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O ANTIGO TESTAMENTO ENSINA A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE? (I)
Por Frank Brito

Parte IParte IIParte III

“Melhor é o pobre que anda na sua integridade do que o perverso de lábios e tolo”. (Provérbios 19.1)

Uma das maiores heresias que vem assolando o Cristianismo brasileiro nas últimas décadas é a teologia da prosperidade. A essência da teologia da prosperidade é aplicar na esfera religiosa os princípios éticos que brasileiros já estavam acostumados a ver na política – manipulação psicológica das massas com promessas vazias e corrupção. Depois de anos, o resultado já é perfeitamente visível para todos que quiserem ver. Milhões de desiludidos por falsas promessas e desigrejados, os cristãos com a credibilidade pública cada vez mais comprometida, a palavra da cruz cada vez mais ofuscada pelas palavras de adoradores de Mamom e os falsos profetas com o bolso cada vez mais cheio.

Refutar heresias não é uma tarefa nada fácil. É mais fácil reconhecer heresias como sendo heresias do que articular argumentos bíblicos para refutá-las. A raiz do problema é que, na ânsia de combater um erro, corre-se o risco de ir para o outro extremo e sustentar outro erro. A possibilidade de estar defendendo erros para combater outros erros deve ser uma preocupação constante para todo aquele que é chamado pelo Senhor para defender Sua Igreja de lobos em pele de cordeiro. Qualquer um que tenha o mínimo de familiaridade com a história do Cristianismo sabe o quanto isso foi comum no decorrer dos séculos. Alias, quando analisamos cuidadosamente, percebemos que muitas das maiores heresias que surgiram no decorrer dos séculos partiram de homens mal intencionados usando pequenos deslizes ou questões mal articuladas de grandes mestres de séculos anteriores ao seu favor.

Um dos pregadores contemporâneos por quem mais tenho respeito e admiração e que tem sido instrumental para combater a teologia da prosperidade no mundo e no Brasil é o Pr. John Piper. Conheço seu ministério há cerca de sete ou oito anos. Sem dúvidas, ele tem sido um instrumento poderoso nas mãos de Deus para instruir um número incontável de brasileiros sobre muitas verdades esquecidas do Evangelho. Uma de suas marcas registradas no decorrer dos anos foi sua luta incansável contra a teologia da prosperidade, o que é extremamente louvável.

Tendo dito isso, é preciso dizer também que o Pr. John Piper, em sua resposta a heresia da teologia da prosperidade, deixa passar erros que certamente não chegam a ser heréticos, mas, sem dúvidas, são deslizes significantes que precisam ser esclarecidos. A necessidade de apontar o problema não surge de qualquer desejo de denegrir ou desvalorizar o ministério do Pr. John Piper. Com todas suas virtudes, nunca podemos perder de vista que até os melhores podem errar.

Um dos seus livros combatendo a teologia da prosperidade chama-se “Aos Pregadores da Prosperidade”. O décimo capítulo deste livro se chama “Ensina-os o Ide”. O objetivo do capítulo inteiro é descrever determinadas mudanças ocorridas na transição entre o Antigo e o Novo Testamento. Mas em um livro cujo objetivo é combater a teologia da prosperidade, devemos começar nos perguntando sobre qual seria objetivo de dedicar um capítulo inteiro a isso. Qual é a importância de entender essa mudança para combater biblicamente o que os pregadores da prosperidade dizem? Para que eles estejam errados, é necessário que mudanças específicas de fato tenham acontecido? E se o erro deles não dependesse dessa mudança ter acontecido, por que então um capítulo assim é necessário para combater seus erros?

