reverendA ESCRAVIDÃO NEGRA É INJUSTIFICÁVEL (1802)
Por Rev. Alexander M’Leod

Parte IParte II – Parte III

Sobre o Pregador: O reverendo Alexander M’Leod foi um teólogo e pastor presbiteriano, nasceu na ilha de Mull na Escócia, mas exerceu seu ministério pastoral em Nova York. Se tornou um dos maiores críticos do comércio de escravos em sua época.

Sobre o Sermão: O problema do tráfico de escravos africanos ao continente americano não existe mais. Isso pode levar muitos a dar pouca importância para um sermão como este. Mas isso é um equívoco. Ainda que o tráfico de escravos africanos não seja mais um problema, temos outros problemas que são tão graves quanto este foi. O sermão do Rev. Alexander M’Leod é um testemunho corajoso para todas as eras de como a Lei de Deus e Seu Evangelho devem ser defendidos e aplicados entre as nações, não importa qual seja a oposição. Seu argumento se desenvolve a partir de uma definição bíblica do conceito de “direitos humanos”, algo que sem dúvidas continua sendo importantíssimo para nós.

“Aquele, porém, que atenta bem para a Lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito”. (Tiago 1.25)

“E quem raptar um homem, e o vender, ou for achado na sua mão, certamente será morto”. (Êxodo 21.16)

Deus é onipotente. Sua onipotência é necessária e independente de qualquer outro ser. Ele é a fonte da qual todo poder flui. Qualquer força física exercida pelo homem é derivada de seu Criador. No exercício do poder natural o homem está subordinado a Lei de Deus. Ele é de fato um agente livre, mas a Divina Lei cerca sua esfera de ação e marca os limites dos quais ele não pode ultrapassar sem ser punido. Exercer suas forças naturais sob a direção da Lei é certo. Mas exercer qualquer força derivada de Deus de maneira contrária a sua vontade declarada é errado. Tudo o que foi concedido por Deus à família humana, refere-se aos direitos do homem. Fora disso, contrário à Lei de Deus, o homem não pode reivindicar ter qualquer direito, a menos que ele abandone sua dependência e iguale sua autoridade à de Jeová. Todo aquele que busca privar qualquer um da família humana de seus direitos ou tomar posse da autoridade de Deus, é culpado de traição contra o céu, a menos que ele seja expressamente incumbido, nesta instância particular, de contrariar os princípios gerais da Lei, pela mesma grandiosa autoridade da qual a Lei deriva sua força vinculativa. Aquele que, sem esta autoridade, quebra as barreiras da Lei, e, com força física, priva seu próximo de liberdade ou propriedade, é um inimigo de Deus e do homem; ainda mais aquele que inicia um ataque injustificado contra seu próximo, e, por meio da força iníqua, rouba dele suas relações, o troca por alguma mercadoria, ou o força a trabalhar em benefício de outro, e este outro um inimigo, que tolerou a encomenda do roubo.

A Divina Lei declara que isto é um crime e prescreve a punição. “Quem raptar um homem, e o vender, ou for achado na sua mão, certamente será morto”. (Ex 21.16) Esta lei foi dada aos hebreus como um corpo político; mas procede de uma base moral e, consequentemente, ainda é obrigatória contra cada súdito de um governo moral.

Aquele que reconhece a moralidade do oitavo preceito do decálogo, não requererá outra prova para a moralidade da conduta exigida no texto. Se aquele que rouba minha bolsa, meu casaco ou meu cavalo é culpado de imoralidade, ele não pode ser inocente se roubar meu pai, meu irmão, minha esposa ou meu filho. Contra este princípio um apóstolo inspirado direciona seu argumento em sua epístola a Timóteo: “Sabendo isto, que a Lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados… para os roubadores de homens… e para o que for contrário à sã doutrina”. (I Tm 1.9-10) O roubo de homens é classificado junto dos mais detestáveis crimes. É considerado repreensível não somente entre os antigos hebreus, mas é uma iniquidade moral em todas as épocas e nações.

