peter hammondA RECONSTRUÇÃO CRISTÃ É UMA TEOLOGIA RACISTA?
Por Frank Brito

Ocasionalmente algumas pessoas me perguntaram sobre textos que veem circulando na internet acusando a teologia da Reconstrução Cristã de ser comprometida com o racismo e com a ideia de “supremacia branca”.  Normalmente aqueles que divulgam este tipo de calúnia não tem qualquer familiaridade com os próprios escritos de teólogos do Reconstrucionismo cristão. De maneira desonesta, baseiam suas conclusões em palavras isoladas, tiradas do devido contexto. Não me surpreenderia se este tipo de calúnia partisse de ímpios. O que me surpreende é que há cristãos professos irresponsavelmente divulgando mentiras contra um irmão. São culpados de transgredir o mandamento de Deus: “Não admitirás falso boato” (Ex 23:1); “De palavras de falsidade te afastarás” (Ex 23:7); Não mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo” (Lv 19:11).

Aqueles que dizem que a teologia da Reconstrução Cristã é comprometida com o racismo e com a ideia de “supremacia branca” precisam começar nos explicando porque um dos maiores missionários aos negros na África, o Rev. Peter Hammond, é também um árduo defensor do Reconstrucionismo Cristão. A foto acima é do Rev. Peter Hammond, que é diretor da Fontline Fellowship, uma das mais importantes organizações missionárias do mundo. A Frontline Fellowship organiza cerca de 20 seminários, conferências e oficinas por ano. Por meio de livros e treinamento de líderes, Frontline Fellowship está educando e engajando dezenas de milhares de negros a obedecer os mandamentos de Jesus. Só no Sudão, desde 1995, a Frontline Fellowship já treinou centenas de pastores, capelães, médicos e professores. Na foto acima, o Rev. Hammond estava levando Bíblias, livros e remédios para pessoas que estavam no meio de uma terrível guerra nas montanhas Nabu no Sudão. O Rev. Peter Hammond é um dos mais fiéis e corajosos missionários de nosso tempo. No decorrer de suas atividades missionárias, já foi emboscado, esteve sob bombardeio de artilharias e fogo de morteiro, tomou facadas e tiros, apanhou de multidões e foi preso. Tudo para evangelizar negros na África. Se a teologia da Reconstrução Cristã é comprometida com o racismo e com a ideia de “supremacia branca” porque o Rev. Peter Hammond, um dos mais importantes defensores do Reconstucionismo no mundo hoje, sempre colocou tanto sua vida em risco para ajudar africanos? As convicções do Rev. Peter Hammond sobre o assunto podem ser lidas aqui.

Aqueles que fazem esse tipo de acusação também precisam nos explicar porque o Rev. R.J. Rushdoony, um dos pais do movimento Reconstrucionista, passou tanto tempo de sua vida entre índios, evangelizando-os. A foto abaixo é de Rushdoony da época em que era missionário entre os índios, vestido a caráter. 

rushdoonyAlém disso, R.J Rushdoony falou contra o racismo em diversas ocasiões. Aqui está, por exemplo, um link de uma palestra em que ele fala diretamente sobre o assunto. Do 14:19 até o 16:42, ele fala sobre algo que leu no jornal:

“A primeira [cópia do jornal], estou segurando em minhas mãos, tem dois artigos; o primeiro diz, ‘População hispânica nos Estados Unidos cresce rapidamente’ e o segundo fala como os brancos se tornarão uma minoria. Diz que até o ano de 2080 os hispânicos, negros e asiáticos supostamente serão mais que metade da população. E daí!? E daí? Isso não me incomoda nem um pouco! O que me incomoda e me irrita profundamente é que essas pessoas que estão transtornadas com a possibilidade dos Estados Unidos deixarem de ser um país de brancos não estão transtornadas com o abandono da fé cristã. Deus abençoou os Estados Unidos ricamente. Ele vai amaldiçoá-los, a não ser que os Estados Unidos voltem para fé, a não ser que demonstrem alguma gratidão ao Deus Todo-Poderoso por todas as bençãos que nós tivemos. Nós vamos perder todas essas bençãos e vamos perder o país. Será o juízo de Deus. Ele tirará de nós e dará para outro povo que irá crer e obedecer. Quem é este povo? Eu não sei. Tomara que sejam os negros ou os hispânicos… e também os brancos… todos eles, voltando para a fé e estando dispostos a aplicar toda a Palavra de Deus em todos os aspectos de suas vidas. Deus não se importa nem um pouco com um ímpio branco ou negro ou qualquer outra pessoa. Todos serão julgados e castigados“. (tradução minha)

