Como a Teologia da Nova Aliança Atrapalha a Grande Comissão
Por Frank Brito

A chamada Teologia da Nova Aliança é um sistema teológico criado na metade do último século que, entre outras coisas, ensina que todos os mandamentos do Antigo Testamento, sem exceção, foram ab-rogados mediante a morte de Jesus Cristo. Matt Perman, articulista do Desiring God, resumiu bem a questão:

“Eles dizem que o Novo Testamento ensina claramente que a Lei Mosaica como um todo foi substituída em Cristo. Em outras palavras, ela não mais é nossa fonte direta e imediata de orientação. A Lei Mosaica, como uma lei, não mais é obrigatória para o crente. Isto significa que os crentes não são mais governados por alguma lei divina? Não, pois a Lei Mosaica foi substituída pela lei de Cristo… No cancelamento da Lei Mosaica, Deus nos deu uma expressão diferente da sua lei moral eterna – a saber, a Lei de Cristo, consistindo nas instruções morais do ensino de Cristo e do Novo Testamento. A questão chave que a TNA procura levantar é: Para onde olhamos para ver a expressão da lei moral eterna de Deus hoje – para Moisés, ou para Cristo? A TNA diz que devemos olhar para Cristo”.

A ideia de que os mandamentos revelados por Moisés deixaram de vigorar, e que agora somente vigoram os mandamentos que aparecem nas páginas do Novo Testamento, é um dos erros mais perniciosos deste sistema teológico. Mas, o propósito maior deste artigo não é provar que a Lei de Deus, conforme revelada por Moisés, continua a vigorar. Isto nós já fizemos em outras ocasiões. O propósito deste artigo é demonstrar que a Teologia da Nova Aliança não é simplesmente errada, mas que, além disso, ela é nociva e, em muitos sentidos, contrária a missão que Cristo deu a Sua Igreja antes de subir ao céu:

“E, aproximando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Portanto ide, ensinai as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”.(Mateus 28.18-20)

Este é um dos textos mais importantes para entendermos a missão da Igreja em relação ao mundo. Jesus mandou que a Igreja ensinasse o mundo inteiro a observar tudo o que Ele ensinou. É o que conhecemos como a Grande Comissão. O motivo pelo qual a Teologia da Nova Aliança é tão nociva é que esta teologia nega, ainda que não abertamente, que devemos ensinar as nações a observar tudo o que Jesus nos mandou. No Evangelho de S. Mateus lemos sobre um dos primeiros ensinamentos de Cristo ainda no início de Seu ministério público:

“Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo do alqueire, mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mateus 5.13-20)

Na analogia de Jesus o sal, a candeia e a cidade representam os homens. O sal pode salgar ou ser insípido e a candeia pode iluminar ou ser escondida. O sabor do sal, a iluminação da candeia e da cidade situada sobe o monte são equivalentes a “boas obras” (v. 16) que os homens podem vir a praticar. Já o sal insípido e a luz escondida são equivalentes aos operadores da iniquidade que “para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens” (v.13).

Diferentes pessoas definem o bem e o mal de diferentes maneiras. Mas isso é somente consequência da ruína de Adão. A essência de todo e qualquer pecado consiste na ideia de que o homem possa estabelecer as suas próprias palavras, o próprio julgamento, a própria opinião, no lugar da Palavra de Deus. Em resposta a isso, Jesus avisou: “Não penseis que vim destruir a Lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido” (v. 18). O bem e o mal não podem ser definidos por homens porque o homem não é Deus. O bem e o mal são definidos pela Lei de Deus.

A Lei, a qual Jesus se refere é, evidentemente, a Lei que havia sido revelada por Moisés. Segundo Jesus, Ele não veio para abolir a Lei que havia sido revelada por Moisés, mas continua a exigir que os homens a cumpram e critica duratemente “qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja”. (v .19). É por isso que, logo em seguida, Ele declarou: “Vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mateus 5.20) Jesus, assim como os antigos profetas (cf. Is 5.24-25; 8.20; 30.9; 42.24), defendia a necessidade de obedecer a Lei de Deus que havia sido revelada por Moisés. Já os fariseus, assim como os inimigos dos antigos profetas, tratavam a Lei do Antigo Testamento como irrelevante e insignificante e, portanto, substituiram a Lei de Deus por um padrão moral diferente. Em vez de refletir e meditar na Lei de Deus pra compreender e extrair as reais implicações do que ela diz, os escribas e fariseus estavam continuamente buscando meios de anular a obrigação de cumpri-la. Eram reconhecidos como os grandes mestres da Lei em Israel. Mas na realidade eram os grandes transgressores:

“Então chegaram a Jesus uns fariseus e escribas vindos de Jerusalém, e lhe perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos, quando comem. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? Pois Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e, Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser a seu pai ou a sua mãe: O que poderias aproveitar de mim é oferta ao Senhor; esse de modo algum terá de honrar a seu pai. E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus. Hipócritas! bem profetizou Isaias a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem”. (Mateus 15.1-9)

