KnoxSobre o Autor: John Knox viveu no século XVI e foi um dos principais líderes da Reforma Protestante. Um dos patriarcas do Presbiterianismo na Escócia, estudou aos pés de João Calvino em Genebra. 

Parte IParte II – Parte III – Parte IV

John Knox, aos fiéis em Londres, Newcastle, Berwick e todos os outros no reino da Inglaterra, que amam a vinda de Nosso Senhor Jesus, desejo a perseverança e santidade até o fim.

Quando eu me recordo das terríveis ameaças de Deus, pronunciadas contra reinos e nações às quais a luz da Palavra de Deus foi oferecida, mas foi desdenhosamente rejeitada (Lv 26.14-39; Mt 10.14-15); enquanto meu coração lamenta com sinceridade por sua atual situação, queridos amados em Nosso Senhor Jesus, todas as forças do corpo e da alma se estremecem pelas pragas que virão. Mas que a verdadeira Palavra de Deus foi oferecida ao reino da Inglaterra ninguém poderá negar, exceto aqueles que são escravizados pelo diabo (Deus justamente pune sua desobediência orgulhosa, I Tm 1.9), e não tem olhos para ver, nem compreensão para discernir o bem do mal, a luz das trevas. Contra estes, no tempo presente, não irei contender; não mais do que fez o profeta Jeremias contra o povo de dura cerviz e obstinado da Judeia, dizendo, “Não se desviará a ira do SENHOR, até que execute e cumpra os desígnios do seu coração”. (Jr 23.20) E assim eu os deixo (como aqueles para quem há pouca esperança de arrependimento) nas mãos d’Aquele que não se esquecerá de suas horríveis blasfêmias apesar da verdade de Cristo e de seus verdadeiros mensageiros. E com vocês que lamentam com sinceridade pelo naufrágio da verdadeira religião de Deus, eu me proponho a comunicar tal conselho e admoestação, agora pela minha pena rude, da mesma forma que ocasionalmente agradou a Deus que fosse proclamado aos seus ouvidos. O objetivo de minha admoestação é que, em seu propósito e intenção de evitar a vingança de Deus, tanto nesta vida e na vida porvir; que vocês fujam, tanto no corpo quanto na alma, de toda comunhão com idólatras em sua idolatria.

A principio, vocês duvidam, eu sei, mas se um orador tivesse que tratar da questão, ele provaria que é honesto, proveitoso, fácil e necessário de ser fazer. Mas como eu nunca busquei persuadir qualquer homem em qualquer assunto da religião (Deus é testemunha em minha consciência) se não pela simplicidade e verdade clara e infalível da Palavra de Deus farei o mesmo nesta questão. Isto eu afirmo, que fugir da idolatria é tão lucrativo, e tão necessário para o cristão que, a menos que ele faça isso, todo lucro terreno se converterá em perda e perpétua condenação. Lucro pode ser referente aos corpos ou as almas de nós mesmos ou de nossa posteridade. Comodidades corporais consistem nas principais coisas que os homens buscam para o corpo: riquezas, honra, vida longa, saúde e sossego na terra. O único conforto e alegria da alma é Deus por sua Palavra expelindo a ignorância, o pecado e a morte, e no lugar destes plantando o verdadeiro conhecimento d’Ele mesmo e com isso a justiça e vida em Cristo Jesus, Seu Filho. Se o lucro do corpo ou na alma nos move, então é necessário que evitemos a idolatria. Pois é evidente que a alma não tem vida nem conforto se não por Deus somente, com quem os idolatras não tem qualquer comunhão ou participação além do que tem os demônios (I Co 6.9).

E ainda que os abomináveis idólatras triunfem por um momento, se aproxima a hora em que a vingança de Deus não ferirá somente a alma, mas até mesmo suas carcaças vis sofrerão pragas, como Ele já ameaçou fazer antes. Suas cidades serão queimadas, suas terras serão devastadas, seus inimigos habitarão em suas fortalezas, suas esposas e filhas serão humilhadas, seus filhos cairão ao fio da espada. Não encontrarão misericórdia porque recusaram o Deus da misericórdia, quando amorosa e pacientemente Ele os chamou (Lv 26.14-19; Jr 6.11-12; Lv 26.1-13). Você saberia o tempo e a certeza que eu tenho disso. Para Deus não determinarei tempo, mas estas e mais pragas cairá sobre o reino da Inglaterra, estou certo disso tanto quanto estou que Deus vive.