Com base no texto, considero que estou autorizado a apresentar a seguinte proposição: A prática de comprar, deter ou vender nossos semelhantes inocentes como escravos é imoral. O texto certamente apoiará esta proposição. Segundo os princípios comuns da Lei, o receptor de bens roubados, se souber disto, é reconhecido como culpado da mesma maneira que o ladrão. O dono de escravo nunca teve o direito de forçar um homem a servi-lo ou detê-lo sem que com isso se faça igualmente culpado. Vende-lo é tentar o próximo e ganhar dinheiro sem o direito para tal.

A proposição não milita contra toda forma de escravidão. De maneira alguma. Um homem, pelo abuso de poder, ao causar dano à sociedade, poderá perder sua liberdade e até a própria vida. Ele poderá merecer a escravidão no sentido pleno da palavra, de forma que seu castigo será uma sanção da Lei para servir de exemplo aos outros e compensar, o máximo possível, os danos feitos à sociedade. “Inocentes” na proposição não tem como objetivo ensinar que este seja o caso de qualquer pessoa da raça humana em relação à Divina Lei. Não deve ser entendido num sentido moral, mas político. Como súditos do governo de Jeová somos todos culpados e merecemos perecer. Somos merecedores da eterna prisão. Mas em relação a sociedade civil, os homens são reconhecidos como inocentes até que tenham violado suas leis. Certamente, estes tem o direito à liberdade pessoal.

O propósito deste discurso é confirmar a doutrina da proposição, responder às objeções e desenvolvê-la.

I.  Manter nosso próximo em escravidão perpétua é pecaminoso.

1. Isso se dá pela incompatibilidade entre a prática de manter escravos e os direitos naturais dos homens, um termo que tem sido muito abusado. É apropriado que ideias precisas sejam anexadas a ele. Caso contrário, sua força no presente argumento não será notada.

Se o homem não fosse uma criatura de Deus e sua existência fosse um acidente, seus direitos de fato seriam negativos. Se ele fosse independente de seu Criador e não subordinado à Lei, seus direitos poderiam ser determinados somente pela vontade da sociedade. Mas ele não é filho do acaso e nem possui independência de Deus. Sua vida e suas faculdades são um dom de Deus. Do céu ele deriva direitos positivos, definidos por preceitos positivos. Considerando o homem como um agente livre, pela constituição de sua natureza, tem o direito de exercer liberdade, em conformidade com os preceitos daquela Lei que o Autor da natureza ordenou para que ele regulasse suas ações. Ele possui um poder delegado de Deus e nenhuma criatura tem o direito de restringi-lo em seu justo exercício. A oposição contra o poder de um indivíduo ou de uma sociedade quanto a isso é declarar guerra contra o Supremo Governante. É a tentativa de reduzir o agente moral a uma mera máquina, cujos movimentos devem ser regulados por uma força externa. É uma negação do direito da pessoa escravizada, uma presunção arrogante de autoridade iniqua do usurpador. É necessário argumentar isso diante de um público americano? É reconhecido pela maioria, se não por todos. O princípio é afirmado e mantido no instrumento que está no fundamento de nossa existência nacional. Foi em defesa disso que lutaram e apelaram para o Senhor dos Exércitos e Ele apoiou conduzindo suas armas à vitória.

2. Se um princípio de ação contrário fosse universalmente reconhecido, conduziria ao completo absurdo. Uma demonstração disso confirmará a proposição.

Se um homem tem o direito ao serviço de outro, sem um equivalente, o direito está se opondo e é contrário ao direito. Isso confunde a distinção entre o certo e o errado. Destrói a moralidade e justiça entre os homens e as nações. Eu tenho o direito de te escravizar e vender. Você tem o mesmo direito de me escravizar e vender. Os britânicos tem o direito de escravizar os franceses e os franceses tem o direito de escravizar os britânicos. Os americanos têm o mesmo em relação aos africanos e que por sua vez tem o direito de escravizar os americanos. Isso faria com que o direito fosse expulso da família humana, transformaria lei em força e a justiça em astúcia. As decisões da razão seriam pervertidas e a moralidade extirpada do seio.

Tal absurdo encontrará poucos defensores de sua causa em teoria. Não é, portanto, lamentável, que alguém defenda um princípio ou aceite uma prática considerando ao que sua justificativa levaria?

