keysAS CHAVES DO REINO DOS CÉUS
Por Frank Brito

Parte I – Parte II – Parte III

“E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; E eu te darei as chaves do Reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. (Mateus 16:17-19)

Depois que Pedro confessou que Jesus era “o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16:16), o Senhor prometeu que lhe daria “as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16:19). Aqui precisamos responder duas perguntas importantes:

1) O que as chaves significam?

2) Essas chaves pertenceriam somente a Pedro?

1. O que as chaves significam?

Quanto a primeira pergunta, não há resposta no contexto imediato. Mas o que é dito sobre sobre as chaves ai é suficiente para obtermos a resposta a partir de outros textos, “… e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (v. 19). Jesus falou novamente sobre isso dois capítulos depois:

“Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão; Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu. Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. (Mateus 18:15-20)

Aqui o Senhor falou sobre o caso de alguém culpado de iniquidade contra seu irmão. Aquele que foi ofendido deveria, primeiro, tentar resolver o problema com o ofensor individualmente. Caso não fosse bem sucedido, ele deveria levar mais um ou dois “para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada”. O propósito era que estes servissem de testemunhas contra a iniquidade do malfeitor, conforme a Lei de Deus: “Uma só testemunha contra alguém não se levantará por qualquer iniquidade, ou por qualquer pecado, seja qual for o pecado que cometeu; pela boca de duas testemunhas, ou pela boca de três testemunhas, se estabelecerá o fato” (Dt 19:15). Se o ofensor se recusasse a resolver o problema na presença das testemunhas, isso serviria de evidência contra ele no tribunal eclesiástico. “E, se não as escutar, dize-o à igreja”. Essa seria sua última chance. Se, ainda assim, diante da igreja, ele se recusasse a se retratar, o ofensor deveria ser excomungado: “e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano”.

É importante observar que “irmão” aqui tem um sentido primariamente judicial que não condiz necessariamente com sua natureza espiritual. “Ora, se teu irmão pecar contra ti”. Espiritualmente, é possível que ele não seja verdadeiramente “nascido de Deus” (Jo 4:7) e, provavelmente, aquele que foi ofendido tem diversos motivos para pensar que não seja. Mas, para todos os efeitos legais, presume-se que ele seja um cristão, sendo judicialmente reconhecido como tal, até que ele seja oficialmente declarado como um ímpio pela igreja. Judicialmente, ele é um irmão até que ele seja expulso da Igreja visível. É nesse sentido que Paulo se referia a todos os membros das igrejas como “santificados” e “santos”, ainda que havia aqueles que não eram verdadeiros filhos de Deus: “Paulo (chamado apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus), e o irmão Sóstenes, À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos” (I Co 1:1-2).

É neste contexto, de excomunhão, que o Senhor falou sobre o poder das chaves: “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. Isso é exatamente o mesmo que Ele havia dito a Pedro: “E eu te darei as chaves do Reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. A função de uma chave é abrir e fechar. A autoridade das chaves, então, é a autoridade para abrir e fechar o Reino dos Céus. E como Mateus 18 deixa claro, o Reino dos Céus é fechado para o malfeitor por meio da excomunhão.  Lemos mais sobre isso em I Coríntios:

“Geralmente se ouve que há entre vós fornicação, e fornicação tal, que nem ainda entre os gentios se nomeia, como é haver quem abuse da mulher de seu pai. Estais ensoberbecidos, e nem ao menos vos entristecestes por não ter sido dentre vós tirado quem cometeu tal ação. Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já determinei, como se estivesse presente, que o que tal ato praticou, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo, seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus. Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade. Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo”. (I Coríntios 5:1-13)

Aqui há o caso de um adúltero que relacionava com a madrastra. Ele não menciona as chaves, mas, assim como em Mateus 18, o malfeitor é expulso da Igreja. O que temos aqui, então, é claramente o exercício do poder das chaves para fechar o Reino dos Céus para um adúltero impenitente. Aqui somos informados que isso significa quer o malfeitor é “entregue a Satanás”. Sendo assim, devemos entender que Paulo excomungou pelo menos duas outras pessoas no decorrer de seu ministério:

