reverendA ESCRAVIDÃO NEGRA É INJUSTIFICÁVEL (1802)
Por Rev. Alexander M’Leod

Parte IParte II – Parte III

Sobre o Pregador: O reverendo Alexander M’Leod foi um teólogo e pastor presbiteriano, nasceu na ilha de Mull na Escócia, mas exerceu seu ministério pastoral em Nova York. Se tornou um dos maiores críticos do comércio de escravos em sua época.

Sobre o Sermão: O problema do tráfico de escravos africanos ao continente americano não existe mais. Isso pode levar muitos a dar pouca importância para um sermão como este. Mas isso é um equívoco. Ainda que o tráfico de escravos africanos não seja mais um problema, temos outros problemas tão graves quanto este foi. O sermão do Rev. Alexander M’Leod é um testemunho corajoso para todas as eras de como a Lei de Deus e Seu Evangelho devem ser defendidos e aplicados entre as nações, não importa qual seja a oposição. Seu argumento se desenvolve a partir de uma definição bíblica do conceito de “direitos humanos”, algo que sem dúvidas continua sendo importantíssimo para nós.

II. Responderei as objeções contra o principio que tenho defendido.

Não deve ser esperado que mencione toda objeção possível. É possível que existam objeções das quais eu nunca ouvi falar e algumas das quais eu ouvi falar podem ter fugido de minhas lembranças. Todavia, eu não evitarei qualquer argumento.

Objeção 1. “A natureza fez distinção entre os homens. Alguns têm maior capacidade intelectual do que outros. Se a força física prevalece nos graus subordinados da criação, que a superioridade de intelecto presida entre criaturas inteligentes. Os europeus e seus descendentes são superiores aos africanos neste sentido. Além disso, eles são miseráveis em seus próprios países. O estado deles não piora por serem escravos. Os mais inteligentes devem governar sobre os mais ignorantes e fazer uso de seu serviço”.

Resposta. A distinção que a natureza faz entre os homens é provavelmente menor do que a distinção que provem de circunstâncias acidentais.

A inferioridade dos negros em relação aos brancos tem sido excessivamente exagerada.  Mas mesmo que tal coisa fosse verdade, a inferência que é o princípio da objeção continuaria sendo invalida. É a essência da tirania. É fundamentado em conceitos falsos sobre a natureza do homem. É dito, “uma inteligência maior dá o direito de governar sobre os que são menos inteligentes”. Mas é preciso observar que o homem não é somente uma criatura capaz de esforço intelectual, mas que também possui sentimentos morais e é um agente livre. Com base na maneira com que é constituído pelo Autor da Natureza, ele tem o direito de decidir por si mesmo e de ser seu próprio mestre em todos os sentidos, exceto em relação à vontade do Céu. Ele naturalmente age segundo as motivações que se apresentam a ele, com uma liberdade de escola em relação a elas. Aquele que defende o direito de governar com base em dons naturais, precisa ter mais que um entendimento superior para mostrar. Ele precisa demostrar uma superioridade de excelência moral e uma investidura de autoridade; se não ele não tem o direito de ignorar o principio de autonomia e agir de forma contrária a liberdade que necessariamente faz parte da responsabilidade pessoal ao Supremo Governador Moral. Considere as consequências que a objeção, se aceita, envolveria. Aquele que fosse capaz, por meio do engano inteligente, submeter seu vizinho mais simples ao seu poder, estaria justificado em escraviza-lo junto com sua descendência para sempre. Todas as usurpações de gênios sem virtude, de Faraó a Bonaparte, estariam justificadas por este princípio.

Quanto aos africanos serem mais miseráveis em liberdade, isso não é da sua conta. A amizade com eles não é demonstrada no trafico de escravos. Seu trafico iniquo fez com que se tornassem mais iníquos e miseráveis até mesmo na África. Se você melhorou a condição de um, você tornou mais dolorosa a condição de milhares.

Objeção 2. “Os negros são de uma raça diferente da nossa. Suas habilidades, forma, cor e cheiro indicam que vieram de um casal diferente. São inferiores aos brancos em todas essas coisas. Isso faz com que a raça superior tenha o direito de dominá-los da mesma forma que a natureza concede o direito de fazer uso de outros seres animados subordinados”.

Resposta. Isso depende do desprezo da autoridade da Escritura. Em um discurso para cristãos professos, eu poderia simplesmente rejeitar sem sequer levar em consideração. Mas pode ser que exista aqui um dono de escravo que é um incrédulo quanto a revelação. Eu argumentarei com ele para que, se possível, eu possa defender a causa da justiça, da liberdade e do homem. O uso correto da lógica e da filosofia não é de qualquer forma contrário ao Cristianismo.