Do 27:11 até o 29:09 ele continua:

“Deus irá entregar o país para outros se a população cristã branca não reconhecer as bençãos que receberam. Creio nisso de todo coração. Eu estou interessado em um futuro cristão para os Estados Unidos e para o mundo. Não num futuro racista. Eu não acredito que os Estados Unidos ou a América do Norte pertencem aos brancos assim como eu não acredito que a África pertence aos negros. Pertence ao Senhor Deus Todo-Poderoso. E Ele dará para quem Ele escolher. Então, eu não acredito que nenhum continente irá permanecer da maneira que é ou ter o futuro que os povos daquele continente imaginam hoje. Deus que se assenta sobre a redondeza da terra rirá. Ele zombará de todos estes povos”. (tradução minha)

As palavras de R.J. Rushdoony são claras. Ele não cria em supremacia racial. O que ele cria era na supremacia da fé cristã para transformar os povos – brancos, negros ou hispânicos ou qualquer outra coisa. Ele deixa isso claro em diversas outras obras.

Em uma de suas principais obras, “Institutas da Lei Bíblica” (“Institutes of Biblical Law”), ele abertamente criticou movimentos racistas como o nazismo:

“Os revolucionários e os estatistas, portanto, tem uma causa em comum – destruir a sociedade e exterminar a comunidade. É preciso entender as razões disso. Os homens frequentemente tentaram estabelecer uma comunidade com base no sangue. Tentativas modernas incluem a Alemanha nazistas, os estados árabes e Israel. Outros estenderam esta ideia racista de comunidade para incluir todos os homens, uma ordem mundial única“. (R.J. Rushdoony, Institutes of Biblical Law, Volume II, p. 83, tradução minha)

Aqui Rushdoony critica a tentativa de estabelecer comunidades “com base no sangue” e critica a ideia como sendo “racista”. Ele diz que isso é a característica de “revolucionários” e “estatistas”. Qualquer um que tenha qualquer familiaridade com os escritos de Rushdoony sabe o quanto ele abominava ideias de “revolucionários” e “estatistas”. 

Em sua Teologia Sistemática (“Systematic Theology”), ele demonstra que, até mesmo no Antigo Testamento, a nação de Israel não era formada por uma única “raça”, mas que a nação era, na verdade, uma mistura:

“Deus havia prometido que a vitória viria por meio da Semente da Mulher. Sendo assim, qualquer promessa de benção claramente viria no contexto desta Semente prometida. Aparte dEle, não haveria qualquer esmagamento do inimigo, nenhuma vitória real. É à luz destes fatos que precisamos ler as promessas de Deus em Gênesis 12:1-3. A promessa veio à Abraão neste contexto… Primeiro, Deus exigiu separação: “Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei”. Esta separação foi exigida por Deus por que o contexto da vida de Abraão não poderia ser o sangue ou a raça, mas somente a graça, Deus e Suas promessas somente. Israel nunca foi uma linhagem de sangue, mas sempre uma linhagem de graça. Abraão foi, desde cedo, um governante de uma grande casa de servos que, em tempos antigos, eram membros da família. Ele levou 318 à batalha contra os reis do Oriente “criados, nascidos em sua casa” (Gn 14:14). Podemos presumir que ele deixou um número parecido de homens idosos para cuidar dos rebanhos e dos gados e que havia também um número parecido de meninos, o que nos dá um número de 1.000 homens, além de um número equivalente de mulheres, o que nos dá um total de 2.000 pessoas. Sendo assim, o sangue de Abraão, quando Isaque assumiu a liderança, sem contar qualquer outro aumento, era, no máximo 1/2000 do povo pactual. No tempo de Jacó, em sua viagem à Gosén, estes 2.000 tinham facilmente aumentado para 50.000, dos quais somente setenta eram do sangue de Abraão, incluindo as esposas que se tornaram Abraâmicas somente por causa do casamento (Gn 46:27). Foi por causa deste número maior que toda a Gósen foi dada à Israel por Faraó (Gn 47:6). Acrescente à isso o fato de que Israel posteriormente deixou o Egito com uma “uma grande mistura de gente” (Ex 12:38) que o sangue Abraâmico se torna ainda mais fino. Acrescente à isso o sangue estrangeiro e as adoções nas duas cronologias de Nosso Senhor (Mt 1:1-17; Lc 3:23-38) e se torna claro que, enquanto existe uma conexão entre Abraão e Jesus Cristo, a linhagem essencial é da fé e da promessa… A Lei insiste na separação em termos de pacto e fé. O povo pactual começa com uma negação da ligação de sangue em favor de um vínculo de fé“. (R.J. Rushdoony, Systematic Theology, Volume I, “The Doctrine of Christ”, p. 230, tradução minha)

