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O ANTIGO TESTAMENTO ENSINA A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE? (II)
Por Frank Brito

Parte IParte IIParte III

“Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o SENHOR”. (Salmo 33.12)

“Louvai ao SENHOR. Louvai o nome do SENHOR; louvai-o, servos do SENHOR… O que feriu muitas nações, e matou poderosos reis”. (Salmo 135.1,10)

“Quem te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o teu nome? Porque só tu és santo; por isso todas as nações virão, e se prostrarão diante de ti, porque os teus juízos são manifestos”. (Apocalipse 15.4)

Se Deus diz que vai trazer juízo contra uma nação se ela não se submeter a Ele, segue-se que devemos nos informar sobre qual é a Sua vontade para as nações. John Piper explicou porque ele acredita que isso não é mais uma preocupação nossa e porque acredita que as bençãos e maldições nacionais de Deuteronômio 28 não vigoram mais:

“Com a vinda de Cristo… não há regime político Cristão porque o reino de Cristo não é deste mundo (João 18.36); e nós não lutamos batalhas terrenas com carruagens e cavalos ou bombas e balas, mas sim batalhas espirituais com a palavra e o Espírito (Efésios 6.12-18; II Coríntios 10.3-5)”.

De fato, não haveria sentido existir bençãos ou maldições nacionais se não houvesse mais a obrigação das nações se submeterem a Deus da mesma forma que havia para Israel no Antigo Testamento. Se Deus está julgando, é porque alguma lei foi quebrada. Se Ele julga as nações, é porque Ele exige que as nações se submetam a Ele. Para acreditar que Deuteronômio 28 não vigora mais, é preciso acreditar que as nações deixaram de ter a obrigação de pactuar com Deus da mesma maneira que havia no Antigo Testamento. Mas se isso não existe mais no Novo Testamento, por qual motivo Israel foi julgada em 70 AD? Homens como John Knox criam que a obrigação continua e é por isso que ele orou a Deus dizendo: “Dá-me a Escócia, senão eu morro”. João Calvino escreveu sobre isso:

“Para alguns homens… a nossa condição sob o Evangelho parece ser diferente daquela em que o povo se encontrava sob a Lei; não somente porque o Reino de Cristo não é deste mundo, mas também porque Cristo não quis que o Seu Reino fosse inaugurado com o auxílio da espada. Mas, quando juízes humanos consagram seu trabalho para a promoção do Reino de Cristo, eu nego que, por conta disto, sua natureza seja alterada. Ainda que tenha sido a vontade de Cristo que Seu Evangelho fosse proclamado por Seus discípulos em oposição aos poderes do mundo inteiro, e Ele os confrontou com a Palavra somente como ovelhas entre lobos, Ele não impôs uma lei eterna de que os reis nunca seriam sujeitos a Ele, ou que Ele nunca domaria a violência deles ou que Ele nunca transformaria estes cruéis perseguidores para que fossem patronos e protetores de Sua Igreja. Inicialmente, os magistrados exerceram tirania contra a Igreja porque ainda não havia chegado a hora deles “beijarem o Filho” de Deus (Sl 2.12) e, ao abandonar a violência, se tornarem os aios da Igreja que eles haviam atacado, conforme a profecia de Isaías que, sem dúvidas, se refere à vinda de Cristo (Is 49.6-23)… Cristo, eu reconheço, é verdadeiramente manso e quer que imitemos sua mansidão. Mas isso não impede magistrados piedosos de proporcionar tranquilidade e segurança para a Igreja ao defender a piedade. Negligenciar esta parte de sua função seria a maior perfídia e crueldade. E nada pode ser mais desprezível do que quando vemos almas miseráveis sendo levadas para a eterna destruição pela impunidade de ímpios, iníquos e impostores perversos; é agir como se a salvação das almas não significasse nada”. (João Calvino, Harmonia da Lei, Comentário de Deuteronômio 13)

