BibleLIVRE-ARBÍTRIO, PREDESTINAÇÃO E ARMINIANISMO À LUZ DAS ESCRITURAS
Por Frank Brito

Parte IParte II

Mas muitos ainda perguntarão:

A Bíblia não ensina que a salvação seja oferecida a todos os indivíduos!? Eu tenho certeza que eu já li ela dizendo isso em algum lugar!

Não. A Bíblia não ensina que o evangelho seja oferecido a todos os indivíduos. Não há lugar nenhum na Bíblia que diga isso. Em Efésios 2, por exemplo, Paulo se dirige aos gentios que anteriormente eram pagãos dizendo: “Lembrai-vos que em tempos passados éreis gentios na carne…que naquele tempo estavais sem Cristo… sem esperança e sem Deus no mundo…” (Efésios 2.12) Paulo aí pede que os gentios que agora criam em Jesus Cristo lembrassem de que isso não era verdade no passado sobre o seu povo. Os gentios crentes em Jesus Cristo sabiam muito bem que os seus antepassados eram pagãos e idólatras adoradores de diversos deuses e não do Deus verdadeiro. Eles deveriam ser muito gratos pelo fato de Deus ter usado com misericórdia com eles pra que não permanecessem em trevas como havia acontecido com os seus antepassados.

As pessoas adquirem a falsa idéia de que o evangelho seja oferecido a todos por três motivos principais:

1) Acreditam que a realidade espiritual de seu próprio meio seja a realidade espiritual do mundo inteiro em todas as épocas.

As pessoas olham ao redor de sua cidade e de seu país. Vêem que há muitos cristãos. Há muitas igrejas. Com base nisso chegam à conclusão de que todas as pessoas da face da terra estajam ouvindo o Evangelho como da mesma forma que ela acredita acontecer no meio que ela vive. Mas acontece que a realidade na qual vivemos não é realidade do mundo inteiro em todas as épocas. O fato de na nossa cidade ter muitos cristãos e muitas igrejas não deve nos levar a acreditar que isso seja a realidade de todas as pessoas em todas as épocas. Isso deveria nos levar a louvar incondicionalmente a Deus pela grandeza de sua misericórdia por providenciar que tenhamos nascido em circunstâncias que ouvir o Evangelho é possível. Se Deus tivesse nos feito nascer no mesmo lugar, há 500 ou 800, não haveria igreja em nossa cidade. Seriamos adoradores do sol, da lua, das estrelas, cavando mais e mais a cova da nossa condenação por nossa idolatria e outras práticas reprováveis.

2) Não compreendem os versículos bíblicos com conotações universalistas.

Outro problema é que as pessoas lêem versículo que falam em “mundo” e em “todos” e automaticamente entendem que o texto em questão esteja se referido a todas as pessoas individualmente, cabeça por cabeça. I Timóteo 2.4, por exemplo, afirma que Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. O problema é que quando a Bíblia fala dessa maneira, ela não está necessariamente se referindo a todos individualmente. Não é assim que funciona a nossa própria língua nem é verdade na Bíblia. Quando alguém diz “Hoje em dia, todo mundo usa internet” isso significa que não exista ninguém na face da terra que não use? “Há 20 anos, poucas pessoas tinha um celular. Agora todos têm”. “Hoje em dia todo mundo tem que falar inglês”. “Hoje em dia todo mundo tem uma televisão”. “Mundo” aí evidentemente não significa todas as pessoas individualmente. “Mundo” aí trás somente o sentido de diversidade e grande número de pessoas. A idéia é somente dizer que algo que era anteriormente restrito a um único grupo, ganhou abrangência e agora inclui gente de todos os tipos e classes.

O mesmo acontece na Bíblia. Durante a maior parte do tempo narrado pelo Antigo Testamento – de Moisés até Jesus – o evangelho esteve restrito a nação de Israel, com importantes exceções. Muitos judeus se baseavam nisso pra achar que o Evangelho era só pra eles. Isso, todavia, não é verdade e por esse motivo, a partir da vinda de Jesus Cristo, o Evangelho voltou a ser propagado entre os gentios. Quando o Novo Testamento fala em termos universais, normalmente o que se está querendo combater é a idéia de que o Evangelho esteja restrito a uma nação única, uma classe social única, um tipo único de pessoa e não que o Evangelho seja oferecido a todos individualmente.

Quem quiser ser contencioso e afirmar que “mundo” e “todos” são usados na Bíblia sempre pra se referir à todos os indivíduos que jamais existiram, terá problemas com versículos que claramente contradizem essa idéia.

Em João 12.19 os fariseus reclamam que, “o mundo vai após ele”. Isso não significa todas as pessoas individualmente. Eles próprios não estavam incluídos nisso, pois eram inimigos de Cristo. Significava somente uma grande massa de pessoas de diversas etnias, nível cultural, nível econômico, etc. Como diz o versículo seguinte: “E havia certos gregos…”.

