bullingerSOBRE O USO OU EFEITO DA LEI DE DEUS; SOBRE SEU CUMPRIMENTO E AB-ROGAÇÃO; E SOBRE AS SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS ENTRE OS DOIS TESTAMENTOS E POVOS – O ANTIGO E O NOVO
Por Heinrich Bullinger

Sobre o Autor: Heinrich Bullinger (18 de julho de 1504 — 17 de setembro de 1575) foi um dos mais importantes teólogos da Reforma Protestante do século XVI, tendo sido pastor da Igreja em Zurique. Participou da composição da Primeira Confissão Helvética e escreveu a Segunda Confissão Helvética em 1566.

Parte IParte II – Parte III – Parte IV

Agora, depois de ter declarado o uso, a finalidade e o ofício da Lei, eu irei ensiná-los sobre a maneira e por quais meios a Lei de Deus é cumprida. É impossível para qualquer homem, por suas próprias forças, cumprir a Lei e satisfazer a justiça de Deus e todos os aspectos. Pois é evidente que na Lei não se exige somente as obras externas, mas também a pureza das afeições internas, isto é, uma perfeição absoluta e celestial, como eu já mencionei. O próprio Senhor clamou: “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus”.[1] Mas uma perfeição absoluta assim não pode ser encontrada em nós enquanto vivemos nesta carne, pois a carne, até o fim de nossas vidas, mantem sua disposição corrupta. Ainda que ela seja muitas vezes derrubada pelo espírito que luta contra ela, a carne continua a se renovar para a briga, de maneira que não seja possível encontrar em nós aquela perfeição absoluta e celestial. Ouçamos o testemunho do santo apóstolo Paulo sobre essa questão: “Porque bem sabemos que a Lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço”.[2] E também: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem”.[3] E também: “Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na Lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros”.[4] Então, ele finalmente conclui: “Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à Lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado”.[5] Existem alguns que acreditam que Paulo não estava se referindo a si mesmo com essas palavras, mas a outros que eram carnais e ainda não haviam sido regenerados. Mas as próprias palavras do apóstolo obrigam o leitor, querendo ou não, a confessar que tais palavras podem ser aplicadas até mesmo aos homens que são os mais espirituais. Agostinho, no capítulo vinte e três de Retratações, diz que ele mesmo seguiu esta opinião, que as palavras do apóstolo se referiam ao homem que estava de baixo da Lei e não de baixo da graça. Mas ele confessa que, pela autoridade dos escritos e tratados de outros, ele foi levado a concluir que o apóstolo se referia a homens espirituais e a si mesmo. Até mesmo Jerônimo, que dizem ter emitido uma terrível maldição contra aqueles que ensinavam que a Lei ordena o impossível, expressamente escreveu a Rústico que aqui Paulo estava se referindo a si mesmo. Mas se a carne com sua disposição corrupta permanece, pela qual ela incessantemente luta contra o espírito, segue-se que aquela perfeição celestial nunca é possível a nós enquanto vivemos. Consequentemente, enquanto vivemos, nenhum de nós tem a capacidade de cumprir a Lei.

Aqui é necessário mencionar também o argumento de Paulo, no qual ele prova que nenhum homem mortal é justificado pelas obras da Lei. Isto não é de qualquer maneira por culpa da própria Lei, mas por culpa de nossa própria natureza corrompida que não é capaz de cumprir aquilo que a Lei requer. Com muita verdade ele diz: “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da Lei; porquanto pelas obras da Lei nenhuma carne será justificada”.[6] Quando ele se refere as “obras da Lei”, não devemos entender que ele esteja se referindo somente as cerimonias. Pois assim como as cerimonias não justificam os homens, as leis morais também não. O apóstolo se refere à lei moral quando ele fala das obras da Lei. Pois o mesmo apóstolo diz no terceiro capítulo de Romanos: “Nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da Lei”, e imediatamente explica o motivo: “porque pela Lei vem o conhecimento do pecado”.[7] No sétimo capítulo ele também demonstra que ele se refere à lei moral. Pois a lei moral diz: “Não cobiçarás”.[8] E o apóstolo diz: “Eu não conheci o pecado senão pela Lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a Lei não dissesse: Não cobiçarás”.[9] Em sua epístola aos Efésios ele fala aos gentios e diz simplesmente que as obras não justificam.[10] Mas, falando aos gentios, ele não poderia estar se referindo as leis cerimoniais, mas as virtudes morais, isto é, a quaisquer tipos de obras que eram boas. Aos Gálatas ele escreveu: “Todos aqueles, pois, que são das obras da Lei estão debaixo da maldição”. E para provar ele acrescenta: “Porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da Lei, para fazê-las”.[11] A menos que por “obras da Lei” ele esteja se referindo tanto as leis morais quanto as cerimoniais, eu não vejo como esta prova tem relação com seu argumento. Pois ele disse expressamente: “em todas as coisas que estão escritas no livro da Lei, para fazê-las”. Quem é que não sabe que as cerimonias não foram escritas sozinhas, mas as leis morais também? Santo Agostinho em sua obra, “Sobre o Espírito e a Lei”, capítulo VIII, prova com muitos argumentos que Paulo também se referia as leis morais quando falava das “obras da Lei”.