Isso que eu afirmo desagradará a muitos e alegrará a poucos. Deus, que conhece os segredos de todos os corações, sabe que também me desagrada, e ainda assim, como já aconteceu antes, tenho sido compelido a falar em sua audiência, e na audiência de outros, tais coisas que não são plausíveis aos ouvidos dos homens. Mas, enfim, uma grande parte deste dia chegou; então sou compelido a escrever com lágrimas em meus olhos, e para o seu desprazer, eu sei. Mas, queridos irmãos, sujeitai-vos a Deus e dai lugar a Sua ira, para que possam fugir de sua vingança eterna. Eu confio que minha pena não será agora mais veemente do que minha língua já foi frequentemente, não somente diante de vocês, mas diante do governo do reino. O que foi dito em Newcastle e Berwick antes da doença do suor, eu confio que alguns naquelas partes ainda lembram; e o que foi dito no Dia de Todos os Santos (como chamam), no ano em que o duque de Somerset foi detido pela última vez, que Newcastle seja testemunha! Em muitos lugares foi dito o mesmo para aquele que era duque de Northumberland. E também o mesmo foi dito diante do rei (a quem Deus chamou das misérias mundanas por nossas ofensas), em Windsor, Hampton Court, e Westminster; e, finalmente, foi dito em Londres em muitos lugares, onde havia jubilo e um banquete desordeiro na proclamação de Maria, sua rainha. Se os homens não falarem, as pedras e madeira destes lugares clamarão, e serão testemunhas que a verdade foi dita, e serei absolvido quanto a isso no Dia do Senhor.

Não pensem irmãos, que eu me alegro por suas calamidades, ou pelas pragas que cairá sobre essa nação ingrata. Não, Deus é minha testemunha que meu coração lamenta dentro de mim e que eu sou torturado ao me lembrar de suas tribulações. Mas se eu parar, então estaria indo contra minha consciência e também contra meu conhecimento; e serei culpado pelo sangue daqueles que perecem por falta de admoestação (Ez. 33.1-9), e a praga não será adiada nem por um momento. Pois o Senhor determinou o dia de Sua vingança e, antes que chegue, ele envia suas trombetas e mensageiros, para que seus eleitos, vigiando e orando com toda sobriedade, possam por Sua misericórdia fugir de sua vingança que virá (Ez. 3).

Mas vocês vão querer saber qual a base de minha certeza; Deus queira que ao ouvi-la vocês compreenderão e crerão firmemente no mesmo. Minha certeza não se baseia nas maravilhas de Merlin, nem nas sentenças obscuras de profecias profanas, mas (1.) a verdade clara da Palavra de Deus, (2.) a justiça invencível do Deus eterno, e (3.) o curso ordinário de seus castigos e pragas desde o princípio, são a base de minha certeza. A Palavra de Deus ameaça a destruição de todos os desobedientes; Sua justiça imutável requer o mesmo. Os castigos e pragas ordinários dão exemplos de como isto acontece (Dt. 28.15-68; Jr. 5.15-17; Am. 3.2, 11-15; Dt. 29.10-29). Sendo assim, qual homem pode deixar de profetizar? A Palavra de Deus fala claramente que se um homem ouvir as maldições da Lei de Deus, e ainda assim, em seu coração, prometer a si mesmo felicidade e boa sorte, pensando que terá paz, ainda que ele ande na imaginação de sua própria vontade e coração; a tal homem Deus não será misericordioso, mas Sua ira se ascenderá contra ele, e destruirá seu nome de debaixo do céu. Para saber como o Senhor ameaça com praga após praga, até que o último esteja arruinado, enquanto, finalmente ele irá consumir reinos e nações que não se arrependem, leiam o vigésimo sexto capítulo de Levítico (vs. 14-39); um capítulo que frequentemente mandei que tivessem sempre em mente e ainda o faço. E não pensem que isso se refere aos judeus somente. Não, irmãos, os profetas são os intérpretes da Lei, e eles fazem com que as pragas de Deus seja a mesma para todos ofensores. E o julgamento começa pela casa de Deus (I Pd. 4.17).

