BibleLIVRE-ARBÍTRIO, PREDESTINAÇÃO E ARMINIANISMO À LUZ DAS ESCRITURAS
Por Frank Brito

Parte IParte II

A salvação é um dos temas de maior importância na Bíblia. “Deus enviou seu Filho ao mundo para que o mundo fosse salvo por Ele”. (Jo 3.17) Por esse motivo, é extremamente danoso para a Igreja a negligência em relação a um assunto de tamanha importância.

Em relação a este tema, grande parte dos cristãos modernos pode ser classificados dentro daquilo que historicamente tem sido chamado de arminianismo. A maioria não conhece essa nomenclatura, então vamos começar definindo o que o termo significa. Em seu sentido mais amplo, um arminiano é um simplesmente um evangélico que acredita naquilo que pode ser resumido nos dois pontos seguintes:

* Que a salvação é oferecida a todas as pessoas individualmente.

* Que cabe aos homens aceitarem tal salvação pelo uso do livre-arbítrio para que de fato possam ser salvos.

Há muitos cristãos que acreditam nesses dois pontos, mas recusam-se a ser chamados de “arminianos”. Nesse caso, vale lembrar que as nomenclaturas servem simplesmente como uma maneira de identificar o que uma pessoa acredita de forma a facilitar a comunicação. Se existe uma nomenclatura pra identificar uma crença ou idéia isso significa que qualquer um que mantenha tal crença ou idéia, é automaticamente classificado de acordo com o nomenclatura referente a tal idéia. É somente uma maneira facilitar a comunicação para que toda vez que for necessário se referir a crença em questão não seja necessário repetir detalhadamente o sistema de crença da qual se quer conversar. Um “trinitariano”, por exemplo, é simplesmente um cristão que acredita que há um só Deus em três pessoas – o Pai, o Verbo e o Espírito Santo. Pra evitar explicações longas e detalhadas todas as vezes que for preciso se referir a quem crê em Deus dessa maneira, foram criados os termos “trindade” e “trinitariano”. Da mesma forma, um “arminiano”, mesmo que nem mesmo saiba que tal nomenclatura exista, é simplesmente um evangélico que acredite nos dois pontos citados acima.

Mas as nomenclaturas têm seus problemas. Dependendo da circunstância e da forma de uso, podem carregar ambiguidades que podem fazer com que aquele que o usa, seja mal compreendido. O termo “arminiano” vem do sobrenome do teólogo holandês Jacó Arminius. Alguém pode pensar que um “arminiano” seja somente aquela pessoa que concorda com tudo aquilo que Jacó Arminio disse. Mas a verdade é que o termo nunca foi cunhado pra se referir a alguém que acredita em tudo o que Jacó Arminio pensava. Primeiro porque é impossível que duas pessoas concordem plenamente em tudo. Além disso, os arminianos, sendo protestantes, confessam ser a Bíblia o único manual de fé e prática. Arminiano, em seu sentido comum, refere-se somente a um evangélico que acredita que a salvação é oferecida a todas as pessoas individualmente e também que cabe aos homens individualmente aceitar tal salvação ou não pelo uso do livre-arbítrio para crer ou não, para que de fato possam ser salvos. Jacó Arminius foi o teólogo que introduziu e popularizou essa forma de pensar entre os protestantes e por esse motivo protestantes que pensam assim são chamados de arminianos.

O objetivo deste estudo é provar que os dois princípios citados, além de não serem bíblicos, conduzem inevitavelmente a princípios heréticos, ainda que a maioria dos arminianos não tenham consciência ou essa intenção. Mas antes de discutirmos os princípios do próprio arminianismo, vamos refletir sobre alguns princípios bíblicos fundamentais sobre a salvação.

A Bíblia afirma claramente que Jesus Cristo é o único meio de salvação. “Eu sou o caminho e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim”. (Jo 14.6) “Em nenhum outro há salvação, pois nenhum outro nome há de baixo dos céus pelo qual possamos ser salvos”. (At 4.12) “Eu sou o Senhor, fora de mim não há Salvador”. (Is 43.11)

É importante ressaltar que a afirmação de que Jesus Cristo é único meio de salvação não é um fato ensinado somente no Novo Testamento. Quando o Novo Testamento afirma que Jesus Cristo é o único meio de salvação, ele não está introduzindo nenhum conceito que anteriormente não havia sido revelado por Deus. Quando o Novo Testamento afirma que Jesus Cristo é o único Salvador, ele está meramente repetindo aquilo que já havia sido firmemente estabelecido no período narrado pelo Antigo Testamento.