No início deste capítulo, John Piper defende que a mudança fundamental entre o Antigo e o Novo Testamento foi que “Até aquele tempo, Deus focou sua obra redentora em Israel com obras eventuais entre as nações… Agora o foco passou de Israel para as nações” (p. 22). Isso, sem dúvidas, é verdade. Inicialmente, o mundo não era dividido em nações da maneira que conhecemos hoje. O livro de Gênesis deixou registrado que “toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala” (Gn 11.1) e que eles eram suficientemente unidos e organizados para que migrassem juntos para “um vale na terra de Sinar”. (Gn 11.2) A divisão veio como uma maldição da parte de Deus: “E o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro”. (Gn 11.6-7) Todas as nações que se formaram vieram da descendência de Sem, Cão e Jafé (Gn 10). O juízo de Deus sobre a torre de Babel marcou o princípio de uma transição importante na história do mundo. De Adão até Babel (Gn 1-11), Deus vinha se relacionando com o mundo como um todo. Depois de Babel, Deus chamou Abraão e Sua atenção se voltava cada vez mais para um único povo – Israel. As palavras do Salmo refletem bem qual era situação até a vinda de Cristo: “Mostra a sua palavra a Jacó, os seus estatutos e os seus juízos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; e quanto aos seus juízos, não os conhecem. Louvai ao SENHOR”. (Sl 147.19-20) Abraão era da descendência de Sem, a quem Deus já havia prometido a primazia entre seus irmãos: “Bendito seja o SENHOR Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo”. (Gn 9.26-27) As palavras de Nosso Senhor – “de todas as nações” – devem ser entendidas como uma anulação desta maldição sobre os gentios. Deus, que, com importantes exceções, havia rejeitado o mundo, estava novamente se voltando para as nações por meio de Jesus Cristo: “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne… Naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto”. (Efésios 2.11-13)

John Piper acredita que esta mudança de foco significou uma mudança também na maneira com que Deus concede bençãos materiais ao seu povo:

“Uma das principais diferenças entre essas duas épocas é que, no Antigo Testamento, Deus glorificou amplamente a si mesmo ao abençoar Israel, de modo que as nações pudessem ver e saber que o Senhor é Deus… O padrão no Antigo Testamento é uma religião venha-ver… O Novo Testamento não apresenta uma religião venha-ver, mas uma religião vá-anunciar… Então, se um pregador da prosperidade me questiona sobre as promessas de riqueza para pessoas fiéis no Antigo Testamento, minha resposta é: Leia seu Novo Testamento com cuidado e veja se você encontra a mesma ênfase. Você não irá encontrar. E a razão é que as coisas mudaram dramaticamente”. (John Piper, Aos Pregadores da Prosperidade, Capítulo X, “Ensine-os o Ide”)

A necessidade de John Piper explicar as mudanças ocorridas entre o Novo e o Antigo Testamento em um livro combatendo a teologia da prosperidade é porque ele de alguma forma acredita que os pressupostos que sustentam a teologia da prosperidade podem ser encontrados no Antigo Testamento. Ele não deixa claro até que ponto ele acredita que todas as vertentes da teologia da prosperidade podem ser sustentadas usando o Antigo Testamento, mas não há dúvidas que ele de alguma forma acredita que esta teologia pode ser defendida lá. Se não acreditasse não teria dedicado um capítulo inteiro para defender que o pregador da prosperidade não pode citar o Antigo Testamento para se apoiar simplesmente porque “as coisas mudaram drasticamente”. Com isso, John Piper deixa claro que o erro deles depende desta mudança ter acontecido e se não tivesse acontecido, eles teriam alguma base naquilo que pregam. Isso é uma concessão absolutamente incrível aos seus oponentes teológicos. Em um só capítulo, John Piper simplesmente entregou 75% da Bíblia aos seus oponentes.

Sem dúvidas, há mudanças importantes entre o Antigo e o Novo Testamento. Mas nenhuma destas mudanças tem qualquer relação com as promessas de prosperidade que encontramos no Antigo Testamento. O Novo Testamento, além de não abolir as promessas de prosperidade que encontramos lá, confirma-as ainda mais. E isso, de forma alguma, dá apoio ao pregador da prosperidade. O problema da teologia da prosperidade não é que ela vigorava no Antigo Testamento, mas foi abolida com a vinda de Jesus Cristo. O problema é que, de Gênesis a Apocalipse, ela nunca vigorou. Se um pregador nos questiona sobre “as promessas de riqueza” no Antigo Testamento, nossa resposta não deve ser que “as coisas mudaram dramaticamente”. Nossa resposta deve ser uma demonstração o que Antigo Testamento de fato diz. A Bíblia não ensina a teologia da prosperidade, mas ensina a teologia do pacto e, como extensão disso, ensina o conceito de prosperidade pactual. Deuteronômio 28 explica isso com clareza:

