LuteroAS MARCAS DA VERDADEIRA IGREJA
Por Martinho Lutero

“Em primeiro lugar, se reconhece este santo povo cristão quando possui a santa palavra de Deus, se bem que aí há diferenças, como diz S. Paulo: alguns a tem totalmente pura, outros não. Aqueles que a tem pura são os que edificam ouro, prata, pedras preciosas sobre este fundamento; os que a tem com impurezas, são aqueles que edificam feno, palha, madeira sobre este fundamento, mas que se salvam por meio do fogo [1 Cor 3.12ss]. Disso dissemos acima mais do que suficiente. Esta é a razão principal e o sumo santuário por que o povo cristão se chama santo. Pois a palavra de Deus é santa e santifica a tudo que toca. Sim, ela é a própria santidade de Deus: “Ela é o poder de Deus que salva a todos os que nela creem” (Rm 1.16) e em 2 Tm 4: “Tudo é santificado por meio da palavra e da oração”.

(…) Basta que saibamos como o artigo principal, o santo dos santos, varre, conserva, sustenta, fortalece e protege a Igreja, como também diz Sto. Agostinho: “a Igreja é gerada, sustentada, nutrida e fortalecida pela palavra de Deus”.

Em segundo lugar, se reconhece tal povo de Deus ou santo povo cristão no santo Sacramento do Batismo, onde este é ensinado, crido e administrado corretamente, segundo a ordem de Cristo. Pois também ele é um sinal público e um precioso meio de salvação por meio do qual o povo de Deus é santificado. Pois é um santo banho do novo nascimento pelo Espírito Santo, no qual nos banhamos e somos lavados de pecados e morte pelo Espírito Santo, como no inocente e santo sangue do Cordeiro de Deus. Onde observas este sinal, podes ter a certeza de que aí tem que estar a Igreja ou o santo povo cristão, ainda que o papa não te batize e que nada saibas de sua santidade e poder, como também as crianças de nada sabem; somente que, quando adultos, infelizmente são alijados de seu Batismo, como lamenta S. Pedro em 2 Pedro 2.18: “Engodam com paixões carnais os que recém haviam escapado e que agora vivem no erro”. Sim, também não deves ter dúvida a respeito de quem é que batiza. Pois o Batismo não pertence ao que o administra, nem é dado a ele, mas pertence ao batizando, para quem foi instituído e dado por Deus, assim como também a palavra de Deus não é do pregador (a não ser que também ele queira ouvir e crer), mas do discípulo que a ouve e crê; a este é que ela foi dada.

Em terceiro lugar, se reconhece o povo de Deus ou um santo povo cristão no santo Sacramento do Altar, onde ele é administrado, crido e recebido corretamente de acordo com a instituição de Cristo. Pois também ele é um sinal público e um meio de salvação, valioso, deixado por Cristo, por meio do qual seu povo é santificado, para que também se exercite e confesse publicamente que é cristão, como faz a Palavra e o Batismo. E também aqui não deves te preocupar com o fato de o papa não rezar missa por ti, que ele não te consagra, confirma e unge ou veste com roupas apropriadas para ir à missa. Tu o podes receber perfeitamente sem roupa nenhuma (como quando te encontras enfermo na cama), ainda que a disciplina exterior exija cobrir-se decentemente e adequadamente. Não deves igualmente perguntar se tens uma tonsura ou se és crismado, nem discutir se és homem ou mulher, jovem ou velho, como também não perguntas por essas coisas no Batismo ou na Palavra. Basta que sejas consagrado e crismado com o sublime, santo crisma de Deus, da palavra de Deus e do Batismo, também deste Sacramento. Assim sendo, estás ungido de forma suficientemente elevada e maravilhosa e vestido com vestes sacerdotais. (…)

Em quarto lugar, se reconhece o povo de Deus ou os santos cristãos nas Chaves que usam publicamente, isso é, como o determina Cristo em Mateus 18.15ss: quando um cristão peca, o mesmo deve ser disciplinado. E se não se emendar, que seja ligado e expulso. Caso se emendar, deve ser absolvido. Isso é o Ofício das Chaves. Agora, as Chaves tem dois usos: um público, outro particular. Pois há pessoas tão tímidas e desanimadas na consciência que, ainda que não sejam condenadas publicamente, não se podem consolar antes que consigam uma absolvição particular de seu cura de almas. Por outro lado, há os que são tão empedernidos que não querem perdoar nem no coração nem diante do cura de almas em secreto, nem deixar dos pecados. Por isso as Chaves devem ser empregadas de ambas as maneiras, publicamente e em particular. Onde, pois, vês que se perdoam pecados ou se os castigo em determinadas pessoas, seja em público, seja particular, saibas que aí está o povo de Deus. Pois onde não existe o povo de Deus, aí também não existem as Chaves; e onde não existem as Chaves, aí também não existe o povo de Deus. Pois Cristo as deixou para que sejam um sinal público e um meio de salvação por meio do qual o Espírito Santo (por conquista pela morte de Cristo) santifique novamente os pecadores que caíram em pecado, e que por meio delas os cristãos confessem que são um povo santo sob Cristo neste mundo. E os que não querem converter-se nem deixar santificar-se novamente, que os mesmos sejam expulsos desse santo povo de Deus, isso é, que sejam ligados e excluídos por meio da Chave, como há de acontecer com os antinomianos impenitentes.

