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O ÚNICO CONFORTO
Por Frank Brito

Observação: Este estudo faz parte da série “Introdução ao Cristianismo”. Para o melhor aproveitamento, é aconselhável que se leia e medite em todas as referências bíblicas de cada pergunta do Catecismo de Heidelberg referente ao estudo.

1. Qual é o seu único conforto, na vida e na morte?

R. O meu único conforto é meu fiel Salvador Jesus Cristo (l). A Ele pertenço, em corpo e alma, na vida e na morte (2), e não pertenço a mim mesmo (3). Com seu precioso sangue Ele pagou (4) por todos os meus pecados e me libertou de todo o domínio do diabo (5). Agora Ele me protege de tal maneira (6) que, sem a vontade do meu Pai do céu, não perderei nem um fio de cabelo (7). Além disto, tudo coopera para o meu bem (8). Por isso, pelo Espírito Santo, Ele também me garante a vida eterna (9) e me torna disposto a viver para Ele, daqui em diante, de todo o coração (10).

(1) I Co 3:23; Tt 2:14. (2) Rm 14:8; I Ts 5:9,10. (3) I Co 6:19,20. (4) I Pe 1:18,19; I Jo 1:7; I Jo 2:2,12. (5) Jo 8:34-36; Hb 2:14,15; I Jo 3:8. (6) Jo 6:39; Jo 10:27-30; II Ts 3:3; I Pe 1:5. (7) Mt 10:29,30; Lc 21:18. (8) Rm 8:28. (9) Rm 8:16; II Co 1:22; II Co 5:5; Ef 1:13,14. (10) Rm 8:14; I Jo 3:3.

Jesus Cristo não deve ser o nosso maior conforto, como se existissem outros. Ele deve ser o nosso único conforto. Como escreveu o salmista: “Não tenho outro bem além de ti” (Sl 16:2). O Salmo 104 pode nos ajudar a entender melhor o que isso significa:

“Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! SENHOR Deus meu, tu és magnificentíssimo; estás vestido de glória e de majestade. Ele se cobre de luz como de um vestido, estende os céus como uma cortina. Põe nas águas as vigas das suas câmaras; faz das nuvens o seu carro, anda sobre as asas do vento. Faz dos seus anjos espíritos, dos seus ministros um fogo abrasador. Lançou os fundamentos da terra; ela não vacilará em tempo algum. Tu a cobriste com o abismo, como com um vestido; as águas estavam sobre os montes. À tua repreensão fugiram; à voz do teu trovão se apressaram. Subiram aos montes, desceram aos vales, até ao lugar que para elas fundaste. Termo lhes puseste, que não ultrapassarão, para que não tornem mais a cobrir a terra. Tu, que fazes sair as fontes nos vales, as quais correm entre os montes. Dão de beber a todo o animal do campo; os jumentos monteses matam a sua sede. Junto delas as aves do céu terão a sua habitação, cantando entre os ramos. Ele rega os montes desde as suas câmaras; a terra farta-se do fruto das suas obras. Faz crescer a erva para o gado, e a verdura para o serviço do homem, para fazer sair da terra o pão, e o vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto, e o pão que fortalece o coração do homem. As árvores do SENHOR fartam-se de seiva, os cedros do Líbano que ele plantou, onde as aves se aninham; quanto à cegonha, a sua casa é nas faias. Os altos montes são para as cabras monteses, e os rochedos são refúgio para os coelhos. Designou a lua para as estações; o sol conhece o seu ocaso. Ordenas a escuridão, e faz-se noite, na qual saem todos os animais da selva. Os leõezinhos bramam pela presa, e de Deus buscam o seu sustento. Nasce o sol e logo se acolhem, e se deitam nos seus covis. Então sai o homem à sua obra e ao seu trabalho, até à tarde. O SENHOR, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas. Assim é este mar grande e muito espaçoso, onde há seres sem número, animais pequenos e grandes. Ali andam os navios; e o leviatã que formaste para nele folgar. Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras o fôlego, morrem, e voltam para o seu pó. Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra. A glória do SENHOR durará para sempre; o SENHOR se alegrará nas suas obras. Olhando ele para a terra, ela treme; tocando nos montes, logo fumegam. Cantarei ao SENHOR enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus, enquanto eu tiver existência. A minha meditação acerca dele será suave; eu me alegrarei no SENHOR. Desapareçam da terra os pecadores, e os ímpios não sejam mais. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR. Louvai ao SENHOR”. (Salmos 104:1-35)