Muitos não entendem isso porque acreditam que quando os autores do Novo Testamento se referem a pessoa de Jesus Cristo estejam se referindo meramente ao homem nascido da Virgem Maria. É verdade que quando os autores do Novo Testamento se referem à Jesus Cristo, eles estejam se referindo sim ao homem nascido da Virgem Maria. Mas não é somente a isso que se referem. Quando o Novo Testamento se refere à pessoa de Jesus Cristo, a referência não é somente ao aspecto humano de Jesus Cristo, mas é também a Sua Divindade.

Em Mt 1.18, por exemplo, está escrito: “O nascimento de Jesus Cristo foi assim…” Por outro lado, em Jo 8.58, está escrito: “E disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, EU SOU”. Mas como poderia essas duas afirmações a respeito de Jesus Cristo ser igualmente verdadeiras? Como poderia Jesus Cristo ter nascido como um homem e ao mesmo tempo ter existido antes do próprio Abraão de quem ele era descendente? As duas afirmações são igualmente verdadeiras pelo fato de que na pessoa de Jesus Cristo havia tanto uma natureza humana quanto a natureza Divina. Jesus Cristo existia antes de Abraão, em sua Divindade. Além de ser anterior a Abraão cronologicamente, era também o Criador do próprio Abraão. “Todas as coisas foram feitas por Ele e sem Ele nada do que foi feito se fez”. (Jo 1.3) Mas, em sua humanidade, Jesus Cristo era um descendente de Abraão e passou a existir somente depois dele. É por esse motivo que Tomé não hesitou em clamar prostrado diante de Jesus: “Meu Deus e meu Senhor!” (Jo 20.28) Não é porque Tomé acreditava que Deus somente passou a existir a partir do momento em que Maria deu à luz seu filho primogênito. É porque Tomé sabia que Jesus, antes de seu nascimento, já existia como o Deus de Israel.

Assim nós podemos entender que quando Isaías 43.11 afirma que, “Eu sou o Senhor, fora de mim não há Salvador”, não há contradição alguma com o fato do Novo Testamento chamar Jesus Cristo de Senhor e Salvador. Não há contradição nenhuma, pois Jesus Cristo é aquele de quem Isaías 43.11 fala, ainda que antes de sua encarnação. Sendo assim, podemos entender que Jesus Cristo é o único meio de Salvação, em qualquer época, seja antes, ou seja, depois de sua encarnação.

Muitos trinitarianos erradamente acreditam que quando as pessoas do Antigo Testamento relacionavam-se com Deus, a relação era diretamente com a pessoa do Pai e que é somente a partir do Novo Testamento que se torna necessário a Mediação de Jesus Cristo. Isso, todavia não é verdade. Jesus Cristo, como o eterno Verbo de Deus, é o único meio possível pelo qual Deus pode ser conhecido ou comunicado. A Revelação de Deus é Trinitariana do inicio ao fim da Bíblia. “Ninguém conhece o Pai se não o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar”. (Mt 11.27) Quando lemos a respeito de Deus no Antigo Testamento, não devemos entender que o texto esteja se referindo somente a pessoa do Pai. Devemos entender ali toda a Trindade ainda que isso esteja somente parcialmente revelado no próprio Antigo Testamento e não tão claramente quanto é no Novo.

Tendo isso compreendido, vamos agora analisar o arminianismo propriamente dito. O primeiro fundamento é:

I) Que a salvação é oferecida a todas as pessoas individualmente.

Essa é uma afirmação que, sem dúvidas, agrada aos ouvidos da maioria. Mas a verdade é que a afirmação de que a salvação seja oferecida a todas as pessoas individualmente é negada pela Bíblia de diversas maneiras.

No sermão profético de Jesus, por exemplo, ele afirma:

“E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para o testemunho a todas as nações. Então virá o fim”. (Mateus 24.14)

“É necessário que primeiro o evangelho seja pregado a todas as nações”. (Marcos 13.10)

A necessidade de pregar o Evangelho pressupõe que existam muitos que não o conhecem. E o fato de ainda precisarmos pregar o Evangelho entre as nações significa que o Evangelho não é acessível a todos. Isso, por si só, demonstra que a afirmação de que a salvação seja algo oferecido a todas as pessoas seja uma afirmação falsa.

