jerusalem

O SERMÃO PROFÉTICO
Por Frank Brito

Parte I – Parte II – Parte III

“Ora, Jesus, tendo saído do templo, ia-se retirando, quando se aproximaram dele os seus discípulos, para lhe mostrarem os edifícios do templo. Mas ele lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não se deixará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada. E estando ele sentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo: Declara-nos quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo”. (Mateus 24,1-3)

A resposta de Jesus ao questionamento dos discípulos foi um dos seus últimos discursos antes de Sua morte. Não foi um sermão público, mas somente para os discípulos. Não para todos os discípulos. Segundo o Evangelho de Marcos, somente para Pedro, Tiago, João e André. Apesar disso, o conteúdo da resposta de Jesus já havia sido dito publicamente, ainda que de com menos detalhes, aos líderes judaicos. Foi isso que motivou o questionamento dos discípulos. Eles queriam maiores detalhes. Sendo assim, o sermão profético só pode ser entendido à luz do contexto maior, da chegada de Jesus a Jerusalém. O propósito deste estudo é demonstrar que as profecias de Jesus, conforme registradas em Mateus 21-24, tratam do seguinte:

1) Sob o Antigo Pacto, a nação de Israel ocupava uma posição privilegiada em relação aos gentios.

2) Para continuar nesta posição, Israel deveria permanecer fiel ao Pacto pela obediência a Lei.

3) Israel não permaneceu fiel ao Pacto e, por conta disso, perderia sua posição privilegiada.

4) Por conta da transgressão do Pacto, Deus enviaria uma grande tribulação para punir Israel.

5) Por conta da transgressão do Pacto, o Reino de Deus seria tomado de Israel e transferido para as nações gentílicas.

6) As nações seriam bem sucedidas naquilo que Israel não foi.

7) A conversão das nações não aconteceria imediatamente, mas progressivamente no decorrer da história.

8) Deus converteria as nações de duas maneiras principais:

a) Enviando pregadores do Evangelho.

b) Aplicando Suas sanções pactuais para castigar nações que se recusam a obedecer   com o objetivo de conduzi-las ao arrependimento.

9) Israel não permanecerá endurecida para sempre, mas acabará sendo convertida junto com os gentios.

10) A grande tribulação contra Israel começou no primeiro século, com a destruição de Jerusalém e do templo, e continuará até a conversão nacional de todo o povo.

11) A Segunda Vinda de Cristo e o Juízo Final acontecerão não muito depois do fim da grande tribulação contra Israel.

RAINHA DAS NAÇÕES

Logo depois da entrada triunfal em Jerusalém e da purificação do templo, Jesus ameaçou os líderes judaicos com uma parábola:

“Atentai noutra parábola. Havia um homem, dono de casa, que plantou uma vinha. Cercou-a de uma sebe, construiu nela um lagar, edificou-lhe uma torre e arrendou-a a uns lavradores. Depois, se ausentou do país. Ao tempo da colheita, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os frutos que lhe tocavam. E os lavradores, agarrando os servos, espancaram a um, mataram a outro e a outro apedrejaram. Enviou ainda outros servos em maior número; e trataram-nos da mesma sorte. E, por último, enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: A meu filho respeitarão. Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; ora, vamos, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram. Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores? Responderam-lhe: Fará perecer horrivelmente a estes malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe remetam os frutos nos seus devidos tempos. Perguntou-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos. Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó”. (Mateus 21,33-44)

A parábola fala de dois grupos de lavadores. O primeiro grupo foi substituído por um segundo grupo. O primeiro grupo foi punido com morte pelo senhor da vinha. O primeiro grupo, além de não dar frutos, ainda matou o filho do senhor da vinha. O segundo grupo dará frutos como o primeiro não deu. O segundo grupo será bem sucedido naquilo que o primeiro não foi.

