hortelã
PECADINHO, PECADÃO E A HORTELÃ DOS FARISEUS
Por Frank Brito

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da Lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas. Condutores cegos! que coais um mosquito e engolis um camelo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniqüidade. Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo”.(Mateus 23.23-26)

“Não existe pecadinho nem pecadão, tudo é pecado!” É impossível saber quem foi o primeiro a dizer estas palavras, mas é uma frase que já se popularizou tanto que para muitos tem quase que o mesmo peso de um verso bíblico. A ideia é dizer que todos os pecados têm a mesma gravidade para Deus. A verdade é que tal ideia não passa de um dos grandes mitos do Cristianismo brasileiro. A Bíblia deixa perfeitamente claro que nem que todos os pecados que as pessoas cometem têm a mesma gravidade diante de Deus. Alguns são mais graves e outros são menos graves. Isso não significa que exista qualquer pecado que não seja grave. De fato, não existem “pecadinhos”. Todo pecado é grave porque todo pecado é uma ofensa contra Deus. Mas o fato de todo pecado ser grave não significa que todo pecado seja igualmente grave. A Bíblia fala de diversos fatores e circunstâncias determinam a gravidade de uma ofensa. O Catecismo Maior de Westminster (documento oficialmente adotado como padrão doutrinário pela Igreja Presbiteriana do Brasil) resume isso com provas bíblicas abundantes:

150. São todas as transgressões da Lei de Deus igualmente odiosas em si mesmas à vista de Deus?

Todas as transgressões da Lei de Deus não são igualmente odiosas; mas alguns pecados em si mesmo, e em razão de diversas circunstâncias agravantes, são mais odiosos à vista de Deus do que outros.

Ed 9:14; Sl 78:17,32,56; Hb 2:2,3.

151. Quais são as circunstâncias agravantes que tornam alguns pecados mais odiosos do que outros?

Alguns pecados se tornam mais agravantes:

1º Em razão dos ofensores, se forem pessoas de idade mais madura, de maior experiência ou graça; se forem eminentes pela vida cristã, dons, posição, ofícios; se forem guias para outros e pessoas cujo exemplo será, provavelmente, seguido por outros.

Jr 2:8;5:4,5; I Rs 11:9; II Sm 12:7,9,14; Ez 8:11,12; Lc 12:47; Jo 3:10; I Co 5:1; Tg 4:17; Rm 2:21,22,24; Gl 2:14; II Pe 2:2.

2º Em razão das pessoas ofendidas, se as ofensas forem diretamente contra Deus, seus atributos e culto, contra Cristo e sua graça; contra o Espírito Santo, seu testemunho e operações; contra superiores, pessoas eminentes e aqueles a quem estamos especialmente relacionados e a quem devemos favores; contra os santos, especialmente contra os irmãos fracos; contra as suas almas ou as de quaisquer outros, e contra o bem geral de todos ou de muitos.

Nm 12:8;I Sm 2:25; Ml 1:14; Sl 41:9;55:12-14;Pv 30:17;Zc 2:8; Mt 12:31,32;21:38,39;23:34-38; Jo 3:18,36; At 5:4; Rm 2:4;14:13,15,21; I Co 8:11,12;10:21,22; Ef 4:30;I Ts 2:15,16; I Jo 5:10; Hb 6:4-6;10:29;12:25; Jd 8.

3º Pela natureza e qualidade da ofensa, se for contra a letra expressa da Lei, se violar muitos mandamentos, se contiver em si muitos pecados; se for concebida, não só no coração, mas manifestar-se em palavras e ações, escandalizar a outrem e não admitir reparo algum; se for contra os meios, misericórdias, juízos, luz da natureza, convicção da consciência, admoestação pública ou particular, censuras da igreja, punições civis; se for contra as nossas orações, propósitos, promessas, votos, pactos, obrigações a Deus ou aos homens; se for feita deliberada, voluntária, presunçosa, impudente, jactanciosa, maliciosa, freqüente e obstinadamente, com displicência, persistência, reincidência, depois do arrependimento.

