augustineCOMO O CONCÍLIO DE TRENTO EXCOMUNGOU S. AGOSTINHO
Por Frank Brito

O catolicismo romano defende que a cada missa, a hóstia e o vinho deixam de ser o que eram e se transformam no corpo e sangue de Cristo. A aparência de hóstia e vinho continua, mas não é mais verdadeiramente hóstia e vinho. É o próprio Cristo corporalmente. Isso significa que, para a igreja romana, Jesus Cristo já está na terra, não somente por Seu Espírito, mas corporalmente também. Este dogma foi declarado pelo Concílio de Trento na Sessão XIII, com as seguintes palavras:

Cap. 4. — A Transubstanciação

877. Uma vez, porém, que Cristo Nosso Redentor disse que aquilo que oferecia sob a espécie de pão era verdadeiramente o seu corpo (Mt 26, 26; Mc 14, 22 ss; Lc 22, 19 ss; l Cor 11, 24 ss.), sempre houve na Igreja de Deus esta mesma persuasão, que agora este santo Concilio passa a declarar: Pela consagração do pão e do vinho se efetua a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo Nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue. Esta conversão foi com muito acerto e propriedade chamada pela Igreja Católica de transubstanciação [cân. 2].

E também:

Cânones sobre a Santíssima Eucaristia

883. Cân. l. Se alguém negar que no Santíssimo Sacramento da Eucaristia está contido verdadeira, real e substancialmente o corpo e sangue juntamente com a alma e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, e por conseguinte o Cristo todo, e disser que somente está nele como sinal, figura ou virtude — seja excomungado [cfr. n° 874 e 876].

Com base neste cânon, S. Agostinho (que nasceu no quarto século) foi, em certo sentido, retroativamente excomungado pela mesma igreja que diz reconhecê-lo como santo e também como um dos quatro doutores latinos da Igreja. O motivo é que S. Agostinho, cerca de quinze séculos antes do Concílio de Trento, negou abertamente que “pela consagração do pão e do vinho se efetua a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo Nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue”. Evidentemente, não me refiro a uma excomunhão oficial, mas ao fato do Concílio de Trento ter anatemizado o mesmo que Agostinho defendia sobre o sacramento da Ceia.

LINGUAGEM SACRAMENTAL

No ano de 408 AD, Agostinho deixou isso claro em uma carta que escreveu para Bonifácio tratando de questões relacionadas ao batismo:

“Você sabe que, na linguagem comum, quando a Páscoa está se aproximando, nós dizemos: ‘Amanhã’ ou ‘Depois de amanhã é a paixão do Senhor’, ainda que seja verdade que Ele sofreu há muitos anos e Sua paixão aconteceu de uma vez por todas. De maneira parecida, no Domingo de Páscoa, nós dizemos: ‘Neste dia o Senhor ressuscitou dos mortos’, ainda que muitos anos tenham se passado desde Sua ressurreição. Mas, ninguém é tolo o suficiente para nos acusar de mentir quando usamos estas frases. O motivo que chamamos estes dias assim é porque há semelhança entre estes dias e os dias em que os eventos aos quais nos referimos realmente aconteceram. Nos referimos a estes dias como se fossem os mesmos dias em que os eventos aconteceram, ainda que não sejam realmente os mesmos, porque correspondem a mesma época do ano. E, quando é dito que o evento ocorre naquele dia, é porque, ainda que tenha acontecido muito antes, é neste dia que o evento é celebrado sacramentalmente. Cristo não foi, em Sua própria Pessoa, oferecido como sacrifício de uma vez por todas? Mas, ainda assim, Ele também não é oferecido no sacramento como um sacrifício, não somente nas solenidades especiais da Páscoa, mas também diariamente em nossas congregações? Sendo assim, se um homem é interrogado e responde que Cristo é oferecido nesta ordenaça, ele não está dizendo a verdade? Se os sacramentos não tivessem qualquer semelhança verdadeira com as coisas das quais são sacramentos, não seriam de fato sacramentos. Na maioria dos casos, em virtude desta semelhança, os sacramentos são chamados pelo nome da realidade com a qual se assemelham. Portanto, em certo sentido, o sacramento do corpo de Cristo é o corpo de Cristo, o sacramento do sangue de Cristo é o sangue de Cristo […] Com base nisso, o Apóstolo disse, em relação ao sacramento do batismo: ‘De sorte que fomos sepultados com Ele pelo batismo na morte’. [Rom 6.4] Ele não diz: ‘Nós temos significado que nós fomos sepultados com Ele’, mas diz que ‘fomos sepultados com Ele’. Portanto, Ele deu ao sacramento referente a uma operação tão grandiosa o nome que descreve a própria operação”.