Sem dúvidas, o primeiro grupo da parábola é a nação de Israel. O profeta Jeremias descreveu o relacionamento entre Deus e Israel na figura de uma relação marital: “Assim diz o SENHOR: Lembro-me de ti, da tua afeição quando eras jovem, e do teu amor quando noiva, e de como me seguias no deserto, numa terra em que se não semeia”. (Jr 2.2) Ezequiel fez a mesma comparação: “Dei-te juramente, entrei num pacto contigo e ficaste sendo minha… Te pus… uma linda coroa na cabeça… e chegastes a ser rainha”.(Ez 16.8,12) Jeremias se refere à época em que o povo de Israel esteve no deserto após a libertação da escravidão do Egito. Ele inicialmente retrata Israel como uma sendo uma noiva. Ezequiel fala do casamento da noiva como tendo acontecido quando o Antigo Pacto foi estabelecido. Isso significa que quando Jeremias se refere a Israel como noiva no deserto, ele não está se referindo a todo período em que Israel esteve no deserto, mas somente até Êxodo 19-20:

“Agora, pois, se atentamente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu pacto, então sereis a minha possessão peculiar dentre todos os povos, porque minha é toda a terra; e vós sereis para mim reino sacerdotal e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel. Veio, pois, Moisés e, tendo convocado os anciãos do povo, expôs diante deles todas estas palavras, que o Senhor lhe tinha ordenado. Ao que todo o povo respondeu a uma voz: Tudo o que o Senhor tem falado, faremos. E relatou Moisés ao Senhor as palavras do povo”. (Êxodo 19.5-8)

Ezequiel diz que, mediante o pacto, Deus colocou Israel na posição de rainha. Isso se refere à posição privilegiada de Israel sobre as demais nações. Como está escrito: “tu és povo santo ao Senhor teu Deus; o Senhor teu Deus te escolheu, a fim de lhe seres o seu próprio povo, acima de todos os povos que há sobre a terra”. (Dt 7.6) E também: “O SENHOR, teu Deus, te exaltará sobre todas as nações da terra”. (Dt 28.1) Para permanecer nessa posição, Israel teria que permanecer fiel ao Pacto: “se atentamente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu pacto, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos”.

UMA NAÇÃO REBELDE

Apesar de todos os privilégios concedidos por Deus, a rainha Israel foi rebelde por toda sua história:

“Prostituíste-te com os egípcios, teus vizinhos, grandemente carnais; e multiplicaste a tua prostituição, para me provocares à ira […] Também te prostituíste com os assírios, porquanto eras insaciável; contudo, prostituindo-te com eles, nem ainda assim ficaste farta. Demais multiplicaste as tuas prostituições na terra de tráfico, isto é, até Caldéia, e nem ainda com isso te fartaste. Quão fraco é teu coração, diz o Senhor Deus, fazendo tu todas estas coisas, obra duma meretriz desenfreada”.(Ezequiel 16.26,28-30)

Na parábola da vinha Jesus mencionou que Deus “enviou os seus servos aos lavradores, para receber os seus frutos”. (Mt 21.34) Estes eram os antigos profetas. Jesus lembrou aos líderes de Israel qual havia sido a reação a cada profeta que lhes era enviado: “E os lavradores, agarrando os servos, espancaram a um, mataram a outro e a outro apedrejaram”. (Mt 21.35) Cristo falou ainda de uma segunda sequência de profetas que foram enviados, mas que acabaram tendo o mesmo fim. “Enviou ainda outros servos em maior número; e trataram-nos da mesma sorte…” (Mt 21.36) O último profeta do Antigo Testamento foi Malaquias. Um fato importante sobre Malaquias é que ele profetizou a vinda de Jesus Cristo ao templo de Deus em Jerusalém:

“Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o Mensageiro do Pacto, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o SENHOR dos Exércitos. Mas quem suportará o dia da sua vinda? E quem subsistirá, quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros”. (Malaquias 3:1-2)

Primeiro, o texto se refere ao “mensageiro que preparará o caminho diante de mim” (v. 1). Isso é uma clara referência a João Batista: “Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu mensageiro ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas. Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados”. (Mc 1:2-4) João Batista foi quem preparou o caminho diante de Jesus Cristo, o Senhor – o Mensageiro do Pacto. Então Malaquias profetizou que Jesus Cristo “de repente virá ao seu templo”. Isso se refere à chegada de Jesus Cristo no templo, após a Sua entrada triunfal, para debater publicamente com os líderes de Israel e anunciar o juízo de Deus sobre a nação. Foi sobre isso que Jesus Cristo falou também em Sua parábola: “E, por último, enviou-lhes seu filho” (Mt 21.37).