“E entre esses foram Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar”. (I Timóteo 1:20)

É importante observar que o exercício do poder das chaves para excomungar trás consequências concretas e reais sobre a vida malfeitor. O malfeitor é entregue a Satanás “para destruição da carne”. Há efeitos reais sobre a vida do malfeitor como consequência da excomunhão. Quanto a isso, devemos notar que tanto no caso da excomunhão do adúltero da igreja de Corinto quanto no caso da excomunhão de Himeneu e Alexandre por blasfêmia, existe a esperança de que o malfeitor seja restaurado. Em I Corinto é dito que ele deve ser entregue “a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus” (I Co 5:5). E no caso de Himeneu e Alexandre, é dito que eles foram entregues a Satanás “para que aprendam a não blasfemar”. A ideia de “destruir a carne” indica que Satanás é usado como instrumento de Deus para atormentar o malfeitor, punindo-o com flagelos. Vemos Satanás sendo usado dessa maneira, como instrumento de Deus para trazer flagelo contra os homens por diversos motivos, em outras partes da Bíblia:

“E o Senhor perguntou: Quem induzirá Acabe a subir, para que caia em Ramote-Gileade? E um respondia de um modo, e outro de outro. Então saiu um espírito, apresentou-se diante do Senhor, e disse: Eu o induzirei. E o Senhor lhe perguntou: De que modo? Respondeu ele: Eu sairei, e serei um espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. Ao que disse o Senhor: Tu o induzirás, e prevalecerás; sai, e faze assim. Agora, pois, eis que o Senhor pôs um espírito mentiroso na boca dentes da casa dele; sim, tornarei a tua casa como a casa de respeito de ti”. (I Reis 22:20-23)

“E a ira do SENHOR se tornou a acender contra Israel; e incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá”. (II Samuel 24:1)

“Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar a Israel”. (I Crônicas 21:1)

“E disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR”. (Jó 1:12)

“Então Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face! E disse o SENHOR a Satanás: Eis que ele está na tua mão; porém guarda a sua vida. Então saiu Satanás da presença do SENHOR, e feriu a Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça”. (Jó 2:4-7)

Em todos esses textos, espíritos malignos são usados por Deus como instrumento para atormentar os homens de diferentes maneiras e por diferentes motivos. É isso que acontece na excomunhão. O malfeitor é entregue a Satanás. No caso dos eleitos, este é um dos meios usados por Deus para conduzi-los ao arrependimento. No caso de o adúltero da igreja de Corinto, a segunda carta aparentemente indica que ele foi de fato restaurado:

“Porque em muita tribulação e angústia do coração vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que vos entristecêsseis, mas para que conhecêsseis o amor que abundantemente vos tenho. Porque, se alguém me contristou, não me contristou a mim senão em parte, para vos não sobrecarregar a vós todos. Basta-lhe ao tal esta repreensão feita por muitos. De maneira que pelo contrário deveis antes perdoar-lhe e consolá-lo, para que o tal não seja de modo algum devorado de demasiada tristeza. Por isso vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor”. (II Coríntios 2:4-8)

A ideia de que o exercício do poder das chaves para excomungar trás consequências concretas e reais sobre a vida malfeitor já está implícita nas palavras do próprio Cristo no Evangelho de Mateus: “Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16:19; 18:18). Aqui Ele mostra que o uso do poder das chaves na terra é amparado por Deus nos céus. Isto é, quando o malfeitor é legitimamente excomungado na terra, Deus reconhece a excomunhão no céu e, consequentemente, faz com que o malfeitor seja especialmente “entregue a Satanás”.

Mas a autoridade para excomungar é só uma parte do poder das chaves. A ideia de chaves indica que há também autoridade para abrir, não somente fechar. Se entendemos que a autoridade para fechar e desligar é a autoridade para excomungar, então devemos entender que a autoridade para abrir e ligar seja o contrário. Se a excomunhão é o meio pelo qual o indivíduo é expulso da Igreja, então a autoridade para abrir e ligar deve ser entendido como o meio pelo qual o indivíduo é recebido e admitido na Igreja. Falaremos mais sobre isso na segunda parte deste estudo.

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