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A VERDADEIRA RELIGIÃO E A LEI DA LIBERDADE
Por Frank Brito

“Como cristãos, temos a obrigação pregar o Evangelho com a Palavra e com as obras. Precisamos pregar com nossa boca e com nossas atitudes. Precisamos oferecer aos pobres tanto o pão da vida quanto o pão de cereais. Precisamos oferecer abrigo do inferno e também abrigo da tempestade”. (Gary North)

“A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo”. (Tiago 1.27)

Muitos cristãos gostam de dizer que o Cristianismo não é uma religião e usam a palavra religioso de maneira negativa, como sinônimo de fariseu. Qualquer um que tenha o alguma familiaridade com autores cristãos antigos sabe que isso é uma invenção moderna. No decorrer dos séculos, os cristãos sempre se referiram ao Evangelho como uma religião e sempre usaram a palavra religioso de maneira positiva como sinônimo de espiritual ou piedoso. Na epístola de Tiago encontramos os termos sendo usados desta mesma também. Tiago não nega que o Evangelho seja uma religião, mas demonstra que é a única religião verdadeira.

A preocupação central da epístola de Tiago é diferenciar a religião verdadeira da falsa, a fé sincera da fingida, o amor de atitude do amor da boca para fora. Uma das principais coisas que chamam a atenção quanto a isso é que, segundo Tiago, uma das características de um falso religioso é alguém que não zela pelo bem estar terreno e material de seu próximo. É importante notar que a menção que Tiago faz de “visitar os órfãos e as viúvas” faz parte de um contexto maior:

E sede cumpridores da Palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos. Porque, se alguém é ouvinte da Palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era. Aquele, porém, que atenta bem para a Lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito. Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã. A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo”. (Tiago 1.22-27)

Não há liberdade sem Deus e Sua Lei. Deus ama a liberdade e, portanto, nos deu Sua perfeita Lei que, mediante a obediência, nos garante liberdade. Vemos esta verdade sendo proclamada já nos dez mandamentos: “Então falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão“. (Ex 20.1-2) Deus salvou Israel da escravidão e tirania do Egito, não para uma fossem introduzidos a nova tirania, mas para que vivessem em liberdade. A tirania do Egito era espiritual, sob o domínio dos falsos deuses egípcios, e também material, no trabalho forçado para Faraó. Da mesma forma, a liberdade seria espiritual e material. Viveriam em obediência ao único Deus verdadeiro em uma nação edificada sobre leis justas que promovem a liberdade econômica. “Pois, que nação há tão grande, que tenha deuses tão chegados como o SENHOR nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? E que nação há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje ponho perante vós?” (Dt 4.7-8) Quanto mais um povo se afasta de Deus e de Sua Lei, mas se aproxima da escravidão do Egito e da tirania de seus falsos deuses. Como foi mencionado por Tiago, um dos pilares invioláveis da Lei de Deus em defesa da liberdade é a necessidade moral de cuidarmos dos desamparados. Infelizmente, raros são aqueles que leem as palavras de Tiago dentro do contexto da Lei. Por conta disto, a compreensão de Tiago se torna superficial. A Lei diz:

“Quando entre ti houver algum pobre, de teus irmãos, em alguma das tuas portas, na terra que o SENHOR teu Deus te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão que for pobre; Antes lhe abrirás de todo a tua mão, e livremente lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade“. (Deuteronômio 15.7-8)

Salomão explicou que Deus dá tanta importância para isto Ele se recusa a responder o clamor daqueles que desobedecem:

“O que tapa o seu ouvido ao clamor do pobre, ele mesmo também clamará e não será ouvido“. (Provérbios 21.13)

Ao mesmo tempo, a Bíblia reconhece também que, em muitos casos, a pobreza é simplesmente fruto de um estilo de vida pecaminoso: “Não ames o sono, para que não empobreças; abre os teus olhos, e te fartarás de pão”. (Pv 20.13) “A preguiça faz cair em profundo sono; e o ocioso padecerá fome”. (Pv 19.15) “Porque o beberrão e o comilão caem em pobreza; e a sonolência cobrirá de trapos o homem”. (Pv 23.20-21) É por isso que o Apóstolo Paulo ensinou que nós não devemos ajudar aqueles que, podendo trabalhar, não trabalham e acabam empobrecendo por viverem na iniquidade da preguiça:

