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A SOMBRA DE CRISTO NA LEI DE MOISÉS (I)
Por Frank Brito

Parte IParte IIParte III – Parte IV

“É, porém, mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til da Lei”. (Lucas 16.17)

Nós que vivemos depois do estabelecimento do Novo Pacto estamos sob a obrigação de obedecer a Lei de Deus contida no Antigo Testamento? Esta é uma pergunta que deixa muitos confusos.

Por um lado, o Novo Testamento reafirma a obrigação de cumprir centenas dos mandamentos da Lei do Antigo Testamento: “Não terás outros deuses diante de mim”(Ex 20.3; cf. Mt 4.10; I Co 8.4; Ap 22.9), “Não fareis para vós ídolos, nem para vós levantareis imagem esculpida, nem coluna, nem poreis na vossa terra pedra com figuras, para vos inclinardes a ela; porque eu sou o Senhor vosso Deus”. (Lv 26.1; cf. At 17.29), “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão” (Ex 20.7; cf. Mt 6.9; Fp 2.9-10), “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá”(Ex 20.12; cf. Ef 6.1-3), “Não matarás” (Ex 20.13; cf. Rm 13.9; Gl 5.21; I Tm 1.9; I Jo 3.12-15), “Não adulterarás”(Ex 20.14; cf. Mt 15.19; Ef 5.3-5; Hb 13.4; Ap 1.8), “Não furtarás” (Ex 20.15; cf. Ef 4.28; I Ts 4.6), “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Ex 20.16; cf. Cl 3.9), “Não cobiçarás… coisa alguma do teu próximo”(Ex 20.17; cf. Lc 12.15; Rm 7.7), “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é”(Lv 18.22, cf. Rm 1.26-27), “Pois eu detesto o divórcio, diz o Senhor Deus de Israel” (Ml 2.16; cf. Mt 5.31-32), “Não atarás a boca ao boi quando estiver debulhando”(Dt 25.4; cf. I Tm 5.17), “Diante das cãs te levantarás, e honrarás a face do ancião” (Lv 19.32; cf. I Tm 5.1), “O príncipe dentre o teu povo não maldirás”(Ex 22.28; cf. At 23.5; Tt 3.1-2; I Pd 2.17; II Pd 2.10; Jd 1.8), “Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás; a paga do diarista não ficará contigo até pela manhã” (Lv 19.13; cf. Tg 5.4), “Não fareis acepção de pessoas” (Dt 1.17; cf. At 10.34-35; Rm 2.11; Tg 2.1-9), “Ao estrangeiro não maltratarás, nem o oprimirás; pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito. A nenhuma viúva nem órfão afligireis”(Ex 22.21-22; cf. Gl 2.11-14; Tg 1.27), “Juízes e oficiais porás em todas as tuas cidades que o Senhor teu Deus te dá, segundo as tuas tribos, para que julguem o povo com justiça. Não torcerás o juízo; não farás acepção de pessoas, nem receberás peitas; porque a peita cega os olhos dos sábios, e perverte a causa dos justos. A justiça, somente a justiça seguirás, para que vivas, e possuas em herança a terra que o Senhor teu Deus te dá”(Dt 16.18-20; cf. Rm 13.1-6; I Pd 2.13-14), “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças”(Dt 6.5; cf. Mt 10.37; 22.37), “Não odiarás a teu irmão no teu coração… Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo”(Lv 19.17-18; cf. Mt 22.39-40; Rm 13.9; Gl 5.14; Tg 2.8)

Por outro lado, o Novo Testamento parece anular a necessidade de guardar muitos outros mandamentos que encontramos Lei do Antigo Testamento. Não há mais o sacerdócio levítico (cf. Nm 18.1-7; Hb7.11,14-27), não há mais um santuário/tabernáculo terrestre (cf. Ex 25.1-9; Hb 9.1-9,11,24), não há mais sacrifícios de animais (cf. Ex 20.24; Hb 9.11-14), não há mais a obrigação de guardar o sétimo dia ou as festas solenes (cf. II Cr 2.1-4; Ex 31.13-15; Nm 28.9-31; 29.1-39; Cl 2.10-17; Gl 4.10-11), não há mais distinção entre animais limpos e imundos (Lv 11.1-47; Mc 7.19; At 10.10-15; Cl 2.16; I Tm 4.4-5) e não há mais a obrigação de ser circuncidado (Gl 5.1-3).