As maiorias dos arminianos afirmam que eles acreditam que o evangelho de Jesus Cristo seja o único meio de alcançar a salvação. Mas a verdade é impossível acreditar que o evangelho de Jesus Cristo seja o único meio de salvação e ao mesmo tempo acreditar que a salvação seja oferecida a todas as pessoas simplesmente o Evangelho não é pregado a todas as pessoas. Para afirmar que a salvação seja oferecida a todas as pessoas é preciso negar que Jesus Cristo seja o único meio de alcançar a salvação. Um exemplo de arminiano que nega isso (ainda que não tão abertamente) é o famoso evangelista, Billy Graham. Em 1978 em uma entrevista na Revista McCall, Billy Graham afirmou:

“Antigamente eu acreditava que pagãos em terras distantes estavam perdidos se eles não ouvissem o evangelho de Jesus Cristo. Eu não acredito mais nisso. Eu acredito que há outras maneiras de reconhecer a existência de Deus. Pela natureza, por exemplo. E muitas outras oportunidades de dizer “sim” para Deus”.

Ao contrário do que Billy Graham afirmou sobre “outras maneiras”, a Bíblia é muito clara em relação a única maneira. “Eu sou o caminho e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim”. (Jo 14.6) “Em nenhum outro há salvação, pois nenhum outro nome há de baixo dos céus pelo qual possamos ser salvos”. (At 4.12) “Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Mas como invocarão aqueles a quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? (Rm 10.13-14)

Para um arminiano, não há forma de esses textos serem universalmente verdadeiros. Para um arminiano, esses textos só podem ser verdadeiros entre as pessoas a quem o evangelho já foi pregado. Já que o evangelho de Jesus Cristo não é pregado universalmente, a única maneira de alguém continuar acreditando que a salvação é oferecida a todas as pessoas, é acreditando que elas podem ser salvas sem o evangelho de Jesus Cristo. É negando que o Evangelho de Jesus Cristo seja o único meio de salvação. É preciso passar a afirmar, como o Billy Graham fez que “há outras maneiras de dizer ‘sim’ pra Deus”.

Mas porque isso seria válido somente em “terras distantes”, como afirma Billy Graham? Então quer dizer que quando a Bíblia afirma que Jesus Cristo é o único caminho, ela está falando que ele é o único somente na parte da terra em que as pessoas ouviram falar d’Ele, mas que nas outras partes da terra há outros caminhos? Ou por que a Igreja não para de pregar que Jesus Cristo é o caminho e não passa pregar as “outras maneiras de dizer sim” juntamente com Jesus? Por que a ênfase em Jesus Cristo em nosso evangelismo? Porque falar em tom de incondicionalidade da pessoa dele se ele há “outras maneiras”? Por que simplesmente não apresentá-lo como uma das maneiras entre outras possíveis. Por que toda urgência para pregar o Evangelho de Jesus Cristo especificamente se há “outras maneiras”? Por que o cristianismo não passa a andar de mãos dadas com outras crenças se crenças alternativas simplesmente nos apresentam “outras maneiras”?

A verdade é que a crença arminiana de que a salvação é oferecida a todos os indivíduos é uma contradição frontal ao princípio inabalável de que Jesus Cristo é o único Salvador.

Que Jesus Cristo é o único meio de salvação não é algo que seja negado explicitamente pela maioria dos arminianos como é o caso do evangelista Billy Graham. O problema é que o arminiano normalmente não percebe que é uma contradição acreditar que Jesus Cristo seja o único meio de salvação e ao mesmo tempo acreditar que a salvação é oferecida a todos individualmente.

O que os cristãos precisam entender claramente é que para acreditar que a salvação é oferecida a todas as pessoas individualmente, é preciso uma ou mais das alternativas seguintes:

1) Que a pessoa seja ignorante sobre os limites geográficos do cristianismo na história.

2) Que a pessoa na verdade não acredite que a fé em Jesus Cristo seja o único meio de salvação, mas acredita que as pessoas possam ser salvas por outros meios.

3) Que a pessoa acredite que é possível alcançar a salvação depois da morte, caso não tenha sido alcançada ainda em vida.

1) Que a pessoa seja ignorante sobre os limites geográficos do cristianismo na história.

