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RESPOSTA AO MANIQUEU FAUSTO (LIVRO XVIII)
Por S. Agostinho de Hipona

1. Fausto disse: “Não cuideis que vim destruir a Lei ou os Profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir”. Se estas são as palavras de Cristo, a menos que exista outra interpretação, elas são contra ti tanto quanto são contra mim. Seu Cristianismo tanto quanto o meu é baseado na crença de que Cristo veio para destruir a Lei e os Profetas. Suas ações provam isso, ainda que você negue com as palavras. É com base nisso que você desconsidera os preceitos da Lei e dos Profetas. É com base nisso que nós dois reconhecemos que Jesus é o fundador do Novo Testamento, o que implica em reconhecer que o Antigo Testamento foi destruído. Como, então, podemos acreditar que Cristo disse estas palavras sem primeiro confessar que estivemos completamente errados e sem demonstrar nosso arrependimento, passando a obedecer a Lei e os Profetas, cuidadosamente observando suas exigências, sejam o que for? Se fizermos isso podemos honestamente crer que Jesus disse que não veio destruir, mas cumprir a Lei. Da maneira com que as coisas são agora, você me acusa de não crer naquilo que você mesmo não crê. Isso é falsidade.

2. Mas vamos supor que nós estamos errados. O que deve ser feito agora? Iremos nos submeter à Lei porque Cristo não veio para destruí-la, mas cumprir. Iremos acrescentar vergonha a vergonha por meio da circuncisão, crendo que Deus se agrada destes sacramentos? Iremos observar o descanso do sábado e nos prender as cadeias de Saturno? Iremos encher o demônio dos judeus, pois ele não é Deus, com a matança de touros, carneiros e bodes, sem contar os homens? Iremos, em obediência a Lei e os Profetas, adotar, com uma crueldade ainda maior, as práticas que nos levaram a abandonar a idolatria? Iremos classificar a carne de alguns animais como imundas, entre as quais, segundo a Lei e os Profetas, a carne de porco era especialmente contaminada? É claro que você dirá que, como cristãos, não devemos fazer qualquer uma dessas coisas, pois você se lembra que Cristo disse que quando um homem é circuncidado ele se torna filho do inferno duas vezes mais.1 Também é evidente que Cristo não observou o sábado e não mandou que fosse observado. Quanto aos alimentos, Ele expressamente disse que o que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai.2 Quanto aos sacrifícios, também, Ele frequentemente disse que Deus deseja misericórdia e não sacrifício.3 O que fazer, então, com a declaração que Ele não veio destruir a Lei, mas cumprir? Se Cristo disse isso, ou o sentido deve ter sido outro ou, o que não deve ser sugerido, Ele mentiu. Ou isso nunca foi dito por Ele. Nenhum cristão aceitará que Cristo tenha mentido. Portanto, ou isso nunca foi dito por Ele ou foi dito com outro sentido.

3. De minha parte, como um Maniqueu, este verso não me causa muita dificuldade, pois desde o principio sou ensinado a crer que muitas coisas que são ditas na Escritura em nome do Salvador são falsas e, portanto, precisam ser testadas para descobrir se são verdadeiras, legítimas e genuínas. Pois o inimigo que vem de noite corrompeu quase todas as passagens semeando joio no meio do trigo. Então eu não me surpreendo com essas palavras, ainda que esteja associado a um nome sagrado. Pois eu ainda reclamo a liberdade de examinar se isso vem das mãos do bom semeador, que semeia de dia, ou se vem o maligno, que semeia de noite. Mas que escapatória dessa dificuldade pode haver para você, que recebe tudo sem examinar, condena o uso da razão – uma prerrogativa da natureza humana – , acredita ser uma impiedade distinguir entre a verdade e a mentira e tem tanto medo de separar o bem quanto as crianças tem de fantasmas? Suponha que um judeu ou qualquer um que tenha familiaridade com essas palavras lhe peça para guardar os preceitos da Lei e dos Profetas, já que Cristo não veio destruir, mas cumprir. Você será ou obrigado a se juntar as tolices supersticiosas dos judeus, ou a declarar que este verso é falso, ou a negar que seja um seguidor de Cristo.