“Se ouvires atentamente a voz do Senhor teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno, o Senhor teu Deus te exaltará sobre todas as nações da terra; e todas estas bênçãos virão sobre ti e te alcançarão, se ouvires a voz do Senhor teu Deus”. (Deuteronômio 28.1-2)

As bençãos eram:

1) Teriam paz, segurança e prosperidade onde quer que estivessem seja no campo ou na cidade. (v. 3)
2) Suas famílias seriam numerosas e prósperas. (v. 4,11)
3) Seus animais seriam férteis e vigorosos. (v. 4, 11)
4) Suas plantações seriam abençoadas (v. 4,11)
5) Seriam uma potência militar, incapazes de serem vencidos na guerra. (v.7)
6) Seriam bem sucedidos em tudo que se dedicassem a fazer. (v. 8)
7) Seriam respeitados internacionalmente. (v.10)
8) Teriam estabilidade climática, não havendo secas. (v. 12)
9) Seriam uma potência econômica internacional. (v. 12)

Para manter a si mesma nesta posição e continuar sendo beneficiado por Deus, Israel deveria se manter obediente a Lei de Deus. As bênçãos de Israel eram condicionadas a obediência a Deus. Deus prometeu paz, prosperidade e desenvolvimento cultural a Israel caso permanecessem fiéis a Ele. Ao mesmo tempo, Deus prometeu ruína nestas mesmas coisas caso Israel não se mantivesse fiel:

“Se, porém, não ouvires a voz do Senhor teu Deus, se não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que eu hoje te ordeno, virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão…” (Deuteronômio 28.15)

As maldições eram:

1) Seriam fracassados onde quer que estivessem, seja na cidade ou no campo. (v. 16)
2) Alto índice de esterilidade entre as mulheres e famílias amaldiçoadas (v. 18)
3) Seriam fracassados nas plantações e na criação de animais. Suas plantações seriam atacadas por pestes. (v. 18, 21,38-40, 42)
4) Seriam fracassados em tudo o que se dedicassem a fazer. (v. 20)
5) Se multiplicariam enfermidades como tísica, úlceras, tumores malignos, sarnas, loucura e cegueira. (v. 22, 27-28, 35, 59)
6) Haveria secas. (v. 23,24)
7) Seriam militarmente fracassados e dominados por tiranos. (v. 25, 26, 32-34, 36, 41, 48-57)
8) Seriam internacionalmente envergonhados. (v. 37)
9) Seriam fracassados economicamente. (v. 44)
10) Seriam expatriados. (v.64)
11) Se tornariam idolatras. (v. 64)

Isso se aplicava somente a nação de Israel? A Lei deixou claro que o mesmo princípio se aplicava também as demais nações:

Guardareis, pois, todos os meus estatutos e todos os meus preceitos, e os cumprireis; a fim de que a terra, para a qual eu vos levo, para nela morardes, não vos vomite. E não andareis nos costumes dos povos que eu expulso de diante de vós; porque eles fizeram todas estas coisas, e eu os abominei. Mas a vós vos tenho dito: Herdareis a sua terra, e eu vo-la darei para a possuirdes, terra que mana leite e mel”. (Levítico 20.22-24)

Aqui Deus fala de determinados povos que estavam prestes a ser destruídos. Os povos eram “os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus”. (Dt 7.1) No caso dos amorreus, Deus já havia prometido julgá-los desde o tempo de Abraão:

“Ao pôr-do-sol, caiu profundo sono sobre Abrão, e grande pavor e cerradas trevas o acometeram; então, lhe foi dito: Sabe, com certeza, que a tua posteridade será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos. Mas também eu julgarei a gente a que têm de sujeitar-se; e depois sairão com grandes riquezas. E tu irás para os teus pais em paz; serás sepultado em ditosa velhice. Na quarta geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus”. (Gênesis 15.12-16)

Deus profetizou que o povo de Israel seria escravizado pelos egípcios. Depois disso, os egípcios seriam julgados e Israel seria liberto da escravidão. Tendo sido liberto, a nação de Israel seria conduzida à terra prometida, que era onde Abraão morava quando a profecia aconteceu. Parte da terra já pertencia a outros povos. Um destes povos eram os amorreus. Portanto, para que Israel tomasse posse da terra prometida, teriam que derrotar os amorreus. Desta maneira os amorreus seriam julgados da mesma maneira que seria o Egito.