“Mandamo-vos, irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebestes. Porque vós mesmos sabeis como deveis imitar-nos, pois que não nos portamos desordenadamente entre vós, nem comemos de graça o pão de ninguém, antes com labor e fadiga trabalhávamos noite e dia para não sermos pesados a nenhum de vós… Porque, quando ainda estávamos convosco, isto vos mandamos: se alguém não quer trabalhar, também não coma. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes intrometendo-se na vida alheia; a esses tais, porém, ordenamos e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo que, trabalhando sossegadamente, comam o seu próprio pão”. (II Tessalonicenses 3.6-12)

Aqui Paulo faz menção de pessoas que eram financeiramente dependente de outras. Elas dependiam de outras pra comer. Mas essa dependência só existia porque eles andavam “desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs” (v.11). Eles eram financeiramente dependente de outras por um estilo de vida iníquo. É sobre estes que Salomão falou:

“Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos, e sê sábio; a qual, não tendo chefe, nem superintendente, nem governador, no verão faz a provisão do seu mantimento, e ajunta o seu alimento no tempo da ceifa. Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono? Um pouco para dormir, um pouco para toscanejar, um pouco para cruzar as mãos em repouso; assim te sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a tua necessidade como um homem armado”. (Provérbios 6.6-11)

Este era o caso de alguns membros da igreja dos Tessaloniscenses. Paulo ensina que não havia qualquer responsabilidade de ninguém sustentá-los ou socorrê-los por parte de ninguém. A ordem de Paulo era que “não coma também”. Isto é, devem permanecer no estado de ruína financeira a ponto de passarem fome sem que ninguém tenha a obrigação de sustentá-los.

O Dr. Gary North comentou:

“Não devemos entender com isso que todos que são tetraplégicos e, portanto, não podem trabalhar, devem passar fome. O contexto de suas palavras deixa claro que ele está falando de pessoas fisicamente aptas. Podem não ser capazes de ganhar uma renda de classe média, mas podem ganhar o suficiente para se sustentar. São pessoas fisicamente capazes de ganhar a vida. A obrigação é essa: “trabalhando sossegadamente, comam o seu próprio pão”.

Paulo também escreveu que se uma pessoa possui alimento e vestuário, ela tem tudo o que realmente precisa (I Tm 6.7-8). É agradável ter mais, mas não é garantido por qualquer pessoa ou instituição. Deus não garante. Devemos nos contentar com o básico da vida. Se o que temos é suficiente para sustentar nossas vidas, não devemos sair procurando ser sustentado por outros“. (Gary North, Ethics and Dominion: An Ecomomical Commentary on the Epistles)

Isso significa que o mero fato de alguém ser pobre não significa que as pessoas tenham a obrigação moral de ajudá-la. A obrigação somente existe se, primeiro, a pessoa não tiver condições de cuidar de si mesma e, segundo, se a pessoa não for culpada pela própria situação por causa do estilo de vida que leva. Encontramos o mesmo ensinamento em I Timóteo:

“Honra as viúvas que verdadeiramente são viúvas… Ora, a que é verdadeiramente viúva e desamparada espera em Deus, e persevera de noite e de dia em rogos e orações; Mas a que vive em deleites, vivendo está morta”. (I Timóteo 5.3,6)

“Honra” aqui inclui o apoio financeiro, como também é o caso do quinto mandamento: “Honra a teu pai e a tua mãe”. (Êxodo 20.12) A honra devida a nossos pais não inclui somente a necessidade de respeitá-los e obedecê-los, mas também de sustentá-los financeiramente quando não forem mais capazes de fazê-lo por contra própria. Jesus deixou isso claro quando criticou os escribas e fariseus por transgredir este mandamento: “Depois perguntaram-lhe os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos por lavar? E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim; Em vão, porém, me honram, Ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas. E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição. Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e quem maldisser, ou o pai ou a mãe, certamente morrerá. Vós, porém, dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor; Nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe, Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas”. (Marcos 7:5-13) “Corbã” é uma palavra hebraica que significa “oferta ao Senhor”. Os escribas e fariseus negligenciava a necessidade moral de sustentar os pais financeiramente com base em uma antiga tradição que dizia esta obrigação deixava de existir caso o aquilo os bens tivesse sido ofertado a Deus. Por ser uma oferta a Deus, acreditavam que estavam fazendo algo sublime. Mas Jesus não mediu palavras “Hipócritas!”. Se fosse verdade que não temos a obrigação moral de nos preocupar com o bem estar material e terreno das pessoas, então os escribas e fariseus não estariam errados ao negligenciar o sustento econômico de seus pais.