Em Atos 19.27, lemos que alguns habitantes da cidade de Efeso se revoltaram com Paulo pelo fato dele pregar contra a idolatria. Eles tinham medo de que se Paulo acabasse com a idolatria, eles não poderiam mais ganhar dinheiro com a fabricação de imagens. “Não somente há perigo de nossa profissão cair em descrédito, como também o de o próprio templo da grande deusa Diana ser estimado em nada; a ser destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram”. (Atos 19.27) Será que eles queriam dizer aqui que não existia ninguém na Ásia nem no mundo inteiro que não prestasse culto a deusa Diana? Será que até o próprio Paulo e os cristãos prestavam culto à deusa Diana? Mas se nem Paulo nem os cristãos (e muitos outros certamente) prestavam culto a deusa Diana, então porque esses homens afirmam que a deusa Diana era aquela que “toda Ásia e o mundo adoram”? Simplesmente porque a expressão não significa que sejam todos individualmente, cabeça por cabeça. Significa somente que o culto a deusa Diana era algo mundialmente difundido, envolvendo uma grande diversidade de povos, etnias e classes sociais.

Em Romanos 11.12, Paulo usa “mundo” simplesmente pra se referir aos gentios em toda a sua diversidade, sem incluir nisso o povo de Israel. “Ora, se a riqueza deles redundou em riqueza para o mundo, o seu abatimento, em riqueza para os gentios, quanto mais a sua plenitude”.

Em João 2.15, podemos ler: “Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”. Como isso pode ser verdade se a Lei de Deus nos proíbe de odiar nosso próximo e manda amá-lo (Lv 19.17-18)? Simplesmente porque o significado de “mundo” não é de “todas as pessoas individualmente, cabeça por cabeça”. Aqui “mundo” significa o sistema de vida pagão que rege as nações.

A expressão “todos” é por diversas vezes utilizada da mesma maneira.

Em Mateus 21.26 nós lemos que os líderes do templo ficaram com medo de afirmar que o batismo de João não era algo de Deus, pois “todos consideravam João como um profeta”. Mas se “todos” aqui se refere a todos os indivíduos, porque então que eles próprios não consideravam? Por que João Batista foi morto por Herodes? “Todos” aqui evidentemente se refere a um grande massa de pessoas diversas e não a todas as pessoas individualmente, sem exceção.

Em Lucas 21.17, Jesus diz, “sereis odiados por todos”. Ao que ele se refere aqui? Será que ele está dizendo todas as pessoas individualmente iriam odiar os cristãos? Todas as pessoas da face da terra mantem um ódio contra os cristãos? Os cristãos se odeiam entre si?

Em João 3.26, nós lemos, “todos lhe saem ao encontro”. Novamente, aqui a idéia é que os seguidores de Jesus não eram restritos a uma única classe social, a uma única etnia, mas refere-se a pessoas das mais diversas. Não significa que todas as pessoas da face da terra estavam indo se encontrar com Jesus.

A palavra todos que nós temos em nossas Bíblias em português, vem da palavra grega πας (pas). Segundo o dicionário Thayer, do grego para o inglês:

πας
pas

Thayer Definition:
1) individually
1a) each, every, any, all, the whole, everyone, all things,everything
2) collectively
2a) some of all types

Vemos no dicionário que πας não tem uma única definição. A primeira definição fala de todos individualmente. A segunda definição fala de todos coletivamente. É exatamente a definição que nós vimos nos versos acima. Tais textos não estão falando em todos individualmente, mas falam de acordo com a segunda definição do dicionário, de forma coletiva. Referem-se a um grande massa de pessoas diversos tipos e não a todas as pessoas individualmente, sem exceção. Na verdade, não é nada diferente da forma com que usamos a palavra no português.

Com base nisso, nós entendemos que quando nós lemos a Bíblia falar em todos ou quando ela fala no mundo, nós não podemos inferir, com base nisso, que ela esteja falando de todas as pessoas que jamais existiram na raça humana, cabeça por cabeça. Não podemos porque esse não é o único sentido da palavra. Vemos isso tanto no dicionário quanto nos próprios versos bíblicos quando analisados dentro do contexto. O sentido pode ser tanto um quanto o outro. Pra saber qual dos dois é o caso, cada texto precisa ser analisado dentro de seu contexto.

Muitos cristãos acreditam que Deus seria injusto se ele condenasse alguém sem que ela tenha ouvido o Evangelho. Este é provavelmente o motivo maior pelo qual muitos cristãos acreditam que o Evangelho necessariamente tem que ser anunciado a todos os indivíduos para que elas possam ser condenadas. É certamente a objeção mais séria, pois envolve algo de importância absoluta: a justiça e a santidade de Deus.

Deus é justo e é santo. Isso é, sem dúvida, verdadeiro. Por esse motivo muitas pessoas acreditam que se elas afirmassem que o Evangelho não é pregado a todos e ao mesmo tempo afirmarem que aqueles a quem o Evangelho não foi pregado podem mesmo assim ser condenados, elas estariam com isso afirmando que Deus é injusto, pois nesse caso as pessoas estariam sendo condenadas por uma coisa que elas não sabiam.