3. A prática de escravizar nosso próximo está em oposição ao teor geral das Sagradas Escrituras.

A Bíblia é o padrão de doutrina e conduta. Ela estabelece os europeus, asiáticos, africanos e americanos como diferentes membros da mesma grande família – os diferentes filhos do mesmo pai benigno e universal. “E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação”. (At 17.26) Possuem a mesma obrigação de exercer benevolência um com o outro e de se respeitarem como tendo os mesmos direitos por natureza. O Divino Jesus resumiu nossas obrigações recíprocas naquela ordem frequentemente chamada de regra de ouro. “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a Lei e os Profetas”. (Mt 7.12) Este é o resumo das obrigações indicadas na Lei de Moisés e nos escritos dos profetas inspirados. Quão antagônicos o espírito destes preceitos e doutrinas à prática do dono de escravo! Se ele for consistente consigo mesmo, irá concluir o seguinte: “Estes escravos não são um só sangue comigo. Não possuem o direito ao amor que dou ao meu próximo. Caso eu fosse escravizado, eu não recomendaria que me tratassem da mesma maneira. Eu darei comida e roupa aos meus escravos pelo mesmo motivo que eu alimento e cuido do meu gado. São minha propriedade da mesma maneira; e quanto não servem aos meus propósitos conforme os meus desejos, eu me livrei deles vendendo para outro traficante de carne humana. Reconheço que se qualquer pessoa me escravizasse, eu aproveitaria a primeira oportunidade para fugir. Mas se o meu negro fugir, eu irei atrás e o castigarei severamente. Ele não tem direito de fugir de seu mestre, mesmo existindo o mandamento que diz ‘tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós’”.  Eu não preciso dizer que tais sentimentos são contrários aos princípios da religião cristã.

4. A prática contra a qual eu me oponho é uma clara violação de quatro preceitos do decálogo.

Se isso puder ser demonstrado, será uma confirmação adicional da doutrina da proposição. A revelação nos informa que qualquer que “tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos”. (Tg 2.10) E o motivo dado é que a mesma autoridade é atacada naquele único ponto que sanciona a completa revelação divina. Por inferência, o decálogo inteiro é violado. Mas neste caso, há uma quebra direta do quinto, sexto, oitavo e décimo mandamento.

O quinto mandamento requer o cumprimento das obrigações que respeitam as diversas relações nas quais nos encontramos e especificamente exige obediência aos nossos pais naturais. O dever cristão em relação ao africano desventurado, providencialmente  conduzido aos seus cuidados, é concedê-los as necessidades da vida – guia-lo na disciplina e admoestação do Senhor, instruí-lo no conhecimento de suas obrigações e seus direitos, habituá-lo ao trabalho honesto, ajuda-lo em algum negócio próprio e libertá-lo de seu controle. Mas o dono de escravo exerce uma autoridade frequentemente cruel e sempre ilegítima. Ele destrói grandemente a relação natural. Ele lança fora a autoridade imediata do pai e, em oposição à Divina Lei que ordena cada um honrar seu pai e sua mãe, a criança é ensinada, desde o berço, que sua obrigação consiste na obediência implícita ao mandamento de seu mestre.

O sexto mandamento requer o uso de todos os meios legítimos para preservar a vida dos homens. Mas, ah! Escravidão, quantos já matou? Provocou guerra entre desventurados africanos. Levou o cativo que escapou a morte para um estado ainda mais miserável. Rasgou do seio da mãe entristecida sua filha amada e levou os cabelos grisalhos de um pai idoso, com tristeza, para o tumulo. Arrastou-os abordo de suas prisões flutuantes e acorrentou-os em prisões que rapidamente extinguiu deles a faísca de vida que restava neles. Os poucos que escaparam tu os privaste da liberdade, mais querida que a própria vida.

O oitavo mandamento proíbe tomar ilicitamente a riqueza do próximo. A vida inteira do dono de escravo é uma transgressão disto. O trabalho de um homem vale mais do que sua comida ou roupa; mas o escravo não recebe mais que isso. O mestre rouba dele os frutos do trabalho. Rouba dele suas relações. Rouba dele de sua liberdade de ação. Rouba-o de si mesmo.