Da mesma forma que o quinto mandamento manda honrar os pais, Paulo mandou que as viúvas fossem socorridas. No contexto de I Timóteo, Paulo falou da ajuda financeira que viria ministério diaconal da Igreja (I Timóteo 5.9,16). A viúva não tem mais o marido pra sustentá-la financeiramente. Portanto, ela precisa ser sustentada por outras pessoas. Mas Paulo lista alguns critérios pra que as viúvas fossem aptas pra receber a ajuda financeira da Igreja. Primeiro, ele restringe o mandamento à “que é verdadeiramente viúva e desamparada espera em Deus, e persevera de noite e de dia em rogos e orações; Mas a que vive em deleites, vivendo está morta”. É a essência do que ele havia ensinado aos Tessalonicenses. O que Paulo ensina é que ser desamparado, pobre ou de qualquer outra forma necessitado não garante que o indivíduo deva ser alvo de ajuda. O fato de alguém ser pobre ou desamparado não significa que ela tenha caráter ou um comportamento justo e correto, da mesma forma que ser rico não significa. O que Paulo ensina é que se o estado de pobreza e desamparo existe por causa de um estilo de vida pecaminoso, não há qualquer obrigação por parte de ninguém de socorrê-lo financeiramente. E como o próprio Jesus já havia dito quando criticou os escribas e fariseus, o Apóstolo Paulo ensinou que a necessidade de socorrer os desamparados se encontra dentro de uma hierarquia de responsabilidades:

“Mas, se alguma viúva tiver filhos, ou netos, aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria família, e a recompensar seus pais; porque isto é bom e agradável diante de Deus… Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel”. (I Timóteo 5.3,4-5)

A responsabilidade de cuidar das viúvas é, antes de qualquer outro, a responsabilidade de sua própria família. Outras pessoas, incluindo a Igreja, só têm a responsabilidade diante de Deus de fazer isso quando a família não faz: “Se alguma mulher crente tem viúvas, socorra-as, e não se sobrecarregue a Igreja, para que esta possa socorrer as que são verdadeiramente viúvas”. (I Timóteo 5.16) A família não deve imputar sobre outras pessoas a responsabilidade que pertence a eles. Jesus criticou os escribas e fariseus severamente por isso. Se a família não fizer por irresponsabilidade e negligência com os seus, comete um pecado terrível e Paulo declara que “é pior do que o infiel”. Caso houver irresponsabilidade e negligência por parte da família ou caso a família também esteja passando por tribulações financeiras, ai outras pessoas – especialmente o ministério a Igreja – deve tomar para si a responsabilidade de todo coração. Em primeiro lugar, o que existe é a responsabilidade de cada indivíduo sustentar a si mesmo pelo seu próprio trabalho. Quando o indivíduo, por inúmeras circunstâncias possíveis, mas sem culpa e obstinação própria não é capaz de sustentar a si mesmo pelo seu próprio trabalho, existe a responsabilidade de sua própria família de socorrê-lo e honrá-lo. Somente quando há irresponsabilidade e negligência por parte da família ou caso a família também esteja passando por tribulações financeiras, é que a responsabilidade deve ser tomada por outras pessoas, especialmente a Igreja.

Paulo mandou também: “Nunca seja inscrita viúva com menos de sessenta anos… Mas não admitas as viúvas mais novas…”(I Tm 5.9-11) Isso significa que se uma viúva jovem e piedosa estivesse passando fome, ninguém teria a obrigação de ajudá-la? Isso entraria em contradição com as palavras de Tiago: “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo? E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma”. (Tg 2:14-17) A chave para entender o que Paulo realmente estava dizendo é “inscrever”. Paulo não estava falando simplesmente de ajudar alguém, mas de inscrevê-la num programa de assistência eclesiástica no qual a viúva seria sustentada pelo resto da vida. Se um homem jovem saudável, por exemplo, passa por tribulações financeiras, as pessoas devem ajudá-lo momentaneamente, mas sua obrigação é conseguir um emprego o mais rápido possível para não importunar ninguém. “A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão”. (II Ts 3.12) Mas no caso de uma viúva idosa, isso não seria possível. As igrejas devem organizar um programa de assistência eclesiástica para sustentar perpetuamente todos os seus membros em circunstâncias assim. Foi para isso que a diaconia foi estabelecida:

“Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano. E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra. E este parecer contentou a toda a multidão, e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e Filipe, e Prócoro, e Nicanor, e Timão, e Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia”. (Atos 6.1-5)