A reação de Israel com a vinda do Filho de Deus não foi diferente da reação que tiveram com os antigos profetas: “Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram”. (Mateus 21.38-43) Apesar de Jesus Cristo ter sido executado pelas autoridades romanas, o Novo Testamento reconhece que os líderes judaicos foram os responsáveis primários porque foram eles que entregaram Jesus aos romanos:

Varões israelitas, escutai estas palavras: A Jesus, o nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; a este, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós matastes, crucificando-o pelas mãos de iníquos”. (Atos 2.22-23)

“Pois vós, irmãos, vos haveis feito imitadores das igrejas de Deus em Cristo Jesus que estão na Judéia; porque também padecestes de vossos próprios concidadãos o mesmo que elas padeceram dos judeus; os quais mataram ao Senhor Jesus, bem como aos profetas, e a nós nos perseguiram”. (I Tessalonicenses 2.14-15)

Aqui o Apóstolo Paulo diz o mesmo que já havia sido dito por Jesus em Sua parábola: os judeus eram culpados tanto pela morte dos antigos profetas quanto pela morte do Filho de Deus. Isso não significa que os romanos não tivessem culpa nenhuma. Significa somente que a culpa dos judeus era maior. Jesus falou sobre isso em sua conversa com Pôncio Pilatos: “aquele que me entregou a ti, maior pecado tem”. (Jo 19.11)

Em seguida, Jesus Cristo perguntou aos líderes de Israel sobre qual seria a punição que o senhor da vinha – Deus Pai – daria aos lavradores pelo assassinato de seus servos e de Seu próprio Filho: “Responderam-lhe eles: Fará perecer miseravelmente a esses maus, e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe entreguem os frutos”. (Mateus 21.41) Jesus confirmou que a conclusão deles estava correta, declarou que os lavradores de sua parábola eram os próprios líderes de Israel e avisa que teriam o fim que eles mesmos haviam reconhecido como justo:

“Disse-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como pedra angular; pelo Senhor foi feito isso, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos. E quem cair sobre esta pedra será despedaçado; mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó. Os principais sacerdotes e os fariseus, ouvindo essas parábolas, entenderam que era deles que Jesus falava”. (Mateus 21.42-45)

O que Jesus havia dito ai em parábola é o mesmo que ele avisou depois sem parábola:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido cúmplices no derramar o sangue dos profetas. Assim, vós testemunhais contra vós mesmos que sois filhos daqueles que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno? Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas: e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros os perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que mataste entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas essas coisas hão de vir sobre esta geração. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste! Eis aí abandonada vos é a vossa casa. Pois eu vos declaro que desde agora de modo nenhum me vereis, até que digais: Bendito aquele que vem em nome do Senhor”. (Mateus 23.29-39)

Jesus novamente avisou que o juízo de Deus que viria sobre Israel. Mas, para que o juízo de Deus viesse sobre Israel seria necessário que se enchesse a medida da iniquidade. “Enchei, vós, pois a medida de vossos pais”. (v.32)

ENCHENDO A MEDIDA DA INIQUIDADE

Para entender as palavras de Cristo sobre a medida dos pais sendo cheia, precisamos entender alguns conceitos importantes sobre os pactos bíblicos. Encontramos a origem dos pactos na criação do homem. Em Adão, Deus estabeleceu um pacto com a humanidade inteira. É o chamado pacto de domínio ou mandato cultural . Nele a humanidade recebeu de Deus a responsabilidade de guardar, cultivar e dominar sobre a terra:

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. (Gênesis 1.26-27)

A imagem de Deus no homem é o que lhe distingue das demais criaturas e lhe que capacita a cumprir sua vocação. Diferente dos animais, o homem não foi criado para ser movido por meros instintos. Foi dotado da capacidade de compreensão. As faculdades intelectuais no homem permite que ele compreenda tanto o mundo ao seu redor quanto o próprio Deus que o criou. Para isso o homem foi dotado também dos sentidos. Por meio do tato, do olfato, da audição, do paladar e da visão o homem é capaz de perceber e interagir de diferentes maneiras com o que está a sua volta. Como extensão de intelecto e de seus sentidos, o homem foi dotado de criatividade. A criatividade é um reflexo do poder no homem do poder criador de Deus. Permite que o homem seja capaz não somente de compreender a realidade da criação de Deus como ela é, mas também de transformá-la e moldá-la. Foi pela criatividade concedida por Deus que Jubal se desenvolveu instrumentos musicais (Gen 4.21) e Tubal-Caim foi capaz de usar o cobre e o ferro pra criar instrumentos cortantes (Gen 4.22). O intelecto e a criatividade humana são os atributos que permitem a existência da ciência, da tecnologia, da arte, da música, da poesia, da literatura, da mídia, dos meios de transportes e de tantas outras invenções. Além disso, o homem foi criado também com a capacidade de sentir emoções e demonstrar afeto. Como filho de Deus, Adão foi criado para amar e se alegrar em seu Criador. Na criação de Eva, Deus criou a possibilidade do amor humano se estender a outros como ele. Estabeleceu a relação conjugal como a manifestação mais sublime deste amor. Quando Deus estabeleceu a relação conjugal como o meio de crescer e multiplicar, o que fez foi revelar o amor como sendo o fundamento de toda nossa existência.

