Laicismo e a Conspiração das Nações
Por Frank Brito

“A notícia chegou também ao rei de Nínive; e ele se levantou do seu trono e, despindo-se do seu manto e cobrindo-se de saco, sentou-se sobre cinzas. E fez uma proclamação, e a publicou em Nínive, por decreto do rei e dos seus nobres, dizendo: Não provem coisa alguma nem homens, nem animais, nem bois, nem ovelhas; não comam, nem bebam água; mas sejam cobertos de saco, tanto os homens como os animais, e clamem fortemente a Deus; e convertam-se, cada um do seu mau caminho, e da violência que há nas suas mãos. Quem sabe se se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?” (Jonas 3.6-9)

O livro de Jonas contem a resposta para a pergunta feita pelo apóstolo Paulo: “É porventura Deus somente dos judeus? Não é também dos gentios?”(Rm 3.29) Muitos erradamente acreditam que Jonas se recusou a obedecer a ordem de Deus simplesmente porque ele tinha medo do perigos do trabalho missionário ou porque ele não queria deixar sua vida cômoda. O que realmente motivou a fuga de Jonas foi seu ódio dos ninivitas. Ele queria que Deus fosse dos judeus, mas não dos ninivitas:

“E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha anunciado lhes faria, e não o fez. Mas isso desagradou extremamente a Jonas, e ele ficou irado. E orou ao SENHOR, e disse: Ah! SENHOR! Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. Peço-te, pois, ó SENHOR, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver”. (Jn 3.10,4.1-3)

O ódio de Jonas contra Nínive era tanto que ele preferia morrer do que ver Nínive reconciliada com Deus. Mas Deus o fez entender que Ele “é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão“. (Rm 3:30) O ódio de Jonas contra os ninivitas, apesar de imoral, não era completamente infundado. Nínive era a capital do Império Assírio, inimigos jurados de Israel.

O livro de Jonas demonstra que “o reino é do SENHOR, e Ele domina as nações” (Sl 22.28), não somente Israel. O domínio de Deus sobre as nações significa que as nações tem a obrigação moral de obedecê-lo e que Deus “repreende as nações” (Sl 9.5) que desobedecem. Nínive tinha a obrigação moral de obedecer a Deus e, porque desobedeceu, Deus enviou Jonas para ameaçá-los de destruição: “Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim“.(Jn 1.2)

Nínive não foi destruída porque todo o povo se converteu. Se isso não tivesse acontecido, o povo teria sido destruído. A transformação espiritual foi tão grande o rei chegou a emitir um decreto chamando todos para o jejum, a oração e o arrependimento. Jonas não gostou. A vasta maioria dos cristãs modernos também não gostaria. Diriam para o rei de Nínive que o estado deve ser laico, que todas as religiões e crenças devem receber o mesmo tratamento. “Que direito o rei tinha de emitir um decreto favorecendo a religião judaica de Jonas, falando da necessidade de todos adorarem ao Deus de Israel!? Religião e política não se mistura, pois só traz desastres! E os direito de cada um adorar o seu próprio deus pagão!” Essa é a teologia política da vasta maioria dos cristãos do século XXI. Alguns chegam a defender o absurdo de que, aquilo que Jonas viu acontecer com seus próprios olhos, nós não podemos esperar que aconteça com a nação brasileira. Mas, em alguns poucos dias (cf. Jn 3.3-4), o rei pagão de Nínive foi capaz de entender do assunto nossos melhores teólogos no século XXI. Para o rei de Nínive, não havia tempo para “laicismo”, “neutralidade religiosa” ou qualquer outra iniquidade deste tipo que estamos acostumados a ouvir de teólogos modernos. Era uma questão de vida ou morte. Caso o povo não se arrependesse, em quarenta dias seriam destruídos por Deus. O que teólogos modernos não são capazes de entender depois de anos dando aulas em seminários, um rei pagão entendeu em alguns poucos dias: as nações, inclusive o estado, não podem ser pagãos, laicos ou de qualquer maneira religiosamente neutro. Os povos tem a obrigação moral de se submeter ao único Deus verdadeiro. O que o rei pagão de Nínive aprendeu em alguns dias foi registrado no livro dos Salmos para qualquer cristão ler:

“Por que se amotinam as nações, e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o SENHOR e contra o seu ungido, dizendo: Rompamos as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas. Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles. Então lhes falará na sua ira, e no seu furor os turbará. Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e os fins da terra por tua possessão. Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam“. (Salmo 2.1-12)

