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O PAPA E O ANTICRISTO (Parte I)
Por Frank Brito

“Nós declaramos, nós proclamamos, nós definimos que é absolutamente necessário para a salvação que cada criatura humana esteja sujeito ao Pontífice Romano”.(Papa Boniface VIII, Bula Unam Sanctam)

Parte IParte IIParte IIIParte IV

Com a renúncia do papa, diversas pessoas me perguntaram sobre a relação do papa com profecias bíblicas. Qual a relação do papa com o anticristo? E com a besta? E com a Grande Prostituta? O papado foi profetizado nas Escrituras? Alguns sites chegaram ao ponto de encaixar a renúncia do papa Bento XVI na profecia dos oito reis em Apocalipse 17 para, com base nisto, argumentar que o próximo papa será o anticristo.

Se queremos, de fato, aprender sobre o anticristo, devemos nos voltar para a Bíblia e não para teorias de conspirações fantasiosas. É uma pena que tantos cristãos se permitem envolver com especulações proféticas completamente baseadas em desvaneios e fantasias, sem qualquer compromisso com uma interpretação coerente, lógica e sadia dos textos bíblicos. Este artigo será dividido em quatro partes e tem como objetivo demonstrar os seguintes pontos:

1) Qual a definição bíblica do anticristo?

2) Como devemos entender a besta do Apocalipse?

3) Como devemos entender a Grande Prostituta do Apocalipse?

4) Como o papado e o catolicismo romano se relaciona com tudo isso?

O ANTICRISTO

A maioria dos cristãos hoje imagina o anticristo como um líder político que irá dominar o mundo inteiro no futuro. Mas esta não é a definição que a Bíblia dá para a palavra anticristo. Primeiro, a palavra anticristo só aparece em dois livros da Bíblia – nas duas primeiras cartas de S. João. Contrário ao que muitos pensam, a palavra anticristo não aparece no Apocalipse. Portanto, se queremos entendender sobre o anticristo, precisamos começar com I e II João.

“E agora, senhora, rogo-te, não como se escrevesse um novo mandamento, mas aquele mesmo que desde o princípio tivemos: que nos amemos uns aos outros. E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nele. Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este tal é o enganador e o anticristo. Olhai por vós mesmos, para que não percamos o que temos ganho, antes recebamos o inteiro galardão. Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho. Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis”. (II João 1.5-10)

Aqui nós aprendemos que o anticristo não é um indivíduo único. “Esse tal”, que é “o anticristo”, são os “muitos enganadores” que “entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne”. Portanto, “o anticristo” não pode ser entendido como um único indivídiuo e sim como sendo os “muitos enganadores”.

A confusão existe porque, no português, quando usamos os artigos definidos “o” ou “a”, normalmente estamos nos referindo a um indivíduo. Quando dizemos que “o menino foi para a escola”, estamos nos referindo a um único menino. Quando dizemos que “o professor gritou com os alunos”, estamos nos referindo a um único professor. Quando dizemos que “a mulher chegou atrasada”, estamos nos referindo a uma única mulher. Consequentemente, quando a maioria das pessoas lêem sobre “o anticristo”, elas entendem que o texto esteja se referindo a um único indivíduo. Mas, o fato é que nem mesmo na língua portuguesa os artigos definidos “o” ou “a” precisam ser usados para se referir a um indivíduo. “O brasileiro ama futebol” pode se referir ao amor dos brasileiros de forma geral e não de um brasileiro específico. “O eleitor brasileiro”, da mesma forma, pode se referir aos eleitores de forma geral e não simplesmente a um único eleitor. Com frequência, vemos algo parecido na Bíblia:

“E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio? Se porventura houver cinqüenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinqüenta justos que estão dentro dela? Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” (Gênesis 18.23-25)

Aqui Abraão pergunta a Deus sobre a possibilidade do justo ser destruído com o ímpio. O justo e o ímpio não são um único indivíduo ímpio e um único indivíduo justo, mas são os ímpios e os justos, no plural, de forma geral. O mesmo pode ser dito sobre muitos textos bíblicos:

“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na Lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite”. (Salmo 1.1-2)

