A ESSÊNCIA DO FARISAÍSMO
Por Frank Brito

“O que desvia os ouvidos de ouvir a Lei, até a sua oração será abominável”. (Provérbios 28.9)

Sem dúvidas, os fariseus estão entre os mais infames personagens bíblicos. Para cristãos e não cristãos, “fariseu” é sinônimo de hipócrita, dissimulado, traidor e falso religioso. Possivelmente, Judas Iscariotes é o único personagem bíblico que consiga superar os fariseus em termos de fama ruim. Sem dúvidas, os fariseus merecem a fama que têm. Em seu ministério terreno, Jesus nunca criticou ninguém tão severamente quanto criticou os fariseus (Mt 23). O problema é que, apesar da maioria ter essa visão negativa do farisaísmo, poucos realmente sabem o que fazia com que o farisaísmo fosse tão ruim, o que fazia com que os fariseus foram tão severamente criticados por Jesus Cristo e porque havia tanto atrito entre eles. Mais do que isso, o fato é que, muitos que acreditam defender Jesus Cristo e atacar o farisaísmo, estão mais envolvidos com os princípios teológicos dos fariseus do que podem imaginar.

Jesus, assim como os antigos profetas (cf. Dt 4.26; Sl 1.2, 37.31, 119.1,85; Pv 28.4,9; Is 1.3-18, 5.24-25, 8.20, 30.9, 42.24; Os 4.6), defendia a necessidade de obedecer o padrão moral da Lei de Deus que havia sido revelada por Moisés. Já os fariseus, assim como os inimigos dos antigos profetas, tratavam a Lei do Antigo Testamento como irrelevante e insignificante e, portanto, substituiram a Lei de Deus por um padrão moral novo. Em vez de refletir e meditar na Lei de Deus pra compreender e extrair as reais implicações do que ela diz, os escribas e fariseus estavam continuamente buscando meios de anular a obrigação de cumpri-la. Eram reconhecidos como os grandes mestres da Lei em Israel. Mas na realidade eram os grandes transgressores:

“Então chegaram a Jesus uns fariseus e escribas vindos de Jerusalém, e lhe perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos, quando comem. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? Pois Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e, Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser a seu pai ou a sua mãe: O que poderias aproveitar de mim é oferta ao Senhor; esse de modo algum terá de honrar a seu pai. E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus. Hipócritas! bem profetizou Isaias a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem”. (Mateus 15.1-9)

A Lei de Deus manda que o homem honre seu pai e sua mãe. A honra em questão envolvia a necessidade de sustentar os pais nos momentos de dificuldade financeira, especialmente na velhice. Mas os escribas e fariseus negligenciavam isso em nome de uma “causa santa”. Aquilo que seria usado pra sustentar seus pais era ofertado a Deus. Por ser uma oferta a Deus, acreditavam que estavam fazendo algo sublime. Mas Jesus não mediu palavras “Hipócritas!”. Obedecer a Deus significa fazer o que sua Lei manda e não inventar votos e ofertas por tradições que nos impedem de cumprir o que sua Lei manda. O que os escribas e fariseus mais queriam era uma demonstração pública do quanto eram piedosos e espirituais. O que eles queriam era a glória humana. O que eles não queriam era obedecer a Deus.

Esse é o pano de fundo para entender as palavras de Jesus Cristo na abertura do Sermão da Montanha:

“Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo do alqueire, mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. Não penseis que vim destruir a Lei ou os Profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mateus 5.13-20)

Na analogia de Jesus o sal, a candeia e a cidade representam os homens. O sal pode salgar ou ser insípido e a candeia pode iluminar ou ser escondida. O sabor do sal, a iluminação da candeia e da cidade situada sobe o monte são equivalentes a “boas obras” (v. 16) que os homens podem vir a praticar. Já o sal insípido e a luz escondida são equivalentes aos operadores da iniquidade que “para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens” (v.13).

Diferentes pessoas definem o bem e o mal de diferentes maneiras. Mas isso é somente consequência da ruína de Adão. A essência de todo e qualquer pecado consiste na ideia de que o homem possa estabelecer as suas próprias palavras, o próprio julgamento, a própria opinião, no lugar da Palavra de Deus. Em resposta a isso, Jesus avisou: “Não penseis que vim destruir a Lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido” (v. 19). O bem e o mal não podem ser definidos por homens porque o homem não é Deus. O bem e o mal são definidos pela Lei de Deus.