A vasta maioria das igrejas modernas rebaixou os diáconos para a posição de porteiros que ocasionalmente entregam cestas básicas e transferiu a função bíblica dos diáconos para o governo civil. Paulo ensinou que a obrigação de sustentar perpetuamente aqueles que não tem mais condições de trabalhar é, primeiro, da família e, segundo, da Igreja. Mas milhões de cristãos hoje acreditam com o mundo que a responsabilidade primária de resolver este problema recai sobre o governo civil. Quando o brasileiro quer reclamar da situação das coisas no Brasil, o primeiro que ele costuma culpar é o governo. Ele acredita que o governo tem a responsabilidade de salvá-lo de tudo e, por conta disso, ele vê a solução de todos os seus problemas naquilo que o governo poderia fazer por ele. Ele não compreende que, biblicamente, a função de socorrer os necessitados pertence a indivíduos, família e igrejas, mas não do governo. A função do governo civil é a de julgar criminosos, independente da situação financeira.

Pra entender isso melhor, precisamos entender a natureza do governo civil. A natureza essencial do governo civil é o direito de coagir e impor valores morais. Quando alguém compra um bem ou contrata um serviço, ele normalmente tem a escolha livre entre a compra do bem ou não, entre a contratação do serviço ou não. Se alguém quer ter acesso à internet, por exemplo, ele deve contratar o serviço de um provedor de internet. Ele poderá escolher entre vários provedores disponíveis ou, se não gostar de nenhum deles, poderá escolher ficar sem. O provedor de internet não tem a autoridade pra coagir qualquer pessoa a contratar seu serviço. Mas a partir do momento em que o serviço é contratado, existe a obrigação do cliente de pagar pelo serviço. O pagamento não é por coação ou imposição porque o cliente livremente decidiu contratar aquele serviço. Mas esse não é o caso do governo civil. O governo civil é um serviço prestado onde nós somos coagidos a aceitar o serviço. No caso do governo civil, não há a livre escolha entre aceitar ou não o serviço. Se alguém se recusa a obedecer às leis do governo brasileiro, por exemplo, há duas penalidades possíveis:

– Bens e/ou dinheiro confiscado (multa)

– Anulação do direito de ir e vir (penitenciária)

Se um provedor de internet enviar homens para confiscar o computador, tomar o dinheiro e/ou manter em cárcere privado aqueles que não querem aderir ao seu serviço, tal provedor será legitimamente acusado de roubo e sequestro. Se o provedor fizesse isso, o governo brasileiro enviaria outros homens (polícia) pra prender os participantes do roubo e do sequestro. Em determinadas circunstâncias, o governo civil tem o direito de fazer o que em outras circunstâncias seria classificado como seqüestro, escravatura ou roubo. Em circunstâncias normais, se uma pessoa entra na casa de outra pessoa, amarra suas mãos e leva ela pra dentro de um quarto onde ela fica trancada, isso se chama sequestro. Mas dependendo da circunstância, do objetivo de quem faz e de quem faz, não é seqüestro, mas é prisão. Se quem faz é um provedor de internet com o objetivo de forçar as pessoas a aderir ao seu serviço, é seqüestro. Se quem faz são representantes do governo (polícia) com o objetivo de punir por um crime cometido, não é seqüestro.

Da mesma forma o ato de multar, em si mesmo, é o mesmo que o ato de roubar. Tanto no roubo quanto na multa, o indivíduo é coagido por terceiros a entregar seu dinheiro contrário a sua vontade. Mas em determinadas circunstâncias, o governo civil tem o direito de fazer o que em outras circunstâncias seria classificado como roubo. Não é chamado de multa e não de roubo porque o dinheiro está sendo tomado pra punir por um crime cometido. Mas se for um cidadão comum com o objetivo de tomar posse do que não é dele, é roubo. Tanto na multa quanto no roubo, o indivíduo é coagido por terceiros a entregar seu dinheiro contrário a sua vontade. O que muda são as circunstâncias e o propósito.