Se dissermos que estamos sob a obrigação de obedecer a Lei de Deus contida no Antigo Testamento, não deveríamos estar circuncidando nossos filhos, deixando de comer X-Bacon na lanchonete e camarão na praia? Não deveríamos também estar lutando para reconstruir o templo de Jerusalém, para restituir o sacerdócio levítico e para voltar a sacrificar animais? Por outro lado, se dissermos que não estamos sob a obrigação de obedecer a Lei de Deus contida no Antigo Testamento, não teríamos que dizer que temos autorização para blasfemar contra Deus, adorar deuses estranhos, adulterar, se prostituir, virar homossexual, matar nosso vizinho e humilhar os pobres? Pode parecer confuso a primeira vista, mas na realidade é muito simples. Para entender, é preciso compreender dois conceitos gerais:

I) A distinção entre as sombras da Lei e o significado por trás destas sombras.

A Lei continha diversos mandamentos que eram somente sombras e tipos que foram abolidos quanto à administração externa, mas que não foram abolidos quanto ao significado e substância. Não devemos guardar tais mandamentos quanto à observância externa, mas devemos guardar tais coisas quanto à substância e realidade contida nelas. Os sacrifícios de animais são um exemplo:

“Falou mais o SENHOR a Moisés, dizendo: Quando alguma pessoa pecar, e transgredir contra o SENHOR, e negar ao seu próximo o que lhe deu em guarda, ou o que deixou na sua mão, ou o roubo, ou o que reteve violentamente ao seu próximo, Ou que achou o perdido, e o negar com falso juramento, ou fizer alguma outra coisa de todas em que o homem costuma pecar; Será pois que, como pecou e tornou-se culpado, restituirá o que roubou, ou o que reteve violentamente, ou o depósito que lhe foi dado em guarda, ou o perdido que achou, Ou tudo aquilo sobre que jurou falsamente; e o restituirá no seu todo, e ainda sobre isso acrescentará o quinto; àquele de quem é o dará no dia de sua expiação. E a sua expiação trará ao SENHOR: um carneiro sem defeito do rebanho, conforme à tua estimação, para expiação da culpa trará ao sacerdote; E o sacerdote fará expiação por ela diante do SENHOR, e será perdoada de qualquer das coisas que fez, tornando-se culpada”. (Levítico 6.1-7)

Esta lei contem instruções relacionadas ao oitavo mandamento – “não roubarás”. Diversos pecados contra a propriedade alheia são listados. O oitavo mandamento não fala somente contra o que é normalmente chamado de roubo – tomar um bem a força. Se não devolvermos um bem que nosso próximo pediu para que guardássemos ou se nós achamos algo que ele perdeu e nos recusamos a devolver (o ditado “achado não é roubado” é abominável diante de Deus), também estamos transgredindo o oitavo mandamento. Além disso, esta lei prescreve qual deveria ser o ritual de expiação pela transgressão deste mandamento:

“E a sua expiação trará ao SENHOR: um carneiro sem defeito do rebanho, conforme à tua estimação, para expiação da culpa trará ao sacerdote; E o sacerdote fará expiação por ela diante do SENHOR, e será perdoada de qualquer das coisas que fez, tornando-se culpada”. (Lv 6.6-7)