Muitos acreditam que o problema dos escribas e fariseus é que eles se preocupavam demais com a Lei e que Jesus não estava preocupado com a Lei, mas somente com o amor, a justiça e a misericórdia. Se isso fosse verdade, por que então Jesus Cristo criticou os fariseus por fazerem poucos caso da Lei e substituí-la por tradições humanas? Sem dúvidas, Jesus defendia o amor, a justiça e a misericórdia. Mas estas coisas não são distintas da Lei de Deus, mas são parte de seus mandamentos. Jesus defendia o amor, a justiça e a misericórdia porque ele defendia a Lei de Deus e os escribas e fariseus eram contrários a essas coisas porque eles substituiam a Lei de Deus por tradições huamanas. Foi por causa disso que no Sermão da Montanha Jesus avisou: “se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mt 5.20)

Frequentemente, cristãos modernos citam textos fora de contexto para defender a ideia que não temos mais a obrigação de cumprir a Lei. Um dos livros mais citados para este fim é a carta de Paulo aos Gálatas:

“Cristo nos resgatou da maldição da Lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro”. (Gálatas 3.13)

“Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela Lei; da graça tendes caído”. (Gálatas 5.4)

As pessoas interpretam erradamente versos como este por não entenderem adequadamente a diferença entre justificação e santificação. Ser justificado significa simplesmente ser reconhecido como justo. Se a Lei de Deus é o padrão que define o bem, segue-se que o homem, sendo pecador, não pode ser reconhecido como justo diante de Deus com base na sua obediência a Lei. Se o homem é pecador, ele está sempre abaixo do padrão exigido. A noção da Lei como padrão pra distinguir o bem do mal foi claramente ensinada pelo Apóstolo Paulo: “eu não conheci o pecado senão pela Lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a Lei não dissesse: Não cobiçarás”. (Rm 7.7) E também: “o que vem pela Lei é o pleno conhecimento do pecado”. (Rm 3.20) O Apóstolo João ensinou o mesmo: “o pecado é a transgressão da Lei”. (I João 3.4) A Lei nos revela o que é justo e o que é injusto, o que é certo e o que é errado, o que é o bem e o que é o mal, o que é pecado e o que não é. Quando a Lei diz “não cobiçarás”, está revelando que a concupiscência é imoral. O mesmo é válido para todo o resto. Sendo assim, o homem, como pecador, é condenado pela Lei e não pode ser justificado por sua obediência ao que ela diz. “E assim a Lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom... Porque bem sabemos que a Lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço”.(Rm 7.12,14-16) Como está escrito também:

“Ora, nós sabemos que tudo o que a Lei diz, aos que estão debaixo da Lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da Lei, porque pela Lei vem o conhecimento do pecado. Mas agora se manifestou sem a Lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da Lei e dos profetas; Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”. (Romanos 3.19-24)

Apesar de sermos pecadores e transgressores da Lei, Jesus cumpriu a Lei perfeitamente por nós e foi sacrificado em nosso lugar e, com base nisso, a justiça dele é imputada sobre nós e somos justificados gratuitamente por meio da fé. Este é o sentido do texto de Gálatas que diz:

“Cristo nos resgatou da maldição da Lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro”. (Gálatas 3.13)

Este texto não está atacando a necessidade de obedecer a Lei de Deus. Pelo contrário, o texto pressupõe que o homem tem a obrigação de obedecer e é justamente por ter essa obrigação e não cumprir, que ele está de baixo da maldição. A maldição é simplesmente a condenação por ser um pecador. Cristo nos salvou dessa condenação ao ser condenado em nosso lugar no madeiro. Isso é justificação. Mas será que tendo sido justificado gratuitamente por Deus, sem as obras da Lei, nós temos a autorização para viver de qualquer maneira na libertinagem e no pecado? É claro que não. Tendo sido justificado gratuitamente, fomos salvos da ira de Deus por transgredir Sua Lei, mas não fomos libertos da obrigação de obedecer Sua Lei, ainda que transgredí-la não poderá mais nos trazer condenação. Como está escrito:

“Eis que os dias vêm, diz o Senhor, em que farei um Novo Pacto… não conforme o pacto que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito, esse meu Pacto que eles invalidaram, apesar de eu os haver desposado, diz o Senhor. Mas este é o Pacto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha Lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo”. (Jeremias 31.31-33)

“Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias, e de todos os vossos ídolos, vos purificarei. Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. Ainda porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis as minhas ordenanças, e as observeis“. (Ezequiel 36.25-27)

“Anulamos, pois, a lei pela fé? De modo nenhum; antes estabelecemos a Lei“. (Romanos 3:19-25,31)

“Porquanto o que era impossível à Lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado, para que a justa exigência da Lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito”. (Romanos 8.3-4)

“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Porque toda a Lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros. Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne“. (Gálatas 5.13-16)

Apesar do homem não ter em si mesmo a capacidade de obedecer a Lei de Deus, ele é justificado gratuitamente por Jesus Cristo em meio a rebelião e é capacitado a obedecer pelo Espírito Santo. Essa capacidade não vem da própria Lei nem do próprio homem, mas vem do Espírito de Cristo.

Mas quantos de nós não somos instruídos a pensar que a Lei de Deus revelada no Antigo Testamento foi abolida por Jesus Cristo? Alguns até chamam de fariseus aqueles que pensam o contrário. Mas, como foi demonstrado aqui, a rejeição da Lei de Deus revelada no Antigo Testamento era a essência do farisaísmo.

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