Nm14:22,23; 15:20; Lv26:25; Dt32:6; Ed9:13,14; Is1:2,3; 3:9; 57:17; Jr5:13; 6:15,16; 9:3,5; 31:32; 42:5,6,20-22; Ez 17:18; 20:12,13; 35:5,6; Dn 5:22; Mq 2:1,2; Am 4:8-11; Sl 36:4; 52:1; 78:34,36,37; Pv 2:14,17; 6:32,35; 20:25;29:1; Zc 7:11,12; Mt 11:21-24; 16:26;18:7,17; Jo 15:22; Cl 3:5; I Tm 6:10; Tt 3:10; II Pe 2:20,21; Rm 1:20,21,31;2:23,24;13:1-5; III Jo 10; Hb 6:4,6.

4º Pelas circunstâncias de tempo e de lugar, se for no dia do Senhor ou em outros tempos de culto divino, imediatamente antes, depois destes ou de outros auxílios para prevenção ou remédio contra tais quedas; se em público ou em presença de outros que são capazes de ser provocados ou contaminados por essas transgressões.

Is 3:9;22:12-14;58:3,4; II Rs 5:26; I Sm 2:22-24; Jr 7:9,10,11; Ez 23:38; II Cr 36:15,16; Ne 9:13-16; Pv 7:14,15; I Co 11:20,21.

Jesus avisou para Pôncio Pilatos “Aquele que me entregou a ti maior pecado tem”. (João 19.11) Jesus não negou que Pilatos tinha pecado. Sem dúvidas, ele tinha e muito. Ele disse simplesmente que este pecado era menor do que o pecado de quem tinha o entregado. Pilatos não tinha qualquer direito moral de julgar Jesus ou de o expor a tamanha humilhação. Mas, Pilatos não tinha convivido com Jesus, não tinha ouvido Ele pregar e muito menos testemunhou Seus milagres. Judas Iscariotes tinha e chegou a ocupar o cargo apostólico! E os judeus também tinham. Portanto, o pecado deles, especialmente o de Judas, era maior do que o de Pôncio Pilatos. É sobre isso que o Catecismo fala no primeiro ponto: “1º Em razão dos ofensores, se forem pessoas de idade mais madura, de maior experiência ou graça; se forem eminentes pela vida cristã, dons, posição, ofícios; se forem guias para outros e pessoas cujo exemplo será, provavelmente, seguido por outros”.

Jesus avisou no Sermão da Montanha: “Não cuideis que vim destruir a Lei ou os Profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da Lei, sem que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus”. (Mateus 5.17-19) Primeiro, Ele deixa claro que todos os mandamentos de Deus são importantes. Nem um jota ou til pode ser omitido. Toda transgressão é grave. Segundo, Ele reconhece que, apesar de todos os mandamentos serem importantes, alguns são menores do que outros. Isso significa que há pecados mais odiosos e outros menos odiosos a Deus, caso seja contra um mandamento da Lei de maior ou menor importância.

Ele falou o mesmo para os fariseus depois: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da Lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas”. (Mateus 23.23) Aqui há um aviso muito grande para aqueles que agem como se todos os pecados tivessem a mesma gravidade. Dizimar, sem dúvidas, era importante, pois era um mandamento da Lei de Deus (Lv 27.30-33). Deixar de fazê-lo seria um pecado contra Deus como o profeta Malaquias bem lembrou (Ml 3.10). Todavia, o juízo, a misericórdia e a fé eram mandamentos da Lei mais importantes do que o mandamento de dizimar. Os fariseus inverteram isso e davam mais importância ao que era menos importante. Isso é um aviso para nós de que não podemos dar maior importância aos mandamentos que tem menos importância e não podemos dar menos importância aos mandamentos que tem maior importância. Somos avisados de que temos que reconhecer a importância real que cada mandamento tem, sem aumentar nem diminuir. Esse é o maior erro daqueles que afirmam que todos os pecados tem a mesma gravidade diante de Deus. Se todos os pecados tem a mesma gravidade diante de Deus, então não é verdade que o amor, a justiça e a fé eram mandamentos mais importantes do que o mandamento de dizimar. Se Jesus disse que amar, fazer justiça e ter fé é mais importante do que dizimar, isso significa que pecar contra uma coisa é mais grave do que pecar contra a outra. A questão foi séria o suficiente para Jesus chamá-los de hipócritas. Igualar a importância de todos os mandamentos e, consequentemente, igualar todos os pecados, é algo muito sério.