Deus explicou o motivo da destruição destes povos – incluindo os amorreus: “Pela maldade destas nações o SENHOR, teu Deus, as lança de diante de ti”. (Deu 9.4) Avisou aos hebreus também do que era necessário pra que não fossem destruídos da mesma maneira: “Guardareis, pois, todos os meus estatutos e todos os meus preceitos, e os cumprireis; a fim de que a terra, para a qual eu vos levo, para nela morardes, não vos vomite”. (Lv 20.22) A linguagem remete ao que havia sido dito a Caim e portanto pressupõe que o princípio já estava em vigor desde o tempo de Caim: “Agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para da tua mão receber o sangue de teu irmão”. (Gen 4.11) O pecado faz com que a terra seja profanada, pois o homem é pactualmente responsável pelo domínio da terra (Gn 1.26-28). Figuradamente, a terra engole o pecado. O vômito da terra é uma reação ao pecado que a terra foi obrigada a engolir. O vômito significa o juízo de Deus. É o juízo de Deus na história contra os povos que se rebelam contra Ele.

“Os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus” (Dt 7.1) foram julgados por Deus por meio do exército de Israel pelo mesmo motivo que Deus garantiu que Israel era passivo de ser julgado. Séculos depois, Israel foi de fato julgado por meio dos exércitos da Babilônia. Foram julgados pela transgressão da Lei de Deus conforme revelado a Moisés. Isto deixa claro que as exigências da Lei de Deus e as bençãos e maldições do pacto não tinhan jurisdição sobre Israel somente. “Ora, nós sabemos que tudo o que a Lei diz, aos que estão debaixo da Lei o diz, para que se cale toda boca e todo o mundo fique sujeito ao juízo de Deus”. (Rm 3.19) Isso deixa claro que o principio que rege a ascensão ou queda das nações não é arbitrário. A ascensão ou queda das nações depende inteiramente do grau de adesão destas nações as exigências da Lei de Deus. As nações são exaltadas ou rebaixadas pela aplicação das bênçãos e maldições do pacto. A história não é arbitrária, pois é movida pela Divina Providência que exalta e rebaixa as nações à medida que obedecem ou transgridem a Lei Deus. Se quisermos saber quão perto ou quão longe uma nação está da ruína, tudo que precisamos saber é quão perto ou quão longe este povo está da obediência a Deus. Rebelião produz destruição, não só a destruição eterna no inferno, mas também no tempo e na história. Sodoma e Gomorra, que não eram israelitas, estão entre os primeiros exemplos disto na Bíblia.

Este não é um princípio difícil de compreender, pois é expresso com muita clareza por toda a Bíblia. O problema é que o mundo moderno é extremamente individualista e, consequentemente, muitos cristãos são levados a abordar a Bíblia com ideias individualistas. Tanto os teólogos da prosperidade quanto a maioria de seus oponentes leem a Bíblia assim e é por isso que quando chegam a textos como Deuteronômio 28, não conseguem enxergar outra coisa se não promessas individuais. Os teólogos da prosperidade veem como promessas a crentes individuais e, portanto, ensinam sobre a necessidade de cada crente reclamar o seu direito a estas promessas. E muitos dos oponentes dos teólogos da prosperidade, por sua vez, também vêem como promessas a crentes individuais e, por conta disso, não conseguem compreender de que forma estas promessas ainda poderiam ser válidas se os apóstolos viveram da forma que viveram. Para conciliar uma coisa com a outra, torna-se necessário defender que estas promessas foram anuladas com a vinda de Jesus Cristo.