R. J. Rushdoony não poderia ter sido mais claro. Israel, como nação, era formado por diferente raças. A unidade da nação não estava no sangue, mas na fé da aliança. Israel foi chamada para ser uma nação santa com base na graça e não como base na raça. O povo de Deus está unido pela fé e não por ter tido o mesmo ancestral biológico.

Na mesma obra, ele explica que todas as raças, fora de Cristo, permanecem na depravação e no pecado que receberam de Adão:

“A condição humana fora de Cristo envolve a total depravação, isto é, cada aspecto do indivíduo é governado pela queda e pelo pecado, e todos os povos, línguas, tribos e raças é completamente afetado pelo pecado”.

Em seguida, ele argumenta que o racismo é um mal que não pode ser verdadeiramente abolido por meio da imposição de leis pelo governo, mas somente pela regeneração do coração pelo Evangelho para obedecer os mandamentos de Deus:

“As leis não podem abolir o racismo tanto quanto não podem abolir com as doenças, a morte e o clima ruim. Como, então, podemos lidar com o racismo? Reconhecendo, primeiro, que há uma divisão básica na humanidade, entre aqueles que são de Adão e aqueles que são de Cristo. Segundo, aqueles que são de Cristo precisam manifestar as obras de Cristo. “Por seus frutos os conhecereis” (Mt 7:20). O regenerado não vive com base na moral ou lei do homem, mas com base na Palavra e Lei de Deus (Mt 4:4)“.

Em 1965, R.J. Rushdoony fundou a Chalcedon, uma organização educacional cujo objetivo é divulgar a Teologia Reformada e o Reconstrucionismo Cristão. Um fato histórico importante é que em 2002 um embaixador da Uganda, Edith Ssempala,  entrou em contato com a Chalcedon para pedir ajuda para combater uma organização terrorista na Unganda. Não devemos nos surpreender com o fato da Embaixada da Uganda ver os Reconstrucionistas como aliados se lembrarmos do importante papel que o Rev. Peter Hammond tem na Uganda. Por que um governo de uma nação majoritariamente negro pediria ajuda para uma organização comprometida com o racismo para saber como resolver seus problemas com terroristas? Alias, por que alguém diria que a Chalcedon é uma organização racista se no próprio site da Chalcedon encontramos uma declaração oficial contra o racismo:

“Nós não cremos que uma raça seja inerentemente superior à qualquer outra, ou que somente um setor da raça deve dominar como cristãos, ou que os pecadores de qualquer raça não sejam igualmente culpados aos olhos de Deus, ou que cristãos de uma raça específica não sejam igualmente justificados aos olhos de Deus. Portanto, nós cremos que o racismo da Ku-Klux-Klan, da Nação Ariana, do Movimento de Identidade, do Black Power, das Panteras Negras e dos movimentos racistas asiáticos, hispânicos e indígenas são fundamentalmente anticristãos“.

Encontramos o mesmo tipo de postura anti-racista na vida e nos escritos de todos os grandes defensores do Reconstrucionismo Cristã como Gary North, Greg Bahnsen, Kenneth Gentry, Gary DeMar, Joe Morecraft III e Bojidar Marinov. O teólogo, filósofo e pastor presbiteriano Greg Bahnsen, por exemplo, que teve três filhos biológicos, chegou a adotar uma filha vietnamita. Por que um homem comprometido com uma teologia de “supremacia da raça branca” adotaria uma filha oriental? Joe Morecraft III, pastor da Chalcedon Presbyterian Church na Georgia frequentemente escreve e prega abertamente contra o racismo. Gary DeMar, outro proeminente Reconstrucionista, também fala abertamente contra o racismo frequentemente aparece nos episódios do programa “Edified”, cujo entrevistador, um negro, é carinhosamente conhecido como “The Chocolate Knox” (em homenagem ao Reformador John Knox). Muitos outros exemplos poderiam ser citados.