“Tenha já fim a malícia dos ímpios; mas estabeleça-se o justo; pois tu, ó justo Deus, provas os corações e os rins”. (Salmo 7.9)

“Os homens sanguinários odeiam ao sincero, mas os justos procuram o seu bem. O tolo revela todo o seu pensamento, mas o sábio o guarda até o fim. O governador que dá atenção às palavras mentirosas, achará que todos os seus servos são ímpios. O pobre e o usurário se encontram; o SENHOR ilumina os olhos de ambos”. (Provérbios 29.10-13)

“Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Israel, e por quatro, não retirarei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos…” (Amós 2.6)

“Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça. Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, E cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado”. (Romamos 4.4-8)

É neste sentido que devemos entender o que é dito sobre “o” anticristo. O anticristo não é um indivíduo único. “Esse tal”, que é “o anticristo”, são os “muitos enganadores” que “entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne”. O anticristo não pode ser entendido como um único indivídiuo e sim como sendo os “muitos enganadores”.

A que enganadores João se referiu? Ele escreveu que “os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne“. Eram falsos mestres que defendiam e propagavam determinados erros de Cristologia. Cristologia é a parte da teologia cristã que estuda a natureza, a pessoa, os ofícios e a obra de Cristo. Quanto a humanidade de Cristo, o Credo da Calcedônia resumiu bem o ensino das Escrituras:

“… ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, e perfeito quanto à humanidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo, consubstancial com o Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado; gerado segundo a divindade pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, portadora de Deus; um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, antes é preservada a propriedade de cada natureza, concorrendo para formar uma só pessoa e em uma subsistência; não separado nem dividido em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho, o Unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo…”

O anticristo que encontramos nas cartas de João eram os falsos mestres que negavam isso. Eles “não confessam que Jesus Cristo veio em carne” porque eles negavam que Cristo é “verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo… consubstancial a nós, segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado”. Desde o primeiro século existiram falsos mestres, seitas e movimentos heréticos que falsamente se diziam cristãos, mas que eram inimigos declarados dos apóstolos e do verdadeiro Cristianismo. Um destes movimentos heréticos foi o docetismo. Esta palavra vem do grego dokeo e significa “parecer”. Os docetas defendiam que o corpo de Jesus Cristo era uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas aparente. Ele parecia homem, mas, na verdade, não era. Portanto, toda sua vida, sofrimento e morte foi simplesmente em aparência, mas não em realidade. Ou seja, eles não confessavam que “Jesus Cristo”, de fato, “veio em carne“. Eles não confessavam que, de fato, “o Verbo se fez carne“. (João 1.14) Quando João falou do anticristo, ele estava se referindo aos patriarcas do viria a ser conhecido como docetismo. Ele não estava falando de um líder político mundial em um futuro distante. Ele estava falando de falsos mestres de seu próprio tempo. Ele foi perfeitamente claro:

“Porque muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este tal é o enganador e o anticristo“. (II João 1.7)

Isso significa que a profecia nada tem a ver conosco?

É claro que tem. Anticristo significa simplesmente “opositor a Cristo” ou “inimigo de Cristo”. João usou o termo para se referir a falsos mestres. Os falsos mestres em questão eram os que ensinavam doutrinas falsas sobre Cristo. Sendo assim, podemos usar o termo “anticristo” para se referir a qualquer falso mestre que se apresente como cristão, mas que, ao mesmo tempo, ensina doutrinas heréticas sobre Deus, Jesus Cristo, o Cristianismo e o Evangelho. Os falsos mestres do docetismo eram anticristos. Mas, os falsos mestres dos ebonitas, arianos e sabelianos também eram. Qualquer falso mestre é um anticristo. Frequentemente, cristãos perdem tempo demais procurando identificar que será o anticristo quando, na verdade, o anticristo, biblicamente falando, já está entre nós. São os falsos mestres do islamismo, do kardecismo, do mormonismo, das testemunhas de jeová e também do catolicismo romano. São aqueles que dizem anunciar a verdadeira doutrina de Cristo, mas, em seu lugar, anunciam mentiras demoníacas.

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