O décimo mandamento proíbe todo desejo desordenado por propriedade mundana. A prática do dono de escravo é uma evidência de sua cobiça. Ele emprega servos sem salário. Ele o vende para um mestre, por dinheiro, o homem e a mulher cujos serviços severos já fizeram mais do que compensar por qualquer problema ou custo para aquele a qual serviram. Este não é o caso somente do comerciante avarento que navega até a costa da África com seu navio cheio de crueldade, com o propósito de importar e vender nossos irmãos; mas o dono de escravo americano também é culpado de transgredir o décimo preceito da Lei moral.

5. O sistema que eu critico é também inimigo daquele espírito benevolente que é produzido e estimado pelo Evangelho da graça livre.

Neste sistema de graça todos os homens são representados com procedendo de um casal – como tendo caído do estado de integridade e felicidade, para uma situação que é pecaminosa e miserável. Deus é revelado como contemplando o homem nesta condição com um olhar de benevolência – tendo piedade desesperado, misericórdia do miserável e graça pelo imerecido. Jesus, Deus em nossa natureza, escolhido para ser Salvador dos pecadores, e sem fazer acepção de pessoas, ajunta do norte e do sul, do leste e oeste, de toda tribo, língua, povo e nação, uma multidão incontável, para serem introduzidos por Sua divina mediação, ao estado de pureza imaculada e felicidade inefável.

A influencia que o Evangelho da graça tem sobre o coração é o de cultivar, aumentar e aperfeiçoar toda afeição benevolente e de suprimir toda malevolência, extirpando os princípios do egoísmo pecaminoso da alma – produzir um espírito de mansidão e autonegação, de prontidão para perdoar lesões verdadeiras e de orar pelo bem de nossos inimigos. Sim, o espírito do Evangelho é o amor a Deus e ao homem, evidenciando sua existência por esforços apropriados para a glória de nosso Criador e para a felicidade de todos nossos irmãos, aqui e no porvir.

De que forma este sistema, cristão, corresponde com o trafico de escravos? Você contempla seus irmãos africanos no mesmo estado miserável que o seu por natureza. Você não se compadece deles? Seu Criador não os excluiu de Seu amor e nem o Salvador impediu-lhes de fazer parte da salvação. Como então você pode rebaixá-los do lugar que o Criador lhes colocou e compará-los com os animais que perecem? Pela divina graça vocês são ensinados a não amar este mundo e a não se conformar com suas práticas pecaminosas. (Rm 12.2) Olhe para seu escravo! Como ele chegou até você? Quem tinha o direito de arrancar seu pai do seio de seus amigos para escraviza-lo junto com sua descendência e de vender esta vítima desamparada para você? Por quanto tempo a religião suportará que você o mantenha em escravidão? Por toda a vida? Ah, seu cristão de coração duro! É assim que você imita o exemplo d’Aquele que morreu por seus pecados? Que voluntariamente desceu da glória celestial e humilhou a si mesmo até a morte para libertá-lo do pecado? Sobre Ele repousou o Espírito do Senhor, pois ele pregou as boas novas aos mansos. Ele proclamou liberdade aos cativos e a abertura das prisões aos prisioneiros. (Is 61.1) Não é o mesmo Espírito que está sobre você? Produz uma disposição parecida? Considere o contraste. Considere atentamente. Você declarou novas pesadas aos ouvidos dos escravos. Você declarou escravidão por toda vida ao cativo. Você fechou toda porta da esperança ao aprisionado. Você declarou que escravizaria sua descendência. Deus misericordioso! Quanta impiedade demonstram suas criaturas uns com os outros!

6. O ultimo argumento que usarei para confirmar a doutrina da proposição será tirada das consequências perniciosas do sistema de escravidão.

Contra esta linha de raciocínio não pode haver objeção válida, se mantida dentro dos limites apropriados. Quando consequências ruins fluem de uma determinada pratica, isto não é sempre evidencia decisiva de que aquela pratica é errada; mas é razão suficiente para pausarmos para um exame a luz da verdade. Se nós temos a obrigação, segundo a Divina Lei, de seguir um caminho, devemos obedecer, deixando as consequências para administração d’Aquele que nos ordena.  Se for em si mesmo legítimo, mas não necessário, a existência de consequências ruins, por si mesmo nos ensinaria a não proceder. Mas se realmente for um caminho proibido, os efeitos danosos são avisos adicionais para não continuar.