Com a vinda de Jesus Cristo não foi abolido a substância daquilo que este sacrifício significava. O rito de expiação era uma sombra do sacrifício na cruz do verdadeiro Sumo Sacerdote, Jesus Cristo. O rito apontava para a expiação dos pecados e nós continuamos a receber remissão dos pecados. O rito era Cristocêntrico. Portanto, devemos entender que o sacrifício de animais foi abolido quanto à administração externa, mas que não foi abolido quanto ao significado e substância. Se dissermos que esta lei foi abolida quanto à substância, estaremos dizendo que a remissão de pecados foi abolida e que Deus deixou de perdoar pecadores, porque é isso o que o sacrifício significava. Como está escrito:

“Porque tendo a Lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam… Ora, todo sacerdote se apresenta dia após dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar pecados; mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, assentou-se para sempre à direita de Deus, daí por diante esperando, até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Pois com uma só oferta tem aperfeiçoado para sempre os que estão sendo santificados“. (Hebreus 10.1,11-14)

Isso é verdade também para o que a Lei diz sobre o santuário terrestre:

“Então disse o Senhor a Moisés: Fala aos filhos de Israel que me tragam uma oferta alçada; de todo homem cujo coração se mover voluntariamente, dele tomareis a minha oferta alçada. E esta é a oferta alçada que tomareis deles: ouro, prata, bronze, estofo azul, púrpura, carmesim, linho fino, pêlos de cabras, peles de carneiros tintas de vermelho, peles de golfinhos, madeira de acácia, azeite para a luz, especiarias para o óleo da unção e para o incenso aromático, pedras de ônix, e pedras de engaste para o éfode e para o peitoral. E me farão um santuário, para que eu habite no meio deles. Conforme a tudo o que eu te mostrar para modelo do tabernáculo, e para modelo de todos os seus móveis, assim mesmo o fareis“. (Êxodo 25:1-9)

O santuário terrestre e o culto que acontecia neste santuário também eram sombras:

“Ora, também o primeiro pacto tinha ordenanças de serviço sagrado, e um santuário terrestre. Pois foi preparada uma tenda, a primeira, na qual estavam o candeeiro, e a mesa, e os pães da proposição; a essa se chama o santo lugar; mas depois do segundo véu estava a tenda que se chama o santo dos santos, que tinha o incensário de ouro, e a arca do pacto, toda coberta de ouro em redor; na qual estava um vaso de ouro, que continha o maná, e a vara de Arão, que tinha brotado, e as tábuas do pacto; e sobre a arca os querubins da glória, que cobriam o propiciatório; das quais coisas não falaremos agora particularmente. Ora, estando estas coisas assim preparadas, entram continuamente na primeira tenda os sacerdotes, celebrando os serviços sagrados; mas na segunda só o sumo sacerdote, uma vez por ano, não sem sangue, o qual ele oferece por si mesmo e pelos erros do povo; dando o Espírito Santo a entender com isso, que o caminho do santuário não está descoberto, enquanto subsiste a primeira tenda, que é uma parábola para o tempo presente, conforme a qual se oferecem tando dons como sacrifícios que, quanto à consciência, não podem aperfeiçoar aquele que presta o culto; sendo somente, no tocante a comidas, e bebidas, e várias abluções, umas ordenanças da carne, impostas até um tempo de reforma. Mas Cristo, tendo vindo como sumo sacerdote dos bens já realizados, por meio do maior e mais perfeito tabernáculo (não feito por mãos, isto é, não desta criação), e não pelo sangue de bodes e novilhos, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez por todas no santo lugar, havendo obtido uma eterna redenção. Porque, se a aspersão do sangue de bodes e de touros, e das cinzas duma novilha santifica os contaminados, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará das obras mortas a vossa consciência, para servirdes ao Deus vivo? E por isso é mediador de um novo pacto, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões cometidas debaixo do primeiro pacto, os chamados recebam a promessa da herança eterna. Pois onde há testamento, necessário é que intervenha a morte do testador. Porque um testamento não tem torça senão pela morte, visto que nunca tem valor enquanto o testador vive. Pelo que nem o primeiro pacto foi consagrado sem sangue; porque, havendo Moisés anunciado a todo o povo todos os mandamentos segundo a lei, tomou o sangue dos novilhos e dos bodes, com água, lã purpúrea e hissopo e aspergiu tanto o próprio livro como todo o povo, dizendo: este é o sangue do pacto que Deus ordenou para vós. Semelhantemente aspergiu com sangue também o tabernáculo e todos os vasos do serviço sagrado. E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. Era necessário, portanto, que as figuras das coisas que estão no céu fossem purificadas com tais sacrifícios, mas as próprias coisas celestiais com sacrifícios melhores do que estes. Pois Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, mas no próprio céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus; nem também para se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote de ano em ano entra no santo lugar com sangue alheio; doutra forma, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo. E, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois o juízo, assim também Cristo, oferecendo-se uma só vez para levar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação”.(Hebreus 9.1-28)