A natureza essencial do governo civil é o direito de coagir e impor valores morais. Os valores morais que são impostos à força são determinados pelas leis que o governo reconhece e pela punição contra aqueles que transgredem tais leis. Se um governo tem uma lei contra a violência sexual e pune os estupradores, ele está declarando o estupro é imoral e que as pessoas tem que ser coagidas a aceitar que é. Se um governo tem uma lei contra sequestro e pune os sequestradores, ele está defendendo o direito de ir e vir e está coagindo e perseguindo implacavelmente todo aquele que não aceita isso com verdade. Isso é ensinado pela Escritura:

“Os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal”. (Romanos 13.3-4)

“Sujeitai-vos a toda autoridade humana por amor do Senhor, quer ao rei, como soberano, quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem”. (I Pedro 2.13-14)

Segundo os Apóstolos Paulo e Pedro, o papel do governo civil é castigar os malfeitores e louvar o bem. A “espada” é o instrumento de coação contra aqueles que se opõe ao bem e praticam o mal. Pedro chegou a dar uma lista de coisas que poderiam ser corretamente punidas pelo governo civil: “Que nenhum de vós padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como o que se entremete em negócios alheios”. (I Pd 4.15) O governo civil deve proteger, por meio da força, o direito à vida e à propriedade privada. Por isso deve perseguir implacavelmente e castigar os homicidas e ladrões. Se entendermos isso bem, não resta dúvidas de que o governo nunca tem o direito de tomar dinheiro de ninguém com base na quantidade de dinheiro que tem ou deixa de ter, mas somente com base no crime que cometeu. Um pobre não pode chegar diante do governo civil e exigir que o governo tome dinheiro de outras pessoas e dê pra ele. O objetivo da espada é punir malfeitores. Mas se não existiu crime, não pode existir coação como se fosse multa ou indenização. É por que todo projeto em que o governo usa verba pública para ajudar os pobres é iníquo:

“Nao seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda darás testemunho, acompanhando a maioria, para perverteres a justiça; nem mesmo ao pobre favorecerás na sua demanda“. (Êxodo 23.2-3)

“Não farás injustiça no juízo; não farás acepção da pessoa do pobre, nem honrarás o poderoso; mas com justiça julgarás o teu próximo”. (Levítico 19.15)

O pobre e necessitado não tem o direito de exigir que o governo tome dinheiro de outras pessoas sem que estas pessoas tenham cometido crimes. A Bíblia ensina que a relação do governo civil com os necessitados é simplesmente o dever de defender seus direitos quando são vítimas de crimes:

“Como se fez prostituta a cidade fiel! ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas agora homicidas. A tua prata tornou-se em escória, o teu vinho se misturou com água. Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões; cada um deles ama as peitas, e anda atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva“. (Isaías 1.21-23)

“Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidades; para privarem da justiça os necessitados, e arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo; para despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!” (Isaías 10.1-2)

“Engordaram-se, estão nédios; também excedem o limite da maldade; não julgam com justiça a causa dos órfãos, para que prospere, nem defendem o direito dos necessitados. Acaso não hei de trazer o castigo por causa destas coisas? diz o senhor; ou não hei de vingar-me de uma nação como esta?” (Jeremias 5.28-29)

“Até quando julgareis injustamente, e tereis respeito às pessoas dos ímpios? Fazei justiça ao pobre e ao órfão; procedei retamente com o aflito e o desamparado. Livrai o pobre e o necessitado, livrai-os das mãos dos ímpios“. (Salmo 82.2-4)

Se queremos ser fiéis aos mandamentos de Tiago sobre a necessidade dos cristãos de zelarem pelo bem estar terreno e material do próximo, não podemos nos dar por satisfeitos com a distribuição de cestas básicas. O mandamento de zelar pelo bem estar terreno e material do próximo inclui muito mais do que esmolas. A Igreja precisa se arrepender de sua omissão e começar a pregar a Bíblia inteira, sem omitir tanto do que Deus mandou proclamar. Indivíduos devem ser instruídos de que preguiça é pecado, pois contraria o mandamento de sermos trabalhadores esforçados e diligentes. Famílias devem ser instruídas de que também é pecado transferir para o governo ou para a a Igreja aquilo que é responsabilidade da família. E os governos devem ser instruídos sobre a pecaminosidade de estabelecer tribunais injustos que não zelam pelos direitos dos desamparados. Em nossos dias se tornou moda cristãos falarem que o Evangelho não tem nada a ver com política. Se isso é verdade, então Deus deixou de se importar com os pobres sendo explorados pelas autoridades. Não é ensinando a dar esmolas que as pessoas aprenderão o que a Bíblia diz sobre os desamparados. É ensinando sobre “a Lei perfeita da liberdade”. (Tg 1.25)

“Acaso não é este o jejum que escolhi? que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo? e que deixes ir livres os oprimidos, e despedaces todo jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desamparados? que vendo o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará. e a tua justiça irá adiante de ti; e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; e se abrires a tua alma ao faminto, e fartares o aflito; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio dia. O Senhor te guiará continuamente, e te fartará até em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca falham”. (Isaías 58.6-11)

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