Agora, para concluir esta parte, eu cito as palavras do apóstolo no oitavo capítulo de Romanos, dizendo: “Porquanto o que era impossível à Lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; Para que a justiça da Lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito”.[12] Nestas palavras o apóstolo nos ensina duas coisas: primeiro, que a Lei nunca é e nem nunca foi capaz de justificar os homens. A culpa por esta fraqueza e falta de capacidade ele não coloca na Lei, que em si mesmo é boa e eficaz, sendo a doutrina da mais absoluta perfeição. Ele culpa a carne corrupta. Nossa carne não poderia e continua não podendo cumprir aquilo que a Lei de Deus exige de nós. Por isso nós lemos que S. Pedro, no Concílio de Jerusalém, disse: “Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?”[13] Isto pode ser inferido com base no fato de que a Lei não era capaz de nos dar vida e nós não éramos capazes de fazer aquilo que a Lei requer de nossas mãos. Por isso Deus, que é rico em misericórdia e bondade, enviou Seu Filho ao mundo, para que, sendo encarnado, morresse por nós, tirasse de nós o pecado de nossa imperfeição e nos concedesse a perfeição e a plenitude da Lei. Assim é manifesto que Cristo cumpriu a Lei e que Ele é a perfeição de todos os fiéis no mundo.

Isto requer uma exposição mais ampla, como Cristo cumpriu a Lei e como ele é feito nossa perfeição. Antes de tudo, qualquer coisa que tenha sido prometida e prefigurada na Lei e nos Profetas, todas estas coisas são cumpridas por Cristo Nosso Senhor. Pois aquelas promessas: “a semente da mulher ferirá a cabeça da serpente”[14], “em ti serão benditas todas as famílias da terra”[15], e inúmeras outras como estas, Nosso Senhor cumpriu quando, tendo nascido neste mundo, Ele fez uma expiação por nós e nos trouxe de volta para a vida. De maneira parecida, Cristo cumpriu todas as cerimônias, pois, sendo Ele mesmo tanto o sacerdote quanto o sacrifício, ofereceu a Si mesmo, sendo agora e para sempre um sacrifício eterno e eficaz e um eterno Sumo Sacerdote, intercedendo sempre à mão direta do Pai por todos os crentes fiéis. Ele também circuncida espiritualmente os fiéis e, no lugar da circuncisão, Ele dá o sacramento do batismo. Ele é nossa páscoa que, no lugar do Cordeiro Pascal, ordenou a Eucaristia – a Ceia do Senhor. Ele é o cumprimento e perfeição da Lei e dos Profetas. Além disso, Nosso Senhor também cumpriu a Lei porque Ele satisfez a vontade de Deus em todos os pontos, sendo Ele o mais santo de todos, no qual não há mancha, nenhuma concupiscência maligna; nEle há o amor de Deus em Sua mais absoluta perfeição e justiça. Sua justiça é gratuitamente comunicada a nós que somos imperfeitos se crermos e fincarmos nossa esperança nEle. Pois Ele nos perdoa de nossos pecados, tendo sido feito um sacrifício purificador por nós, e nos faz participantes de Sua própria justiça que, por esta causa, é chamada de justiça imputada.  Os testemunhos do apóstolo se referem a isso: “Deus”, disse Paulo, “estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões… Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”.[16] E também: “Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça”.[17] Assim também, se cremos em Deus por Cristo, nossa fé nos será imputada como justiça. É por meio da fé que lançamos mão de Cristo, o qual nós cremos que pagou o mais absoluto resgate a Deus por nós e que a Sua justiça é imputada a nós. Deus, por causa de Cristo, se agrada de nós porque Sua justiça é imputada como se fosse a nossa própria justiça e por isso somos filhos de Deus.

