KnoxSobre o Autor: John Knox viveu no século XVI e foi um dos principais líderes da Reforma Protestante. Um dos patriarcas do Presbiterianismo na Escócia, estudou aos pés de João Calvino em Genebra. 

Parte IParte II – Parte III – Parte IV

Que Deus puniu outras nações e reinos não é preciso de provas, pois a própria experiência ensina. Mas devemos inquirir se na Inglaterra foram e são cometidos crimes como aqueles nas nações que foram destruídas. Neste caso, nada pode nos instruir melhor do que a simples Palavra de Deus nas repreensões dos vícios que reinava naqueles dias. Não será preciso citar todos, mas, por enquanto, será suficiente citar algumas passagens do profeta Jeremias. A época das profecias dele permitirá que a questão seja mais clara e compreensível. Ele começou a profetizar no décimo-terceiro ano do reino de Josias e continuou até depois da destruição de Jerusalém, que aconteceu no décimo-primeiro ano do reino de Zedequias.

Este homem piedoso pregou por muito tempo: trinta e nove meses anos e meio até que as pragas tomaram conta da nação obstinada. Ele suportou muitas tribulações e prejuízo como podemos ver em suas profecias. Certamente, havia homens sem caráter que não estavam satisfeitos com o profeta e muito menos com sua pregação. Mas, ainda assim, é evidente que nenhum rei se voltou para Deus de todo coração, de toda sua alma, de toda sua força, segundo a Lei de Moisés, como fez Josias. E ainda assim (como é dito), o profeta foi atribulado, e não por poucos. Pois o encontramos reclamando por toda parte sobre a iniquidade do povo; assim ele declarou, Deus disse: “O meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram para si cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas… Por que contendeis comigo? Todos vós transgredistes contra mim, diz o SENHOR… Até nas orlas dos teus vestidos se achou o sangue das almas dos inocentes e necessitados; não cavei para achar, pois se vê em todas estas coisas. E ainda dizes: Eu estou inocente… Tu tens a fronte de uma prostituta, e não queres ter vergonha… Deveras o meu povo é insensato, já me não conhece; são filhos obtusos, e não entendidos; são sábios para fazerem o mal, mas não sabem fazer o bem… Guardai-vos cada um do seu próximo, e de irmão nenhum vos fieis; porque todo o irmão não faz mais do que enganar, e todo o próximo anda caluniando… E disse o SENHOR: Porque deixaram a minha lei, que pus perante eles, e não deram ouvidos à minha voz, nem andaram nela, Antes andaram após o propósito do seu próprio coração, e após os baalins, como lhes ensinaram os seus pais”. (Jr 2.13, 29, 33-35; 3.3; 4.22; 9.4-5, 13-14)

Com base nestes e muitos outros textos parecidos, as ofensas gerais do povo parece ter sido: apostataram de Deus, aderiram a uma falsa religião, derramavam sangue inocente e ainda queriam justificar e defender a própria iniquidade enquanto estavam cheios de assassinatos, opressões, mentiras, astúcia, engano e idolatria. Seguiam a profissão de seus pais que, sob os reis Manassés e Amom (o primeiro, somente no principio, e o outro por toda sua vida, ordenaram a idolatria) haviam liderado todas as abominações (Jr 5.7-9, 19, 25-29), como acontece na Inglaterra com Winchester e outros.

O profeta de Deus, impressionado com tanta iniquidade, julgou que tamanha ignorância e desobediência acontecia somente entre a classe mais baixa do povo; portanto, ele disse: “Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus. Irei aos grandes, e falarei com eles; porque eles sabem o caminho do SENHOR, o juízo do seu Deus”.(Jr 5.4-5) Mas o que ele encontrou entre estes, ele descreveu com as seguintes palavras: “estes juntamente quebraram o jugo”. (Jr 5.5) “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade”. (Jr 6.13) “Eis que os seus ouvidos estão incircuncisos, e não podem ouvir; eis que a palavra do SENHOR é para eles coisa vergonhosa, e não gostam dela”. (Jr 6.10) “De maneira nenhuma se envergonham, nem tampouco sabem que coisa é envergonhar-se”. (Jr 6.15)

