baptismQUEM TEM O DIREITO DE BATIZAR?
Por Frank Brito

“Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. (Mateus 28:19)

“E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus”. (Hebreus 5:4)

Jesus mandou batizar as nações em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Mas a quem é dado esse dever e responsabilidade? Quem tem esse direito? Qualquer cristão pode administrar o batismo? Ou somente aqueles que foram devidamente ordenados? Essa pergunta causa dúvidas em muita gente.

A confusão existe por um entendimento equivocado do verdadeiro sentido de “ensinar” (Mt 28:19) e “pregar o Evangelho” (Mc 16:15) na Grande Comissão. Se todos os cristãos têm a obrigação de “pregar o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15), por que não teriam o direito de batizar (Mc 16:16)? O fato é que “ensinar” e “pregar o Evangelho” nestas passagens não se refere às obrigações de todos os cristãos, mas especificamente à função dos ministros da Palavra:

“Porque pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não tenha de si mesmo mais alto conceito do que convém; mas que pense de si sobriamente, conforme a medida da fé que Deus, repartiu a cada um. Pois assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons segundo a graça que nos foi dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; ou que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com zelo; o que usa de misericórdia, com alegria“. (Romanos 12:3-8)

Aqui Paulo está se referindo aos diferentes dons e vocações na Igreja. Diferentes cristãos têm diferentes chamados como parte do corpo. O último que ele cita é o “que usa de misericórdia” (Rm 12:8). Mas como isso pode ser um dom específico para alguns cristãos? A obrigação de ser misericordioso não é uma obrigação de todo cristão? O fato dele se referir ao “uso de misericórdia” como um chamado específico deixa claro que ele está se referindo à uma função específica na Igreja. João Calvino comentou:

“O cuidado dos pobres foi confiado aos diáconos. Todavia, na Epístola aos Romanos lhes são atribuídas duas modalidades:’Aquele que distribui’, diz Paulo aí, ‘faça-o com simplicidade; aquele que exerce misericórdia, com alegria’ (Rm 12.8). Uma vez que certamente ele está falando dos ofícios públicos da Igreja, necessariamente houve dois graus distintos de diáconos. A não ser que me engane o juízo, no primeiro membro da cláusula ele designa os diáconos que administravam as esmolas; no segundo, porém, aqueles que se dedicaram a cuidar dos pobres e dos enfermos, como, por exemplo, as viúvas das quais faz menção a Timóteo [1Tm 5.9, 10]”.

Paulo diz também, “se é ensinar, haja dedicação ao ensino” (Rm 12:8). Claramente, “ensinar” aqui não se refere ao que qualquer cristão pode fazer em sua vida diária, compartilhando a Palavra de Deus com amigos, familiares, colegas de trabalho, etc. Ele se refere aos que exercem o ministério da Palavra. Neste sentido, alguns são chamados para pregar e ensinar e outros não, alguns são pregadores e mestres e outros não:

“E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres… Porventura são todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres?” (I Coríntios 12:28-29)

“Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar, participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho”. (I Coríntios 9:13-14)

Aqui o Apóstolo Paulo estava defendendo o direito dos ministros da Palavra de receberem um salário. “Os que anunciam o Evangelho”, portanto, não são todos os cristãos. Se fossem todos cristãos, então todo e qualquer cristão teria o direito de ser sustentado pela igreja. Quando Paulo se refere aos “que anunciam o evangelho”, ele está se referindo aos ministros da Palavra, como era o caso dele mesmo, um apóstolo. Ele claramente distingue entre os cristãos de forma geral daqueles que são especialmente encarregados de anunciar o Evangelho. É sobre isso que ele fala aos Romanos:

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas”. (Romanos 10:14-15)

O sentido é mesmo de I Coríntios 9:13-14. Ele não se refere à qualquer cristão, mas aos que exercem o ministério da Palavra. É por isso que ele se refere aos pregadores como sendo “enviados”, como ele mesmo foi:

“E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre”. (Atos 13:2-4)

E também:

“Mas, irmãos, em parte vos escrevi mais ousadamente, como para vos trazer outra vez isto à memória, pela graça que por Deus me foi dada; Que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo. De sorte que tenho glória em Jesus Cristo nas coisas que pertencem a Deus. Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras; Pelo poder dos sinais e prodígios, na virtude do Espírito de Deus; de maneira que desde Jerusalém, e arredores, até ao Ilírico, tenho pregado o evangelho de Jesus Cristo. E desta maneira me esforcei por anunciar o evangelho, não onde Cristo foi nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio; Antes, como está escrito: Aqueles a quem não foi anunciado, o verão, E os que não ouviram o entenderão”. (Romanos 15:15-21)

Como os demais apóstolos:

“E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da Palavra“. (Atos 6:2-4)

“Os que anunciam o evangelho” (Rm 10:15) são os que exercem o “ministério da Palavra” e os que “servem as mesas” são os diáconos. Foi aos ministros da Palavra que Nosso Senhor mandou:

“Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. (Mateus 28:19)

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado”. (Marcos 16:15-16)

