É Pecado Comemorar o Natal?
Por Frank Brito

Em outro artigo falamos um pouco da história do Natal na tradição reformada. Cristãos reformados, ainda que nem todos, sempre entenderam que cristãos têm liberdade para comemorar o Natal. Dois importantes documentos deixam isso claro: a Segunda Confissão Helvética e a Ordem de Dort. Mas, como protestantes, devemos ter consciência de que nossa fé não é baseada em nossas tradições. As tradições da história da Igreja podem ser corretas ou não. Apesar do estudo da história da Igreja ter seu grande valor, a Bíblia é nossa única regra de fé e prática. Tradições devem ser aceitos ou rejeitados somente a medida que estão em conformidade com a Palavra de Deus. O propósito deste artigo é defender, à luz das Escrituras, que os cristãos são autorizados por Deus a celebrar o Natal e refutar aqueles que dizem que celebrar o Natal seja imoral. Tradicionalmente, a celebração do Natal inclui dois aspectos principais. Primeiro, há a celebração eclesiástica – cultos na igreja especialmente dedicados ao Natal. Segundo, há a celebração em que famílias e amigos se reúnem na noite de Natal. Entre aqueles que argumentam que a celebração do Natal seja imoral, há quatro argumentos principais:

  • A Bíblia não manda comemorar o Natal.
  • A Bíblia não revela o dia do nascimento de Cristo.
  • Muitas práticas e costumes pagãos se desenvolveram em torno da celebração do Natal.

1) A Bíblia não manda comemorar o Natal.

O erro por trás desta objeção é a ideia de que se a Bíblia não manda celebrar algo num dia específico, isso significa que não temos o direito de celebrá-lo. O livro de Ester refuta isso:

