EXPIAÇÃO E RESPONSABILIDADE
Por Frank Brito

“Falou mais o SENHOR a Moisés, dizendo: Quando alguma pessoa pecar, e transgredir contra o SENHOR, e negar ao seu próximo o que lhe deu em guarda, ou o que deixou na sua mão, ou o roubo, ou o que reteve violentamente ao seu próximo, Ou que achou o perdido, e o negar com falso juramento, ou fizer alguma outra coisa de todas em que o homem costuma pecar; Será pois que, como pecou e tornou-se culpado, restituirá o que roubou, ou o que reteve violentamente, ou o depósito que lhe foi dado em guarda, ou o perdido que achou, Ou tudo aquilo sobre que jurou falsamente; e o restituirá no seu todo, e ainda sobre isso acrescentará o quinto; àquele de quem é o dará no dia de sua expiação. E a sua expiação trará ao SENHOR: um carneiro sem defeito do rebanho, conforme à tua estimação, para expiação da culpa trará ao sacerdote; E o sacerdote fará expiação por ela diante do SENHOR, e será perdoada de qualquer das coisas que fez, tornando-se culpada”. (Levítico 6.1-7)

Esta lei contem instruções relacionadas ao oitavo mandamento – “não roubarás”. Diversos pecados contra a propriedade alheia são listados. O oitavo mandamento não fala somente contra o que é normalmente chamado de roubo – tomar um bem a força. Se não devolvermos um bem que nosso próximo pediu para que guardássemos ou se nós achamos algo que ele perdeu e nos recusamos a devolver (o ditado “achado não é roubado” é abominável diante de Deus), também estamos transgredindo o oitavo mandamento. Além disso, esta lei prescreve qual deveria ser o ritual de expiação pela transgressão deste mandamento:

“E a sua expiação trará ao SENHOR: um carneiro sem defeito do rebanho, conforme à tua estimação, para expiação da culpa trará ao sacerdote; E o sacerdote fará expiação por ela diante do SENHOR, e será perdoada de qualquer das coisas que fez, tornando-se culpada”. (Lv 6.6-7)

A Lei continha diversos mandamentos, ritos, costumes e cerimônias que eram somente sombras (Hb 10.1; Cl 2.10-17) que se cumpriram em Jesus Cristo. A própria Lei não foi abolida ou anulada, mas as sombras o foram. Não devemos guardar tais leis, ritos, costumes e cerimônias quanto à observância externa, mas devemos guardar tais coisas quanto à substância e realidade contidas nelas. Portanto, quando meditamos na Lei (Js 1.8; Sl 1.2, 119.15,97-99), precisamos diferenciar o que eram sombras do que não eram e precisamos identificar o que eram a substância e realidade significada pelas sombras para possamos cumprir. Como escreveu João Calvino:

“Mas agora que a coisa em si é dada para nós, não deve descansar por mais tempo nas sombras. De fato, a Lei não é abolida (Mateus 5.18; Efésios 2,15; Colossenses 1.14, 17); por isso temos de manter agora a substância e a verdade dela. Assim, a sombra é eliminada pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo…” (Comentário de Deuteronômio 5.12-14)

Nesta lei, o carneiro, evidentemente, representa Jesus Cristo. Ele deveria ser “sem defeito” porque Jesus Cristo é moralmente perfeito. Sob o Novo Pacto, não devemos nos preocupar com a observância externa deste mandamento, mas a substância do que ele diz é, sem dúvidas, perpétuo e incondicional. A ordem de sacrificar um carneiro sem defeito pela transgressão do oitavo mandamento aponta para a necessidade incondicional de expiação. A necessidade de sacrifício é uma parte imutável da Lei de Deus porque a necessidade de expiação é uma parte essencial de Sua justiça. Deus não pode perdoar o homem sem que seu pecado seja expiado por um substituto penal. O verdadeiro substituto penal, é claro, não era o carneiro e sim Jesus Cristo. Mas ainda que o sacrifício fosse somente uma sombra e tipo da Lei e, portanto, não deve mais ser observado, aquilo que o sacrifício significava não pode de qualquer forma ser abolido, mas precisa ser cumprido com fidelidade por todo aquele que deseja ser perdoado por Deus. Deus não pode abolir Sua Lei e, portanto, não pode perdoar o homem a parte de nosso substituto penal – Jesus Cristo. A necessidade incondicional da expiação de Cristo aponta para a inviolabilidade da Lei de Deus. A Lei revela que a justiça de Deus exige expiação e Ele não pode abolir Sua justiça. Se isso fosse possível, Jesus Cristo não precisaria morrer.

Esta lei nos mostra também que a graça e o perdão de Deus não anula nossa responsabilidade. Pelo contrário, a graça de Deus restaura o pecador, transformando seu pecado em obediêndicia. “Restituirá o que roubou, ou o que reteve violentamente, ou o depósito que lhe foi dado em guarda, ou o perdido que achou, Ou tudo aquilo sobre que jurou falsamente; e o restituirá no seu todo, e ainda sobre isso acrescentará o quinto“. (Lv 6.5) Não basta falar em arrependimento, nem mesmo sacrificar no altar de Deus, se tudo for da boca para fora. A Lei exige um comportamento que demonstre que o arrependimento é sincero. Se roubou e se arrependeu, então que restitua o valor do que roubou e pague indenização por ter roubado. Se não devolve e não paga indenização, então o arrependimento é falso e não há qualquer consideração verdadeira pelo próximo que foi prejudicado. Da mesma forma que não existe perdão de Deus sem expiação, também não há verdadeiro fé ou arrependimento sem obras. A graça de Deus não anula nossa responsabilidade, antes, estabelece que se não há santidade, então não existiu verdadeira justificação ou expiação.

Anúncios