É um fato histórico que o Evangelho não foi conhecido por todos os indivíduos que já existiram. De Moisés até Jesus, o evangelho ficou, com importantes exceções, restrito ao povo de Israel. Antes da descoberta do continente americano, muitos povos viveram aqui sem sequer saber da existência de Jesus Cristo. Até o dia de hoje existem povos que não foram evangelizados. Se Cristo é o único meio de salvação, segue-se que aqueles indivíduos que nunca foram evangelizados, nunca receberam oferta de salvação e por esse motivo não podemos afirmar que salvação é oferecido a todos os indivíduos.

Antes da chegada dos europeus em nosso continente, os habitantes eram pagãos, adoradores de diversos deuses, idolatrando o sol, a lua, as estrelas, entre outros deuses. O meio pelo qual eles poderiam ser salvos era o Evangelho de Jesus. O Evangelho, todavia, não foi anunciado a eles por diversos séculos. Os habitantes do nosso continente eram pagãos que nasceram e morreram sendo ensinados somente sobre seus próprios deuses pagãos, sem que nenhum evangelista ou missionário pregasse que eles deveriam se converter e crer no evangelho como Paulo fez com os atenienses pagãos no primeiro século ou como Jonas fez antes de Paulo com os ninivitas. Se você acha que é algo comum na sua cidade ter mais de dez igrejas cristãs, saiba que isso só é verdade porque você nasceu na época em que você nasceu. Se você tivesse nascido no mesmo lugar há 500, 600, ou 800 anos isso certamente não seria verdade. Ter conhecimento do Deus verdadeiro é um privilégio e não algo comum. Devemos ser mais gratos por isso do que a maioria costuma ser por Deus graciosamente ter providenciado um mundo para nós em que nos encontramos nestas circunstâncias favoráveis.

2) Que a pessoa na verdade não acredite que o Evangelho de Jesus Cristo seja o único meio de salvação, mas acredita que as pessoas possam ser salvas por outros meios.

Para os que acreditam em “outras maneiras”, um argumento muito usado é que no Antigo Testamento Jesus Cristo ainda não existia, mas ainda assim muitos eram salvos. Abraão, Moisés, Davi, Salomão… todos foram salvos antes do nascimento de Jesus Cristo. Isso não prova que o evangelho de Jesus Cristo não seja o único meio de salvação?

Esse argumento se baseia parcialmente na falsa pressuposição de que Jesus Cristo é um Deus diferente do Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Isso, como já foi demonstrado, não é verdade. É basicamente o mesmo que os judeus inimigos de Jesus não entenderam. Não tens nem cinqüenta anos e vistes Abraão? E disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, EU SOU”. (Jo 8.58) O erro dos judeus inimigos do Evangelho era o de não compreender que o Cristo que estava diante de seus olhos não era nada menos que a encarnação do GRANDE EU SOU. Abraão foi salvo, não por “outra maneira”, mas pela única maneira que jamais existiu. Como está escrito: “O Evangelho foi pregado a Abraão”. (Gl 3.8) Quando o Novo Testamento fala de Jesus, que “nenhum outro nome há que pelo qual possamos ser salvos”, ele só está repetindo aquilo que já havia sido dito anteriormente, “Eu sou Jeová. Fora de mim não há Salvador”. (Is 43.11) Quando nós lemos o Antigo Testamento se referindo à Deus, não devemos entender que a referência seja unicamente à pessoa do Pai e que a obra do Filho só tem inicio a partir do Novo Testamento. Em Isaías 6.1-3, por exemplo, podemos ler: “No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voavam. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo é Jeová dos Exércitos; toda a terra está cheia de sua glória”. O apóstolo, João, consciente da Divindade de Jesus Cristo, citou esse capítulo de Isaías, afirmando que Isaías estava se referindo a Jesus Cristo quando escreveu isso: “Isaías viu a glória dele e falou a seu respeito”. João aplicou isso a pessoa de Jesus Cristo porque ele sabia que Jesus Cristo não era um mero homem. Jesus Cristo é simultaneamente homem e Deus e por esse motivo ele é chamado de Filho de Deus e Filho do Homem. Não há diferença alguma na mensagem do Antigo Testamento de que Jeová é o único Salvador com a mensagem do Novo Testamento de que Jesus Cristo é o único Salvador. A mudança que ocorre entre o Antigo Testamento não é que o Novo Testamento introduz uma maneira diferente de ser salva. A mudança é que anteriormente Jesus Cristo ainda não havia encarnado. Mas o Salvador é o mesmo, e a esperança da salvação é depositada no mesmo. O meio de salvação não mudou. “Ele mostra a sua Palavra a Jacó, seus estatutos e juízos a Israel. Não fez assim com nenhuma outra nação”. (Is 147.19) O Apocalipse nos mostra essa Palavra de Deus: “Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro… Está vestido com um manto tinto de sangue e o seu nome se chama é Palavra de Deus… Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES”. (Ap 19.11,13,16)