Este tipo de calúnia vem somente de pessoas de pessoas que não tem familiaridade com os próprios escritos e ministério dos Reconstrucionistas, mas se baseiam em textos isolados, retirados de seu devido contexto e, não raramente, até mesmo alterados. Um exemplo de texto mentiroso que circula na internet aparece da seguinte maneira:

“Os homens não são todos criados iguais diante de Deus.. E mais, um empregador tem o direito de escolher quem ele vai contratar em termos de “cor”, crença, raça ou lugar de origem” Fonte: (pg 509-512 – Institutes of Biblical Law we find the following,)]

Esta citação é atribuída ao R.J. Rushdoony, mas é falsa. A verdadeira citação, na qual ela se baseia, é a seguinte:

“Os homens não são todos iguais diante de Deus; os fatos do Céu e do Inferno, da eleição e da reprovação deixam claro que não todos iguais. Além disso, um empregador tem um direito de propriedade à preferir quem ele quiser em termos de ‘cor, credo, raça ou origem nacional'”. (R.J. Rushdoony, Institutes of Biblical Law, Volume I, The Eighth Commandment, “Labor Laws”, tradução minha)

O principal responsável por divulgar esta a citação falsa estrategicamente omitiu parte da primeira frase com reticências. Em que sentido Rushdoony diz que “os homens não são todos iguais diante de Deus”? Ele diz logo em seguida: “Os fatos do Céu e do Inferno, da eleição e da reprovação deixam claro que não todos iguais”. Qualquer cristão deveria entender perfeitamente o que isso significa e quem se diz reformado não tem desculpas para não entender:

“Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece. Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer. Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, Os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” (Romanos 9:13-24)

Portanto, “os homens não são todos iguais diante de Deus; os fatos… da eleição e da reprovação deixam claro que não todos iguais”. Alguns são eleitos por Deus. Outros não são. Uns são criados para serem vasos de honra e outros para serem vasos de desonra. Alguns vão para o Céu. Outros vão para o Inferno. Isso indica racismo? É claro que não. Como lemos na declaração doutrinária do site da Chalcedon, organização fundada pelo próprio R.J. Rushdoony, “nós não cremos que uma raça seja inerentemente superior à qualquer outra, ou que somente um setor da raça deve dominar como cristãos, ou que os pecadores de qualquer raça não sejam igualmente culpados aos olhos de Deus, ou que cristãos de uma raça específica não sejam igualmente justificados aos olhos de Deus”. Deus não elege os homens com base em sua raça, cor ou etnia. Ele não faz acepção de pessoas. Como escreveu também o próprio Rushdoony: “A condição humana fora de Cristo envolve a total depravação, isto é, cada aspecto do indivíduo é governado pela queda e pelo pecado, e todos os povos, línguas, tribos e raças é completamente afetado pelo pecado”. O que verdadeiramente diferencia os homens diante de Deus para Rushdoony, então, é a graça de Deus e não a raça.

A segunda parte da falsa citação também foi estrategicamente alterada:

“E mais, um empregador tem o direito de escolher quem ele vai contratar em termos de “cor”, crença, raça ou lugar de origem”

A verdadeira citação:

“Além disso, um empregador tem um direito de propriedade à preferir quem ele quiser em termos de ‘cor, credo, raça ou origem nacional'”.

O termo “direito de propriedade” é muito importante para entender o verdadeiro sentido da frase. O oitavo mandamento – não roubarás – estabelece o “direito de propriedade”. É o direito de usufruir da maneira que quiser dos próprios bens e também de determinar o modo com que os bens poderão vir a ser usufruído por terceiros sem dar satisfações a ninguém (cf. Mt 20:15; Sl 50:12; Rm 9:20), exceto Deus. Se eu sou o dono de uma casa, isso significa que eu tenho o direito de usufruir da minha própria casa da maneira que eu quiser e também de determinar o modo com que outros poderão usufruir de minha casa sem dar satisfações a ninguém, exceto Deus. Se eu quiser morar na casa, colocar meus filhos para morar na casa, alugar a casa no fim de semana ou deixar um mendigo dormir na minha casa toda noite, eu tenho este direito simplesmente porque a casa é minha. Por outro lado, se eu chegar na minha casa e um estranho estiver no meu quarto sem que eu tivesse o autorizado para tal, eu tenho o direito de expulsá-lo de lá simplesmente porque a casa pertence a mim e não a ele e, portanto, eu tenho o direito de determinar o modo com que outros poderão usufruir de minha casa. Assim também, se eu tenho um carro, eu tenho o direito de dirigir o meu carro, mas um estranho não tem o direito de dirigi-lo sem minha autorização. Caso ele pegue o meu carro sem minha autorização, ele estará roubando.