Aos Coríntios, Paulo escreveu: “Geralmente se ouve que há entre vós fornicação, e fornicação tal, que nem ainda entre os gentios se nomeia, como é haver quem abuse da mulher de seu pai. Estais ensoberbecidos, e nem ao menos vos entristecestes por não ter sido dentre vós tirado quem cometeu tal ação. Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já determinei, como se estivesse presente, que o que tal ato praticou, Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo, Seja entregue a Satanás.. (I Co 5.1-5) Ninguém além deste homem cometia pecado entre os Coríntios? É claro que sim. “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós”. (I Jo 1.8) Mas Paulo falou que este pecado especificamente era grave o suficiente para que tal fornicador fosse excomungado imediatamente. O homem estava envolvido com “fornicação”. A palavra traduzida como fornicação é πορνεία (porneia – de onde tiramos “pornografia” no português). É usada no Novo Testamento para se referir a qualquer pecado sexual. Mas ele diz que este pecado sexual era tão grave que não era aceito nem mesmo entre os pagãos – “quem abuse da mulher de seu pai”. Que nem todo pecado sexual tem a mesma gravidade é óbvio. Deus, que na Lei mandou punir estupradores com pena capital, não mandou fazer o mesmo com solteiros que se relacionavam sexualmente. O motivo é simplesmente porque o estrupo é mais odioso para Deus do que solteiros tendo relações sexuais. Ainda que isso seja um pecado e seja grave, não é tão grave quanto violentar sexualmente uma mulher ou uma criança. Qualquer cristão com o mínimo de leitura bíblica é capaz de entender, exceto se estiver sob a influência do mito do “pecadinho e pecadão”. Até mesmo a maioria dos ímpios entendem que uma coisa é mais grave do que a outra. Isso, alias, foi algo do qual Paulo reclamou neste mesmo capítulo. Por nossos erros somos capazes de fazer vista grossa para uma verdade de Deus que até mesmo pagãos já reconhecem.

Se queremos medir a gravidade de uma ofensa devemos analisar a questão de maneira teocêntrica. Deus é o absoluto soberano sobre todas as coisas e, portanto, todos a todo momento devem satisfações a Ele. Quem estabelece a importância que cada coisa tem é Deus e também é Ele quem determina o que é errado e o que não é. O Salmo 104 ensina que Deus se preocupa com os animais. Os animais tem valor para Ele. Apesar disso, Ele valoriza o homem mais do que os animais e se preocupa mais com o bem estar dos homens do que com o bem estar dos animais. “Não se vendem cinco passarinhos por dois ceitis? E nenhum deles está esquecido diante de Deus. E até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos“. (Lc 12.6-7) Isso significa que os mandamentos de Deus que protegem o homem são mais importantes do que os mandamentos que protegem os animais (Ex 20.10; Dt 22.6-7,25.4, Pv 12.10) e que os pecados diretamente contra o homem são mais graves do que os pecados cometidos contra os animais. Além disso, devemos considerar também que todo pecado é sempre primariamente contra Deus. Alguns são contra Ele diretamente e outros indiretamente. Idolatria e blasfêmia, por exemplo, são pecados diretamente contra Deus e não precisam de uma terceira pessoa para acontecer. Já a mentira é um pecado diretamente contra o homem, mas indiretamente contra Deus. Mas, se Deus é o soberano Senhor e se todos devem satisfações a Ele por tudo, segue-se que os mandamentos que defendem a honra e a glória de Deus são mais importantes do que os mandamentos que defendem a honra e o bem estar do homem. Os pecados diretamente contra Deus são mais graves do que os pecados diretamente contra o homem. Deus é mais importante do que o homem assim como o homem é mais importante que os animais. A glória de Deus é mais importante do que a honra ou o bem estar do homem assim como o bem estar do homem é mais importante do que o bem estar dos animais. Dizer que todos os pecados tem a mesma gravidade seria dizer que Deus e o homem tem a mesma importância, que a honra do homem é tão importante quanto a glória de Deus ou que matar um homem comum é tão grave quanto assassinar o Filho de Deus. Dizer qualquer uma destas coisas seria completamente absurdo. Seria afrontar e subverter a justiça de Deus exatamente como os fariseus faziam enquanto dizimavam o endro, o cominho e a hortelã.

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