O argumento de John Piper se baseia nas palavras de Jesus a Pôncio Pilatos: “O meu reino não é deste mundo”. (Jo 18.36) A pergunta crucial que precisa ser feita aqui: Estas palavras de Jesus significam que o Seu Reino não tem jurisdição sobre os regimes políticos? Regimes políticos não devem satisfações a Ele? Regimes políticos anti-cristãos são moralmente aceitáveis diante de Deus? Os líderes judaicos do primeiro século não pecaram quando perseguiram os primeiros cristãos? O Império Romano não pecou quando afligiu a Igreja do Senhor por trezentos anos? Não haverá problema algum se o pastor Youcef Nadarkhani for executado pelo regime político do Irã por ter se convertido ao Cristianismo? Brasília tem o direito moral de autorizar que as mulheres assassinem seus filhos no ventre? A ira de Deus não cairá sobre nós da mesma maneira que caiu sobre Jerusalém e sobre Roma já no tempo do Novo Testamento? Se Deus abomina todas estas coisas e trás juízo sobre elas, segue-se que o Reino de Cristo tem jurisdição sobre os regimes políticos. Salomão escreveu: “Abominação é aos reis praticarem impiedade, porque com justiça é que se estabelece o trono”. (Pv 16.12) “O rei que julga os pobres conforme a verdade firmará o seu trono para sempre”.(Pv 29.14) Isso deixou de ser verdade com a vinda de Jesus Cristo? Se o Reino de Cristo não tivesse jurisdição sobre os regimes políticos, então não haveria problema nenhum com cada uma destas coisas, pois os governantes não seriam moralmente responsáveis diante de Deus. Se os governantes são moralmente responsáveis diante de Deus pela maneira com que governam, segue-se que os regimes políticos não podem ser anti-cristãos, mas devem ser conformar aos mandamentos de Jesus Cristo em tudo o que fizerem. Se o Reino de Cristo tem jurisdição sobre os regimes políticos, segue-se que eles devem ser cristãos.

As palavras de Jesus não se referem aos limites de Seu Reino. Ao ressuscitar, Jesus deixou claro que Ele reina sobre todas as coisas na terra e não somente sobre o céu: “E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra“. (Mateus 28.18) Quando o Novo Testamento fala do “Reino dos Céus”, não está dizendo que este Reino está limitado ao Céu, mas que ele tem origem em Deus no Céu. É por isso que Jesus mandou orar dizendo: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. (Mt 6.10) O Reino de Jesus Cristo era superior ao reino de Pôncio Pilatos, pois enquanto Pilatos estava fundamentado no poder e autoridade de Roma, Jesus Cristo derivava Seu poder e autoridade de Deus. Dizer que o Reino de Cristo não é deste mundo não é negar a autoridade de Jesus Cristo sobre qualquer esfera da terra. Dizer que o Reino de Cristo não é deste mundo é afirmar que o Seu Reino está fundamentado em Deus. Jesus falou da origem de Seu Reino e não de seus limites.

Conforme João Calvino explicou, tanto o Livro dos Salmos quanto Isaías profetizaram que os regimes políticos do mundo seriam progressivamente transformados e passariam a obedecer a Jesus Cristo, em Seu Reino que não é daqui:

“Falarei do decreto do Senhor; ele me disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e as extremidades da terra por possessão… Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor, e regozijai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que não se ire, e pereçais no caminho; porque em breve se inflamará a sua ira”. (Salmo 2.7-12)

“Deus reina sobre as nações; Deus está sentado sobre o seu santo trono. Os príncipes dos povos se reúnem como povo do Deus de Abraão, porque a Deus pertencem os escudos da terra; ele é sumamente exaltado”. (Salmo 47.8-9)

“Louvar-te-ei, Senhor, entre os povos; cantar-te-ei louvores entre as nações”. (Salmo 57.9)