O direito a propriedade privada não é concedido por qualquer autoridade humana, mas pelo próprio Deus e é por isso que o estado não tem autoridade para abolir e relativizar. Então, se eu for dono de um restaurante chinês e só quiser contratar chineses para trabalhar no meu restaurante, o governo tem o direito me proibir de contratar somente chineses? Se eu sou dono de um time de basquete, o governo pode me proibir de colocar negros no meu time? E se eu eu só quiser negros americanos no meu time porque eles normalmente jogam basquete melhor do que brancos americanos? No decorrer do texto, Rushdoony acrescenta um exemplo:

“Uma igreja cristã japonesa em Los Angelos tem o direito de chamar um pastor cristão japonês”.

Eu morei por muito tempo da minha vida em Nova York (que é onde R.J. Rushdoony nasceu). Nova York é uma cidade muito diversificada. Há muitos povos e religiões diferentes. Pela maior parte do tempo em que eu vivi lá, eu era católico romano. Por um bom tempo, eu ia à missa todo Domingo com minha mãe e irmã. Havia uma Igreja Católica Romana muito perto de minha casa. Mas nós não íamos lá. Nós andávamos cerca de 40 minutos para ir em outra. Por que em outra e não na que era perto de minha casa? Porque na que era próximo de nossa casa, as missas eram em inglês e na que era mais longe as missas eram em português. Minha mãe, sendo brasileira, preferia ir à missa em português, em uma comunidade de brasileiros. Esta igreja tinha o direito de chamar um padre brasileiro e se recusar a chamar qualquer padre que não fosse brasileiro? Nós eramos racistas por isso? Nós odiávamos quem não fosse brasileiro ou achávamos que eles eram inferiores a nós? É claro que não. Eu tinha diversos amigos que eram católicos romanos como eu. Alguns não eram americanos. Alguns eram italianos, espanhóis, portugueses. Alguns iam em missas em suas respectivas línguas em comunidades de seus próprios povos. Nunca vi nenhum deles dar qualquer sinal de racismo contra ninguém. Na frente de um dos prédios que morei em Nova York, havia uma Igreja Católica Ortodoxa Grega. Neste bairro havia muitos gregos. Um dos meus melhores amigos era Católico Ortodoxo Grego. O padre morava em meu prédio. Éramos um dos únicos do prédio que não éramos gregos. Se eu quisesse ir na missa deles, eu não entenderia qualquer coisa. A missa e tudo naquela igreja era em grego. Eles eram racistas por isso? Eu deveria lutar para que o governo os obrigasse a contratar padres de outras raças para pregar em outras línguas? Talvez eu deveria me sentir como uma vítima de racismo porque um dos melhores restaurantes do bairro, um restaurante grego, só contratava gregos como cozinheiros e não brasileiros. Talvez eu deveria me sentir ofendido também por causa das igrejas de negros no Harlem ou porque havia tantos taxistas árabes. Meu pai, que era dono de uma empresa de limosine em Nova York, só contratava brasileiros. Não lembro de meu pai jamais ter maltratado ninguém por conta de sua raça ou nacionalidade. Ele era racista? E se eu abrir uma empresa e só quiser contratar cristãos, o governo tem o direito de me proibir? Evidentemente, então, “um empregador tem um direito de propriedade à preferir quem ele quiser em termos de ‘cor, credo, raça ou origem nacional'”

Pessoas verdadeiramente racistas podem acabar usando este direito para desprezar o próximo com base na raça, no credo ou na origem nacional? Sem dúvidas e é triste que isso aconteça. Mas a solução para o problema não é anulando nosso direito de propriedade por imposição do governo. Cotas raciais não podem nos salvar do racismo. Quem não entende isso não entende o significado de “direito de propriedade”. E quem acusa Rushdoony por isso, ignorando tudo que ele escreveu contra o racismo em suas obras, claramente tem uma noção muito superficial e até infantil de “racismo”, algo típico entre os esquerdistas.

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