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SÃO POUCOS OS QUE SE SALVAM
Por Frank Brito

“E disse-lhe um: Senhor, são poucos os que se salvam? E ele lhe respondeu: Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão”. (Lucas 13:23-24)

Jesus ensinou que “são poucos os que se salvam”? Não, Ele não ensinou isso em lugar nenhum. S. João registrou no Apocalipse que os salvos são “uma multidão, a qual ninguém podia contar” (Ap 7:9). Jesus, que revelou o Apocalipse a João, não ensinou diferente. Lucas registrou que quando Jesus “percorria as cidades e as aldeias, ensinando, e caminhando para Jerusalém” (Lc 17:22), alguém lhe perguntou: “Senhor, são poucos os que se salvam?” (v. 23) A resposta de Jesus, e dos textos paralelos que ensinam substancialmente o mesmo, são frequentemente mal interpretados para argumentar que a resposta de Jesus era que sim, que poucos são salvos. Para entender o verdadeiro sentido da resposta de Jesus devemos analisar o contexto imediato em que a pergunta foi feita:

“E dizia: A que é semelhante o Reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante ao grão de mostarda que um homem, tomando-o, lançou na sua horta; e cresceu, e fez-se grande árvore, e em seus ramos se aninharam as aves do céu. E disse outra vez: A que compararei o reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher, tomando-o, escondeu em três medidas de farinha, até que tudo levedou“. (Lucas 13:18-21)

O significado das palavras de Jesus é perfeitamente claro. Evidentemente, a comparação que Ele fez do Reino de Deus com o grão de mostarda e com o fermento tinha como objetivo dizer que o Reino de Deus começaria pequeno (cf. Mt 4:31), mas que, progressivamente, cresceria e se expandiria até que dominasse tudo. Este é o contexto para entender a pergunta que fora feita a Jesus imediatamente depois sobre o número dos salvos:

“Ele, pois, dizia: A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e lançou na sua horta; cresceu, e fez-se árvore, e em seus ramos se aninharam as aves do céu. E disse outra vez: A que compararei o reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até ficar toda ela levedada. Assim percorria Jesus as cidades e as aldeias, ensinando, e caminhando para Jerusalém. E alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os que se salvam? Ao que ele lhes respondeu: Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão. Quando o dono da casa se tiver levantado e cerrado a porta, e vós começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, abre-nos; e ele vos responder: Não sei donde vós sois; então começareis a dizer: Comemos e bebemos na tua presença, e tu ensinaste nas nossas ruas; e ele vos responderá: Não sei donde sois; apartaivos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade. Ali haverá choro e ranger de dentes quando virdes Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora. Muitos virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e reclinar-se-ão à mesa no reino de Deus“. (Lucas 13:18-29)

De fato, Jesus disse que “muitos procurarão entrar, e não poderão” (v. 24). Mas, exatamente no mesmo contexto, Ele disse também que “muitos virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e reclinar-se-ão à mesa no reino de Deus” (v. 29). Ele disse exatamente o mesmo em outra ocasião, quando curou o centurião em Cafarnaum:

“Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, chegou-se a ele um centurião que lhe rogava, dizendo: Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico, e horrivelmente atormentado. Respondeu-lhe Jesus: Eu irei, e o curarei. O centurião, porém, replicou-lhe: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado; mas somente dize uma palavra, e o meu criado há de sarar. Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu servo: Faze isto, e ele o faz. Jesus, ouvindo isso, admirou-se, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que a ninguém encontrei em Israel com tamanha fé. Também vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e reclinar-se-ão à mesa de Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos céus; mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”. (Mateus 8:5-12)

Aqui Jesus comparou a fé do centurião gentio com a fé dos israelitas. Jesus disse que o centurião gentio tinha mais fé do que qualquer israelita. Em seguida, ele profetizou que, no futuro, os gentios seriam como aquele centurião: “muitos virão do oriente e do ocidente, e reclinar-se-ão à mesa de Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos céus” (v. 11). Basicamente, o que Jesus fez foi comparar a situação espiritual de Israel em Sua própria época, de incredulidade da maioria, com aquilo que no futuro aconteceria entre os gentios, e usou o centurião como exemplo.

No texto de Lucas, Jesus faz substancialmente o mesmo. Quando Ele foi interrogado, “são poucos os que se salvam?”, a pergunta foi feita por alguém que estava apreensivo pelo fato de Jesus estar sendo rejeitado pela maioria dos judeus. Mas o fato de Jesus estar sendo rejeitado pela maioria dos judeus condiz com o que Ele tinha acabado de falar sobre o princípio do Reino de Deus, comparando-o com o grão de mostarda e com o fermento, “A que é semelhante o Reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante ao grão de mostarda que um homem, tomando-o, lançou na sua horta” (Lc 13:18-19). E também: “E disse outra vez: A que compararei o reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até ficar toda ela levedada” (Lc 13:20-21). Se o Reino de Deus era como um grão de mostarda, “a menor de todas as sementes que há na terra” (Mt 4:31), então era perfeitamente natural que Jesus Cristo estivesse sendo rejeitado pela maioria dos judeus. Afinal, Ele estava apenas começando a proclamar o Reino de Deus. Este é o motivo pelo qual Jesus respondeu: “muitos procurarão entrar, e não poderão” (Lc 13:24). Ao mesmo tempo, se o Reino de Deus era como um grão de mostarda, segue-se que, apesar de começar como a menor de todas as sementes, sendo rejeitado pela maioria, devemos esperar que não permaneceria assim para sempre, mas que “cresceu, e fez-se árvore, e em seus ramos se aninharam as aves do céu” (Lc 13:24). É por isso que Ele disse também: “Muitos virão do oriente e do ocidente, e reclinar-se-ão à mesa de Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos céus” (Lc 13:29; cf; Mt 8:11).

Em resumo, quando Jesus disse do número de salvos que “muitos procurarão entrar, e não poderão” (Lc 13:23), ele estava se referindo ao princípio de Seu Reino, aquilo que era visível aos olhos de quem lhe interrogou. Todavia, Ele não disse que seria assim perpetuamente, em todas as gerações, em todos os lugares. Pelo contrário, Ele comparou o Reino de Deus com o grão de mostarda e com o fermento e, com base nisso, ensinou que “Muitos virão do oriente e do ocidente, e reclinar-se-ão à mesa de Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos céus”(Mt 8:11). A preocupação primária de Jesus era simplesmente tratar da ansiedade daqueles que percebiam que, no contexto histórico em que viviam, Jesus era rejeitado pela maioria dos homens e, ao mesmo tempo, de ensinar que as coisas não seriam assim para sempre. Isso condiz com o que Paulo ensinou aos Romanos, que em seu tempo os crentes eram somente um “remanescente”, mas que chegaria o tempo em que seriam uma “plenitude”. Como ensinou também o profeta Daniel sobre o Reino de Cristo:

“Estavas vendo isto, quando uma pedra foi cortada, sem auxílio de mãos, a qual feriu a estátua nos pés de ferro e de barro, e os esmiuçou. Então foi juntamente esmiuçado o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro, os quais se fizeram como a pragana das eiras no estio, e o vento os levou, e não se podia achar nenhum vestígio deles; a pedra, porém, que feriu a estátua se tornou uma grande montanha, e encheu toda a terra“. (Daniel 2:34-35)

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