ressA GANGRENA HÍPER-PRETERISTA (Parte I)
Por Frank Brito

Parte IParte II

“Conservando a fé, e a boa consciência, a qual alguns, rejeitando, fizeram naufrágio na fé. E entre esses foram Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar”. (I Timóteo 1:19-20)

“E a palavra desses roerá como gangrena; entre os quais são Himeneu e Fileto; os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição era já é passada, e perverteram a fé de alguns”. (II Timóteo 2:17-18)

Em suas duas cartas a Timóteo, Paulo citou o nome de três hereges – Himeneu, Fileto e Alexandre, o latoeiro (II Tm 4:14). Eram homens que anteriormente professavam a fé cristã, mas que com o passar do tempo “desviaram da verdade”, “ fizeram naufrágio na fé” e “perverteram a fé de alguns”. II Timóteo nos diz qual era a heresia defendida por Himeneu e Fileto que levou Paulo a identificá-los como falsos mestres: “os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição era já é passada”. O propósito deste artigo é demonstrar que esta mesma heresia é atualmente defendida pelos chamados híper-preteristas.

Primeiro, o híper-preterismo, também conhecido como preterismo total, não deve ser confundido com o preterismo ortodoxo, também conhecido como preterismo parcial. O hiper-preterismo é uma heresia que ensina que todas as profecias bíblicas, sem exceção, se cumpriram no passado, até o primeiro século da era cristã. Segundo o híper-preterismo, não há mais nenhuma profecia que ainda se cumprirá no futuro e até mesmo a segunda vinda de Cristo, o juízo final e a ressurreição dos mortos se cumpriu no primeiro século da era cristã, no ano de 70 AD. Já o preterismo ortodoxo ou parcial ensina que a maioria das profecias bíblicas se cumpriu no passado, mas nem todas. Segundo o preterismo parcial, a segunda vinda de Cristo, o juízo final e a ressurreição dos mortos ainda acontecerá no futuro, no fim da história. Portanto, não é uma heresia.

Paulo foi muito claro quanto a perversão de Himeneu e Fileto, “dizendo que a ressurreição era já é passada, e perverteram a fé de alguns”. A heresia de Himeneu e Fileto era dizer que a ressurreição dos mortos já havia acontecido sendo que ela ainda não havia acontecido. Sendo assim, os híper-preteristas caem na mesma condenação que eles, pois o híper-preterismo também defende que a ressurreição já aconteceu quando, na verdade, ela ainda não aconteceu. A única maneira dos híper-preteristas não caírem na mesma condenação de Himeneu e Fileto é demonstrando que, apesar da ressurreição não ter sido passada em relação ao tempo deles, a ressurreição de fato já é passada em relação ao nosso tempo. Não há meio termo para as palavras de Paulo. Se a ressurreição não aconteceu, aqueles que dizem que já aconteceu são ímpios e falsos mestres, cuja “palavra… roerá como gangrena”, que “se desviaram da verdade” e que “perverteram a fé” (II Tm 2:17-18).

Cadê os Cadáveres?

“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras”. (I Tessalonicenses 4:16-18)

Segundo o híper-preterismo, a segunda vinda de Cristo, o juízo final e a ressurreição dos mortos se cumpriu no primeiro século da era cristã, no ano de 70 AD. Três perguntas precisam ser respondidas:

1) Onde estão as evidências de que todos os cadáveres dos crentes que estavam nos túmulos no primeiro século, ressuscitaram e saíram dos túmulos vivos?

2) Onde estão as evidências de que os cadáveres que já haviam entrado em decomposição foram milagrosamente restaurados de forma que pudessem ressuscitar e reaparecer vivos?

3) Onde estão as evidências de que todos os crentes que estavam vivos no primeiro século tiveram seus corpos transformados e foram arrebatados aos céus para se encontrarem com o Senhor?

Evidentemente, não é possível apresentar quaisquer evidências de que nenhuma destas três coisas tenha acontecido no primeiro século. Seria um completo absurdo supor que por todo o Império Romano os mortos ressuscitaram e os cristãos vivos foram arrebatados ao céu sem que tivéssemos muitas evidências históricas de que isso aconteceu. Os híper-preteristas, portanto, são ímpios e falsos mestres como Himeneu e Fileto, pois dizem “que a ressurreição era já é passada” quando ela de fato não é. Evidentemente, eles sabem que seria um completo absurdo supor que uma coisa dessas proporções tenha acontecido no Império Romano do primeiro século sem que tenhamos qualquer evidências. Por isso eles precisam reinterpretar a ressurreição dos mortos, de forma que não seja mais entendida como uma ressurreição física e literal.