Em primeiro lugar, nós temos que entender que melhor o significado de afirmarmos que Deus é o Criador. O fato de Deus ser o Criador significa que não há nada que exista de maneira independente da vontade dele e que não seja obra dele. Isso não se refere somente ao mundo tangível, mas também as idéias e conceitos que regem a forma com que as coisas são. A mera capacidade do homem de pensar, raciocinar e julgar é obra de Deus. O conceito do que é justo e o que não é também são obras dele.

Por esse motivo, é impossível que Deus seja racionalmente acusado de injustiça. Sendo Deus o Criador e reflexo do conceito de justiça, ele não pode ser acusado de injustiça sem incoerência lógica. Pra que Deus fosse acusado de injustiça, seria necessário existir um conceito de justiça fora da Criação dele. Mas nesse caso, ele não seria Deus, o que nos leva a nossa afirmação inicial de que sendo Deus, ele não pode ser acusado de injustiça, pois ele próprio é o padrão inviolável pelo qual qualquer coisa que exista possa ser considerado como justo ou não.

O principal problema da afirmação de que seria injusto alguém ser condenado sem que tivesse ouvido o Evangelho é a falsa idéia de que o motivo de uma pessoa ser condenada é meramente que essa pessoa rejeitou o Evangelho. Muitos cristãos acreditam que no juízo final, o mundo será dividido em dois grupos. Um será o grupo dos que aceitaram o Evangelho. Outro será o grupo dos que rejeitaram o Evangelho. Essa idéia é errada, pois ela erradamente pressupõe que todas as pessoas que já existiram, de fato ouviram o Evangelho e tiveram a chance de aceita-lo ou rejeita-lo. Aqueles que nunca ouviram o Evangelho não podem ser enquadrados em nenhum dos dois grupos, pois pra aceitar ou rejeitar o Evangelho é preciso ter o ouvido.

O que é preciso ser compreendido urgentemente é que “o evangelho é o poder de Deus para a salvação”. (Rm 1.16) Isso significa que sem o Evangelho todos estariam perdidos. O que o Evangelho trás é salvação e não a condenação. A condenação é o que já existe antes do Evangelho ser proclamado. O motivo pelo qual o Evangelho é anunciado é justamente para que os homens não sejam condenados, que é o que seriam se o Evangelho não tivesse sido proclamado. Isso significa que a causa da condenação existe independentemente do Evangelho ser pregado ou não. A causa da condenação existe em algo que precede a pregação do Evangelho e por esse motivo não pode ser verdade a afirmação de que uma pessoa só pode ser condenada se ela tiver rejeitado o Evangelho. Isso seria uma negação do papel essencial do evangelho que é trazer a salvação. Se fosse verdade que uma pessoa só pode ser condenada se ela rejeitar o Evangelho, isso significaria que não havia necessidade de Deus enviar Evangelho algum, pois sem Evangelho não haveria causa de condenação. O simples fato do Evangelho ser proclamado para que os homens possam se salvar, testifica que a causa da condenação está em algo independente da rejeição do Evangelho. Quando um homem rejeita o Evangelho, ele está somente rejeitando a possibilidade de deixar de ser aquilo que ele já era antes de rejeitar.

O motivo pelo qual os homens são condenados é que os homens são pecadores. “Não há um justo, nem um sequer. Não há quem entenda, não há quem busque a Deus… Tudo o que a Lei diz, diz aos que estão de baixo da Lei para que toda boca esteja calado e o mundo inteiro seja condenável diante de Deus”. (Romanos 3.10-11,19) Todos são pecadores e por esse motivo todos estão sujeitos a condenação. “E sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que tais coisas cometem”. (Romanos 2.2) As pessoas não são pecadoras somente porque que rejeitam o Evangelho. As pessoas são pecadoras porque elas se rebelam contra a Lei de Deus.

A Lei de Deus não é algo do qual os homens não têm qualquer conhecimento. Romanos 2.15 afirma que as obras da Lei estão gravadas no coração dos homens. Quando Deus condenar os pecadores, não estará condenado por aquilo que o homem não tinha nenhum conhecimento. A Lei de Deus está naturalmente inscrita em nossa própria consciência. Quando pecamos e ainda tentamos falsamente justificar o nosso pecado, o que estamos na verdade fazendo é tentando negar aquilo já sabemos no íntimo de nossa consciência. Quanto mais nós nos entregamos ao pecado, mais nós enterramos a verdade da Lei de Deus que nós conhecíamos. Mas no Juízo de Deus, os pecadores serão condenados não só por Deus, mas pela própria consciência testificando contra eles de que “tendo conhecido a Deus não o honraram como Deus”. (Romanos 1.21)

Ninguém, portanto, é condenado injustamente por ser condenado sem ouvir o Evangelho. O Evangelho é somente a proclamação do meio pelo qual os homens podem fugir da condenação. O Evangelho é, alias, o único meio que isso pode acontecer. A Lei de Deus justificaria o homem se ele não tivesse pecado. Mas tendo pecado contra a Lei de Deus, gravada na consciência humana ele está de baixo de condenação pois “Tudo o que a Lei (e isso inclui a Lei gravada na consciência) diz, diz aos que estão de baixo da Lei para que toda boca esteja calado e o mundo inteiro seja condenável diante de Deus”. (Romanos 3.19)

Isso nos trás então ao segundo fundamento do arminianismo:

2) Que cabe aos homens aceitarem tal salvação pelo uso do livre-arbítrio para que de fato possam ser salvos.