“E, no duodécimo mês, que é o mês de Adar, no dia treze do mesmo mês em que chegou a palavra do rei e a sua ordem para se executar, no dia em que os inimigos dos judeus esperavam assenhorear-se deles, sucedeu o contrário, porque os judeus foram os que se assenhorearam dos que os odiavam. Porque os judeus nas suas cidades, em todas as províncias do rei Assuero, se ajuntaram para pôr as mãos naqueles que procuravam o seu mal; e ninguém podia resistir-lhes, porque o medo deles caíra sobre todos aqueles povos. E todos os líderes das províncias, e os sátrapas, e os governadores, e os que faziam a obra do rei, auxiliavam os judeus porque tinha caído sobre eles o temor de Mardoqueu. Porque Mardoqueu era grande na casa do rei, e a sua fama crescia por todas as províncias, porque o homem Mardoqueu ia sendo engrandecido. Feriram, pois, os judeus a todos os seus inimigos, a golpes de espada, com matança e com destruição; e fizeram dos seus inimigos o que quiseram. E na fortaleza de Susã os judeus mataram e destruíram quinhentos homens; Como também a Parsandata, e a Dalfom e a Aspata, E a Porata, e a Adalia, e a Aridata, E a Farmasta, e a Arisai, e a Aridai, e a Vaisata; Os dez filhos de Hamã, filho de Hamedata, o inimigo dos judeus, mataram, porém ao despojo não estenderam a sua mão. No mesmo dia foi comunicado ao rei o número dos mortos na fortaleza de Susã. E disse o rei à rainha Ester: Na fortaleza de Susã os judeus mataram e destruiram quinhentos homens, e os dez filhos de Hamã; nas mais províncias do rei que teriam feito? Qual é, pois, a tua petição? E dar-se-te-á. Ou qual é ainda o teu requerimento? E far-se-á. Então disse Ester: Se bem parecer ao rei, conceda-se aos judeus que se acham em Susã que também façam amanhã conforme ao mandado de hoje; e pendurem numa forca os dez filhos de Hamã. Então disse o rei que assim se fizesse; e publicou-se um edito em Susã, e enforcaram os dez filhos de Hamã. E reuniram-se os judeus que se achavam em Susã também no dia catorze do mês de Adar, e mataram em Susã trezentos homens; porém ao despojo não estenderam a sua mão. Também os demais judeus que se achavam nas províncias do rei se reuniram e se dispuseram em defesa das suas vidas, e tiveram descanso dos seus inimigos; e mataram dos seus inimigos setenta e cinco mil; porém ao despojo não estenderam a sua mão. Sucedeu isto no dia treze do mês de Adar; e descansaram no dia catorze, e fizeram, daquele dia, dia de banquetes e de alegria. Também os judeus, que se achavam em Susã se ajuntaram nos dias treze e catorze do mesmo; e descansaram no dia quinze, e fizeram, daquele dia, dia de banquetes e de alegria. Os judeus, porém, das aldeias, que habitavam nas vilas, fizeram do dia catorze do mês de Adar dia de alegria e de banquetes, e dia de folguedo, e de mandarem presentes uns aos outros. E Mardoqueu escreveu estas coisas, e enviou cartas a todos os judeus que se achavam em todas as províncias do rei Assuero, aos de perto, e aos de longe, ordenando-lhes que guardassem o dia catorze do mês de Adar, e o dia quinze do mesmo, todos os anos, Como os dias em que os judeus tiveram repouso dos seus inimigos, e o mês que se lhes mudou de tristeza em alegria, e de luto em dia de festa, para que os fizessem dias de banquetes e de alegria, e de mandarem presentes uns aos outros, e dádivas aos pobres. E os judeus encarregaram-se de fazer o que já tinham começado, como também o que Mardoqueu lhes tinha escrito. Porque Hamã, filho de Hamedata, o agagita, inimigo de todos os judeus, tinha intentado destruir os judeus, e tinha lançado Pur, isto é, a sorte, para os assolar e destruir. Mas, vindo isto perante o rei, mandou ele por cartas que o mau intento que Hamã formara contra os judeus, se tornasse sobre a sua cabeça; pelo que penduraram a ele e a seus filhos numa forca. Por isso aqueles dias chamam Purim, do nome Pur; assim também por causa de todas as palavras daquela carta, e do que viram sobre isso, e do que lhes tinha sucedido, Confirmaram os judeus, e tomaram sobre si, e sobre a sua descendência, e sobre todos os que se achegassem a eles, que não se deixaria de guardar estes dois dias conforme ao que se escrevera deles, e segundo o seu tempo determinado, todos os anos. E que estes dias seriam lembrados e guardados em cada geração, família, província e cidade, e que esses dias de Purim não fossem revogados entre os judeus, e que a memória deles nunca teria fim entre os de sua descendência. Então a rainha Ester, filha de Abiail, e Mardoqueu, o judeu, escreveram com toda autoridade uma segunda vez, para confirmar a carta a respeito de Purim. E mandaram cartas a todos os judeus, às cento e vinte e sete províncias do reino de Assuero, com palavras de paz e verdade. Para confirmarem estes dias de Purim nos seus tempos determinados, como Mardoqueu, o judeu, e a rainha Ester lhes tinham estabelecido, e como eles mesmos já o tinham estabelecido sobre si e sobre a sua descendência, acerca do jejum e do seu clamor. E o mandado de Ester estabeleceu os sucessos daquele Purim; e escreveu-se no livro“. (Ester 9.1-32)

Este capítulo descreve como a festa do Purim foi estabelecida entre os judeus. Foi estabelecido parar comemorar a salvação dos judeus do plano para exterminá-los, no Império Persa. Os judeus “fizeram do dia catorze do mês de Adar dia de alegria e de banquetes, e dia de folguedo, e de mandarem presentes uns aos outros”. Exatamente o que costuma ser feito na comemoração do Natal – as pessoas não trabalham, comem banquetes e dão presentes para os amigos e a familiares. Deus mandou os judeus separar esse dia? Não, não mandou. O que foi ordenado por Deus é o que encontramos na Lei: Sábados, Lua Nova, Páscoa, Festa das Semanas (Pentecostes), Festa das Trombetas, Dia da Expiação e Festa dos Tabernáculos (cf. Nm 28-29). Mas, ainda assim, não havia problema nenhum se os judeus, por iniciativa própria, estabelecessem outras festas para a glória e o louvor de Deus. Foi isso que eles fizeram quando estabeleceram a festa do Purim. Em louvor e gratidão a Deus, estabeleceram a festa do Purim.

