heavenPENSAI NAS COISAS DE CIMA
Por Frank Brito

“Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra”. (Colossenses 3.2)

É importante definir corretamente o que “de cima” e “da terra” significa, pois, frequentemente, o argumento de Paulo perde a força por uma definição equivocada. “Pensar nas coisas que são de cima” não significa passar o tempo pensando em anjos, nuvens, ruas de ouro na Nova Jerusalém ou sobre o quanto gostaríamos de morrer. Paulo mandou pensar “nas coisas que são de cima” e não “nas coisas que estão em cima”. Da mesma forma, ele não proibiu de pensar nas coisas que “que estão na terra”, mas naquelas que “são da terra”. “De” e “da” indicam origem e não localização. Eu estou no Rio de Janeiro, mas não sou do Rio de Janeiro porque não nasci aqui. O Rio de Janeiro não é o meu estado de origem. Quando Paulo escreveu sobre as “coisas que são de cima” ele falou sobre coisas que acontecem na terra, mas cuja origem é Deus e, por conta disso, são chamadas assim. Ele deixou isso claro no decorrer do capítulo:

“Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, o afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria; Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência; Nas quais, também, em outro tempo andastes, quando vivíeis nelas. Mas agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca. Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos, E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou… Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição”. (Colossenses 3.5-10,12-14)

Primeiro, Paulo deu uma lista de coisas que são “da terra”: “a prostituição, a impureza, o afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria… a ira, a cólera, a malícia, a maledicência, as palavras” e a mentira. Em seguida, ele deu uma lista de “coisas que são de cima”: “misericórdia, benignidade, humildade, mansidão, longanimidade” e amor. Mas, nas duas listas, ele falou sobre coisas que acontecem na terra. Na lista das coisas “da terra”, ele se refere a pensamentos e atos pecaminosos que acontece. Na lista das “coisas que são de cima”, ele se refere a pensamentos e atos virtuosos. Portanto, “as coisas que são de cima” são coisas que pensamos e praticamos “sobre a terra” (localização), mas, por serem coisas são virtuosas, são coisas que tem origem na vontade do Pai celestial. E as coisas que “são da terra” também são coisas que pensamos e praticamos “sobre a terra” (localização) e, por serem coisas pecaminosas, são coisas que não tem origem na vontade do Pai celestial e, portanto, não fazem parte das “coisas que são de cima”. Pensar “nas coisas que são de cima” significa pensar em coisas virtuosas, em coisas que estão em conformidade com a vontade do Pai celestial. Pensar em coisas “da terra” significa pensar em coisas que são pecaminosas, que são contrárias a vontade do Pai celestial.

O primeiro item da lista de coisas “da terra” – a prostituição – pode nos ajudar a entender melhor. A palavra traduzida como prostituição é πορνείαporneia (que é de onde tiramos a palavra pornografia no português). Porneia no grego é mais amplo do que costumamos chamar de prostituição no português – relação sexual em troca de dinheiro. Porneia inclui qualquer pecado sexual (Lv 18.6-20,22-23; 20.10-21; Dt. 22.25): fornicação, adultério, homossexualidade, zoofilia, incesto, estrupo, etc. Portanto, se passamos nosso tempo pensando, praticando ou de qualquer maneira defendendo qualquer uma destas coisas, estamos transgredindo a proibição de Paulo não pensarmos naquilo que é “da terra”. E se “despistes do velho homem com os seus feitos, e vos vestistes do novo”, então iremos substituir essas coisas pelo “matrimônio e o leito sem mácula”. (Hb 13.4) Se formos casados, pensar “nas coisas que são de cima” incluirá passar nosso tempo pensando em nossas esposas, buscando fazê-la feliz e se opondo a qualquer ataque que a sociedade ao nosso redor possa iniciar contra o matrimônio e leito sem mácula. Tanto o matrimônio quanto a prostituição são coisas que acontecem sobre a terra. Mas, como o matrimônio é algo virtuoso, faz parte das “coisas que são de cima”.

Frequentemente, a força do argumento de Paulo é diluída por uma compreensão equivocada das “coisas que são de cima” e as coisas que “são da terra”. Não poucos acham que as “coisas que são de cima” são assuntos estritamente religiosos e relacionados à Igreja e que as coisas que “são da terra” são questões da vida secular como trabalho, estudos, entretenimento, política, etc. A ideia é que o homem espiritual é aquele que dá pouco espaço em sua vida a tudo o que não for diretamente relacionado a coisas da Igreja. Nada poderia estar tão longe da intenção de Paulo. Se as “coisas que são de cima” são pensamentos e atos virtuosos, e as coisas que “são da terra” são pensamentos e atos pecaminosos, é uma tolice sem fim achar que Paulo estava separando a vida religiosa da vida secular. “Prostituição, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza” são coisas condenáveis em todos os aspectos da vida e especialmente na vida secular. Se há um lugar em que, em nossos dias, a prostituição reina soberanamente, é no entretenimento. Nosso dever não é abolir o entretenimento, como se isso fosse em si mesmo pecaminoso. Nosso dever é abolir “as coisas da terra” do entretenimento, começando pela prostituição. Se há um lugar em que a avareza e a mentira reinam soberanamente é na política. Nosso dever não é parar de falar ou se envolver com política, como se a política fosse em si mesma pecaminosa. Nosso dever é lutar para extirpar a avareza da política. Aqueles vivem como se pensar nas “coisas que são de cima” significa evitar ao máximo se envolver com a vida secular, estão se rebelando contra o mandamento de Paulo pensando que com isso estão sendo piedosas. Podem ser protestantes ou evangélicos de nome, mas vivem como monges e freiras enclausurados. Pensar nas “coisas que são de cima” significa lutar contra o pecado, onde quer que ele se encontre; primeiro, em nós mesmos e, segundo, no mundo ao nosso redor.  Aqueles vivem como se pensar nas “coisas que são de cima” significasse evitar ao máximo se envolver com a vida secular são cúmplices das coisas “que são da terra” que dizem abominar. Ao dizer que não devemos se preocupar com a vida secular, estão dando espaço para que tais coisas cresçam e se desenvolvam, sem oposição.

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