Aqui somos informados que Deus, além de ser o Criador, é também o Sustentador de todas as coisas. Além de Deus ter criado o universo inteiro, Ele continuamente mantem todas as coisas funcionando de tal maneira que tudo, a todo o momento, depende de Deus para existir. “Tudo foi criado por Ele e para Ele. E Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por Ele” (Cl 1:16-17). É por isso que o Salmo nos mostra que os animais dependem de Deus para se alimentar, as plantas dependem dEle para crescer e o homem depende dEle para sequer continuar a viver.

No mundo do tempo de Cristo havia um sistema filosófico chamado epicurismo. O Novo Testamento nos informa que o Apóstolo Paulo debateu com alguns filósofos desta escola (At 17:18). Uma das maiores ênfases deste sistema filosófico era a ideia de que os deuses não têm qualquer envolvimento ou preocupação com o que acontece em nosso mundo. Em tempos mais recentes, a posição filosófica do deísmo, que não é mais tão popular quanto já foi, defendia algo parecido. Reconheciam que Deus havia criado o universo, mas negavam que Ele intervisse em nosso mundo, na vida dos seres humanos ou nas leis do universo. Criam que Deus criou o universo, mas que Ele simplesmente deixou que funcionasse por conta própria com base em suas próprias “leis naturais”. Apesar do epicurismo e do deísmo não serem mais populares, esta mentalidade ainda é muito presente hoje no mundo atual.

O fato é que o Cristianismo nega a ideia de que o universo funcione por conta própria, com base em leis naturais autônomas. O motivo pelo qual o sol nasce toda manhã não é que a terra tenha um poder inerente de girar em torno do próprio eixo. O verdadeiro motivo é que Deus, no qual todas as coisas subsistem, continuamente faz a terra girar, faz o sol permanecer onde tem que estar, faz com que a luz do sol chegue a terra e faz com que esta mesma luz de fato cumpra sua função de iluminar. Se Deus, por um instante sequer, deixasse de sustentar o sol, ele deixaria de existir imediatamente. Se Deus não sustentasse a luz, ela não mais iluminaria. Portanto, é graças a Deus, que o sol nasce toda manhã, que a as árvores continuam a dar frutos, que os animais têm o que comer e beber, que o homem continua a respirar e que o seu coração continua a bater. “Tu, que fazes sair as fontes nos vales, as quais correm entre os montes. Dão de beber a todo o animal do campo; os jumentos monteses matam a sua sede… Os leõezinhos bramam pela presa, e de Deus buscam o seu sustento” (Sl 104:10-11,21). Como disse Jesus: “Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai”. (Mt 10:29). É por isso também que no sermão da montanha Jesus ensinou que as aves do céu, os lírios do campo e as ervas do campo tem algo importante a nos ensinar:

“Por isso vos digo: Não andeis ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? (Mateus 6:25-30)