Aqui Agostinho explicou que quando chegava o Domingo de Páscoa, as pessoas diziam “Hoje é o dia da ressurreição do Senhor”. Isso não significava que elas realmente acreditavam que naquele dia específico Cristo havia ressuscitado. Significava simplesmente que aquela era a época do ano em que, séculos antes, Ele havia ressuscitado e, por conta disso, comemorava-se Sua ressurreição naquele dia. “Hoje é o dia de Páscoa” não deveria ser entendido literalmente. Em seguida, Agostinho usa isso para explicar os sacramentos. Ele explica que no sacramento da Ceia não há literalmente o corpo e o sangue de Cristo, mas que é chamado assim simplesmente porque o pão e o vinho significam o corpo e o sangue de Cristo. Ele aplicou a mesma lógica para entender o batismo. Ele explicou que Paulo diz que fomos “sepultados com Ele pelo batismo na morte”, não porque isso literalmente acontece no próprio batismo, mas porque é para isso que o batismo aponta, é isso o que o batismo significa. Isso significa que todas as vezes em que lemos Agostinho falando sobre o “sacrifício” da Ceia ou sobre o pão e o vinho ser o corpo e o sangue do Senhor, devemos que entender que ele estava falando “sacramentalmente” e não literalmente. A explicação de Agostinho condiz com a Confissão de Fé de Westminster:

“Em todo o sacramento há uma relação espiritual ou união sacramental entre o sinal e a coisa significada, e por isso os nomes e efeitos de um são atribuídos ao outro“. (Confissão de Fé de Westminster, Capítulo XXVII, “Dos Sacramentos”)

Além disso, a explicação de Agostinho contradiz a definição do Concílio de Trento, da igreja romana e o coloca retroativamente na posição de excomungado. Se o pão e o vinho são o corpo e o sangue de Cristo no mesmo sentido em que cada Domingo de Páscoa é o dia da ressurreição do Senhor, segue-se que o pão e o vinho não são literalmente, isto é, substancialmente o corpo e o sangue de Cristo e que não há “conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo Nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue”, como diz Trento.

TRANSUBSTANCIAÇÃO: CRIME E VÍCIO?

O mesmo que Agostinho explicou em sua carta a Bonifácio, encontramos explicando em uma de suas obras mais importantes, “A Doutrina Cristã”. No terceiro volume desta obra, encontramos diversas instruções importantes sobre como identificar linguagem figurada na Bíblia. No décimo sexto capítulo, ele diz:

“Se a frase é uma ordenança, proibindo um crime ou uma virtude, ou ordenando um ato de prudência ou benevolência, não é figurada. Todavia, se a frase parece ordenar um crime ou um vício, ou proibir um ato de prudência ou benevolência, então é figurada. ‘Se não comerdes a carne do Filho do homem’, disse Cristo, ‘e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos’ [João 6.53]. Isso parece ordenar um crime ou um vício. Portanto, a frase é figurada e ordena que nós participemos do sofrimento do Senhor, que guardemos a lembrança doce e proveitosa de que Ele foi ferido e crucificado por nós”. (S. Agostinho, A Doutrina Cristã, Livro III, Capítulo 16)

Aqui Agostinho chamou de “crime” e “vício” aquilo que, no decorrer dos séculos, viria a ser reconhecido como dogma de fé pela igreja romana. João 6 é um dos capítulos mais citados por católicos romanos na defesa da transubstanciação. Católicos romanos dizem que na missa o pão e o vinho literalmente se transformam no corpo e no sangue do Senhor e que, desta maneira, nos é possível literalmente comermos do corpo e bebermos do sangue do Senhor, como ele mandou que fizéssemos em João 6. Mas, contrário a posição do catolicismo romano, Agostinho ensinava que interpretar estas palavras literalmente é um crime e um vício. Seria canibalismo. Em seu “Tratado sobre Evangelho de João”, Agostinho explicou o mesmo:

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que Ele enviou.[João 6.29] Este é o significado de comer a carne, não a que perece, mas a que permanece para a vida eterna. Por que preparas os dentes e o estômago? Crê e já terás comido!(S. Agostinho, Tratado do Evangelho de S. João)

No nono capítulo e sua obra “A Doutrina Cristã”, Agostinho explicou também que interpretar o sacramento da Ceia como sendo substancialmente o próprio corpo e o sangue do Senhor é uma forma “fraqueza” e “servidão” e de ser “conduzido pelo erro”:

Sob a servidão do sinal vive quem faz ou venera uma coisa simbólica sem saber o que ela significa. Mas quem faz ou venera a um signo útil instituído por Deus, cuja virtude e significado entende, não venerao visível e transitório, mas Aquele a quem todos esses signos se referem. Ora, tal homem revela-se um ser espiritual e livre, até o do tempo da servidão do Antigo Testamento. Pois nesse tempo ainda não era conveniente ser desvendada a razão desses signos a espíritos carnais, visto que deveiam eles estar submetidos a tal jugo. Portanto, espirituais foram os patriarcas e os profetas e todos os personagens do povo de Israel por quem o Espírito concedeu-nos o auxílio e consolo das Escrituras. Em nosso tempo, quando pela ressurreição de Nosso Senhor brilhou claríssimo o signo de nossa libertação, não estamos mais oprimidos pelo pesado encargo de submetermos àqueles signos primitivos, porque agora entendemos. Pois o mesmo Senhor e os ensinamentos dos apóstolos transmitiram-nos não mais uma multidão de sinais, mas um número bem reduzido. São fáceis de serem celebrados, de excepcional sublimidade a serem compreendidos, e a serem realizados com grande simplicidade. Tais são: o sacramento do batismo e a celebração do corpo e sangue do Senhor. Quando alguém os recebe, bem instruído, sabe a que se referem e, por conseguinte, venera-os com liberdade espiritual e não com servidão carnal. Ora, seguir a letra e confundir os sinais com aquilo que os sinais significam indica fraqueza e servidão. Interpretar os sinais erradamente é o resultado de estar sendo conduzido pelo erro“.

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