E aqui eu preciso mencionar a confissão diabólica feita por um homem miserável cujo nome, por tristeza, não posso mencionar. Este argumento ele usava pra provar a doutrina que foi pregada nos últimos anos no reino da Inglaterra é iniqua. “Tribulações e pragas”, dizia ele, “tem sido as mesmas não somente aqui na Inglaterra, mas também na Alemanha” e ele queria que vocês registrassem isso. Este argumento frágil e vão refutarei por escrituras claras e evidentes que declaram que a vingança e as pragas de Deus são contra todos os desobedientes apesar de Deus começar a castigar onde Sua graça foi oferecida e obstinadamente rejeitada. E esta é a causa pela qual a Alemanha e a Inglaterra têm sofrido pragas nestes anos; que podem ser uma resposta a ira cega dos ignorantes que nunca saberão a causa exata das pragas de Deus.

As Escrituras que mostram que Deus castiga todas as nações depois de ter corrigido Seu próprio povo, foram escritas pelos profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel e também por outros (Is 13, 15, 17-19; Jr 50-51; Ez 25-27); depois que proclamaram e denunciaram pragas que cairiam sobre o povo de Israel e sobre a casa de Judá, pelo desprezo a Deus e Sua Lei, profetizam também contra certas nações e cidades, não somente as que eram próximas de Jerusalém, mas também longe; contra Moabe, Amom, Egito, Palestina, Tiro, Damasco e contra a Babilônia: e, na conclusão, profecias gerais eram ditas contra todos os desobedientes, como claramente aparece no vigésimo quarto capítulo de Isaías. O Senhor ordenou que Jeremias entregasse o cálice de sua ira a todas as nações ao redor para que bebessem o mesmo ainda que recusassem (Jr 25.15-33): isto é, ainda que não cressem nas ameaças a na voz do profeta, ainda assim não fugiriam das pragas da qual ele falou: “Diz o SENHOR; não me vingaria eu de uma nação como esta?” (Jr 5.29;9.9) Amós concorda e diz: “Eis que os olhos do Senhor DEUS estão contra este reino pecador, e eu o destruirei de sobre a face da terra”. (Am 9.8)

Aqui e em muitos outros lugares provam claramente que as pragas das quais a Lei de Deus fala são referentes a todo povo rebelde, seja judeu, gentios cristãos nominais ou turcos de profissão. E a base e a certeza dos profetas eram as mesmas que eu tenho tenho para me assegurar que a Inglaterra sofrerá pragas: a justiça inviolável e imutável de Deus que não pode poupar um reino de quanto ele pune severamente outro; neste caso Ele seria desigual, e fazendo distinção quanto a execução de Seus justos juízos, entre reino e reino, entre pessoa e pessoa, o que é absolutamente contrário a integridade de Sua justiça. Assim como o justo Juiz de toda a terra não pode destruir o justo com o iniquo, ele também não pode poupar o malfeitor obstinado e punir o outro; pois ele mesmo é testemunha do que disse pelo profeta Jeremias: “Porque, eis que na cidade que se chama pelo meu nome começo a castigar; e ficareis vós totalmente impunes? Não ficareis impunes, porque eu chamo a espada sobre todos os moradores da terra, diz o SENHOR dos Exércitos”. (Jeremias 25.29) É como se Deus dissesse, “Como poderia minha justiça tolerar e permitir que seus crimes e ofensas continuassem sem punição, zombadores que desprezam a minha Lei e a mim, tendo em vista que eu não poupo nem mesmo meu próprio povo e filhos que mantem uma reverência externa ao meu nome?”

Parte IParte II – Parte III – Parte IV

Tradução: Frank Brito
Fonte: Selected Writings of John Knox: Public Epistles, Treatises, and Expositions to the Year 1559

Anúncios