“Deus se compadeça de nós e nos abençoe, e faça resplandecer o seu rosto sobre nós, para que se conheça na terra o seu caminho e entre todas as nações a sua salvação. Louvem-te, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos. Alegrem-se e regozijem-se as nações, pois julgas os povos com equidade, e guias as nações sobre a terra. Louvem-te, ó Deus, os povos; louvem os povos todos”. (Salmo 67.1-5)

“Permaneça o seu nome eternamente; continue a sua fama enquanto o sol durar, e os homens sejam abençoados nele; todas as nações o chamem bem-aventurado”. (Salmo 72.17)

Todas as nações que fizeste virão e se prostrarão diante de ti, Senhor, e glorificarão o teu nome”. (Salmo 86.9)

“As nações, pois, temerão o nome do Senhor, e todos os reis da terra a tua glória”. (Salmo 102.15)

Eis aqui o meu Servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça as nações… Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei, e te darei por aliança do povo, e para luz das nações”. (Is 42.1,6; cf. Lc 2.32; At 13.47-48)

“Disse mais: Pouco é que sejas o meu Servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra. Assim diz o SENHOR, o Redentor de Israel, o seu Santo, à alma desprezada, ao que a nação abomina, ao Servo dos que dominam: Os reis o verão, e se levantarão, como também os príncipes, e eles diante de ti se inclinarão, por amor do SENHOR, que é fiel, e do Santo de Israel, que te escolheu”. (Is 49.6-7)

“E os reis serão os teus aios, e as suas rainhas as tuas amas; diante de ti se inclinarão com o rosto em terra, e lamberão o pó dos teus pés; e saberás que eu sou o SENHOR, que os que confiam em mim não serão confundidos”. (Isaías 49.23)

“O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus”. (Is 52.10)

“Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime. Como pasmaram muitos à vista dele, pois o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua figura mais do que a dos outros filhos dos homens. Assim borrifará muitas nações, e os reis fecharão as suas bocas por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo que eles não ouviram entenderão”. (Is 52.13-15, cf. Rm 15.20-21)

Maria era uma santa mulher e por isso não tinha prazer em ver tiranos no governo. Quando ela soube que Jesus estava prestes a nascer, ela louvou a Deus pelo fato d’Ele derrubar regimes políticos opressores e tiranos:

“Com o seu braço agiu valorosamente; Dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos, E elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, E despediu vazios os ricos”. (Lucas 1.51-53)

A mãe do Senhor não acreditava que o princípio de Deuteronômio 28 havia sido anulado com a vinda de Jesus Cristo, mas acreditava que seria confirmado ainda mais. Deus continua a dissipar soberbos e derrubar tiranos como Ele sempre fez desde o princípio do mundo. É por isso também que quando Jesus enviou os apóstolos para pregar as nações, Ele mandou que pregassem aos reis da terra: “E sereis até conduzidos à presença dos governadores, e dos reis, por causa de mim, para lhes servir de testemunho a eles, e aos gentios”. (Mt 10.18) “Sereis apresentados perante presidentes e reis, por amor de mim, para lhes servir de testemunho”. (Mc 13.9) O Apóstolo Paulo era tão esforçado para obedecer essa ordem que ele chegou a amaldiçoar um feiticeiro com cegueira para que um governante confirmasse sua fé em Jesus Cristo: “O qual estava com o procônsul Sérgio Paulo, homem prudente. Este, chamando a si Barnabé e Saulo, procurava muito ouvir a palavra de Deus. Mas resistia-lhes Elimas, o encantador (porque assim se interpreta o seu nome), procurando apartar da fé o procônsul. Todavia Saulo, que também se chama Paulo, cheio do Espírito Santo, e fixando os olhos nele, Disse: O filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os retos caminhos do Senhor? Eis aí, pois, agora contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. E no mesmo instante a escuridão e as trevas caíram sobre ele e, andando à roda, buscava a quem o guiasse pela mão. Então o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor”. (Atos 13.7-12) Quando os apóstolos foram perseguidos pelo regimes políticos judaico e romano, eles recitaram o Salmo 2 que fala da obrigação dos regimes políticos se submeterem a Cristo e pediram, não somente força para pregar, mas também que Deus agisse conforme este Salmo diz que Ele faria: “E, ouvindo eles isto, unânimes levantaram a voz a Deus, e disseram: Senhor, tu és o Deus que fizeste o céu, e a terra, e o mar e tudo o que neles há; Que disseste pela boca de Davi, teu servo: Por que bramaram os gentios, e os povos pensaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, E os príncipes se ajuntaram à uma, Contra o Senhor e contra o seu Ungido. Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer. Agora, pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que falem com toda a ousadia a tua palavra; Enquanto estendes a tua mão para curar, e para que se façam sinais e prodígios pelo nome de teu santo Filho Jesus”. (Atos 4.24-30) Deus atendeu o pedido e matou Herodes diante de seus adoradores: “E num dia designado, vestindo Herodes as vestes reais, estava assentado no tribunal e lhes fez uma prática. E o povo exclamava: Voz de Deus, e não de homem. E no mesmo instante feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus e, comido de bichos, expirou“. (Atos 12.21-23) Sem dúvidas, Deus continua a dissipar soberbos e derrubar tiranos. O motivo é que os governantes continuam tendo a mesma obrigação de se submeter a Ele. Caso não o façam e o povo ainda aceite, Deus faz descer do céu as maldições de Deuteronômio 28.