(…) As Chaves não pertencem ao papa (como mente ele), mas à Igreja, isso é, ao povo de Cristo, ao povo de Deus ou ao santo povo cristão até os confins da terra ou onde quer que haja cristãos. Pois não podem estar todos em Roma, a não ser que primeiramente todo o mundo se concentre em Roma, o que falta muito para acontecer. Assim também o Batismo, o Sacramento, a palavra de Deus não é do povo, mas do povo de Cristo, e também se chamam “Chaves da Igreja” e nao “chaves do papa”.

Em quinto lugar, se reconhece a Igreja exteriormente no fato de consagrar ou convocar servidores eclesiásticos, ou de ter cargos que ela deve prover. Pois há necessidade de bispos, párocos ou pregadores que deem, administrem e exerçam publicamente ou em particular os quatro artigos ou meios de salvação supramencionados, por causa e em nome da Igreja, muito mais, porém, por causa da instituição de Cristo, como diz S. Paulo em Efésios 4.11: “Ele concedeu dons aos homens”. Concedeu uns para apóstolos, profetas, evangelistas, mestres, governantes, etc. Pois o povo não pode fazê-lo como um todo, mas tem que delegá-lo a uma pessoa ou deixá-lo aos cuidados de alguém. Do contrário, que aconteceria se cada qual quisesse falar e administrar [o Sacramento], e ninguém quisesse ceder ao outro? Essa tarefa deve ser delegada a uma só pessoa, e somente ela deve pregar, batizar, absolver e administrar o Sacramento, sendo que todos os demais devem aceitá-lo e concordar. Onde vês isso, podes estar certo que aí está o povo de Deus e o santo povo cristão.

É verdade, porém, que neste artigo o Espírito Santo excetuou as mulheres, as crianças e pessoas ineptas e que escolheu para isso somente homens aptos (exceto em caso de necessidade), como se lê em diversas passagens das epístolas de S. Paulo, onde o apóstolo diz que um bispo deve ser apto para ensinar, piedoso e marido de uma só pessoa [1 Tm 3.2] e em 1 Coríntios 14.31: “A mulher não ensine no povo”. Em resumo, deve ser um homem competente, escolhido. Crianças, mulheres e outras pessoas não são aptas para isso, ainda que sejam aptas para ouvir a palavra de Deus, receber o Batismo, o Sacramento e a Absolvição e também são verdadeiros cristãos santos, como diz S. Pedro. (…)

Em sexto lugar, se reconhece exteriormente o santo povo cristão na oração pública de louvor a agradecimento a Deus. Pois onde vês e ouves que se ora e aprende a orar o Pai-Nosso e também se cantam salmos e hinos espirituais, segundo a palavra de Deus e a verdadeira fé, e além disso se ensina o Credo, os Dez Mandamentos e o catecismo publicamente, podes ter a certeza de que aí está um povo de Deus santo e cristão. Pois a oração também conta entre os preciosos meios de salvação, por meio do qual tudo é santificado, como diz S. Paulo [1 Tm 4.5]. Também os salmos são oração pura, por meio dos quais se louva a Deus, lhe agradece e o honra. Igualmente o Credo e os Dez Mandamentos são palavra de Deus e puros meios de salvação, pelos quais o Espírito Santo santifica o santo povo de Cristo. No entanto, referimo-nos à oração e ao canto compreensível, por meio do qual se pode aprender algo e emendar-se.

Em sétimo lugar, se reconhece exteriormente o santo povo cristão no meio de salvação da santa cruz: que ele tem que sofrer toda sorte de desgraça e perseguição, toda espécie de tentação e mal (como se ora no Pai-Nosso) da parte do diabo, do mundo e da carne, afligir-se, desalentar-se, atemorizar-se interiormente, ser pobre, desprezado, doente, fraco, sofrer exteriormente a fim de tornar-se semelhante a sua cabeça, Cristo. E motivo para isso tudo deve ser unicamente o fato de se ater firmemente a Cristo e à palavra de Deus e, portanto, sofre por amor de Cristo, Mateus 5.11: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por minha causa”. Devem ser piedosos, quietos e obedientes, dispostos a servir às autoridades e a cada qual com corpo e bens, não causar mal a ninguém. Não obstante, nenhum povo sobre a terra tem que sofrer ódio tão amargo; eles tem que ser considerados piores que os judeus, pagãos e turcos, em resumo, devem ser considerados hereges, patifes, diabos, gente maldita e os mais nocivos sobre a terra, de sorte que realizam um culto aqueles que os enforcam, afogam, assassinam, torturam, expulsam e atormentam, sem que alguém se compadeça deles, mas lhes sirvam mirra e fel quando tem sede. E não porque fossem adúlteros, assassinos, ladrões ou patifes, mas porque querem ter somente a Cristo, e nenhum outro Deus. Onde vês e ouves essas coisas, podes ter a certeza de que aí está a Santa Igreja Cristã, como ele diz em Mateus 5.11ss: “Bem-aventurados sois quando vos injuriarem” e repudiarem vosso nome como algo prejudicial e mau, e isso “por minha causa. Regozijai-vos e alegrai-vos, porque a vossa recompensa é grande no céu”. Pois com esse meio de salvação o Espírito Santo não apenas santifica este povo, mas também o torna bem-aventurado”.

(Dos Concílios e da Igreja, Martinho Lutero)

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