A mensagem de Jesus aqui é essencialmente a mesma do Salmo 104. As aves do céu não semeiam, segam ou ajuntam no celeiro por qualquer força ou poder inerente nas aves. É o Senhor quem lhe dá força e sustenta as aves para fazer todas essas coisas. Da mesma forma, qualquer vida, força, habilidade ou inteligência que o homem possa ter para trabalhar procede da mão de Deus. Sendo assim, é Deus quem verdadeiramente o alimenta assim como é Deus quem veste os lírios do campo e faz a erva crescer. Essa é o pano de fundo para entender as palavras do Catecismo de Heidelberg, “O meu único conforto é meu fiel Salvador Jesus Cristo”. O homem que, nas palavras de Jesus, “anda ansioso quanto a sua vida”, é o homem que tem pouca ou nenhuma fé em Deus, que não encontra nEle seu conforto, mas, em vez disso, acredita na autonomia das leis naturais, na aleatoriedade do universo, na sorte, na força do próprio homem para conseguir seu alimento e para sustentar quem ele é. O cristão, por outro lado, reconhece que é Deus quem sustenta todas as coisas e, portanto, ele é o único bem, a única esperança, o único conforto que qualquer criatura jamais pode legitimamente ter.

Além disso, como o Catecismo também enfatiza, devemos nos entregar a Cristo como nosso único conforto em todos os aspectos de nossa existência: “A Ele pertenço, em corpo e alma, na vida e na morte”. Deus é nosso único conforto espiritual e material, nesta vida e na morte. “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14:8). Assim como os epicureus e os deístas reconheciam a Divindade, mas buscavam excluí-Lo do envolvimento com o mundo, para o típico homem moderno, as coisas de Deus estão, no máximo, relacionadas a questões que ele julga como sendo estritamente “religiosas” e “espirituais”, alguém que possivelmente iremos nos encontrar depois da morte, mas que, enquanto estamos nesta vida, nada tem a ver com o mundo real e material de nossa vida diária, exceto talvez em momentos de emergência em que precisamos de um milagre. Deus, todavia, é Senhor do homem por inteiro – corpo e alma – e do universo por inteiro. NEle devemos depositar nossa confiança em todos os aspectos de nossa existência, reconhecendo que dEle procede qualquer bem que jamais possamos ter. Essa tendência, de reconhecer a existência de Divindade, mas, ao mesmo tempo, excluí-Lo de algum aspecto de nossas vidas, nós encontramos entre os filisteus, conforme nos informa o primeiro livro de Reis:

“E saiu o rei de Israel, e feriu os cavalos e os carros; e feriu os sírios com grande estrago. Então o profeta chegou-se ao rei de Israel e lhe disse: Vai, esforça-te, e atenta, e olha o que hás de fazer; porque no decurso de um ano o rei da Síria subirá contra ti. Porque os servos do rei da Síria lhe disseram: Seus deuses são deuses dos montes, por isso foram mais fortes do que nós; mas pelejemos com eles em campo raso, e por certo veremos, se não somos mais fortes do que eles!” (1 Reis 20:21-23)

Os sírios acreditavam que Israel tinha “deuses” e que estes deuses só tinham autoridade sobre os montes. Por isso se eles lutassem contra os exércitos de Israel em campo raso, Israel seria derrotado. O homem moderno poderá rir desse entendimento, mas ele não tem motivos porque sua mentalidade não é muito diferente. O típico homem moderno, quando acredita em Deus, não vê Deus como o Soberano Senhor. Ele vê Deus como estando restrito às algumas poucas questões da realidade, um Deus que não podemos realmente conhecer, que tudo o que for dito sobre Ele não passa de mera especulação. Não é o Soberano Deus das Escrituras que a governa todas as coisas, em quem devemos esperar para todas as coisas, que é o Senhor de tudo e de todos, a quem devemos satisfações em todas as esferas de nossa existência. O verdadeiro cristão, todavia, não serve a um Deus que é somente o Deus dos “montes”. Ele sabe que o verdadeiro Deus é o Deus de todas as coisas – do monte e do campo raso, de sua vida e de sua morte, de seu corpo e de sua alma, de sua vida pública e de sua vida privada. Deus é o seu Senhor e Salvador e, portanto é o seu único conforto. Como diz o Catecismo, Ele “me torna disposto a viver para Ele, daqui em diante, de todo o coração”.

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