As promessas de Deuteronômio 28 não foram anuladas e nem qualquer outra promessa decorrentes desta que encontramos no decorrer de todo o Antigo Testamento. O Novo Testamento, além de não aboli-las, confirma-as ainda mais. A questão é que as promessas de Deuteronômio 28 não foram feitas para os justos individualmente, mas para os justos coletivamente. “E será que, se ouvires a voz do SENHOR teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno, o SENHOR teu Deus te exaltará sobre todas as nações da terra”. (Dt 28.1-2) O que Deus estava prometendo não era que cada homem justo individualmente seria exaltado sobre todas as nações da terra, mas que a nação de Israel seria.

A diferença entre uma coisa e outra não é difícil de compreender. Vamos tomar como exemplo uma situação imaginária para ilustrar isso melhor. João e Carlos exercem a mesma função na mesma empresa e ganham o mesmo salário. É uma empresa transparente com seus empregados e sempre disposta a promover e beneficiar aqueles que demonstram bom desempenho. Mas há uma diferença crucial entre João e Carlos. João busca viver fielmente em conformidade com a Lei de Deus. Consequentemente, é honesto (Ex 20.16), não é preguiçoso (Ex 20.9; Pv 6.4-11) e é fiel às ordens de seus chefes (Cl 3.22). Além disso, é um exemplar pai de família. Ama sua esposa Maria (Ef 5.25), que também é uma cristã devota, e não é negligente em sua obrigação de instruir seus filhos no caminho do Senhor (Dt 6.6-7). Carlos é o contrário. É desonesto, preguiçoso e está sempre querendo tirar vantagem sobre todo mundo no trabalho. Além disso, é beberrão e mal fala com a esposa ou os filhos. Sua esposa Débora é amiga de Maria, a esposa de João, e também é uma cristã fiel. Maria tem uma vida tranquila e sossegada, mas Débora não. Sofre muito por causa do marido que acaba com metade do salário na bebida e, por conta de tudo isso, os filhos são cada vez mais entregues ao mundanismo e a completa indiferença com as coisas de Deus. Não há qualquer diferença entre o desenvolvimento espiritual de Maria e o de Débora. A diferença é que uma vive em uma casa que serve ao Senhor e a outra vive em uma casa regida por um obstinado transgressor do pacto.

O mesmo princípio se aplica em todos os níveis de relações sociais. Quanto mais as relações refletem obediência a Lei de Deus, mais se tornam receptoras das bênçãos pactuais de Deuteronômio 28 e quanto mais se rebelam, mais se tornam receptoras das maldições. Quanto mais famílias e nações se conformam aos mandamentos de Deus, maior é a tendência de prosperar em todos os sentidos. Isso não é uma garantia que cada crente obediente irá prosperar. Alguém pode ser obediente a Deus, mas ao mesmo tempo ele pode se encontrar em famílias e sociedades rebeldes e, consequentemente, irá colher as consequências do juízo coletivo de Deus. Se um homem é justo no Brasil, por exemplo, isso não impede que ele colha as consequências da maldição de impostos altos.

A maior evidência de que as promessas de Deuteronômio 28 não foram feitas para os justos individualmente, mas para os justos coletivamente encontramos na vida dos profetas do Antigo Testamento. No Sermão do Monte, Jesus mencionou a vida dos profetas da seguinte maneira: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós”. (Mateus 5.11-12) Aqui Jesus explicou que a perseguição que os cristãos receberiam no tempo do Novo Testamento seria como a perseguição que os profetas receberam no tempo do Antigo Testamento. Ser perseguido pela verdade no tempo do Novo Testamento faz com que sejamos parecidos com os profetas que vieram antes de nós. Mas se fosse verdade que as promessas de Deuteronômio 28 haviam sido feitas para os justos individualmente, então eles jamais poderiam ter sido perseguidos. O próprio Moisés que escreveu estas palavras passou parte de sua vida sendo afrontado por Faraó e o restante vagando pelo deserto com um povo ingrato. Mas as promessas não foram feitas a cada crente individualmente e por isso os profetas viveram sob perseguição. Alguém pode ser obediente a Deus, mas ao mesmo tempo ele pode se encontrar em famílias e sociedades rebeldes e, consequentemente, irá colher as consequências disso.