Outro argumento que costuma ser utilizado a favor de “outras maneiras” de ser salvo que não seja a fé em Jesus Cristo é baseado no que diz em Romanos sobre “as obras da lei gravada em seu coração”:

“Quando, pois, os gentios, que não têm Lei, procedem, por natureza, de conformidade com a Lei, não tendo Lei, servem eles de Lei para si mesmos. Estes mostram a norma da Lei gravada em seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se; no dia em que Deus, por meio de Jesus Cristo, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho”. (Romanos 2.14-16)

O objetivo de Romanos 2.14-16 não é afirmar que as pessoas podem ser salvas “pelas obras da lei gravada em seus corações”. Se Romanos 2.14-16 afirmasse que as pessoas podem ser salvas pelas obras da Lei gravada em seus corações, estaria entrando em contradição com o resto da carta e com o resto da Bíblia. Logo no capítulo seguinte, Paulo escreve: “pelas obras da Lei nenhum homem será justificado diante dele” (Rm 3.20). O objetivo de Romanos 2.14-16 é simplesmente falar que os homens, têm em si mesmo, uma noção daquilo que a Lei de Deus diz, independente de quem sejam. Todavia, existe um grande abismo entre dizer que as pessoas têm a consciência de certo e errado, de moral e imoral e dizer que elas cumprem isso de forma que mereçam a vida eterna. Ninguém recebe a vida eterna com base nas próprias obras, no que fez ou deixou de fazer. A salvação é pela graça e não pelas obras (Ef 2.8). O objetivo de Paulo até a primeira metade do terceiro capítulo é chegar a conclusão de Romanos 3.9: “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que tanto judeus como gentios, todos estão de baixo do pecado”. Do primeiro capítulo até a metade do segundo ele demonstra que os gentios estão de baixo do pecado. A partir daí ele demonstra que o judeu também está. É aí que ele chega na sua conclusão: “Pelas obras da Lei (e aqui está evidentemente incluído aquelas que foram citadas em Romanos 2.14-16) nenhuma carne será justificada diante dele, pois pela Lei vem o pleno conhecimento do pecado”. (Rm 3.20) O que Romanos 2.14-16 afirma não é que as pessoas podem ser justificadas diante de Deus através do cumprimento das obras da Lei gravada no coração. O que Romanos 2.14-16 afirma é exatamente o contrário. É que as pessoas serão condenadas, não por aquilo que elas não sabiam, mas por aquilo que elas sabiam no íntimo da consciência. A “Lei gravada no coração” é somente a continuação do que ele começou a falar no capítulo primeiro, de que os gentios “tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus”. (Rm 1.21) Pelas obras da lei (gravada em seus corações) nenhuma carne será justificada diante dele justamente porque Deus há de “julgar os segredos dos homens por Jesus Cristo” (Rm 2.16)

3) Que a pessoa acredite que é possível alcançar a salvação depois da morte, caso não tenha sido alcançada ainda em vida.

A Bíblia não ensina em lugar nenhum que depois da morte ainda haverá um meio de salvação. “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo…” (Hebreus 9.27) Há dois textos que são utilizados para tentar provar que depois da morte, aqueles que nunca ouviram o evangelho de Jesus Cristo terão uma chance de ouvir o evangelho e ser salvo:

“Por isso difamando-vos, estranham que não concorrais com eles ao mesmo excesso de devassidão, os quais hão de prestar contas àquele que é competente para julgar os vivos e os mortos; pois para este fim, foi o evangelho pregado também a mortos, para que, mesmo julgados na carne segundo os homens, vivam no Espírito segundo Deus. Ora, o fim de todas as coisas se aproxima”. (I Pedro 4.4-7)