Os atributos humanos são reflexos dos atributos do próprio Deus e possibilita que ele cumpra aquilo Deus o mandou cumprir – exercer domínio sobre a terra. Como escreveu o Dr. R.J. Rushdoony:

“O chamado para exercer domínio não é somente a vocação do homem, mas é também sua natureza. Uma vez que Deus é o Senhor e Criador absoluto e soberano, cujo domínio é total e cujo poder é sem limites, o homem, criado à sua imagem, é participante deste atributo comunicável de Deus. O homem foi criado para exercer o domínio sob Deus, como o vice-regente designado por Deus sobre a terra. Assim, o domínio é um impulso básico da natureza humana”. (The Institutes of Biblical Law, pp. 448-452)

Mas, a vocação do homem não é o de exercer um domínio absoluto e incondicional. Deus é o único soberano absoluto. O domínio do homem é sempre subordinado a Deus, devendo respeitar os limites estabelecidos por sua Lei. A tentação de Satanás que conduziu a humanidade inteira à ruína foi justamente a sugestão de que o homem não deveria se conformar com um domínio limitado e subordinado, mas que deveria usurpar a posição de soberania absoluta do próprio Criador:

“Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus…” (Gênesis 3.1-5)

O fator determinante que faz com que a Soberania de Deus seja sempre absoluta e incondicional e o domínio do homem seja sempre limitado é que Deus exerce o monopólio sobre o bem e o mal:

“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. (Gênesis 2.16-17)

A liberdade de comer de tudo – com exceção da arvore do bem e do mal – significava que ao homem foi dado o domínio sobre toda a terra para que fosse exercido em subordinação a Deus – conforme a Sua Lei. O homem não poderia estabelecer a si mesmo como o determinador do bem e do mal, pois isso pertence a Deus somente. Deus e não qualquer outra criatura é a origem, causa e finalidade do universo. Aquilo que as coisas são, a realidade como ela é, incluindo o conceito de justiça, necessariamente existe de forma anterior ao homem. Assim, o homem não tem a autoridade para administrar a criação conforme sua própria vontade, mas deve exercer seu domínio como vice-regente de Deus, em conformidade as suas ordenanças .

A ideia de que o homem pode, de forma autônoma, redefinir o bem e o mal é por definição irracional e nem sequer pode ser defendido com qualquer tipo de coerência. Para que o homem pudesse por si mesmo estabelecer o justo e o injusto, o bem e o mal seria necessário que ele fosse a origem do universo, sendo a existência todas as coisas dependente dele. Ou seja, ele teria que ser, conforme foi sugerido pelo Diabo, o próprio Deus. A sugestão do Diabo era que o homem se esquecesse de quem realmente era. Que criasse em seu coração a expectativa de que sua própria realidade, sua própria lei, seu próprio domínio poderia tomar o lugar da Palavra e Soberania de Deus. Seu desejo era o de estabelecer um domínio independente segundo as próprias palavras e intenções a parte da Lei de Deus. Este mesmo princípio se manifesta em toda forma de pecado, não somente no pecado que trouxe a ruína de nossos primeiros pais. A essência de todo e qualquer pecado consiste na ideia de que o homem possa estabelecer as suas próprias palavras, o próprio julgamento, a própria opinião, a própria realidade como soberana.