O principio deste argumento é inadmissível; e mesmo que não fosse, não serviria ao seu propósito.

a) É inadmissível. Entre indivíduos de todas as espécies há diferenças. Não há causas além dessas requeridas pelas regras da filosofia para explicar o fenômeno. A ação dos elementos sobre o corpo humano, a dieta e os modos dos homens, são causas suficientes para explicar a mudança na organização dos corpos que aumenta a tendência de absorver os raios de luz, transpirar mais livremente, e adquirir o formato que é peculiar aos habitantes de Guiné e seus descendentes. Um único século trará alguma distinção entre os habitantes de climas do norte e do sul, mesmo se a dieta e os costumes forem iguais. Dietas e costumes diferentes podem criar uma distinção na mesma latitude. Não é possível provar que vinte ou trinta séculos em que gerações consecutivas não se misturavam com uma raça estrangeira, não poderia ter dado ao negro africano aquela aparência corporal peculiar que permanece nele quando ele é transferido para outro clima. Alguns anos de sol escaldante poderá produzir uma pele negra que os climas mais suaves não podem, em alguns anos, substituir por uma pele rosada. Segundo as leis de propagação de espécies, os descendentes se parecem com os pais. Não deve ser esperado que uma mudança tão visível aconteça na pele dos filhos dos negros que já estão neste país. É possível que seja necessário que se passe dez vezes mais o número de anos que se passaram de gerações consecutivas na costa do Guiné para que os negros possam voltar a ter a pele branca. As causas da variedade de corpos nas espécies humanas que eu acabei de mencionar são conhecidas. É altamente antifilosófico apelar para outras causas que são somente conjecturas.

b) Se este princípio fosse verdade, continuaria invalidando a objeção, pois não cumpriria o propósito. Se alguém adota a hipótese de origens em casais diversos e distintos para explicar a população da terra, não é possível determinar onde parar. As diferentes nações da Europa e da Ásia, e as diferentes tribos da América, podem ter tido pais diferentes, todos exigindo a subordinação dos outros. Se o princípio da objeção for admitido, provaria demais, levaria ao absurdo e, portanto, é incapaz de provar qualquer coisa. Cada nação poderia alegar superioridade em relação às outras. O certo seria contrário ao certo, a astúcia e violência se tornariam os únicos arbítrios. Não se envolva nestas dificuldades inextricáveis ao defender uma prática verdadeiramente indefensável.

Objeção 3. “Eu acredito na Bíblia firmemente. Todas as famílias na terra são irmãos. São descendentes de Adão e de Noé. Mas os negros são descendentes de Cão. Eles estão de baixo de maldição e é dado o direito aos seus irmãos de dominá-los. Temos o direito divino, conforme Gn 9.25-27, de escravizar os negros”.

Resposta. É possível que esta profecia tenha incluído todos os descendentes de Cão. Mas devemos notar que ela é direcionada a Canaã, o filho de Cão. Para justificar a escravidão negra com base nesta profecia, será preciso provar quatro coisas. 1. Que toda posteridade de Canaã foram entregues para sofrer escravidão. 2. Que negros africanos são realmente descendentes de Canaã. 3. Que cada descendente de Sem e Jafé tem um direito moral de reduzir qualquer deles a escravidão. 4. Que todo dono de escravo é realmente descendente de Sem e Jafé. A falta de provas em relação a qualquer um destes pontos invalidará a objeção inteira. Em uma prática tão contrária aos princípios gerais da Lei de Deus, uma autorização muito especial da suprema autoridade é a única coisa que poderia validar. Mas nenhum destes quatro fatos especificados pode ser defendido com documentos inquestionáveis. Analisaremos cada um:

1. A ameaça é geral. Não indica servidão pessoal, mas inferioridade política e degradação nacional. Não quer dizer que cada indivíduo da raça deve, por direito, permanecer em um estado de escravidão.

2. É possível que os negros sejam descendentes de Cão. É mesmo provável. Mas é quase certo que não são descendentes de Canaã. As fronteiras de sua habitação são definidas (Gn 9.19). O território dos cananeus é conhecido pela história subsequente.

3. Todavia, a suposição de que a maldição caiu sobre os negros pode ser aceita com segurança por aqueles que se opõe ao sistema de escravidão. Não serve para legitimar essa prática. Não é uma regra de conduta, mas uma profecia de um evento futuro.  Deus, em Sua Providência, entrevou muitos homens a escravidão, a dificuldades e a morte. Mas isso não justifica o tirano e o assassino. Se tivesse sido profetizado, em tantas palavras, que os americanos iriam possuir escravos africanos no início do século dezenove, poderíamos defender que a profecia era verdadeira, mas isso não significaria que a conduta do dono de escravo seria legítima. Foi profetizado que Israel seria escravizado no Egito (Gn 15.33). Isso não justificava a crueldade de Faraó. Ele era um vaso de ira. Jesus, nosso Deus e Redentor, foi alvo de muitas profecias. Segundo profecias antigas, Ele seria morto para expiar pecados. Mas aqueles que fizeram a profecia se cumprir eram extremamente iníquos (At 2.23).

4. Donos de escravo são provavelmente descendentes de Jafé, mas não há como saber ao certo. E é possível que estejam cumprindo a ameaça contra Canaã, mas isso não faz com que sejam inocentes. Não temam, meus amigos; a profecia se cumpre, ainda que vocês libertem seus escravos. Esta profecia se cumpriu há três mil anos. Os descendentes de Sem, sob a direção de Deus, dominaram os descendentes de Canaã quando tomaram posse da terra prometida por meio de Josué.

Naturalmente, isso nos leva a considerar outra objeção – o argumento mais plausível que poderia possivelmente ser dado em defesa da prática iniqua de manter nosso próximo em escravidão perpétua.

Parte IParte II – Parte III

Tradução: Frank Brito
Fonte: http://www.covenanter.org

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