A ordem de batizar, então, não é dada aqui a todos os cristãos, mas somente “aos que anunciam o evangelho” (I Co 9:13-14; Rm 10:15), isto é, os que foram especialmente vocacionados, separados e enviados por Jesus Cristo para exercer o “ministério da Palavra” (At 6:4), como foram os apóstolos. Este é o padrão que encontramos por todo o Novo Testamento. Somos informados que o batismo foi administrado pelo profeta João (Mt 3; Mc 1; Lc 3; Jo 1), pelos apóstolos (Jo 4:1; At 16:33), pelo evangelista Filipe (At 8:36-38; 21:8), mas em nenhum momento somos informados de batismo sendo administrados por qualquer outro se não aqueles que exerciam o ministério da Palavra. Como escreveu João Calvino:

“Nesta matéria é também preciso saber que é impróprio a pessoas particulares assumirem a administração do batismo, visto que este é um ofício do ministério eclesiástico, seja a ministração deste sacramento, como também da Ceia. Pois Cristo não deu mandamento a nenhum homem ou mulher que ministrasse o batismo; antes, àqueles a quem ele constituíra apóstolos… As palavras de Cristo são claras: ‘Ide, ensinai a todos os povos e batizai’ [Mt 28.19]. E se ele não designa a outros como ministros para batizar senão aos que designou para pregar o evangelho; e se o Apóstolo testifica que ninguém deve usurpar esta honra senão aquele que foi chamado, como Arão [Hb 5.4], qualquer que sem vocação legítima batiza, age mal, assumindo o ofício de outro [1Pe 4.15]”.(Institutas da Religião Cristã, 4:15:20,22)

Esta posição foi atacada pelo teólogo e escritor Vincent Cheung:

“Também, os reformados até mesmo registraram em algumas de suas confissões que somente pessoas devidamente ordenadas poderiam batizar ou servir a santa ceia. Trata-se de uma grande bobagem. Não existe base bíblica para isso. Antes, a Bíblia diz que todos os cristãos são sacerdotes em Cristo; já que somos sacerdotes, e por também não existir qualquer exceção explícita a isso, até mesmo uma criança ou mulher cristã podem em princípio servir a ceia, assim como uma criança ou mulher podem ensinar e pregar a palavra de Deus. A única proibição a elas é autoridade oficial na igreja. É uma grande diferença. Por questão de ordem na igreja, alguns indivíduos, mais provavelmente ministros, são designados a batizar e servir a ceia, mas isso não significa que somente eles podem fazê-lo. É uma negação direta do sacerdócio de todos os crentes restringir funções sacerdotais a ministros ordenados ― como se houvesse uma elite entre os crentes, que é precisamente aquilo a que os reformados dizem se opor”.

O argumento de Vincent Cheung, baseado no sacerdócio universal dos crentes, é extremamente frágil. De fato, a Bíblia ensina o sacerdócio universal dos crentes, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento (Ex 19:6; Ap 1:6; I Pd 2:5). Mas a Bíblia também ensina que “nem todos os membros têm a mesma operação” (Rm 12:3-4). O fato de todos os crentes serem sacerdotes não significa são chamados para exercer os mesmos ofícios. Alias, um dos maiores males do Brasil hoje é o excesso de pastores sem a vocação para pregar e ensinar. “Porventura são todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres?” (I Coríntios 12:28-29) Não, ainda que todos sejam sacerdotes. Além disso, o sacerdócio universal dos crentes não dá o direito das mulheres pregarem (I Co 14:34, 35; I Tm 2:12). O sacerdócio universal de todos os crentes, então, não dá o direito de todos fazerem qualquer coisa. O fato é que ordem de batizar foi dada somente “aos que anunciam o evangelho” (I Co 9:13-14; Rm 10:15), isto é, aos que foram especialmente vocacionados, separados e enviados por Jesus Cristo para exercer o “ministério da Palavra” (At 6:4).

Essa distinção é semelhante a que já havia no Antigo Testamento:

“E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel”. (Êxodo 19:6)

“Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a Lei porque ele é o mensageiro do SENHOR dos Exércitos. Mas vós vos desviastes do caminho; a muitos fizestes tropeçar na Lei; corrompestes a aliança de Levi, diz o SENHOR dos Exércitos. Por isso também eu vos fiz desprezíveis, e indignos diante de todo o povo, visto que não guardastes os meus caminhos, mas fizestes acepção de pessoas na Lei”. (Malaquias 2:7-9)

Em certo sentido, todo homem no Antigo Testamento poderia e deveria ensinar ao seu próximo sobre a Lei e os mandamentos do Senhor, como parte do sacerdócio universal. Mas, estritamente falando, somente os mestres de Israel eram os sacerdotes levitas. Da mesma forma, em certo sentido poderíamos dizer que todo cristão deve pregar e ensinar. Mas, estritamente falando, os pregadores são somente os ministros da Palavra. Os ministros da Palavra do Novo Testamento são os sucessores dos sacerdotes levitas no Antigo Testamento, quanto ao ofício de pregar e ensinar e quanto ao ofício de administrar os sacramentos. Essa é a base da comparação de Paulo: “Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar, participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho”. (I Coríntios 9:13-14) Na Grande Comissão, Jesus Cristo não estava somente mandando ensinar e batizar, mas estava também separando e enviando aqueles que haveriam de ser os pregadores. A Confissão Belga resume isso ao identificar os pastores como aqueles que foram encarregados do ofício de pregar a Palavra e administrar os sacramentos:

“Cremos que esta verdadeira igreja deve ser governada conforme a ordem espiritual, que nosso Senhor nos ensinou na sua Palavra. Deve haver ministros ou pastores para pregarem a Palavra de Deus e administrarem os sacramentos“. (Confissão Belga, Artigo 30, “O Governo da Igreja”)

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