Deus criou a raça humana inteira a partir de um só homem e isso é o que estabelece unidade orgânica de toda humanidade. Por causa desta unidade a imagem de Deus é comum a todos, sem exceção. Todos são, como homens, portadores do mesmo valor, honra e dignidade que tiveram nossos primeiros pais. É também decorrente desta unidade que o pecado de Adão não afetou somente a ele mesmo, mas toda sua descendência foi afetada nele. “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram”. (Rm 5.12)

Ainda que a queda de Adão não tenha feito com que a imagem de Deus no homem fosse destruída (cf. Gen 9.6, Tg 3.9), fez com que fosse corrompida em todos os aspectos de seu ser. Seus atributos não foram aniquilados, mas cada um deles foi completamente deturpado pela inclinação ao pecado. Primeiro, a comunhão original que havia com Deus foi imerso em densas trevas de mentira e engano. “Tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se estultos”. (Rm 1.21-22) Segundo, seu intelecto deixou de funcionar com sabedoria e se tornou “entenebrecido no entendimento, separado da vida de Deus pela ignorância”. (Ef 4.18) Terceiro, em vez de usar sua criatividade pra refletir a glória de Deus, o Criador “toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente”. (Gen 6.5) Quarto, seus sentimentos e afeições deixaram refletir amor e foram substituídos por sentimentos de ódio e engano: “A sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo dos seus lábios; a sua boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Nos seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante dos seus olhos”. (Rm 3.13-18) Quinto, seu corpo carregar a glória da imortalidade e agora opera sob a maldição das dores, enfermidades e morte.

Em resposta a tamanha ingratidão, Deus condenou a humanidade inteira a morte e expulsou o primeiro casal do jardim de Éden:

“Ora, não suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente. O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden para lavrar a terra, de que fora tomado. E havendo lançado fora o homem, pôs ao oriente do jardim do Éden os querubins, e uma espada flamejante que se volvia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida”. (Gênesis 3.22-23)

O alimento é o meio pelo qual o homem dá continuidade a própria vida. Quem deixa de comer, morre de fome. Mas nenhum alimento a nossa disposição hoje é capaz cumprir essa função perfeitamente. Não importa quão saudável seja nossa dieta, em algum momento morreremos mesmo assim. Nada do que podemos colocar em nosso cardápio poderá impedir a chegada da morte. Esse não era o caso da árvore da vida. Se alimentar de seus frutos significaria viver eternamente. A árvore da vida era o único alimento que poderia cumprir perfeitamente a função de nos sustentar. Sendo assim, a necessidade de impedir que o homem tivesse acesso a árvore da vida vinha da necessidade de impedir que ele vivesse eternamente. A punição de Deus incluiu exatamente aquilo que o Diabo tentou convencer Eva que não aconteceria: “Disse a serpente à mulher: Certamente não morrereis”. (Gen 3.4)

Os pactos posteriores que encontramos na Bíblia são simplesmente renovações do pacto que Deus estabeleceu com Adão. O Pacto que Deus estabeleceu com Israel ao libertar da escravidão do Egito, por exemplo, foi essencialmente o restabelecimento do mesmo pacto que Ele havia sido estabelecido com Adão . Da mesma forma que, em Adão, Deus estabeleceu o domínio da humanidade inteira sobre a terra, Ele estabeleceu o domínio de Israel sobre a terra prometida. O domínio de Israel sobre a terra prometida foi simplesmente o chamado de Deus para que a nação retomasse a tarefa da qual Adão havia se desviado. A vocação de Deus para Israel era que a nação fizesse aquilo que Adão falhou em fazer. Por isso, o princípio da vida e da morte diante de Adão no Éden é essencialmente o mesmo que Deus colocou diante de Israel no deserto: “O céu e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti de que te pus diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência”. (Dt 30.19) Se Israel fosse obediência, receberia as bênçãos de Deus seria bem sucedido no domínio sobre a terra. Se fosse desobediente, receberia maldições. As bênçãos do pacto devem ser lidas como uma progressiva reversão da ruina que entrou no mundo em Adão:

“Se ouvires atentamente a voz do Senhor teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno, o Senhor teu Deus te exaltará sobre todas as nações da terra; e todas estas bênçãos virão sobre ti e te alcançarão, se ouvires a voz do Senhor teu Deus”. (Deuteronômio 28.1-2)

As bençãos prometidas incluíam:

1) Teriam paz, segurança e prosperidade onde quer que estivessem seja no campo ou na cidade. (v. 3)
2) Suas famílias seriam numerosas e prósperas. (v. 4,11)
3) Seus animais seriam férteis e vigorosos. (v. 4, 11)
4) Suas plantações seriam abençoadas (v. 4,11)
5) Seriam uma potência militar, incapazes de serem vencidos na guerra. (v.7)
6) Seriam bem sucedidos em tudo que se dedicassem a fazer. (v. 8)
7) Seriam respeitados internacionalmente. (v.10)
8) Teriam estabilidade climática, não havendo secas. (v. 12)
9) Seriam uma potência econômica, respeitada internacionalmente. (v. 12)

Para manter a si mesma nesta posição e continuar sendo beneficiado por Deus, Israel deveria se manter obediente a Lei de Deus. As bênçãos de Israel eram condicionadas a obediência a Deus. Deus prometeu paz, prosperidade e desenvolvimento cultural a Israel caso permanecessem fiéis a Ele. Ao mesmo tempo, Deus prometeu ruína nestas mesmas coisas caso Israel não se mantivesse fiel. “Se, porém, não ouvires a voz do Senhor teu Deus, se não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que eu hoje te ordeno, virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão…” (Deuteronômio 28.15) As maldições incluíam:

1) Seriam fracassados onde quer que estivessem, seja na cidade ou no campo. (v. 16)
2) Alto índice de esterilidade entre as mulheres e famílias amaldiçoadas (v. 18)
3) Seriam fracassados nas plantações e na criação de animais. Suas plantações seriam atacadas por pestes. (v. 18, 21,38-40, 42)
4) Seriam fracassados em tudo o que se dedicassem a fazer. (v. 20)
5) Se multiplicariam enfermidades como tísica, úlceras, tumores malignos, sarnas, loucura e cegueira. (v. 22, 27-28, 35, 59)
6) Haveria secas. (v. 23,24)
7) Seriam militarmente fracassados e dominados por tiranos. (v. 25, 26, 32-34, 36, 41, 48-57)
8) Seriam internacionalmente envergonhados. (v. 37)
9) Seriam fracassados economicamente. (v. 44)
10) Seriam expatriados. (v.64)
11) Se tornariam idolatras. (v. 64)

Se entendermos os pactos bíblicos como renovações do pacto que Deus já havia estabelecido com Adão, entenderemos que as bênçãos e maldições que encontramos no Pacto Mosaico eram simplesmente a revelação de um princípio vigente desde que Deus instituiu o pacto de domínio com Adão. Por ser uma vocação para a humanidade inteira – pois todos foram criados em Adão – quando Deus revelou Sua Lei a Israel, tudo o que ele fez foi deixar claro que o princípio se aplicava tanto a Israel quanto aos gentios:

“Guardareis, pois, todos os meus estatutos e todos os meus preceitos, e os cumprireis; a fim de que a terra, para a qual eu vos levo, para nela morardes, não vos vomite. E não andareis nos costumes dos povos que eu expulso de diante de vós; porque eles fizeram todas estas coisas, e eu os abominei. Mas a vós vos tenho dito: Herdareis a sua terra, e eu vo-la darei para a possuirdes, terra que mana leite e mel”. (Levítico 20.22-24)

Aqui Deus fala de determinados povos que estavam prestes a ser destruídos. Os povos eram “os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus”. (Dt 7.1) No caso dos amorreus, Deus já havia prometido julgá-los desde o tempo de Abraão:

“Ao pôr-do-sol, caiu profundo sono sobre Abrão, e grande pavor e cerradas trevas o acometeram; então, lhe foi dito: Sabe, com certeza, que a tua posteridade será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos. Mas também eu julgarei a gente a que têm de sujeitar-se; e depois sairão com grandes riquezas. E tu irás para os teus pais em paz; serás sepultado em ditosa velhice. Na quarta geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus”. (Gênesis 15.12-16)

Deus profetizou que o povo de Israel seria escravizado pelos egípcios. Depois disso, os egípcios seriam julgados e Israel seria liberto da escravidão. Tendo sido liberto, Israel seria conduzido à terra prometida, que era onde Abraão morava quando a profecia aconteceu. Parte da terra já pertencia a outros povos. Um destes povos eram os amorreus. Portanto, para que Israel tomasse posse da terra prometida, teriam que derrotar os amorreus. Desta maneira os amorreus seriam julgados da mesma maneira que seria o Egito.

