ambrose of milanO DIA EM QUE S. AMBRÓSIO DE MILÃO FEZ ROMA SE PROSTRAR DIANTE DE JESUS CRISTO
Por Frank Brito

“Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam”. (Salmo 2:10-12)

O Império Romano promoveu dez perseguições oficiais contra a Igreja em três séculos. Mas, apesar de toda oposição contra a Igreja, o Cristianismo prevaleceu. O grande teólogo Jonathan Edwards descreveu a vitória história do Cristianismo contra o Império Romano da seguinte maneira:

“Deus agora se manifestou para executar juízos terríveis sobre seus inimigos. Os registros históricos fornecem relatos surpreendentes do quão terrível foi fim de imperadores, príncipes, generais e capitães pagãos, que se empenhavam na perseguição de cristãos; morrendo miseravelmente, um após o outro, sofrendo estranhos tormentos do corpo, horrores na consciência, com a mão de Deus visivelmente pesando contra eles. O paganismo foi, em grande medida, abolido por todo o Império Romano… A Igreja Cristã foi conduzida a um estado de grande paz e prosperidade…. Satanás, o príncipe das trevas, o rei e deus dos pagãos estava sendo derrubado. O leão que ruge foi conquistado pelo Cordeiro de Deus, no mais forte domínio que ele já teve… Está escrito que era algo desconhecido que uma nação mudasse de deuses (Jr 2.10,11), mas agora a maioria das nações do mundo conhecido estava sendo levados a abandonar seus deuses antigos. A multidão dos deuses que eles adoravam foram todos abandonados. Milhares deles foram renunciados para que passassem a adorar o único Deus e Cristo, o único Salvador… E desde então, aqueles deuses que eram tão famosos no mundo, como Júpiter, Saturno, Minerva e Juno são somente lembrados como coisas do passado. Há muitos séculos eles não têm templos, altares e adoradores. O Evangelho prevalecendo da maneira que fez contra uma oposição tão forte demonstra claramente a mão de Deus. O governo romano que, com tanta violência, trabalhou para impedir o sucesso do Evangelho e para destruir a Igreja de Cristo, foi o Império mais potente que já havia aparecido no mundo; e não somente isso, mas também pareciam ter a Igreja nas mãos. Os cristãos que estavam sob seu domínio nunca pegaram nas armas para se defender, se armaram unicamente com a paciência e armas espirituais. Ainda assim, essa grande potencia não podia conquista-los, mas o Cristianismo é que prevaleceu. O Império Romano havia dominado muitos reinos poderosos; eles dominaram a monarquia Grega, apesar desta ter resistido ao máximo. Mas não foram capazes de conquistas a Igreja em suas mãos. Pelo contrário, a Igreja triunfou e prevaleceu”. (Jonathan Edwards, A History of the Work of Redemption, “The Success of Redemption from the Destruction of Jerusalem, to the Time of Constantine”)

Muitos cristãos modernos, por influência de historiadores iluministas, acreditam que não houve qualquer vitória do Cristianismo sobre o Império Romano, mas que foi o Império Romano que conseguiu finalmente subverter o Cristianismo com seu paganismo. O que muitos deles não sabem é que esta posição, além de não bater com fatos históricos concretos, é uma inovação na história do Cristianismo entre cristãos ortodoxos, tendo sido rejeitada pela maioria dos cristãos no decorrer da história, inclusive por grandes homens que viveram no tempo de Constantino e logo depois, como Atanásio e Agostinho.

Aqueles que defendem que Constantino e o Concílio de Niceia introduziram a corrupção na Igreja gostam de citar exemplos de heresias que existiam nessa época da Igreja. Isso só mostra o quanto muitos não prestam atenção quando leem o Novo Testamento e é esta falta de atenção que os leva a ter uma visão fantasiosa do Cristianismo pre-Niceno. Se alguém quer encontrar exemplo de sincretismo entre Cristianismo e paganismo não deve começar a procurar entre as igrejas do quarto século. Deve começar a ler seu Novo Testamento e observar algumas das igrejas que foram fundadas pelos próprios apóstolos ou as cartas de Jesus às sete igrejas do Apocalipse. O sincretismo e a imoralidade não começou porque Constantino convocou o Concílio de Niceia, mas existe desde o princípio do Cristianismo, promovido por falsos profetas, como o Novo Testamento faz questão de não esconder. Aqueles que culpam o Cristianismo Niceno e pós-Niceno por todos os males da Igreja são tomados por uma visão fantasiosa da Igreja Primitiva e por uma visão perfeccionista do Cristianismo. A Igreja do tempo dos apóstolos tinha seus problemas e seus defeitos, mas também tinha grandes virtudes. Existia heresia e imoralidade no meio das igrejas, como em todas as eras existiu, mas também existia muito heroísmo e virtude. Não foi diferente nos séculos posteriores diante das novas circunstâncias e desafios que surgiam. As muitas glórias do Cristianismo Niceno e Pós-Niceno não podem ser apagadas por causa dos problemas que existia, como as glórias da Igreja do primeiro século não podem ser apagada por causa dos problemas sobre os quais lemos nas epístolas.