Em primeiro lugar, é preciso definir o que é “livre-arbítrio”. É uma expressão que é usada pra significar coisas diferentes. Mas no contexto arminiano, “livre-arbítrio” significa a capacidade humana pela qual ele tem a capacidade de escolher aceitar ou rejeitar a salvação do Evangelho. O arminiano acredita que a salvação é oferecida a todos os indivíduos e o motivo pelo qual todos os indivíduos não se salvam é porque nem todos aceitam aquilo que lhes é oferecido.

Nós já vimos qual é o primeiro erro desse pensamento. É o erro de acreditar que a salvação seja oferecida a todos os indivíduos quando na verdade não é. O motivo pelo qual nem todos não se salvam não é simplesmente a rejeição do Evangelho. Muitos serão condenados tendo rejeitado o Evangelho. Mas outros serão condenados sem ter ouvido o Evangelho. É por isso que é tão importante trabalhar por missões mundiais. Isso não é justificativa nenhuma pra fugir da condenação, pois eles são pecadores tendo ou não ouvido. Aqueles que rejeitam o evangelho serão condenados sim, mas serão condenados porque não aceitaram o único meio de ser salvo da condenação que já existia. Os homens são condenados porque pecam contra a Lei de Deus. Isso ocorre independente do Evangelho ser pregado a eles ou não.

O segundo erro desse pensamento é a falsa idéia de que o arbítrio do homem seja moralmente livre para aceitar o Evangelho de Jesus Cristo. Não há nenhuma passagem na Bíblia que ensine que o homem tenha um livre-arbítrio pelo qual ele é capaz de aceitar a salvação que lhe é proposta. O que a Bíblia afirma é exatamente o contrário. O que a Bíblia afirma é que o arbítrio do homem é escravizado pelo pecado. Jesus disse, “Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado”. (João 8.34) É por esse motivo que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus nem tem a capacidade de aceita-las…” (I Coríntios 2.14) “A mente carnal não está sujeita a Lei de Deus nem em verdade tem a capacidade de estar”. (Romanos 8)

É por isso que Jesus ensinou que, “Ninguém é capaz de vir até mim se o Pai que me enviou não o trouxer”. (João 6.44) O motivo pelo qual os homem são incapazes de ir até Jesus Cristo é que porque os seu arbítrio é escravo do pecado. Sendo o seu arbítrio escravo do pecado, ele é incapaz nem mesmo de se dispor a ir até Jesus. O desejo do homem é o pecado. Ir até Jesus significa renunciar o pecado – exatamente aquilo que o homem é incapaz de desejar por ser escravo do pecado. Se o homem possuísse um livre-arbítrio para decidir se libertar do pecado ou não, ele não precisaria de Jesus. Ele poderia se salvar por si mesmo. O motivo pelo qual Jesus Cristo veio foi exatamente para libertar o homem do pecado. A incredulidade e a indisposição de se arrepender não são pecados dos quais um homem pode se libertar sozinho. Mas “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. (João 8.36)

Para que alguém vá até Jesus, é necessário que aconteça o contrário do que ensinam os arminianos. Os arminianos ensinam que pra alguém ir até Jesus é necessário que brote tal disposição do seu próprio coração e que se ele não quiser Deus não pode fazer nada. Mas a Bíblia ensina que naturalmente os homens não desejam ir até Jesus, pois isso implica na necessidade de se arrepender de nossos erros e passar a cumprir a Lei de Deus. Se Deus não interferisse na vontade do homem, como os arminianos afirmam que ele não faz, isso significaria que ninguém seria salvo pois “Ninguém é capaz de vir até mim se o Pai que me enviou não o trouxer”. (João 6.44) Os arminianos costumam ensinar que Deus, como um cavalheiro, respeita a vontade do homem pois se ele não respeitasse seria moralmente errado da parte de Deus. Em primeiro lugar, quem é o homem pra ditar pra Deus o que é moralmente certo ou errado pra que ele faça? A Bíblia nunca rebaixa Deus a posição de respeitador homens perversos. “Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei ao que vive para sempre e cujo domínio é sempieterno e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada, e segundo a sua vontade opera com os exércitos do céu e com os moradores da terra. Não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Daniel 4.34-35) Deus não tem respeito algum pela vontade decaída do pecador porque a sua vontade pecaminosa lhe é abominável (Salmo 5.4-6). O prazer de Deus está no homem cuja vontade é a justiça e a santidade. Quando Jonas, por exemplo, foi tomado por um sentimento de racismo contra os Ninivítas, o que Deus fez não foi respeitar o seu “livre-arbítrio” escravizado pelo racismo e dizer que Jonas tinha o direito de fazer o que quisesse. O que Deus fez foi puni-lo até que o seu “livre-arbítrio” deixasse de ser escravo do racismo para passar a servir a Lei de Deus em amor ao próximo. Da mesma forma, quando Saulo de Tarso passou a se comportar como um assassino insano dos filhos de Deus, o que Deus fez não foi respeitar o “livre-arbítrio” de Saulo de ser um assassino. O que Deus fez foi jogar Saulo do cavalo e fazer dele um cristão. Deus não converteu Saulo porque ele era uma boa pessoa nem porque ele tava buscando a Deus em seu coração, pois “Ele nos salvou não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia”. (Tito 3.5) Saulo era inimigo de Cristo e o seu desejo era de assassinar todos seus seguidores. O que Deus fez foi desrespeitar o desejo de Saulo, transformando a sua vontade e conduzindo ele, com um novo coração até Cristo para que ele passasse a ser um daqueles a quem ele anteriormente odiava. Como está escrito, “Não depende de quem corre nem de quem quer, mas de Deus que se compadece”, pois “é ele quem opera em vós tanto o querer quanto efetuar”. (Romanos 9.16, Filipenses 2.13)

