citação do Antigo Testamento. Em Levítico 19:7, nós lemos: “Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o teu próximo, e não levarás sobre ti pecado por causa dele”. Indiferença e falta de preocupação são coisas contrárias ao amor. Ou você odeia seu irmão ou você irá repreendê-lo segundo a Lei de Deus. É somente no verso seguinte que é dito: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Lv 19:18). E não somente o próximo judeu, mas também o estrangeiro: “Como um natural entre vós será o estrangeiro que peregrinar convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos; pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 19:34). Estes dois versos são partes de uma passagem maior que repete todos os Dez Mandamentos com maiores detalhes sobre eles (Lv 19:1-18). Os Dez Mandamentos explicam o que Deus quer dizer quando fala em amar o próximo e amar não é somente viver por estes mandamentos, mas também repreender irmãos e irmãs que não estão vivendo em harmonia com eles. Levítico 19:18 resume os mandamentos, especialmente os Dez Mandamentos.

Agora vamos ver os muitos lugares em que Levítico 19:18 é citado no Novo Testamento. Vamos começar com o próprio Jesus. Em Mateus 19:9 Jesus resume os Dez Mandamentos, citando uma versão menor de Levítico 19:19 ao jovem príncipe. Em Mateus 22:35-40 Jesus é questionado por um “doutor da Lei” (Mt 22:36) no meio de um grupo de fariseus (Mt 22:35): “Qual é o grande mandamento da Lei?” Jesus responde combinando Levítico 19:18 e Deuteronômio 6:5: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os profetas” (Mt 22:37-40).

Aqui Jesus estava falando sobre o Antigo Testamento. O Antigo Testamento depende do amor a Deus e do amor aos homens que procede do amor a Deus. Sem este amor, a Lei não existiria. Em uma passagem paralela, Marcos 12:28-34, Jesus cita estes mesmos dois mandamentos e acrescenta: “Não há outro mandamento maior do que esses” (Mc 12:31). O escriba que fez a pergunta reconhece que esta resposta é correta: “que amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios” (Mc 12:33). Jesus então responde: “Não estás longe do reino de Deus” (Mc 12:34). Todo escriba poderia saber que todos os mandamentos eram somente regulamentações do amor e, novamente, quero enfatizar que Jesus estava falando da Lei do Antigo Testamento, não sobre algo novo.

O centro da parábola do bom samaritano é também Levítico 19:18. Aqui Jesus pergunta a um escriba que queria saber o que ele faria “para herdar a vida eterna” (Lc 10:25): “Que está escrito na Lei? Como lês tu?” (Lc 10:26). O escriba novamente responde com os dois mandamentos de amor (Lc 10:27) e Jesus aprova suas palavras: “Faze isso, e viverás” (Luc 10:28). Então Jesus conta a parábola do bom samaritano porque o escriba queria inventar desculpas para aplicar sua própria definição da palavra “próximo”. Depois da parábola Jesus não perguntou “Quem era o próximo”, o que conduziria a resposta “o que caiu na mãos dos salteadores”, mas ironicamente pergunta: “Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?” (Lc 10:36). O escriba teve que reconhecer que aquele que mostrava misericórdia era o próximo e Jesus respondeu: “Vai, e faze tu o mesmo” (Lc 10:37).

Amar é o maior mandamento da Lei do Antigo Testamento. Nenhum mandamento pode ser entendido à parte do amor. E o amor não pode ser entendido à parte da Lei.

Paulo seguiu o exemplo do Antigo Testamento e de seu Mestre Jesus Cristo. Depois de listar as obras da carne (Gl 5:19-21) ele falou do amor como fruto do Espírito: “Mas o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade. a mansidão, o domínio próprio” (Gl 5:22-23). Mas por que Paulo acrescentou “contra estas coisas não há lei” (Gl 5:23)? Porque se você pratica o amor, você não irá quebrar qualquer mandamento. A Lei é a regra do amor. Amar e fazer algo contra a Lei é uma contradição em si mesmo e é, por definição, impossível! Que isso é o que Paulo quis dizer é estabelecido por citação de Levítico 19:18, alguns versos antes: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Mas não useis da liberdade para dar ocasião à carne, antes pelo amor servi-vos uns aos outros. Pois toda a Lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5:13-14). A liberdade do cristão não é liberdade para transgredir a Lei, mas é a liberdade para amar e expressar o amor em uma incrível variedade.

A mais clara declaração desta mensagem pode ser encontrada em Romanos 13:8-10: “A ninguém devais coisa alguma, senão o amor recíproco; pois quem ama ao próximo tem cumprido a Lei. Com efeito: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De modo que o amor é o cumprimento da Lei”. Paulo cita alguns dos Dez Mandamentos, mas acrescenta que ele está falando de qualquer outro mandamento.

Todo mandamento é governado pelo amor, procede do espírito do amor e somente afirma o que o amor fará. Alguém que verdadeiramente ama, não irá roubar, assassinar ou cometer adultério. Se os cristãos não voltarem a esta motivação e maneira de pensar sobre os Dez Mandamentos e toda a Lei, eles vão acabar tendo que se desculpar pela Lei de Deus porque eles mesmos não sabem porque precisam observar todos os seus detalhes.

         Pensadores humanistas no Ocidente se apropriaram da centralidade do amor do Cristianismo, mas eles só levaram a própria palavra porque eles querem decidir por si mesmos o que o amor ordena, o que o amor é. Eles querem liberdade da Lei, não liberdade na Lei. A última vez que vemos Levítico 19:18 sendo citado é na carta a Tiago. Tiago simplesmente estabelece essa relação entre liberdade e Lei. Tiago repreendeu seus leitores porque eles favoreciam os ricos e discriminavam contra os pobres (Tiago 2:1-8). Como ele prova este problema eclesiástico, social e econômico? Ele escreve: “Todavia, se estais cumprindo a lei real segundo a escritura: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem. Mas se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo por isso condenados pela Lei como transgressores. Pois qualquer que guardar toda a Lei, mas tropeçar em um só ponto, tem-se tornado culpado de todos. Porque o mesmo que disse: Não adulterarás, também disse: Não matarás. Ora, se não cometes adultério, mas és homicida, te hás tornado transgressor da Lei. Falai de tal maneira e de tal maneira procedei, como havendo de ser julgados pela Lei da liberdade” (Tg 2:8-12).

A Lei, especialmente o Decálogo, é novamente resumida por Levítico 19:18. O mandamento de amar é chamado de “lei real”. A lei real é a lei que governa todas as outras leis. Esta lei real também é chamada de “a Lei da liberdade”. O amor de Deus, a Lei de Deus e a liberdade de Deus são as mesmas coisas. Se você não tiver as três, você não terá nenhuma. Não há amor sem liberdade, não há lei sem amor, não há amor sem a Lei e não há liberdade sem a Lei.

Parte IParte II – Parte III

Tradução: Frank Brito
Fonte: Love is the Fulfillment of the Law

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