Essas coisas, se consideradas diligentemente, nos permitem responder com facilidade aqueles que nos questionam: Se nenhum homem mortal, em si mesmo, satisfaz a Lei, de que maneira a justiça, a vida e a salvação podem ser prometidas aos que observam a Lei? Nossa resposta é que esta promessa diz a respeito da perfeita justiça de Cristo que é imputada a nós. É absolutamente certo que a Escritura não se contradiz em nenhum jota sequer. O apóstolo disse claramente: “Se fosse dada uma Lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela Lei. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos que creem”.[18] Desta maneira, quem guarda e cumpre a Lei, incluindo os Dez Mandamentos, é aquele que faz aquilo para o qual a Lei foi especialmente ordenada. Mas a Lei foi especialmente ordenada (como eu expliquei agora pouco) com o propósito de convencer a todos do pecado e da condenação, para nos afastar de nós mesmos e nos conduzir pela mão até Cristo, que é o cumprimento da Lei para a justificação de todo aquele que crê. Portanto, quem guarda a Lei é aquele que não tem qualquer confiança em si mesmo e em suas próprias obras, mas se entrega a graça de Deus e busca toda justiça na fé em Cristo. Assim, é evidente que estas duas sentenças do Senhor tem o mesmo sentido: “Aquele que crê em mim tem a vida eterna”[19] e “Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos”.[20] Como Paulo disse no décimo-terceiro capítulo de Atos: “Seja-vos, pois, notório, homens irmãos, que por este se vos anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela Lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê”.[21] Isto se refere a toda obra da justificação, sobre a qual já falei amplamente em outra ocasião.

Aquela fé, pela qual cremos que Cristo satisfez a Lei e que Ele é nossa justiça e nossa perfeição, não é de nossa própria natureza ou de nossos próprios méritos, mas provem da graça de Deus dentro de nós. Provem do Espírito Santo que é dado aos nossos corações. Este Espírito, que habita em nossos corações, inflama nossos peitos com o amor e desejo pela Lei de Deus, para nos esforçarmos ao máximo para expressar e praticar a Lei em todas nossas obras e palavras, ainda que nunca consigamos plenamente por causa da fraqueza da carne, a fraqueza da natureza do homem que permanece em nós até o último suspiro no fim de nossas vidas, mas que, ainda assim, são aceitáveis por Deus pela graça por causa de Cristo somente. Nenhum homem piedoso coloca nisto sua confiança, mas somente no primeiro cumprimento da Lei que é absoluto e perfeito.[22] Pois Paulo em sua epístola clamou: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”[23] E logo depois ele respondeu: “Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à Lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado. Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito”.[24] Portanto, como estamos em Cristo, estamos na graça e, portanto, Deus se agrada de nossas obras que, sendo-nos dada pela fé por um Espírito generoso, procede de um coração que ama a Deus. Pois João diz: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados”.[25] Ele ainda acrescenta o motivo e diz: “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé”.[26] Todo aquele que é nascido de Deus, crê, como é dito na primeira epístola de S. João.

Com isso podemos facilmente reconciliar o que é dito nestes dois lugares que, a princípio, podem parecer entrar em contradição: que as leis de Deus são pesadas, que nem nossos pais nem nós pudemos suportar [27] e que as leis de Deus não são pesadas.[28] Não são pesadas para os fiéis que estão em Cristo, para aqueles que têm o dom do Espírito de Deus, isto é, aqueles que são reconciliados com Deus por Cristo – o Senhor e Salvador. Sem Cristo e fé em Cristo elas são pesadíssimas para todos os incrédulos. Então os fiéis, sendo movidos pelo Espírito de Deus, voluntariamente fazem o bem para todos os homens, na medida em que sua habilidade lhe permite, e não faz o mal contra qualquer homem em nenhuma circunstância; não porque ele teme o castigo que, na Lei, é ordenada contra o desobediente, injusto e malfeitor, mas porque ele ama a Deus. Desta maneira, ele cumpre também a lei judicial.

Parte IParte II – Parte III – Parte IV

Tradução: Frank Brito
Fonte: The Decades of Henry Bullinger, Volume II, “The Eighth Sermon”


[1] Mateus 5:48

[2] Romanos 7:14-15

[3] Romanos 7:18

[4] Romanos 7:22-23

[5] Romanos 7:25

[6] Gálatas 2:16

[7] Romanos 3:20

[8] Êxodo 20:17; Deuteronômio 5:21

[9] Romanos 7:7

[10] Efésios 2:8-9

[11] Gálatas 3:10; Deuteronômio 27:26

[12] Romanos 8:3-4

[13] Atos 15:10

[14] Gênesis 3:15

[15] Gênesis 12:3

[16] II Coríntios 5:19,21

[17] Romanos 3:4

[18] Gálatas 3:21-22

[19] João 6:47

[20] Mateus 19:17

[21] Atos 13:38-39

[22] N.T.: Em Cristo cumprindo a Lei por nós.

[23] Romanos 7:24

[24] Romanos 7:25-8:1

[25] João 5:3

[26] I João 5:4

[27] Atos 15:10

[28] João 5:3