Uma das maiores evidências de que o princípio pactual de Deuteronômio 28, corretamente compreendido, continua a vigorar no tempo do Novo Testamento se encontra nas ameaças de Jesus contra os líderes judaicos:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, E dizeis: Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas. Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno? Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade; Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta geração. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta”. (Mateus 23.29-38)

A ameaça que Jesus fez aqui contra a nação de Israel é exatamente a mesma que encontramos sendo feita no Antigo Testamento:

“Guardareis, pois, todos os meus estatutos e todos os meus preceitos, e os cumprireis; a fim de que a terra, para a qual eu vos levo, para nela morardes, não vos vomite. E não andareis nos costumes dos povos que eu expulso de diante de vós; porque eles fizeram todas estas coisas, e eu os abominei. Mas a vós vos tenho dito: Herdareis a sua terra, e eu vo-la darei para a possuirdes, terra que mana leite e mel”. (Levítico 20.22-24)

A ascensão ou queda das nações depende inteiramente do grau de adesão destas nações às exigências da Lei de Deus. As nações são exaltadas ou rebaixadas pela aplicação das bênçãos e maldições do pacto. A história não é arbitrária, pois é movida pela Divina Providência que exalta e rebaixa as nações à medida que obedecem ou transgridem a Lei Deus. O pecado faz com que a terra seja profanada, pois o homem é pactualmente responsável pelo domínio da terra. Figuradamente, a terra engole o pecado. À medida que a quantidade de iniquidade se acumula, “a medida da iniquidade” se enche até que a terra vomita aquilo que engoliu por tempo demais. O vômito é o juízo histórico de Deus. Foi sobre isso que Jesus falou aos líderes judaicos em Mateus 23: “Enchei, vós, pois a medida de vossos pais”. (v.32) Ele disse que a medida da iniquidade de Israel se encheria pelo assassinato dos mártires (v. 34-35). À medida que o número de assassinatos aumentasse, a medida da iniquidade iria se enchendo até que o juízo de Deus viria sobre Israel. Ele falou também do tempo em que isso aconteceria: “Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta geração” (v. 36). Isso se cumpriu fielmente quarenta anos depois, quando as forças romanas destruíram Jerusalém e levaram os sobreviventes para serem escravos por todo Império. Há um documentário interessante produzido pela BBC que conta essa história para aqueles que gostariam de saber mais:

Em sua primeira carta aos Coríntios, Paulo defendeu que o princípio por trás de Deuteronômio 28 continua vigorar:

“Pois não quero, irmãos, que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar; e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés, e todos comeram do mesmo alimento espiritual; e beberam todos da mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os acompanhava; e a pedra era Cristo. Mas Deus não se agradou da maior parte deles; pelo que foram prostrados no deserto. Ora, estas coisas nos foram feitas para exemplo, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos torneis, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar. Nem nos prostituamos como alguns deles fizeram; e caíram num só dia vinte e três mil. E não tentemos o Senhor, como alguns deles o tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes acontecia como exemplo, e foi escrito para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos”. (I Coríntios 10.9-11)

Deus não somente entregou a alma dos judeus rebeldes do tempo de Moisés ao tormento no inferno. Antes disso, no tempo e na história, ele amaldiçoou a nação. Isso é simplesmente a aplicação do princípio de Deuteronômio 28. Longe de dizer que este princípio não vigora mais, o Apóstolo Paulo defendeu que estas coisas foram escritas para aviso nosso, isto é, para que tenhamos consciência da maneira que Deus continua agir entre nós. E para que isto ficasse ainda mais claro, no capítulo seguinte, o Apóstolo Paulo deu um exemplo de como este princípio continua a vigorar:

“De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e enfermos, e muitos que dormem”. (I Coríntios 11.27-30)