O texto aqui não se refere à pregação pra alguém depois de morto, mas para a pregação aos que agora estão mortos enquanto ainda estavam vivos. O objetivo de Pedro aqui é explicar a relevância do Evangelho mesmo para aqueles que ouviram, mas já morreram. Pra entender o que Pedro quer dizer aqui, é preciso compreender a base de toda sua argumentação, “os quais hão de prestar contas àquele que é competente para julgar vivos e mortos”. (I Pd 3.9) O problema que Pedro trata aqui é que muitos poderiam acreditar que eles poderiam viver de qualquer maneira, pois se morressem então escapariam o julgamento de Deus, pois já estariam mortos. É assim que a maioria das pessoas costuma pensar até hoje. “Devemos fazer o que tiver vontade mesmo que seja errado e imoral, pois só vivemos uma vez”. Da mesma forma, os cristãos poderiam começar achar que de nada adiantaria viver uma vida de santificação, pois no final morreriam iguais a todo mundo e sua vida não teria valido a pena. É por isso que Pedro diz que Deus julgará tanto os que estiverem vivos para o julgamento quanto tiverem morrido antes do julgamento. No julgamento, propriamente dito, não haverá ninguém morto. “Vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem feito o mal, para a ressurreição do juízo”. (João 5.28-29) Quando ele se refere ao julgamento dos mortos e dos vivos, ele está se referindo não a mortos no momento do julgamento, mas para aqueles que já terão morrido antes do julgamento acontecer. O objetivo é levar as pessoas a entenderem que não poderão escapar do julgamento de Deus por meio da morte. Os crentes não terão sido obedientes em vão. Os incrédulos poderiam até julgar zombar deles dizendo que não adiantou viver pra Deus se morreriam do mesmo jeito. Mas Pedro mostra que adiantaria sim, pois no final sairão “para a ressurreição da vida”. O propósito de Pedro aqui é duplo. É avisar aos incrédulos de que a morte não é o fim, mas que Deus julgará inclusive aqueles que já morreram e é por isso que o Evangelho foi pregado a eles (enquanto estavam vivos). É também encorajar os cristãos a entenderem que aqueles que morreram, não passaram suas vidas obedecendo ao Evangelho em vão. Outro texto muito citado está no capítulo anterior:

“Pois Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelo injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no Espírito, no qual foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais noutro tempo, foram desobedientes a quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber oito almas, foram salvos, através da água…” (I Pedro 3.18-20)

Aqui Pedro diz é que Jesus Cristo foi morto na carne, mas que foi vivificado pelo Espírito. No primeiro capítulo, Pedro explicou que era pelo Espírito de Cristo que os antigos profetas falavam:

“Desta salvação inquiririam e indagaram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que para vós era destinada, indagando qual o tempo ou qual a ocasião que o Espírito de Cristo que estava neles indicava, ao predizer os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir”. (I Pedro 1.10-11)

O que Pedro está dizendo no capítulo terceiro é que foi por meio deste Espírito que Cristo pregou aos desobedientes no tempo de Noé. Isso não significa que eles ouviram essa pregação depois que eles já haviam morrido. Como foi dito no primeiro capítulo, o Espírito de Cristo já falava anteriormente por meio dos profetas. Noé, como profeta de Deus, pregou contra a sua própria geração por meio do Espírito de Cristo. O mesmo Cristo que havia sido agora morto na carne. Estes foram desobedientes e por isso somente a família de Noé foi salva do dilúvio. O termo “espíritos em prisão” não se refere ao fato de estarem mortos no momento da pregação. A pregação por meio do Espírito de Cristo aconteceu enquanto estavam vivos. “Espíritos em prisão” indica simplesmente o estado espiritual daqueles que eram escravos do pecado e por isso não obedeciam a Noé. Da mesma forma, quando o verso seguinte diz que “enquanto se preparava a arca; na qual poucas, isto é, oito almas se salvaram através da água”, o objetivo não é dizer que Noé e sua família eram fantasmas na arca. Não há possibilidades de salvação depois da morte.

Vamos resumir então o que já vimos até aqui:

Primeiro, vimos que Jesus Cristo é o único meio de salvação, antes ou depois de sua encarnação. “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente”. Hebreus 13.8. Não há salvação fora dele.

Segundo, vimos que esse evangelho não foi anunciado a todos os indivíduos. Muitos morrem sem ouvir o evangelho.

Terceiro, vimos também que a Bíblia não ensina em lugar nenhum que há nenhuma pregação do evangelho após a morte, mas que para aqueles que morreram, só resta o julgamento.

A única coisa que nos resta concluir, então, é de que a ideia de que o Evangelho é oferecido a todos é falsa, baseada em pressuposições anti-bíblicas.

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