John Piper diz que “nós não lutamos batalhas terrenas com carruagens e cavalos ou bombas e balas”. Mas no Evangelho de Mateus aprendemos que um centurião tinha mais fé do que qualquer um em Israel e Jesus não mandou ele abandonar sua profissão (Mt 8.8-10). E no Evangelho de Lucas lemos que João Batista também não mandou soldados se arrependerem de serem soldados, mas mandou que exercessem o ofício em fidelidade a Deus: “E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo”. (Lc 3.14) Portanto, não há nada de imoral sobre “lutarmos batalhas terrenas com carruagens e cavalos ou bombas e balas”. O Apóstolo Paulo explicou que o governo civil “é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal”. (Rm 13:4) O Apóstolo Pedro ensinou o mesmo, que os governadores são “enviados [por Deus] para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem”. (I Pd 2.13-14) O governo civil é o ministro de Deus para a vingança. Como ministro, não exerce uma autoridade que é propriamente sua, mas sua função é de ministrar a vingança que pertence a Deus. O instrumento citado por Paulo para exercer essa função é a espada. A espada não era usada para dar tapinhas no bumbum. A espada era instrumento de execução. “Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal”. É por isso que a polícia tem o direito de se armar. É por isso que toda nação tem o direito de ter um exército. Se a nação for atacada por outra, o exército, como braço do governo civil, deve exercer vingança sobre os malfeitores para que os cidadãos vivam em segurança. Se John Piper não é contra a existência da polícia ou do exército, ele não pode dizer que “nós não lutamos batalhas terrenas com carruagens e cavalos ou bombas e balas”. E, sem dúvidas, esta polícia e exército tem a obrigação de se submeter a Jesus Cristo, pois Ele “é o Soberano dos reis da terra”. (Ap 1.5)

O texto que João Piper cita para dizer que “nós não lutamos batalhas terrenas com carruagens e cavalos ou bombas e balas” está em Efésios: “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. (Efésios 6.12) O problema é que John Piper confunde a função de cidadãos comuns com a função dos magistrados. De fato, cidadãos comuns não tem o direito de guerrear contra ninguém. Como indivíduos, não podemos sair por ai declarando guerra. Isso é uma função do governo civil, no exercício de sua função de ministro de Deus para a vingança. No Antigo Testamento também era assim. Davi declarava guerra e executava malfeitores porque ele era o rei. É o mesmo princípio do Novo Testamento conforme Romanos 13. Portanto, não houve qualquer mudança quanto a isso.

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