Ministros tem a obrigação de pregar o Evangelho, ainda que traga muitas tribulações nesta vida e para muitos será “cheiro de morte para morte” (II Co 2.16) na vida futura. Era lícito que o Apóstolo dos Gentios comesse “de tudo que se vende no açougue” (I Co 10.25), mas se usar dessa liberdade produzisse consequências ruins, ele teria parado imediatamente. (I Co 8.13)

Portanto, se em uma prática lícita, é conveniente renunciar porque, apesar de ser útil para nós mesmos, é nocivo a outros, certamente é nosso dever abolir um sistema que é errado em si mesmo. Quando temos evidência de que estamos fundamentalmente errados, consequências ruins são decisivas contra nós; e, como no caso que estamos analisando, quando outras evidências condenam a prática, suas consequências perniciosas exigem que a gente desista imediatamente:

a) Esta prática tem a tendência de destruir os sentimentos benignos e faz com que o coração do homem seja mais obstinado. O açougueiro, acostumado com a matança, não é afetado pela morte dos bois ou cordeiros.  O carrasco também não fica muito nervoso em seu trabalho de sangue, seja a vítima inocente ou culpada. O escravo pode berrar com os açoites de seu mestre, sem que haja sequer um mínimo de simpatia. O dono de escravo vê todas as raças etíopes como nascidas para servir. Seu coração é endurecido. Não é difícil que passe a ter um coração duro com todos. Toda a relação entre mestre e escravo é um exercício perpétuo das paixões mais turbulentas – o despotismo incessante de uma parte e a submissão humilhante da outra. O pai avança – a criança observa, aprende os princípios elementares da ira, faz o mesmo entre os escravos menores, libera suas piores paixões; criada, educada e diariamente treinada na tirania, não pode fazer outra coisa se não ser dominada por suas peculiaridades odiosas. O homem precisa ser um prodígio se ele for capaz de manter seus modos e sua moral pura com circunstancias assim.

b) A escravidão rebaixa uma parte da raça humana e tende a destruir as forças intelectuais e ativas. O escravo, desde a infância, é obrigado a obedecer implicitamente a vontade de outro. Não há circunstancia que possa estimulá-lo a exercer sua própria força intelectual. Há muito para impedi-lo. Se ele pensa ou planeja, seus pensamentos e planos precisam se submeter aos pensamentos ou planos de seu mestre. Ele precisa ter menos depravação no coração do que seus irmãos brancos, se não, sob este tratamento, ele deixará de ser pensativo e se tornará rabugento. As energias de sua mente são abandonadas a letargia. Tudo é feito para reprimi-los. Não é surpreendente que pareçam deficientes no intelecto.

Os princípios morais também sofrem. Não são cultivados. São rapidamente reprimidos. Quando crianças, os pequenos tiranos da família de seus mestres governam com rigor. Nenhum laço benevolente pode existir entre eles. O escravo, assim que ele é capaz de exercer juízo, observa leis para proteger a vida, liberdade e prosperidade de seu mestre; mas nenhuma lei para fazer o mesmo por ele. Ele é uma propriedade privada. A vontade de seu mestre é a lei de sua obrigação. Não temos direito de esperar moralidade ou virtude com uma educação e exemplos assim.

c) Outra consequência ruim é o incentivo a libertinagem e depravação. A situação dos negros é um incentivo a relação sexual criminosa. Isso não se restringe aos próprios negros, mas frequente e vergonhosamente entre eles e seus mestres. A cobiça do mestre pode ser gratificada e fortificada pela relação sexual com a escrava, sem medo de ser processado para sustentar os filhos ou se importar com a mãe. A situação dessas mulheres faz com que exista pouca possibilidade de manter a castidade. A educação não fortalece isso. Nos estados do sul, falam em relações ilícitas com negras ou mulatas como algo bastante comum. Nenhuma resistência, sutileza ou vergonha existe sobre o assunto. O número de mulatos nos estados do norte prova que essa maldade também prevalece entre seus habitantes.  É comum com a escravidão.