4. Agostinho respondeu: Como você continua a repetir o que já foi tão frequentemente exposto e refutado, somos obrigados a repetir a refutação. As coisas que na Lei e nos Profetas que os cristãos não observam são somente tipos daquilo que observam. Estes tipos eram figuras das coisas que haveriam de vir e necessariamente são removidos quando as próprias coisas são plenamente reveladas em Cristo para que, nesta remoção, a Lei e os Profetas possam se cumprir. Então está escrito os Profetas que Deus faria um Novo Pacto, “Não conforme o pacto que fiz com seus pais”.4 Tal era a dureza de coração do povo sob o Antigo Testamento, que muitos preceitos lhes foram dados, não tanto porque eram bons, mas porque condizia com o povo. Mas em todos eles o futuro era previsto e prefigurado, ainda que o povo não entendesse o significado de suas próprias observâncias. Depois que se manifestaram as coisas que por estes preceitos eram significados, não temos mais a obrigação de observar os tipos. Somente lemos sobre eles para ver o que significavam. Então, novamente, foi previsto nos Profetas, “tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne” 5– isto é, um coração sensível no lugar de um insensível. O Apóstolo faz alusão a isso nas seguintes palavras: “não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração”.6As tábuas de carne do coração são equivalentes ao coração de carne. Sendo assim, sido prevista a remoção destas coisas, a Lei e os Profetas não poderiam se cumprir se não por esta remoção. Agora, então, que a previsão aconteceu, o cumprimento da Lei e dos Profetas se encontra no que, a primeira vista, parece ser o oposto.

5. Não temos medo de responder a sua zombaria contra o sábado, quando você o chama de “cadeias de Saturno”. É uma expressão boba e sem sentido, que somente veio a sua mente porque você tem o hábito de adorar o sol no dia em que você chama de Dia do Sol7. O que você chama de Dia do Sol nós chamamos de Dia do Senhor. Neste dia não adoramos o sol, mas a ressurreição do Senhor. E, da mesma maneira, os pais observavam o descanso o Sábado, não porque eles adoravam Saturno, mas porque era temporariamente obrigatório, pois era a sombra do que haveria de vir, como o Apóstolo testifica.8 Os gentios, dos quais o Apóstolo diz que “adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador” 9, deram aos dias da semana o nome de seus deuses. E até o presente momento você faz o mesmo, exceto que você adora somente aos dois luminares mais claros e não o resto das estrelas, como os gentios faziam. Além disso, os gentios deram o nome de seus deuses aos meses. Em homenagem a Rômulo, que acreditavam ser o filho de Marte, foi dedicado o primeiro mês10 a Marte, chamando-o de Março. O próximo mês, Abril, não recebe o nome de qualquer deus, mas da palavra “abrir” porque as flores geralmente abrem neste mês. O terceiro mês é Maio, para honrar Maia, a mãe de Mercúrio. O quarto é chamado de Junho, por causa de Juno. Os outros até Dezembro costumavam ser chamados segundo o próprio número. Todavia, o quinto e o sexto acabaram sendo chamados de Julho e Agosto por causa de homens a quem foram decretados honras divinas enquanto os outros, de Setembro até Dezembro, continuaram a ser chamados segundo o próprio número.11 Novamente, Janeiro recebeu seu nome de Janus e Fevereiro dos ritos de Luperci chamado Februe. Devemos dizer que você adora o deus Marte no mês de Março? Mas este é o mês no qual você celebra com grande pompa a festa que chama de Bema. Mas se você crê que é lícito observar o mês de Março sem pensar em Marte, por que você faz ligação entre o nome de Saturno com o descanso do sétimo dia celebrado na Escritura simplesmente porque os gentios chamam este dia de Dia do Sol? O nome deste dia na Escritura é Sábado, que significa descanso. Sua zombaria é tão irracional quanto é profana.