A Lei de Deus, no quinto mandamento, manda que o homem honre seu pai e sua mãe. A honra em questão envolve a necessidade de sustentar os pais nos momentos de dificuldade financeira, especialmente na velhice. Mas os escribas e fariseus negligenciavam isso em nome de uma “causa santa”. Aquilo que seria usado pra sustentar seus pais era ofertado a Deus. Por ser uma oferta a Deus, acreditavam que estavam fazendo algo sublime. Jesus não mediu palavras “Hipócritas!”. Obedecer a Deus significa fazer o que sua Lei manda e não inventar votos e ofertas por tradições que nos impedem de cumprir o que sua Lei manda. O que os escribas e fariseus mais queriam era uma demonstração pública do quanto eram piedosos e espirituais. O que eles queriam era a glória humana. O que eles não queriam era obedecer a Deus. Isso é um aviso sério para aqueles que a Lei revelada no Antigo Testamento como irrelevante ou insignificante.

Foi por esta causa que no Sermão da Montanha Jesus avisou: “se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mt 5.20) Jesus, evidentemente, estava criticando os escribas e fariseus por não cumprirem a Lei que havia sido revelada no Antigo Testamento e, portanto, é um absurdo supor que no Sermão da Montanha, Ele estava exigindo que cumpríssimos qualquer coisa diferente do que já havia sido revelado no Antigo Testamento. Jesus foi perfeitamente claro. Quando Ele chamou os escribas e fariseus de hipócritas por transgredirem Sua Lei, Ele estava se referindo a mesma Lei que fora anunciada pelos profetas. E quando Ele disse que a nossa justiça deve exceder a justiça dos escribas e fariseus, Ele estava falando que não deveriamos ser hipócritas como eles, mas que devemos buscar observar até mesmo os menores dos mandamentos (Mt 5.19) desta mesma Lei.

Sendo assim, se Jesus expressamente mandou que guardássemos a Lei de Deus conforme revelada no Antigo Testamento, segue-se que quando Ele, na Grande Comissão, nos enviou para ensinar as nações a “observar todas as coisas” (Mt 28.20) que Ele mandou, isso inclui, evidentemente, a Sua ordem de observarmos a Lei.A Teologia da Nova Aliança ensina exatamente o contrário. Ensina que os mandamentos revelados por Moisés deixaram de vigorar e que agora somente vigoram os mandamentos que aparecem nas páginas do Novo Testamento. Isso não condiz com a ordem de Jesus na Grande Comissão, de que devemos ensinar o mundo a “observar todas as coisas”, o que inclui aquilo que Ele nos mandou no Sermão da Montanha. Sendo assim, nossa única alternativa é concluir que a Teologia da Nova Aliança não é simplesmente errada. Mais do que isso, ela é nociva a missão da Igreja.

A Teologia da Nova Aliança ensina que devemos guardar somente os mandamentos que aparecem nas páginas do Novo Testamento. Mas, isso não é suficiente. Jesus não ensinou a observarmos somente aquilo que os apóstolos nos transmitiram, mas também aquilo que Moisés e os Profetas já haviam nos ensinado. A Bíblia inteira, não somente o Novo Testamento, é nossa única regra de fé e prática. A Teologia da Nova Aliança nega 75% da Bíblia como regra de fé e prática e, consequentemente, não é capaz de produzir qualquer coisa se não uma teologia diluida, superficial e, não raramente, abertamente herética. Ao rejeitar mais do que a metade da Bíblia como regra de fé e prática, a Teologia da Nova Aliança não é outra coisa se não mais um obstaculo para a missão da Igreja. Como está escrito:

“Eis aqui o meu Servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu Espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios. Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na praça. A cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega; com verdade trará justiça. Não faltará, nem será quebrantado, até que ponha na terra a justiça; e as ilhas aguardarão a sua Lei“. (Isaías 42.1-4)

“Atendei-me, povo meu e nação minha, inclinai os ouvidos para mim; porque de mim sairá a Lei, e o meu juízo farei repousar para a luz dos povos. Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação, e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão, e no meu braço esperarão. Levantai os vossos olhos para os céus, e olhai para a terra em baixo, porque os céus desaparecerão como a fumaça, e a terra se envelhecerá como roupa, e os seus moradores morrerão semelhantemente; porém a minha salvação durará para sempre, e a minha justiça não será abolida. Ouvi-me, vós que conheceis a justiça, povo em cujo coração está a minha Lei; não temais o opróbrio dos homens, nem vos turbeis pelas suas injúrias. Porque a traça os roerá como a roupa, e o bicho os comerá como a lã; mas a minha justiça durará para sempre, e a minha salvação de geração em geração”. (Isaías 51.4-8)

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