A Natureza da Ressurreição

Os evangelistas não mediram esforços para deixar uma coisa muito clara – Jesus de fato ressuscitou. Não era um espírito. Não era um fantasma. Não era uma ilusão de ótica. Assim como Cristo de fato morreu fisicamente, Ele de fato ressuscitou fisicamente:

“E falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio deles, e disse-lhes: Paz seja convosco. E eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito. E ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho”. (Lucas 24:36-39)

O Evangelho de João chega a dizer Ele tinha até as marcas dos cravos da crucificação:

“Ora, Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei. E oito dias depois estavam outra vez os seus discípulos dentro, e com eles Tomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: Paz seja convosco. Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. E Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram”. (João 20:24-29)

Segundo o mesmo Apóstolo João, aqueles que negam que Jesus Cristo foi um verdadeiro homem com um corpo físico, não um fantasma ou um espirito, são anticristos:

“E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo”. (I João 4:3)

“Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este tal é o enganador e o anticristo”. (II João 1:7)

A ressurreição não fez com que isso deixasse de ser verdade, como Lucas 24:36-39 deixa absolutamente claro. Sendo assim, aqueles que negam que Jesus ressuscitou em carne, são anticristos.

A ressurreição de Cristo é a chave para entender qual será a natureza da ressurreição dos cristãos:

“Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos”. (I Coríntios 15:12-18)

Aqui o Apóstolo Paulo argumenta que se alguém nega a existência da ressurreição homens, ela estará negando a ressurreição de Cristo. A ressurreição dos homens ao qual ele se refere, então, necessariamente tem que ser entendida como sendo da mesma natureza que a ressurreição de Cristo. Se ele estivesse falando de dois tipos de ressurreição diferentes, se ele não estivesse se referindo a uma ressurreição literal e física dos homens, seu argumento não faria qualquer sentido. Seu argumento inteiro pressupõe que tanto a ressurreição dos homens quanto a de Cristo são da mesma natureza e, portanto, se a possibilidade de ressurreição dos homens for negada, teremos que negar também a ressurreição de Cristo. Sendo assim, somos forçados a concluir que se Cristo ressuscitou fisicamente, então nós também vamos ressuscitar fisicamente. Ele deixa isso perfeitamente claro em todo seu argumento:

“Pois como todos em Adão morrem, do mesmo modo todos em Cristo serão vivificados. Cada um, porém, na sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda. Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder”. (I Coríntios 15:22-24)

Se Cristo (chamado de “as primícias” no v.23) ressuscitou fisicamente, então necessariamente devemos entender a “morte” e a “vivificação” do v. 22 como morte e ressurreição física. Se a “morte” e a “vivificação” do v. 22 não fossem morte e ressurreição física, então a ressurreição de Cristo não teria física, algo que é claramente negado pelos Evangelhos. Novamente, o argumento inteiro pressupõe que tanto a ressurreição dos homens quanto a de Cristo são da mesma natureza.Os híper-preteristas tentam evitar essa conclusão óbvia distorcendo o que Paulo diz depois:

“Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? e com que qualidade de corpo vêm? Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas o simples grão, como o de trigo, ou o de outra qualquer semente. Mas Deus lhe dá um corpo como lhe aprouve, e a cada uma das sementes um corpo próprio. Nem toda carne é uma mesma carne; mas uma é a carne dos homens, outra a carne dos animais, outra a das aves e outra a dos peixes. Também há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres. Uma é a glória do sol, outra a glória da lua e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela. Assim também é a ressurreição, é ressuscitado em incorrupção. Semeia-se em ignomínia, é ressuscitado em glória. Semeia-se em fraqueza, é ressuscitado em poder. Semeia-se corpo animal, é ressuscitado corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual. Assim também está escrito: O primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente; o último Adão, espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o animal; depois o espiritual. O primeiro homem, sendo da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Qual o terreno, tais também os terrenos; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial. Mas digo isto, irmãos, que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus; nem a corrupção herda a incorrupção”. (I Coríntios 15:35-50)

Falaremos mais sobre isso na segunda parte deste estudo.

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