6. Quanto ao sacrifício de animais, todo cristão sabe que eles eram aceitáveis para um povo perverso e não porque Deus tinha qualquer prazer neles. Ainda assim, mesmo nestes sacrifícios havia os tipos daquilo que nós observamos, pois não podemos obter purificação ou a propiciação de Deus sem sangue. O cumprimento destes tipos é em Cristo. Por Seu sangue somos purificados e remidos. Nestas figuras dos divinos oráculos, o touro representa Cristo porque os chifres de Sua cruz espalhou os ímpios; o cordeiro, por Sua inocência inigualável, o bode porque Ele foi feito “em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado”.12 Qualquer sacrifício que você especificar, eu lhe mostrarei a profecia de Cristo nele. Assim, temos demonstrado que quanto à circuncisão, ao Sábado, à distinção de alimentos e ao sacrifício de animais, todas estas coisas eram exemplos nossos e profecias nossas, que Cristo não veio destruir, mas cumprir, trazendo o cumprimento daquilo que foi predito. Seu oponente é o Apóstolo, cuja opinião eu dou em suas próprias palavras: “estas coisas nos foram feitas para exemplo”.13

7. Se foi com os Maniqueus que você aprendeu a impiedade de aceitar somente as partes dos Evangelhos que não contradizem seus erros, enquanto você rejeita o resto, nós temos aprendido com o Apóstolo a cautela piedosa de considerar como maldito qualquer que nos prega outro evangelho que não é aquele que temos recebido. Sendo assim, cristãos católicos14 olham para você como parte do joio. Pois na exposição do Senhor, o significado do joio não é a falsidade misturada com a verdade nas Escrituras, mas são os filhos do maligno – pessoas que imitam o engano do Diabo. Não é verdade que cristãos católicos acreditam em tudo, pois eles não acreditam nos maniqueus e qualquer um dos hereges. Também não condenam o uso da razão humana, mas o que você chama de raciocínio eles provam ser falacioso. Também não acreditam ser profano distinguir entre a verdade e a falsidade, pois eles distinguem entre a verdade da fé católica e as falsidades de suas doutrinas. Também não temem separar o bem do mal, mas defendem que o mal não é natural, mas antinatural. Não sabem nada sobre sua raça das trevas que, você diz, é produzido por um princípio próprio e luta contra o Reino de Deus e, do qual seu deus parece realmente ter mais medo do que as crianças têm de fantasmas. Pois, segundo você, ele se cobriu com um véu para não ver os próprios membros sendo tomado e saqueado pelos ataques do inimigo. Para concluir, cristãos católicos não tem qualquer dificuldade com as palavras de Cristo, pois pela graça de Cristo eles guardam a Lei no amor a Deus15 e ao homem16; e destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.17 Além disso, eles veem que Cristo e a Igreja cumprem todas as profecias do Antigo Testamento, sejam na forma ações, ritos simbólicos ou linguagem figurada. Então nós nem nos ajuntamos a tolices supersticiosas, nem declaramos que este verso é falso e nem negamos ser seguidores de Cristo. Pois, com base nestes princípios que eu procurei explicar com o melhor das minhas forças, a Lei e os Profetas que Cristo não veio destruir, mas cumprir, não são outros se não aquilo que é reconhecido pela Igreja.

1 Mateus 23:15

2 Mateus 15:11

 3 Mateus 19:13

 4 Jeremias 31:32

 5 Ezequiel 11:19

 6 II Coríntios 2:3

 7 No inglês os nomes dos dias da semana ainda refletem a nomenclatura pagã. O dia de sábado é “Saturday”, que significa “dia de Saturno” e “Sunday” significa “dia do sol”. Já no português os nomes dos dias da semana refletem a nomenclatura cristã. “Sábado” significa “descanso”, em referência ao sétimo dia da criação, e “domingo” significa “Dia do Senhor”.

 8 Colossenses 2:17

 9 Romanos 1:25

 10 Os nomes dos meses eram os mesmos que usamos agora, mas a contagem do ano começava em Março e não em Janeiro. Janeiro era o antepenúltimo mês e Fevereiro era o último.

 11 Como o ano era contado a partir de Março, Setembro significa sétimo, Outubro significa oitavo, Novembro significa nono e Dezembro significa décimo.

 12 Romanos 8:3

 13 I Coríntios 10:6

 14“Católico” aqui não deve ser entendido como sendo equivalente ao ao que é hoje conhecido como catolicismo romano ou catolicismo ortodoxo.

15 Deuteronômio 6:5

16 Levítico 19:18

 17 Mateus 22:40

Tradução: Frank Brito

Fonte: Augustine: The Writings Against the Manichaeans and Against the Donatists