Deus mostrou a Ezequiel o que era essa abominação. Todos tinham renunciado Deus em seus corações, de modo que um grande número havia virado as costas para Deus abertamente, sacrificavam para o sol, cada homem em seu próprio aposento. As mulheres lamentavam porque não podiam cometer a abominação abertamente. Não é de se maravilhar que tudo estava tão corrompido sob um príncipe tão piedoso? Mas o profeta Jeremias disse mais em suas reclamações: “Negaram ao SENHOR, e disseram: Não é ele” (Jr 5.12), isto é, eles negavam e se opunham a Palavra de Deus dizendo que não é verdadeira, pois eles diziam; “Nem veremos espada nem fome”. Esta foi a obediência que o profeta encontrou entre os príncipes de Judá e também entre o povo comum. E não é de se admirar que a vinha que estava tão bem estrumada não deu uvas melhores? Eles tinham um rei muito piedoso, pois assim o Espírito Santo testificou dele: “E antes dele não houve rei semelhante, que se convertesse ao SENHOR com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças, conforme toda a lei de Moisés; e depois dele nunca se levantou outro tal”. (II Rs 23.25) Eles tinham profetas fiéis e fervorosos, pois Jeremias não estava só. Foram admoestados por diversas pragas e os profetas sempre chamavam ao arrependimento. Ainda assim, o único resultado foi o claro desprezo a Deus e seus mensageiros. O arrependimento deles, diz Oseias 6.4, “é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa”. “Dai voltas às ruas de Jerusalém, e vede agora, e informai-vos, e buscai pelas suas praças a ver se podeis achar um homem, se há alguém que pratique a justiça, que busque a verdade; e eu lhe perdoarei a ela. E ainda que digam: Vive o Senhor; de certo falsamente juram”. (Jr 5.1-2) Aqui foi feito uma pergunta pequena em relação a uma multidão tão grande. Havia uma grande falta de bons conselheiros em meio a um rei tão piedoso. Não existiam muitos como ele, quando Aquele que sonda os corações procurou por alguém assim.

Mas antes de dar continuidade nesta questão, é necessário ver como estas coisas são parecidas como nossa própria época e situação. A principio, nós não tínhamos a Palavra de Deus verdadeiramente pregada entre nós, algo que só um papista detrator e errante poderá negar. Tínhamos um rei de natureza tão piedosa, tão voltada para a virtude e a verdade de Deus, que ninguém desde o principio o superou. Enquanto isso, se pecados abundavam, que cada homem acuse sua própria consciência. Pois aqui o meu propósito não é especificar tudo o que eu sei; nem mesmo é necessário, considerando que alguns crimes eram tão conhecidos e hediondos que a terra não poderia esconder o sangue inocente; nem os céus poderiam contemplar, sem se envergonhar, das artimanhas, do engano, da violência e opressão que eram coisas praticadas por toda parte. Enquanto isso, a mão de Deus estava sobre nós e seus verdadeiros mensageiros não se mantiveram calados.

Vocês sabem que o reino da Inglaterra foi visitado com pragas estranhas e diversas, e se disserem que nunca se profetizou que pragas piores seguiriam (a menos que com maior obediência abracemos a Palavra de Deus), eu apelo para o testemunho de suas próprias consciências. Mas o que aconteceu mediante isso? Eu tenho vergonha de dizer: desprezo generalizado por todas as admoestações de Deus, ódio por aqueles que repreendiam os vícios, incentivo aos que poderiam inventar as maiores calunias contra os pregadores da Palavra de Deus. Quanto a isso, sou testemunha suficiente; pois eu ouvi, vi e conheci, com tristeza em meu coração, o desprezo obstinado e as artimanhas engenhosas do diabo, contra os pregadores mais piedosos e letrados que, nesta última Quaresma, ano 1553, foram escolhidos para pregar diante da majestade do rei; e contra todos cujas línguas que não foram temperadas com a água benta da corte, isto é, não tinha a capacidade de bajular, ir contra a própria consciência, dizer que estava tudo bem e que não havia qualquer necessidade de reforma. A reverência e a audiência que foi dada aos pregadores nesta última Quaresma pelos que tinham autoridade, suas próprias consciências certamente declarou, que foi como entre os príncipes iníquos de Judá deram a Jeremias. Eles odiavam que os vícios fossem repreendidos desta maneira e obstinadamente diziam, “Não mudaremos”. E, ainda assim, seus vícios eram repreendidos, na cara, com muita coragem. Os que estavam presentes podem testemunhar comigo.

Poucos estavam presentes, mas eles profetizaram e falaram com clareza sobre as pragas que já começaram e o fim que isso levará. Mestre Grindal claramente falou da morte da majestade do rei; reclamando de seus servos e oficiais domésticos que não tinham temor nem vergonha de falar contra a verdadeira Palavra de Deus e contra os que pregavam a mesma. O homem piedoso e fervoroso, Mestre Lever, falou abertamente da desolação do reino e das pragas que brevemente viriam. Mestre Bradford (que Deus, por meio de Cristo, o consola até o fim!), não poupou nem os mais orgulhosos, mas corajosamente proclamou que a vingança de Deus em breve feriria os governantes porque eles abominavam e odiavam a verdadeira Palavra do eterno Deus; e, no meio de muitos outros, mandou que tomassem como exemplo o duque de Somerset, que se esfriou tanto para ouvir a Palavra de Deus, que antes de sua última detenção, ia visitar suas mansões, mas não aceitava sair de sua galeria até o salão para ouvir o sermão. “Deus o castigou repentinamente”, disse o pregador piedoso, “e ele te poupará sendo duas vezes mais iniquo? Ele não poupará! Querendo ou não, você beberá do cálice da ira de Deus. Judicium Domini, Judicium Domini: O juízo de Deus, o juízo de Deus”, ele clamou em lágrimas. Mestre Haddon, com muita erudição, explicou as causas das pragas, afirmando que piores viriam, caso não se arrependessem rapidamente.

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Tradução: Frank Brito
Fonte: Selected Writings of John Knox: Public Epistles, Treatises, and Expositions to the Year 1559

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