Isto deixa claro que tudo o que lemos na Lei sobre a construção do templo e sobre o culto neste templo foi abolido quanto à administração externa, pois eram “sombras”, “figuras”, “parábolas” – o candeeiro, a mesa, os pães da proposição, o santo lugar, o santo dos santos, o incensário, a arca do pacto, o maná, a vara de Arão, as tábuas do pacto, os querubins, o sacerdócio levítico, os sacrifícios e as abluções. Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que tais coisas não foram abolidas quanto ao significado e substância. Temos o sacrifício de Cristo, o sacerdócio de Cristo e um santuário celestial. Temos o cumprimento das sombras e figuras da Lei.

Isso é verdade também para outras sombras da Lei:

“… e tendes a vossa plenitude n’Ele, que é a cabeça de todo principado e potestade, no qual também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo; tendo sido sepultados com ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos; e a vós, quando estáveis mortos nos vossos delitos e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-nos todos os delitos; e havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz; e, tendo despojado os principados e potestades, os exibiu publicamente e deles triunfou na mesma cruz. Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombras das coisas vindouras; mas o corpo é de Cristo”. (Colossenses 2.10-17)

Aqui Paulo citou como sombra: a circuncisão, as leis dietéticas, os sábados e outras festas solenes. Ele não cita aqui o sistema de sacrifícios, mas o principio é o mesmo porque, como já mencionamos, a carta aos Hebreus fala dos sacrifícios (entre outras coisas) como sombras (cf. Heb 8.3-6,10.1). Isso deixa claro que a circuncisão, as leis dietéticas, os sábados e as festas judaicas estão na mesma categoria do sistema sacrificial. Não estamos mais sob a obrigação de guardar tais coisas quanto à administração externa, mas temos a obrigação de guardar tais coisas quanto ao significado e substância. Jesus ensinou:

“Não penseis que vim destruir a Lei ou os Profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Lei um só jota ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus”. (Mateus 5.17-19)

Jesus não poderia ser mais claro. Ele não veio destruir, mas cumprir.  Nem mesmo “um só jota ou um só til” poderá ser anulado até o fim do mundo. Não podemos entender que a própria Lei tenha sido anulada. Ainda que as sombras tenham sido abolidas, isso não é uma anulação da própria Lei, pois a substancia contida nas sombras foram confirmadas em Cristo e, portanto, continua conosco. A própria Lei não é uma sombra. A Lei contem sombras. Algumas coisas da Lei são sombras e outras não são. O que é sombra, não devemos guardar quanto à administração externa, mas temos a obrigação de guardar quanto ao significado e substância, pois é “mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til da Lei”. (Lc 16.17). João Calvino comentou:

“Mas agora que a coisa em si é dada para nós, não deve descansar por mais tempo nas sombras. De fato, a Lei não é abolida (Mateus 5.18; Efésios 2,15; Colossenses 1.14, 17); por isso temos de manter agora a substância e a verdade dela. Assim, a sombra é eliminada pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo…” (João Calvino, Comentário de Deuteronômio 5.12-14)