O Apóstolo Paulo explicou que os juízos de Deus no Antigo Testamento servem de exemplo para nós de como Deus continua a julgar os homens que se rebelam contra Ele no tempo e na história, matando alguns e enviando doenças para outros. Se o princípio dos juízos históricos de Deus, conforme Deuteronômio 28, não estivesse em vigor, então porque Deus matou tantos e enviou tantas doenças contra membros da igreja de Coríntio da mesma forma que ele fazia no Antigo Testamento? Por que Ele destruiu Israel no primeiro século por meio dos exércitos romanos exatamente da mesma maneira que havia feito por meio do exército da Babilônia no Antigo Testamento? Por que Ele matou Ananias e Safira assim como havia matado Nadabe e Abiú? Por que Jesus ensinou que a medida da iniquidade dos povos continua a se encher da mesma maneira que se enchia no Antigo Testamento? Se Deuteronômio 28 não vigora mais, por que Deus enviou a AIDS como recompensa pela revolução sexual do século XX? Por que Ele destruiu o Haiti em 2010 e porque tantas nações da África continuam nesse estado deplorável? Sem dúvidas há muitos povos que merecem o mesmo e ainda não receberam. Mas Deus avisou a Abraão que os amorreus já estavam marcados para o juízo em sua própria época apesar de só terem sido destruídos séculos depois. Da maneira parecida, quando Ló chegou a Sodoma, o lugar era mui próspero e tão belo quanto o próprio Jardim do Éden (Gn 13.10). A medida da iniquidade só não havia se enchido ainda, da mesma forma que ainda não se encheu para tantas abomináveis nações que agora existem.

Diferente da maioria dos teólogos modernos, o reformador protestante John Knox era um ardente defensor da verdade de que as bênçãos e maldições pactuais da Lei continuam a vigorar:

Quando eu me recordo das terríveis ameaças de Deus, pronunciadas contra reinos e nações às quais a luz da Palavra de Deus foi oferecida, mas foi desdenhosamente rejeitada (Lv 26.14-39; Mt 10.14-15); enquanto meu coração lamenta com sinceridade por sua atual situação, queridos amados em Nosso Senhor Jesus, todas as forças do corpo e da alma se estremecem pelas pragas que virão… O objetivo de minha admoestação é que, em seu propósito e intenção de evitar a vingança de Deus, tanto nesta vida e na vida porvir; que vocês fujam, tanto no corpo quanto na alma, de toda comunhão com idólatras em sua idolatria… E ainda que os abomináveis idólatras triunfem por um momento, se aproxima a hora em que a vingança de Deus não ferirá somente a alma, mas até mesmo suas carcaças vis sofrerão pragas, como Ele já ameaçou fazer antes. Suas cidades serão queimadas, suas terras serão devastadas, seus inimigos habitarão em suas fortalezas, suas esposas e filhas serão humilhadas, seus filhos cairão ao fio da espada. Não encontrarão misericórdia porque recusaram o Deus da misericórdia, quando amorosa e pacientemente Ele os chamou (Lv 26.14-19; Jr 6.11-12; Lv 26.1-13)… Mas vocês vão querer saber qual a base de minha certeza; Deus queira que ao ouvi-la vocês compreenderão e crerão firmemente no mesmo. Minha certeza não se baseia nas maravilhas de Merlin, nem nas sentenças obscuras de profecias profanas, mas (1.) a verdade clara da Palavra de Deus, (2.) a justiça invencível do Deus eterno, e (3.) o curso ordinário de seus castigos e pragas desde o princípio, são a base de minha certeza. A Palavra de Deus ameaça a destruição de todos os desobedientes; Sua justiça imutável requer o mesmo. Os castigos e pragas ordinários dão exemplos de como isto acontece (Dt. 28.15-68; Jr. 5.15-17; Am. 3.2, 11-15; Dt. 29.10-29)”. (John Knox, A Godly Letter of Warning or Admonition to the Faithful in London, Newcastle, and Berwick, 1553)

O princípio é atemporal, pois está fundamentado na justiça de Deus. Deus julga os povos porque Deus é justo – nas palavras de John Knox, “a justiça invencível do Deus eterno”. É uma expressão de Seus atributos (Sl 94) e, portanto, não poderia ser abolido. É por isso que, da mesma forma que a rebelião nacional contra Deus produz maldições nacionais, a obediência nacional a Deus produz bênçãos materiais nacionais. O princípio não estava restrito a nação de Israel, como John Piper dá a entender, pois se aplicava a todas as nações. Também não foi abolido com a chegada do Novo Testamento, pois Jesus profetizou que seria aplicado contra Israel depois de Sua morte.

Parte IParte IIParte III

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