O propósito deste artigo é descrever um evento histórico específico que demonstra o quanto a Igreja Cristã deste período, longe de ter abandonado todo seu vigor espiritual, foi um instrumento poderosíssimo nas mãos de Deus para conduzir “muitos povos, e nações, e línguas e reis” (Ap 10:11) ao arrependimento e a obediência de Seu Filho. Me refiro ao caso da excomunhão do Imperador Teodósio I por Ambrósio de Milão. Teodoreto de Cirro (c. 393-466 AD) descreveu o caso em sua obra História Eclesiástica:

“Tessalônia é uma cidade grande e populosa na província da Macedônia. Por causa da revolta que aconteceu lá, o Imperador [Teodósio] irou-se sobremodo e satisfez seu desejo por vingança desembainhando a espada de maneira injusta e tirânica contra todos – inocentes e culpados. É dito que sete mil pereceram sem qualquer base legal ou sentença judicial, mas que foram todos cortados como espigas de trigo no tempo da colheita.

Quando Ambrósio ouviu falar desta deplorável catástrofe, saiu para se encontrar com o Imperador que, em seu retorno a Milão, desejou, como de costume, entrar na santa igreja. Mas Ambrósio proibiu sua entrada dizendo: ‘Parece que tu não percebes, ó Imperador, o tamanho da tua culpa por um tão grande massacre. Agora que tua fúria foi apaziguada, não vês o tamanho do teu crime? Não se deslumbre com o esplendor da púrpura que tu vestes para que não te esqueças da fraqueza do corpo que ela cobre. Teus súditos, ó Imperador, são da mesma natureza que tu és. E não somente isto. Também são servos como tu és, pois só há um único Senhor e Governador sobre todos, Aquele que é o Criador de todas as criaturas, tanto do príncipe quanto do povo. Como ousas tu olhar para o templo d’Aquele que é o Senhor de todos? Como podes tu erguer as mãos para orar estando mergulhado no sangue de um massacre tão injusto? Vá embora em vez de se tornar ainda mais culpado por um segundo crime’.

O Imperador, que havia sido criado no conhecimento das Sagradas Escrituras e conhecia bem a distinção entre o poder eclesiástico e o poder temporal, se submeteu a censura e, com muitas lágrimas e gemidos, voltou ao seu palácio. O Imperador se trancou em seu palácio e chorou muito. Depois de diversas tentativas sem sucesso de apaziguar Ambrósio, o próprio Teodósio finalmente se encontrou com Ambrósio em particular e implorou por misericórdia dizendo: ‘Eu imploro que, em consideração a misericórdia de Nosso Senhor em comum, me libertes destas cadeias e que não feches a porta que é aberta pelo Senhor para todos que verdadeiramente se arrependem’. Ambrósio estipulou que o Imperador provasse seu arrependimento revogando diversos decretos injustos e especialmente ‘que quando uma sentença de morte ou proscrição fosse assinada contra alguém, deveria haver um espaço de trinta dias antes da execução e, durante esse tempo, o caso deve ser trazido a ti. Isso lhe dará tempo para se acalmar, para que possas pensar sobre o caso com justiça’. O Imperador deu ouvidos ao seu conselho e achou excelente. Ele imediatamente ordenou que a lei fosse elaborada e ele mesmo assinou o documento. Ambrósio, então, o readmitiu a comunhão.

O Imperador, que estava cheio de fé, agora tomou coragem de entrar na santa igreja, na qual ele não orou de pé ou ajoelhado, mas lançou-se ao chão. Ele puxava os cabelos, batia na testa e chorava muito enquanto implorava pelo perdão de Deus. Ambrósio restaurou seu favor, mas o proibiu de entrar no gradil de comunhão, ordenando que seu diácono lhe dissesse: ‘somente os presbíteros, ó Imperador, tem permissão para ultrapassar o gradil de comunhão. Se retire, então, e fique com os outros leigos. A púrpura faz o Imperador, mas não os presbíteros…” Teodósio humildemente obedeceu e elogiou Ambrósio dizendo: “Ambrósio somente merece o título de ‘bispo’“. (Teodoreto de Cirro, História Eclesiástica, V.17-18)

O caso de Ambrósio e Teodósio é como a história de de Natã e o rei Davi. Este foi um dos mais importante eventos de toda Antiguidade. A excomunhão pública de um Imperador Romano por um bispo foi a completa humilhação de tudo o que o paganismo imperial jamais havia representado e foi a declaração pública de que “Jesus Cristo”, não César “é o Soberano dos reis da terra” (Ap 1:5). Nero, que lançava os cristãos aos leões, poderia imaginar que séculos depois um Imperador Romano estaria jogado no chão de um uma igreja implorando pelo perdão de Jesus Cristo? Roma se prostrou diante de Jesus Cristo. O mundo nunca mais foi o mesmo.

“Depois virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés”. (I Coríntios 15:24-25)

Anúncios