“Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, O qual nos fez também capazes de ser ministros de um Novo Pacto, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica”. (II Coríntios 3.5-6)

Eu não poderia contar nos dedos quantas vezes eu já ouvi pessoas citando esse texto para criticar os que se aprofundam demais no estudo das Escrituras. “A letra mata!” se tornou um refrão para quem acredita que, apesar da Bíblia ser “divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça”(II Tm 3.16-17), não podemos estudá-la muito seriamente porque se não ela nos matará. Mas isso é uma deturpação do que o texto de fato diz. Quanto ao estudo da Palavra de Deus, o que a Bíblia ensina que é “Bem aventurado o homem que… tem o seu prazer na Lei do SENHOR, e na Sua Lei medita de dia e de noite” (Salmo 1.2) e que “o povo que não tem entendimento será transtornado”. (Oséias 4.14)

O erro daqueles que acreditam que esse texto esteja criticando os estudos é acreditar que “letra” seja sinônimo de “estudos”. É possível que parte deste equívoco deva-se ao fato de que em nosso idioma “letrado” seja sinônimo de “estudado”. Mas isso não tem nada a ver com o que o texto diz. O objetivo do texto não é comparar as pessoas com uma boa educação com aqueles que não tem estudos, nem incentivar a negligência com os estudos. O objetivo do texto é comparar o Antigo Pacto com o Novo:

“Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração. E é por Cristo que temos tal confiança em Deus; Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, O qual nos fez também capazes de ser ministros de um Novo Pacto, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata e o Espírito vivifica. E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, veio em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, a qual era transitória, Como não será de maior glória o ministério do Espírito? Porque, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça. Porque também o que foi glorificado nesta parte não foi glorificado, por causa desta excelente glória. Porque, se o que era transitório foi para glória, muito mais é em glória o que permanece”. (II Coríntios 3:3-11)

Aqui Paulo fala das “tábuas de pedra”. Mas que tábuas eram essas?

“E deu a Moisés (quando acabou de falar com ele no monte Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus”. (Êxodo 31.18)

“Então disse o SENHOR a Moisés: Sobe a mim ao monte, e fica lá; e dar-te-ei as tábuas de pedra, a Lei, os mandamentos que tenho escrito, para os ensinar”. (Êxodo 24.12)

As duas tábuas de pedra continham os dez mandamentos que era um resumo de toda a Lei de Deus. A primeira tábua se refere ao amor a Deus. A segunda tábua se refere ao amor ao próximo. O significado de amar a Deus é resumido na primeira tábua e o significado de amar ao próximo é resumido na segunda tábua. Os dez mandamentos não são meras leis em meio a outras leis, mas são um resumo de toda a Lei com todos os mandamentos agrupados em dez princípios gerais.

Diferentes pessoas definem o amor de diferentes maneiras. O que a Lei nos dá é a definição Divina do amor – amor a Deus (primeira tábua) e amor ao próximo (segunda tábua). Foi sobre isso que Jesus falou:

“Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”.(Mateus 22.36-40)

Muitos acreditam que estes dois mandamentos foram inaugurados por Jesus. Mas isso não é verdade. Jesus foi interrogado sobre o grande mandamento na Lei. E ele respondeu citanda a Lei: “Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te”. (Dt 6.4-7) “Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o teu próximo, e não levarás sobre ti pecado por causa dele. Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”. (Lv 19.17-18) Jesus ensinou que toda a Lei e os Profetas são logicamente dependentes destes dois mandamentos. A definição do amor não é estabelecida pelo homem. O amor não é qualquer sentimentalismo humano baseado em sua mera preferência pessoal. O verdadeiro amor é definido unicamente pela Lei de Deus e resumido nas duas tábuas dos dez mandamentos:

“A ninguém devais coisa alguma, senão o amor recíproco; pois quem ama ao próximo tem cumprido a Lei. Com efeito: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De modo que o amor é o cumprimento da Lei”. (Rm 13.8-10)

Diferentes pessoas definem o bem e o mal de diferentes maneiras. Mas isso é somente consequência da ruína de Adão. A essência de todo e qualquer pecado consiste na ideia de que o homem possa estabelecer as suas próprias palavras, o próprio julgamento, a própria opinião, no lugar da Palavra de Deus. Em resposta a isso, Jesus avisou: “Não penseis que vim destruir a Lei ou os Profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido” (v. 19). O bem e o mal não podem ser definidos por homens porque o homem não é Deus. O bem e o mal são definidos pela Lei de Deus.