Deus explicou o motivo da destruição destes povos: “Pela maldade destas nações o SENHOR, teu Deus, as lança de diante de ti”. (Deu 9.4) Avisou aos hebreus também do que era necessário pra que não fossem destruídos da mesma maneira: “Guardareis, pois, todos os meus estatutos e todos os meus preceitos, e os cumprireis; a fim de que a terra, para a qual eu vos levo, para nela morardes, não vos vomite”. (Lv 20.22) A linguagem remete ao que havia sido dito a Caim: “Agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para da tua mão receber o sangue de teu irmão”. (Gn 4.11) O pecado faz com que a terra seja profanada, pois o homem é pactualmente responsável pelo domínio da terra. Figuradamente, a terra engole o pecado. O vômito da terra é uma reação ao pecado que a terra foi obrigada a engolir. O vômito significa o juízo de Deus. É o juízo de Deus na história contra os povos que se rebelam contra Ele. A história não é arbitrária, pois é movida pela Divina Providência que exalta e rebaixa as nações à medida que obedecem ou transgridem a Lei Deus.

O juízo não costuma vir imediatamente porque é preciso que “a medida da iniquidade” se encha (Gn 15.12-16). Os amorreus eram um povo iníquo. Mas, Deus explicou que a medida da iniquidade dos amorreus ainda não estaria cheia até a quarta geração. Deus deu tempo para os amorreus. Tempo até que a sua iniquidade chegasse ao limite aceitável por Deus para aquele povo até que viesse o tempo de julgá-los. Da mesma forma Jesus avisou aos judeus: “Enchei vós, pois, a medida de vossos pais”. De que forma essa medida estaria cheia? “Eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade”. Foi o mesmo que Paulo disse: “a nós nos perseguiram… de modo que enchem sempre a medida de seus pecados”. (I Ts 2.15-16) A medida da iniquidade de Israel se encheria pelo assassinato dos mártires. À medida que o número de assassinatos aumentasse a medida da iniquidade se encheria até que a terra vomitaria aquilo que engoliu por tempo demais. A consequência seria desastrosa: “Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores? Responderam-lhe eles: Fará perecer miseravelmente a esses maus, e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe entreguem os frutos”. (Mt 21.40-41) “… para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que mataste entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas essas coisas hão de vir sobre esta geração. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste! Eis aí abandonada vos é a vossa casa”. (Mt 23.35-38) No caso dos amorreus, Deus explicou para Abraão que demoraria quatro gerações para a medida se encher. Mas, no caso dos judeus, Jesus explicou que a medida estaria cheia, naquela mesma geração.

A vingança de Deus contra Israel seria a aplicação das maldições pactuais (Lv 26.14-45; Dt 4.23-31; 28.15-28). Isso se cumpriu com precisão na chamada Grande Revolta Judaica. Começou no ano 66 inicialmente devido a tensões religiosas entre gregos e judeus com protestos anti-taxações e ataques a cidadãos romanos. As legiões romanas sob o comando de Tito sitiaram e destruíram Jerusalém e o templo de Deus que lá ficava. Há um documentário interessante produzido pela BBC que conta essa história:

Segundo a parábola da vinha contada por Jesus, a destruição de Israel e do templo significaria a transferência do reino de Deus a outro povo: “Fará perecer horrivelmente a estes malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe remetam os frutos nos seus devidos tempos… o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos” (Mateus 21.41,43). Isto já havia sido profetizado por Isaías. Isaías profetizou que por causa da rebelião de Israel, Deus se revelaria e seria obedecido por “um povo que não se chamava do meu nome” (Isaías 65.1) O Apóstolo Paulo revelou a identidade deste povo:

“Que diremos, pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a justiça que é pela fé. Mas Israel, que buscava a Lei da justiça, não chegou à lei da justiça. Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da Lei; tropeçaram na pedra de tropeço… Mas digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira. E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que não me buscavam, Fui manifestado aos que por mim não perguntavam”. (Romanos 9.30-31,10.19-20)

O povo a quem o Reino de Deus foi transferido é claramente os gentios. As Escrituras costumam dividir o mundo em dois grupos: israelitas e gentios. No grupo dos gentios estavam todas as nações que não fossem Israel. Sob o Antigo Pacto, os gentios eram aqueles que, com poucas exceções, “não perguntavam por mim… não me buscavam… não se chamava do meu nome”. (Is 65.1) Sob o Novo Pacto, Israel foi lançada fora de sua posição especial de rainha das nações.

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