Para tentar provar a existência do livre-arbítrio, os arminianos costumam citar textos bíblicos que se referem à escolhas. O erro aí é achar que “escolha” e “livre-arbítrio” são sinônimos quando não são. Que a Bíblia fala em escolhas é óbvio. Nenhum cristão questiona a existência de escolhas. Mas isso não significa que a Bíblia esteja falando de “livre-arbítrio” quando fala de escolhas. “Livre-arbítrio” conforme ensinando pelo arminianismo refere-se à capacidade do homem de decidir entre receber o evangelho ou não.

Mas a verdade é que quando alguém é muito fortemente inclinado a um determinado desejo, ele se torna incapaz de efetuar uma escolha que envolva contrariar o seu desejo mais forte. Isso não significa que ele não tenha escolha. Significa somente que ele é demasiadamente inclinado pelo seu desejo íntimo a uma escolha para que seja capaz de escolher o contrário.

“Eis que estou a porta e bato. Se alguém ouvir a minha e abrir a porta, entrarei em sua casa e ceiarei com ele e ele comigo”. (Apocalipse 3.20)

O texto fala de Jesus Cristo ordenando que a porta seja aberta para ele. Mas isso significa somente que as pessoas têm obrigação de abrir. Não significa que as pessoas tenham o livre-arbítrio pra desejar abrir. Existe uma diferença enorme entre afirmar que alguém a obrigação de fazer alguma coisa e dizer que ela tenha a capacidade de fazer tal coisa. Como já vimos o homem natural não tem a capacidade de aceitar as coisas do Espírito de Deus, pois tais coisas lhe parecem tolice. O fato de a Bíblia afirmar que o homem tem a obrigação de fazer uma coisa não significa que ele tenha também um livre-arbítrio pra fazer, pois para ter seria necessário que o homem não fosse escravo do pecado. O homem, por exemplo, tem a obrigação de deixar de pecar e ser completamente santo. Mas ele não é capaz de fazer isso e todos são pecadores.

O motivo pelo qual os arminianos se recusam a acreditar que o arbítrio do homem seja completamente escravo do pecado e que dependa exclusivamente da boa vontade de Deus em transformar o seu arbítrio para que ele seja capaz de crer no Evangelho, é que os arminianos entendem que se a conversão do homem fosse algo que dependesse exclusivamente da operação Deus, todos as pessoas seriam salvos, porque eles acreditam que Deus deseja salvar todas as pessoas que já existiram. Por esse motivo, o arminiano prefere acreditar que o motivo pelo qual nem todas as pessoas são convertidas é simplesmente porque isso é algo que está além da decisão de Deus e que depende do livre-arbítrio humano.

O problema é que a explicação bíblica do motivo pelo qual nem todas as pessoas são convertidas não é a de que Deus não interfira no arbítrio do homem. A Bíblia não poderia afirmar que esse seja o motivo porque ela explicitamente afirma por toda parte que Deus interfere no arbítrio do homem. A verdade é que nenhum cristão acredita verdadeiramente que Deus não possa interferir no arbítrio do homem, pois se ele acreditasse verdadeiramente nisso, ele deixaria de orar por 97% das coisas pelas quais ele ora. Se Deus não interferisse no arbítrio do homem, nós não poderíamos orar pra quase nada daquilo que as pessoas costumam orar. Não poderíamos, por exemplo, pedir a Deus pra se sair bem na entrevista de trabalho no dia seguinte, pois pra isso é necessário que Deus mova o nosso arbítrio pra dar respostas adequadas e o arbítrio do entrevistador pra gostar de nossas respostas. Não poderíamos pedir para diminuir a violência na cidade, pois para Deus atender esse pedido é preciso que ele mova o arbítrio dos criminosos pra que sejam menos violentos do que naturalmente são. Se Deus não pudesse interferir no arbítrio dos homens, não poderíamos também orar pela conversão de nossos amigos e familiares, pois pra que ele atenda, é necessário que ele interfira em seu arbítrio. A maior parte daquilo pelo qual oramos e isso inclui os arminianos, depende diretamente da constante interferência de Deus na vontade do homem. Se Deus não interfere na vontade humana, então a única coisa pela qual poderíamos orar era pra parar de chover, pra fazer sol ou para os cometas pararem de se chocar com Saturno, pois estas coisas, sim, podem ser atendidas sem que Deus precise interferir na vontade do homem.