A noção da Lei como padrão pra distinguir o bem do mal foi posteriormente ensinada pelo Apóstolo Paulo: “eu não conheci o pecado senão pela Lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a Lei não dissesse: Não cobiçarás”. (Rm 7.7) E também: “o que vem pela Lei é o pleno conhecimento do pecado”. (Rm 3.20) O Apóstolo João ensinou o mesmo: “o pecado é a transgressão da Lei”. (I João 3.4) A Lei nos revela o que é justo e o que é injusto, o que é certo e o que é errado, o que é o bem e o que é o mau, o que é pecado e o que não é. Quando a Lei diz “não cobiçarás”, está revelando que a concupiscência é imoral. O mesmo é válido para todo o resto. Isso tudo trás um problema sério para o homem que precisamos considerar se queremos entender o significado da “letra que mata”:

“E assim a Lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom. Logo tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno. Porque bem sabemos que a Lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado”.(Romanos 7.12-14)

A Lei de Deus revela como o homem deve viver. Mas o homem não tem em si mesmo a capacidade de obedecer o que Deus diz. A Lei ordena o que é bom. Mas o homem deseja o que é mau. A Lei ordena a virtude. O homem ama a iniquidade. O Catecismo de Heidelberg resume bem o drama humano:

3. Como você conhece sua miséria?

R. Pela Lei de Deus (1).

(1) Rm 3:20.

4. O que a Lei de Deus exige de nós?

R. Isto Cristo nos ensina num resumo, em Mateus 22:37-40: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. ” Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (1).

(1) Lv 19:18; Dt 6:5; Mc 12:30,31; Lc 10:27.

5. Você pode observar esta Lei perfeitamente?

R. Não, não posso (1) , porque por natureza sou inclinado a odiar a Deus e a meu próximo.

(1) Rm 3:10,20,23; 1Jo 1:8,10. (2) Gn 6:5; Gn 8:21; Jr 17:9; Rm 7:23; Rm 8:7; Ef 2:3; Tt 3:3″.

Essa é a base para compreender de que maneira “a letra mata” (II Co 3.6). A “letra” em questão é a letra da Lei, os mandamentos de Deus “gravado com letras em pedras“. (II Co 3.7) Claramente, Paulo está se referindo as tábuas de pedra dos dez mandamentos. A Lei de Deus gravada em pedra simplesmente informa o homem sobre como ele tem que viver. Mas sendo o homem carnal, ele não é capaz de obedecer, pois “a inclinação da carne é inimizade contra Deus” e “não é sujeita à Lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser”. (Rom 8.7) A Lei revela que o homem é rebelde e com base nisso o homem é condenado pela Lei e por isso diz: “a letra mata” (II Co 3.6). “Pois não são justos diante de Deus os que só ouvem a Lei; mas serão justificados os que praticam a Lei“. (Rm 2,13) Quando a Lei foi escrita nas tábuas de pedra o homem foi simplesmente informado do que ele deveria fazer, mas não foi capacitado a obedecer. E de que maneira ele é capacitado?

“Eis que os dias vêm, diz o Senhor, em que farei um Novo Pacto… não conforme o pacto que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito, esse meu Pacto que eles invalidaram, apesar de eu os haver desposado, diz o Senhor. Mas este é o Pacto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha Lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo”. (Jeremias 31.31-33)

“Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias, e de todos os vossos ídolos, vos purificarei. Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. Ainda porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis as minhas ordenanças, e as observeis“. (Ezequiel 36.25-27)

“Ora, nós sabemos que tudo o que a Lei diz, aos que estão debaixo da Lei o diz, para que se cale toda boca e todo o mundo fique sujeito ao juízo de Deus; porquanto pelas obras da Lei nenhum homem será justificado diante dele; pois o que vem pela Lei é o pleno conhecimento do pecado. Mas agora, sem Lei, tem-se manifestado a justiça de Deus, que é atestada pela Lei e pelos profetas; isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos os que crêem; pois não há distinção. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs como propiciação, pela fé, no seu sangue, para demonstração da sua justiça por ter ele na sua paciência, deixado de lado os delitos outrora cometidos… Anulamos, pois, a lei pela fé? De modo nenhum; antes estabelecemos a Lei“. (Romanos 3:19-25,31)

“Porquanto o que era impossível à Lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado. para que a justa exigência da Lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito”. (Romanos 8.3-4)

“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Porque toda a Lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros. Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne“. (Gálatas 5.13-16)

Apesar do homem não ter em si mesmo a capacidade de obedecer a Lei de Deus, ele é justificado gratuitamente por Jesus Cristo em meio a rebelião e é capacitado a obedecer pelo Espírito Santo. Essa capacidade não vem da própria Lei nem do próprio homem, mas vem do Espírito de Cristo. Por isso Paulo escreveu:

Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros de um Novo Pacto, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata e o Espírito vivifica“. (II Coríntios 3:5-6)

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