d) Isso nos conduz a uma quarta consequência lamentável – a destruição da afeição natural. A relação sexual irregular faz com que seja difícil para o pai assegurar seus filhos apropriadamente. Entre os próprios escravos o casamento é um laço frouxo. O mestre vende o marido para longe de sua esposa e a mãe é separada da criança. Isso é comum. Destrói, em grande medida, a afeição natural. Esse mal não se restringe aos escravos. O mestre, nesta instância, excede em dureza de coração. Ele vê seu escravo cuidando de uma criança que tem a cor e características parecidas com ele. Provavelmente é seu filho, sobrinho ou neto. Ele não olha para eles como parentes, mas como escravos e regozija da mesma maneira que faria com o aumento de vacas e cavalos.

e) Tirania doméstica, que é relacionado a escravidão doméstica, é o berçário para tiranos civis. É preciso que a força de outros princípios seja poderosa e a combinação de circunstancias, peculiares para que um defensor da escravidão domestica seja um amigo sincero da liberdade civil. Isso é possível? Se ele pode comprar, vender e escravizar por toda a vida qualquer indivíduo da raça humana, por nenhum motivo, exceto o interesse próprio, eu não teria confiança nele para os assuntos nacionais. Se ele tivesse a capacidade de agir sem ser punido, conforme seus interesses e ambições, ele se tornaria tão tirano quanto o monarca mais arbitrário.

f) A prática trás o juízo de Deus contra sociedades e indivíduos. Tolerar escravos é uma iniquidade nacional. É o pior dos roubos sancionados pela Lei. É uma traição contra o Céu – uma conspiração contra a liberdade de seus súditos. Se o Juiz de toda a terra fará o que é justo, ele tem que castigar o culpado. Nações assim não tem existência em um estado futuro: devem esperar juízos nacionais no presente. A justiça distributiva medirá o castigo conforme a criminalidade. Ó América, tu tens tanto a prestar conta pela escravidão! Tu somente, de todas as nações da terra, comissionaste seus delegados, em paz e segurança, diante da ameaça de um tirano para formar sua Constituição! Tu possuías, em um sentido especial, a luz da razão, da ciência, da revelação, de argumentos passados, de experiências passadas. Tu mesmo condenaste o principio formalmente e, solenemente, apelaste para o céu fazer justiça. O Céu ouviu e atendeu seus desejos. Mas tu entraste em contradição com um principio afirmado tão solenemente. Tu fizeste provisão para aumentar o número de seus escravos. O juízo pode tardar, mas certamente virá. Indivíduos também estão em perigo. Aqueles que vivem “sem Deus no mundo” (Ef 2.12) poderão ter juízos temporais infligidos contra eles pelo papel que exerceram na defesa da escravidão; mas o tempo da retribuição certamente virá no mundo porvir. Até mesmo verdadeiros cristãos, estes cuja culpa é retirada pela expiação de Jesus, mas que aprenderam o caminho dos pagãos suficientemente para confirmar as práticas iníquas de comprar, vender e manter escravos, também devem esperar severas correções (Sl 89.30-32). À medida que estes tiverem a oportunidade de cumprir suas obrigações, o perigo aumentará a menos que alegremente se sacrifiquem para tal. Aquele que conhece a vontade do Mestre e não faz, receberá muitos açoites (Lc 12.47). Eu falo com aqueles que negociam com essa tentação, que desafiam a convicção e estão determinados a seguir o caminho do interesse pessoal. Neste mesmo caminho poderá encontrar a correção. Seus tesouros não estão seguros. Há um Deus e, enquanto a piedade continuar a ter uma promessa de vida que é agora e no porvir, aqueles que continuam a praticar o sistema de escravidão poderão esperar perdas. Vigie de perto. Um dia podem evadir sua vigilância e escapar com seus tesouros. Os hebreus foram permitidos escapar com as joias dos egípcios. De maneira parecida, vocês poderão perder tudo o que ganharam ao mantê-los escravos. Se não, Deus tem o poder de enviar crestamento e ferruagem contra suas plantações – pestilência gravíssima contra seu gado – até que tenham uma perda maior do que teriam caso tivessem libertado seus escravos. Eu acredito que seria uma evidência favorável, ainda que não um argumento conclusivo, que Deus tenha consideração por você ao castiga-lo por oprimir seus irmãos. “Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos”. (Hb 12.8)

Com isso eu chego ao fim do que eu planejei dizer para confirmar a doutrina da proposição e responderei as objeções contra o princípio que tenho defendido.

Parte IParte II – Parte III

Tradução: Frank Brito
Fonte: http://www.covenanter.org

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