O que as pessoas precisam compreender é que privar Deus do direito de interferir no arbítrio do homem é relegar a sua onipotência para a esfera da natureza, excluindo da esfera humana. Um Deus assim não é o Deus que a Bíblia nos manda acreditar, mas é o deus dos epicureus com quem Paulo debate em Atos 17, que acreditavam que os deuses, não interferiam nos afazeres do mundo. Simplesmente criou o mundo e foi embora. A pressuposição arminiana de que Deus não pode interferir no arbítrio do homem, se levado até as ultimas conseqüência, conduz a uma negação dos fundamentos do Evangelho que é exatamente a afirmação de que Jesus cristo veio ao mundo para salvar os homens da vontade pelo pecado. A pressuposição arminiana sobre Deus ser um cavalheiro que fica passivamente aguardando o nosso parecer, se levado a sério (o que não é pelos arminianos) é uma negação de tudo aquilo que Jesus se propõe a fazer por nós. É uma horrenda ofensa contra Deus.

A explicação bíblica do motivo pelo qual nem todas as pessoas são convertidas é simplesmente porque Deus escolheu salvar alguns e escolheu não salvar outros, interferindo no arbítrio de alguns para convertê-los e a deixando de fazer isso por outros. Isso é ensinado explicitamente por no sexto capítulo do evangelho de João:

“Declarou-lhes Jesus. Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim, de modo algum terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede. Mas como já vos disse, vós me tendes visto, e, contudo não credes. Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do que me enviou é esta: Que eu não perca nenhum de todos aqueles que me deu, mas que eu o ressuscite no último dia… Ninguém tem a capacidade de vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia… Mas há alguns de vós que não crêem….Por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido”. (João 6.35-39,44,64-66)

Jesus começa simbolicamente identificando a si mesmo com o pão e a água da vida. Isso já é suficiente pra contrariar todos que acreditam que existam outros meios de salvação que não seja Jesus Cristo como é o caso do evangelista Billy Graham. Em seguida ele reclama daqueles que não criam nele. Esses estariam em perigo, pois não estariam se alimentando do pão e da água da vida. É aí que Jesus afirma que “todo aquele que o Pai lhe deu” não estariam neste mesmo perigo, pois estes iriam até Jesus. Mas ao mesmo tempo, Jesus afirma que eles não tinham crido em Jesus por nenhuma capacidade inerente neles. Pela capacidade deles próprios, eles eram incapazes de ir até Jesus. Eles tinha ido até Jesus porque o Pai os tinha concedido que fosse. Jesus finaliza então mostrando que aqueles que aqueles que não foram dados pelo Pai não iriam até Jesus, pois só poderiam ir aqueles que foram escolhidos pelo Pai pra ir.

Paulo ensina a mesma coisa no nono capítulo da carta aos Romanos:

“….pois não tendo os gêmeos [Jacó e Esaú que era os dois filhos de Isaque que foi citado no versículo anterior] ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú. Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus?” (Romanos 9.11-13)

Os arminianos costumam ensinar que na eleição, Deus predestina para a salvação aqueles que ele já sabe que crerão nele e serão obedientes. Isso é um absurdo, pois como nós vimos em João 6, Jesus explicitamente ensina que o homem é incapaz disso. Argumentam que Deus sendo onisciente, já sabia quem iria ser obediente ou não e por isso escolheu esses para serem salvos. Mas essa interpretação é contrária ao que é dito aqui. Quando Paulo afirma que a eleição foi declarada “não tendo os gêmeos ainda nascidos” o objetivo todo é provar que a eleição não se baseou no bem ou no mal que seria praticado. A afirmação de que a eleição levou em consideração o bem ou o mal que Deus já conhecia previamente contradiz frontalmente aquilo que Paulo quer dizer.

Além disso, se a intenção de Paulo fosse dizer que Deus escolheu baseado em presciência do bem e do mal nos gêmeos, não faria nenhum sentido ele antecipar a pergunta que ele saberia que muitos iriam lhe fazer: “Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus?” Essa pergunta nunca é feita para os arminianos porque os arminianos ensinam que a eleição é baseada na presciência de Deus em relação ao que os homens farão. Essa pergunta é feita pra Paulo porque ele ensina que a eleição ocorre sem levar em consideração o bem e o mal que os gêmeos fariam. Ele sabe que muitos acusarão Deus de injustiça quando forem ensinados que a eleição não é baseada em presciência do que os homens fariam de bom, mas no mero beneplácito de Deus.

“Porque diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia. Pois diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei: para em ti mostrar o meu poder, e para que seja anunciado o meu nome em toda a terra. Portanto, tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece. Dir-me-ás então. Por que se queixa ele ainda? Pois, quem resiste à sua vontade?” (Romanos 9.14-19)

Paulo aqui antecipa novamente a objeção que ele sabe que seria feita pra ele. Paulo acostumado a pregar essa mesma coisa em diversos lugares, já deveria estar acostumado a ouvir esta mesma objeção lhe sendo feita inúmeras vezes. Se Deus é aquele que “tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece” e isso “não por causa das obras”, e isso sem que “dependa do que quer”, isto é, não baseado no que as pessoas virão a fazer, então “Por que se queixa ele ainda?” Isso não significaria que essas pessoas na verdade não são responsáveis pelos seus atos? Se tudo é pré-ordenado por Deus, isso não significa que no final, ninguém pode ser culpado por nada?

Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso? E que direis, se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” (Romanos 9.14-24)

O problema do arminianismo é que ele busca impor em Deus conceitos da sabedoria humana distorcida pelo pecado. A sabedoria humana decaída pelo pecado ensina que alguém só pode ser responsabilizado pelos seus atos no caso de seu ato ter sido determinado pelo livre-arbítrio do homem. O que essa suposta sabedoria não percebe é que, acreditando ser coerente, lógica e sábia e racional, ela é na verdade incoerente e irracional. A idéia de que um homem só pode ser responsabilizado pelos seus atos quando seus atos forem praticados pelo uso do seu livre-arbítrio é primeiramente tola porque ela é anti-bíblica. Deus é o único que determina verdadeiramente aquilo que as coisas são. Qualquer idéia que seja contrária ao que Deus diz, é, portanto, automaticamente irracional de acordo com o Salmo 14.1. A idéia de que o homem só pode ser responsabilizado pelos seus atos se os seus atos forem feitos pelo uso de seu livre-arbítrio não é somente anti-bíblica, mas é completamente irracional (como tudo o que é anti-bíblico).

O primeiro motivo é porque a idéia de que alguém só pode ser responsabilizado por aquilo que escolhe por meio de seu livre-arbítrio se baseia na existência de algo que não existe que é o livre-arbítrio. Mas a verdade é que se o livre-arbítrio existisse, aí sim, ninguém poderia ser responsabilizado por nada. Pra entendermos isso, devemos primeiramente relembrar e realmente compreender o que essa idéia significa. O que “livre-arbítrio” significa é que os atos das pessoas em determinado momento poderiam tender tanto para uma escolha quanto para a escolha contrária. Significa que quando uma pessoa escolheu X, naquele exato momento ela poderia ter escolhido Y. Mas se fosse verdade que no momento em que uma pessoa escolhesse X, naquele exato momento e sob as mesmas circunstâncias ela poderia escolhido Y, isso significaria que os atos das pessoas não seriam determinados por sua vontade, por sua personalidade e por aquilo que elas são. Isso significaria que a vontade, a personalidade e aquilo que uma pessoa é não teria influencia nenhuma sobre aquilo que ela faz. Se alguém mata uma pessoa por dia, nós sabemos que ela é uma assassina. Se um homem namora outro homem, nós sabemos que ele é um homossexual. Se alguém compra Coca-Cola todo dia pra beber, nós sabemos que a sua característica pessoal é ter algum tipo de vontade de beber Coca. Nós sabemos disso porque no fundo nós sabemos que o livre-arbítrio não existe. Nós sabemos que os atos das pessoas são determinadas diretamente por suas características pessoais, que por sua vez determina as suas vontades. Se uma pessoa no momento da escolha, escolher X, isso é somente porque sua vontade maior é essa no momento em que a proposta é feita. E se sua vontade maior naquele momento era X, isso significa que ela não tinha livre-arbítrio pra escolher Y, pois pra que a escolha de Y fosse possível, a sua vontade teria que ser por Y e não por X. A vontade do homem nunca é livre pra escolher duas coisas ao mesmo tempo. “Vontade” é, por definição, a determinação de escolher uma opção especifica. Isso significa que a opção contrária é impossível de ser escolhida.

E se a vontade de uma pessoa no momento de suas escolhas não determinasse necessariamente a sua escolha, como então a pessoas poderia possivelmente ser responsabilizado por ter feito aquilo? As pessoas só podem ser responsabilizadas pelos seus atos porque os seus atos são determinados por sua vontade, sua personalidade e por quem ela é. As escolhas não existem no vácuo, sem causa nenhuma. Toda escolha que alguém efetua é determinada por sua vontade maior na circunstância em questão. Toda escolha é diretamente causada pela vontade maior do homem. E a vontade do homem, por sua vez, é determinada pela sua personalidade, por aquilo que ele é. Se as escolhas existissem no vácuo, sem uma determinação necessária da vontade do homem naquele momento, impossibilitando uma escolha contrária, isso significa que as escolhas não teriam causa nenhuma na pessoa que escolhe. E se alguém não é a causa de uma escolha, então o que é? Se alguém não é a causa direta de sua escolha, aí sim, ela não pode ser responsabilizada por aquilo que ela faz.

Se as pessoas realmente tivessem livre-arbítrio, se os atos das pessoas fossem livres daquilo que elas são, de suas vontades, podendo até ser contrária ao que elas são e contrárias as suas vontades, então nós viveríamos em um mundo completamente insano por sua imprevisibilidade. Se você fosse visitar a sua mãe amanhã, por exemplo, você não poderia saber se ela ia te abraçar ou se ela iria te esfaquear ou se ela iria tentar pular do telhado da casa. O motivo pelo qual a maioria das pessoas sabem que suas mães não irão tentar esfaqueá-los é porque eles no fundo sabem que suas mães não tem livre-arbítrio pra tentar esfaqueá-los. Pra que alguém tente assassinar outra pessoa, é preciso primeiramente que existe algum tipo de raiva e ódio contra aquele que se quer matar. Como a maioria das mães amam seus filhos, elas são incapazes de cometer o ato de procurar assassina-los. A vontade de mães que amam seus filhos é dar carinho a eles. Por esse motivo escolhem abraça-los e não mata-los.