Este Salmo começa falando da conspiração de governantes pagãos contra Deus e Seu Filho Jesus. Qual o objetivo da conspiração? Desvincular Jesus Cristo da política. Eles querem um estado que seja pagão ou laico: “Rompamos as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas”. Para Deus, tal ideia é motivo de risos e zombaria: “Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles”. Por que Deus zomba? Porque as nações foram dadas a Jesus Cristo por herança (cf. Mt 28.18) e, sendo assim, os governantes das nações tem a obrigação de submeter o governo a Jesus Cristo igual o rei de Nínive havia feito. O Salmo termina com uma ameaça contra governantes que negam a necessidade de submeter o governo a Deus: “Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam”. (Sl 2.1-12) Claramente, este Salmo declara que governos pagãos ou religiosamente neutros são abomináveis. Ser religiosamente neutro significa tratar o Deus verdadeiro como se fosse igual a todos os deuses. Mas, a religião cristã não é igual a todas as outras religiões. A religião cristã é a única religião verdadeira, pois é a única que adora ao Deus verdadeiro, o único que julga as nações por se rebelarem contra Seu Filho.

O Reformador Protestante João Calvino comentou sobre isso:

“O objetivo do governo temporal é manter e conservar o culto divino externo, a doutrina e religião em sua pureza, o estado da Igreja em sua integridade, levar-nos a viver com toda justiça, segundo o exige a convivência dos homens durante todo o tempo que vivermos entre eles, instruir-nos numa justiça social, fomentar a harmonia mútua, manter e conservar a paz e tranqüilidade comuns […] É desumana barbárie cogitar que esta ordem seja exterminada, cuja necessidade não é menor entre os homens do que a do pão, da água, do sol e do ar; e sua dignidade, certamente, é até muito mais eminente. Pois atenta não apenas para aquilo que todos os homens respiram, comem, bebem e sejam mantidos confortáveis, ainda que certamente abranja a todas estas coisas, enquanto provê que vivam juntos; insisto, contudo, que se deve atentar não só para isso, mas também que a idolatria, os sacrilégios contra o nome de Deus, as blasfêmias contra sua verdade e outras ofensas da religião não emerjam publicamente e se espalhem entre o povo, para que não se perturbe o sossego público; que cada um possua o que é propriamente seu; que os homens mantenham entre si transações justas; que se cultive honestidade e modéstia entre eles; enfim, que entre os cristãos subsista a expressão pública da religião, seja a humanidade firmemente estabelecida entre os homens […] Aqueles que desejariam induzir a anarquia objetam que, ainda que outrora reis e juízes governaram ao povo rude, no entanto hoje de modo algum, com a perfeição que Cristo trouxe com seu Evangelho, se enquadra esse gênero servil de governar. Nisto manifestam não só sua ignorância, mas também seu orgulho diabólico, ao arrogar para si uma perfeição da qual não poderiam mostrar sequer uma centésima parte. Mas, ainda que fossem os mais perfeitos que se pudesse imaginar, ainda seria possível refutá-los facilmente, porque, onde Davi exorta a todos os reis e governantes a beijarem o Filho de Deus [Sl 2.12], não ordena que rejeitem sua autoridade e se recolham à vida privada; pelo contrário, o poder de que foram investidos o sujeitam a Cristo, para que tão somente ele tenha sobre todos a preeminência. Semelhantemente, Isaías, quando promete que reis haverão de ser aios à Igreja e rainhas suas nutrizes [Is 49.23], não os priva de sua honra, senão que, antes, os constitui patronos com título dos piedosos cultores de Deus, uma vez que esse vaticínio diz respeito à vinda de Cristo […] Também por este motivo os santos reis são na Escritura louvados ao máximo: que restauram o culto de Deus, corrompido ou subvertido, ou promovem o cuidado da religião, de sorte que sob eles ela sempre floresceu pura e incólume. Ao contrário disso, porém, a História Sagrada põe entre os vícios da anarquia o não haver rei em Israel, e por isso cada um fazia o que bem lhe agradava [Jz 21.25]. Do quê se demonstra a estultície daqueles que queriam, negligenciado o culto de Deus, ocupar-se de apenas em ditar o direito entre os homens. Como se Deus os constituísse governantes em seu nome só para decidir controvérsias terrenas, mas que deixaram de parte o que era de muito maior importância: que ele mesmo fosse cultuado de forma pura, conforme a determinação de sua Lei”. (João Calvino, Institutas da Religião Cristã, Livro IV, Capítulo 20, “Do Governo Civil”)

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