Ele declara que são mestres falsos e enganadores aqueles que não ensinam seus discípulos a obediência a Lei e que são indignos de ocupar um lugar na Igreja aqueles que de alguma maneira enfraquecem a autoridade da Lei; e, por outro lado, que são os mais honestos e fiéis ministros de Deus que, tanto em palavra quanto em exemplo, ensinam a guardar a Lei... Aqueles que desprezam a doutrina da Lei, qualquer sílaba que seja, será rejeitado como o menor dos homens… Nenhum mestre deveria ser aceito nela se não aqueles que são expositores fiéis da Lei e que trabalham para manter sua doutrina inteiramente..  Alguém poderá perguntar se as cerimonias não estavam entre os mandamentos de Deus que temos a obrigação de agora observar. Deus estabeleceu as cerimonias para que seu uso externo fosse temporário e seu significado eterno. Não transgridem as cerimônias aqueles que omitem as sombras, mas guardam o que significam”. (João Calvino, A Harmonia da Lei, Comentário de Mateus 5.17-19)

“E então? Porventura dirás que nenhuma diferença é deixada entre Antigo e Novo Testamentos? E o que se fará a tantas passagens da Escritura, onde entre si se contrastam como coisas muito diversas? Eu, na verdade, aceito de bom grado as diferenças que se registram na Escritura, mas de tal modo que nada denigram à unidade já estabelecida, como se haverá de ver quando as tratarmos na devida ordem… Digo que todas estas diferenças são de tal natureza, e comprometo-me a demonstrá-lo, que dizem respeito ao modo de administração, antes que à substância. Por esta razão, nada impedirá que as promessas permaneçam as mesmas, quer do Antigo, quer do Novo Testamento, e Cristo como sendo o mesmo fundamento das próprias promessas“. (João Calvino, Institutas da Religião Cristã, II:XI:1)

Isso nos permite responder à pergunta que fizemos:

“Se dissermos que estamos sob a obrigação de obedecer a Lei de Deus contida no Antigo Testamento, não deveríamos estar circuncidando nossos filhos, deixando de comer X-Bacon na lanchonete e camarão na praia? Não deveríamos também estar lutando para reconstruir o templo de Jerusalém, para restituir o sacerdócio levítico e para voltar a sacrificar animais?”

Não, pois o que é sombra não deve ser guardado quanto à administração externa, mas somente quanto ao significado e substância. O primeiro Salmo chama de bem aventurado aquele que medita na Lei de do Senhor (Sl 1.2). Isto é importante para distinguirmos o que é sombra do que não é. “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Ex 20.12; cf. Ef 6.1-3). Isto não é uma sombra. Portanto, não há uma distinção entre a administração externa e o significado e substância. “E no dia oitavo se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio”. (Lv 12.3) Isto é uma sombra. Paulo argumentou que nós já temos a substância e realidade deste mandamento na “circuncisão de Cristo” (Cl 2.10-17) e que, por conta disso, não temos a obrigação de guardá-lo quanto à administração externa.

Se isso for adequadamente compreendido, seremos capazes de entender porque o Novo Testamento reafirma a obrigação de cumprir centenas dos mandamentos da Lei do Antigo Testamento ao mesmo tempo em que parece anular a necessidade de guardar muitos outros mandamentos que encontramos na mesma Lei. O motivo é que a própria Lei não foi anulada, mas somente as sombras. Ainda que as sombras tenham sido abolidas, isso não é uma anulação da própria Lei, pois a substancia contida nas sombras foram confirmadas em Cristo e, portanto, continua conosco. A própria Lei não é uma sombra. A Lei contem sombras. Algumas coisas da Lei são sombras e outras não são. O que é sombra, o Novo Testamento manda não guardar quanto à administração externa, mas manda guardar quanto ao significado e substância. O que não é sombra, o Novo Testamento simplesmente manda guardar. Não há qualquer incoerência. A ignorância generalizada sobre a distinção sombra/realidade é o que causa tantas dúvidas em torno deste assunto.

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