dutchO MARTÍRIO DO ÍNDIO PEDRO POTI

Com a recém-conquistada colônia holandesa, a Igreja Cristã Reformada, nome da Igreja Protestante na Holanda, iniciou sua expedição missionária com os índios do Brasil holandês. Além da pregação na língua nativa, outras iniciativas pretendiam a tradução da Bíblia para o tupi e a ordenação de pastores indígenas. Um dos mais famosos convertidos foi o o índio Poti, que veio a se tornar o primeiro mártir protestante do nordeste brasileiro. Segue abaixo um trecho da carta de Antônio Paraopaba, Governador dos índios de Rio Grande (do Norte), de 1656, aos Estados Gerais (Holanda), testemunhando da fé do índio Poti, Governador dos índios da Paraíba. O português é antigo, mas vale a pena acompanhar:

“Pedro Poti, regedor da infeliz Nação, tendo cahido prisioneiro dos portuguezes a 19 de Fevereiro de 1649, na Segunda funesta batalha de Guararapes, foi barbaramente tratado por aquelles algozes, excedendo o que perpretaram a todas as crueldades por mais deshumanas que se possa imaginar; era constantemente acoitado, soffreu toda espécie de tormentos; foi atirado, preso por cadeias de ferros nos pés e mãos, a uma enxovia escura, recebendo por alimento unicamente pão e água, e realizando alli mesmo durante seis longos mezes as suas necessidades naturaes.

A concessão que lhe davam algumas vezes de sahir dalli uma ou mais horas para gosar a luz do dia, longe de allivial-o, antes lhe recrudescia os males.

Como, por exemplo, quando se via cercado repentinamente de religiosos, e de alguns dos seus ‘patrícios’ que o faziam subir a fim de continuamente o instigarem a abjurar a religião, a que têm por hábito chamar uma renegada herezia, e a lançar-se no seio da Igreja Romana.

Alem disso empregaram todos os meios para que induzisse os outros da sua raça, que se conservavam fieis ao serviço de V. Vas. E. Exas., a se passarem para o partido delles, promettendo-lhe dar immediatamente a patente de capitão,e garantindo-lhe de futuro maiores vantagens.

Invoco o testemunho de todas as pessoas que se acham agora nesta cidade e naquelle tempo eram seus companheiros de prisão no Cabo de Santo Agostinho, para tudo o que venho narrando a seu respeito.

Parece que o grande Deus de misericordia quiz effectivamente, por sua especial graça, fazer daquella fragil canna um forte pilar da Fé, pois elle, muitas vezes, durante o período dos seis mezes do seu martyrio, conforme narramos, sendo rogado a abjurar, respondeu sempre com animo inabalavel:

Que elle, um indigno, tendo, por uma mercê não merecida e incomprehensível, reconhecido a Deus, o pae de todas as graças, na verdadeira Religião, a Reformada, tinha a certeza de não ser só a verdadeira mas a única aprazível a Deus, estava resolvido a não abandonar na vida e na morte.

Que achava poucos todos os tormentos de que usaram consigo e os que ainda empregassem, pois estava preparado pelo omnipotente para os enfrentar, agradecendo ao grande Deus por o ter considerado, por sua especial graça, a elle, a mais indigna de todas as creaturas, merecedor de soffrer, em nome de Jesus-Christo, seu salvador;

Finalmente que estava prompto para morrer firme, no seu alto juramento feito a Deus e aos Estados Geraes; fiel tando a um, como ao outro.

Resultou dahai que decorridos os ditos seis mezes, aquelles verdugos, vendo que de um animo tão forte nada se poderia conseguir por meios de martyrios, nem por promessas de honrarias, cargos ou fortuna, tiraram-no do escuro subterraneo, onde tanto soffrera, sob o pretexto de o quererem mandar a Bahia, quando seu plano era matal-o cruelmente, o que depois se realizou.

Estando assim condemnado e preso em um forte no Cabo de Santo Agostinho em companhia de diversos officiaes hollandezes, disselhes:

Sei que elles me matarão. Peço-vos, portanto, que me presteis o seguinte serviço: quando regressardes ao Recife, contae aos do Supremo Conselho o que vistes e ouvistes de mim; que eu morrerei como seu subdito fiel. E dizei aos da minha Nação que os exhorto a permanecer por toda a vida, fieis a Deus e aos Estados Geraes”.

Tradução: Dr. Pedro Souto Maior
Fonte: Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística

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