Isso prova que é falsa a ideia de que se a Bíblia não manda celebrar algo num dia específico, isso significa que não temos o direito de celebrá-lo.

Todos os homens tem a obrigação moral de louvar a Deus por todas suas obras. Isso inclui cada ato de Sua Providência pela qual Ele salva seu povo na história, como no livro de Ester. Inclui também a vinda de Deus à terra: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto”. (Is 9.6-7) Assim como os judeus do livro de Estes tinham a liberdade de celebrar a vitória militar contra seus inimigos com banquetes e presentes, ainda que esta celebração específica não tenha sido ordenada por Deus, os cristãos também tem a liberdade de celebrar o nascimento de Cristo da mesma maneira. Os cristãos tem o direito de fazer do dia 25 de Dezembro (ou qualquer outro dia do ano) um “dia de alegria e de banquetes, e dia de folguedo, e de mandarem presentes uns aos outros” para louvar a Deus pelo nascimento de Cristo.

Se fosse verdade que se a Bíblia não manda celebrar algo num dia específico, isso significa que não temos o direito de celebrá-lo, então ninguém poderia fazer festa para celebrar o próprio aniversário, a Reforma Protestante, a independência nacional ou qualquer outra coisa.

2) A Bíblia não revela o dia do nascimento de Cristo.

O Natal não é celebrado na mesma data em todo mundo. Alguns celebram em Dezembro, mas em diversas partes do mundo é celebrado em Janeiro. Cristãos, pelo menos a maioria, não celebram o Natal nestas datas porque acreditam que Ele tenha nascido neste dia. Cristãos tem o direito de celebrar o que quiser e quando quiser, no entanto que seja em louvor a Deus, como o livro de Ester nos mostra. Nós poderíamos não comemorar o Natal, da mesma forma que os judeus poderiam não comemorar o Purim. Temos liberdade para fazer uma coisa ou outra e Paulo chama de fraco na fé aqueles que criam caso por conta de dias e nega a liberdade de cada um (Rm 14.1-6).

3) Muitas práticas e costumes pagãos se desenvolveram em torno da celebração do Natal.

Isso é verdade. Mas, muitas práticas e costumes pagãos se desenvolveram em torno de tudo, não só do Natal. A Bíblia adverte contra os beberrões (I Co 6.10), mas isso não impediu Jesus de apreciar o bom vinho (Mt 11.19). O pagão Jubal inventou a harpa e o órgão, mas isso não impediu estes instrumentos de serem usados no culto à Deus (Sl 105.4). Não há nada que possamos imaginar de bom no mundo que não haverá alguém usando desta liberdade para dar ocasião à carne (Gl 5.13). Se há paganismo em torno do Natal, tudo o que um cristão precisa fazer é evitá-lo.

Em resumo, os cristãos têm o direito de celebrar o que quiserem, no dia em que quiserem, no entanto que seja para a glória de Deus, da mesma forma que têm o direito de comerem e beberem o que quiserem, no dia em que quiserem, no entanto que seja para a glória de Deus. Os judeus decidiram usar desta liberdade para estabelecer o Purim, uma festa que não havia sido ordenada pela Lei. Os cristãos decidiram estabelecer o Natal, ainda que não tenha sido ordenada pelo Novo Testamento.

“Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar. Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente”. (Romanos 14.4-5)

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