Mas alguém ainda poderá dizer: “Tudo bem, tudo bem. Eu posso até aceitar que a maioria de nossas escolhas são diretamente determinadas por nossas vontades que por sua vez são determinadas por nossa personalidade, por nosso caráter, por aquilo que nós somos. Mas eu não acredito que as nossas escolhas são sempre determinadas por nossas vontades. Muitas vezes nós fazemos aquilo que não queremos quando somos forçados a isso!”

É verdade que em certo sentido nós nem sempre fazemos aquilo que mais temos vontade de fazer, no caso de sermos forçados a alguma coisa. Mas esse não é o sentido em que foi descrito acima. O que foi descrito acima é que nós sempre fazemos a nossa vontade maior dentro das escolhas que nos é oferecida. Todos os nossos atos são necessariamente determinados por nossa vontade maior, mas isso dentre as escolhas oferecidas. A minha vontade maior nesse momento, por exemplo, pode ser viajar para Nova York. Mas isso não está dentre as minhas escolhas possíveis. Nesse momento a escolha que está diante de mim é somente entre continuar escrevendo ou parar de escrever. Dentre a opções que estão diante de mim é que eu necessariamente faço a minha vontade maior, determinada pelas circunstâncias, minha personalidade, minhas características, etc. Quando um ladrão pára alguém na rua, aponta uma arma e manda dar o dinheiro, podemos dizer que a pessoa entrega o dinheiro contrário a sua vontade. Mas isso foi contrário a sua vontade maior somente fora das escolhas naquele momento. No momento do assalto, essa é uma opção que não existe. As únicas opções no momento do assalto é entregar o dinheiro, reagir ou se entregar pra morrer. A escolhe do que será feito vai depender se a vontade de manter o dinheiro é maior do que vontade de não correr o risco de morrer reagindo. Mas se o livre-arbítrio realmente existisse, nós teríamos que cogitar a possibilidade do sujeito sendo roubado ter a vontade imensamente maior de entregar o dinheiro e não reagir, mas misteriosamente reagir sem causa nenhuma naquilo que ele próprio deseja fazer.

O que precisamos entender é que todo efeito tem uma causa e toda causa é o efeito de outra causa. As ações do ser humano, as suas vontades, os seus desejos, serão todos determinados por aquilo que as pessoas são e não por aquilo que elas não são. O que as pessoas são, por sua vez, é um desenvolvimento daquilo que foi gerado pelos seus pais, desde o ventre da mãe. São as características herdadas no ventre materno que irão determinas como a pessoa irá reagir às circunstâncias que enfrentará, em suas escolhas e no desenvolvimento de sua personalidade, no decorrer de toda a sua vida, seja para o bem, seja para o mal. “Alienam-se os ímpios desde a madre; desviam-se desde que nasceram”. (Salmo 58:3)

O livre-arbítrio, portanto, é somente um termo sem sentido. Não pode existir arbítrio livre pra seres finitos, pois o que os seres finitos são, é invariavelmente determinado por aquilo que lhe é a sua causa de ser. E são as características de seu ser, por sua vez, que determinarão as suas preferências em suas escolhas. Os homens não podem agir contrário ao que eles são, ao que está estabelecido em sua natureza: “pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas malhas? então podereis também vós fazer o bem, habituados que estais a fazer o mal”. (Jeremias 13:23)

Aqueles que são pecadores merecem a condenação por serem pecadores. O que os arminianos dão a entender é que as pessoas só podem ser julgadas por aquilo que elas são caso seja verdade também que elas próprias escolheram ser o que elas são. Mas isso é uma sugestão irracional. Pra que alguém escolha alguma coisa, é preciso que ela exista. E se ela existe, ela já é alguma coisa, antes que possa sequer escolher. Ninguém pode escolher o que é, pois para escolher é preciso já ser. A verdade é que responsabilidade não tem nada a ver com escolher o que vai ser pois isso nem sequer é uma afirmação que faça qualquer tipo de sentido. Responsabilidade tem a ver com assumir o que se é. Os pecadores que forem condenados serão condenados por serem pecadores, mesmo que o estado de pecado seja um fato herdado do ventre de suas mães. Os pecadores que forem justificados, serão pelo sangue de Jesus; não serão condenados porque o sangue de Jesus encobre a culpa pelos pecados.

Não há injustiça nenhuma da parte de Deus nisso. Injustiça consiste em privar alguém de seu direito devido. Quando Deus condena os vasos de desonra, ele não está condenando ninguém por aquilo que eles não sejam ou por aquilo que não fizeram. Ele está os condenando por aquilo que eles foram endurecidos pra ser: pecadores.

Deus seja louvado!

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